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montesclaros.com - Ano 21 - sábado, 24 de outubro de 2020


Manoel Hygino    manoelhygino@santacasabh.org.br
85196
Por Manoel Hygino - 21/10/2020 08:05:39
A carga tributária

Manoel Hygino

Dois ministros do presidente Bolsonaro não se entenderam e como seria de bom alvitre, contribuindo para mudar para melhor o quadro difícil que a nação atravessa. Os desencontros e a troca de farpas entre Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, foram classificados como “fogo amigo”. Mas não tão amigos como se desejaria, porque na troca de bordoadas verbais, não se encontraram sinais de evolução dos problemas em discussão.
Ambos procuram oferecer uma proposta segura ao presidente, em sua ansiedade de viabilizar o programa Bolsa Cidadã, que precisaria aquinhoar mais o eleitorado pobre do país. Aliás, um eleitorado sofrido que vem atravessando séculos sem conseguir sucesso em suas demandas. Alguma coisa se fez, incontestavelmente, mas o que conquistou mais repercussão foi a do presidente do Nordeste. Lula acabou investigado, julgado, condenado e preso, mas a miséria no país persiste, dramaticamente.
O programa da ajuda emergencial posta em prática por Guedes, as instâncias de Jair Messias, deu certo. Tanto que logo se viu o governo na contingência de ampliá-lo. Há muito mais gente passando necessidade do que se pensa. E gente continua nascendo. O pior é que as burras do tesouro não se abastecem na mesma proporção do incremento da população pobre. E as carências persistem dolorosamente.
Então, fazer o quê? O presidente ficou profundamente satisfeito com a gratidão do povo brasileiro, com os 600 reais e, depois, os trezentos, que foram parar no bolso dos desprotegidos da sorte. Mas a mina logo secou e houve necessidade de buscar novas fontes abastecedoras. Onde? Como? Quando? O nativo deste país, apenado por ser pobre e não ter trabalho, para suprir suas necessidades mínimas (as do estômago, em primeiro lugar) quer mais, precisa de mais, e tem urgência.
Aí reside o cruciante problema. Onde arranjar recursos? O pagador de impostos não é um pagador de promessas. Seu poder também é limitado e não é especificamente dever do contribuinte doar dinheiro para o conterrâneo “na pior”.
E o candidato à reeleição em 2022 tem urgência na adoção de providência para resolver a questão. Tem de aproveitar a simpatia despertada pelos 600 ou 300 reais, para que o eleitor não perca a esperança. Now ou never?
Em Brasília, a palavra “imposto” foi cortada do dicionário dos senadores e deputados. Não querem ver seu nome aliado à perspectiva de crescimento da pesada carga tributária.
Hora das mais graves dificuldades, porque os que devem sugerir algo proveitoso a Bolsonaro não têm resposta salvadora. Desde 2014, o Brasil acumula déficits orçamentários a cada ano.
Não tem como ofertar trabalho aos que receberem do Programa Social Renda Cidadã. Se se agregar o resultado da dívida pública, o nosso país jamais conheceu superávit, eis a verdade.
Hora de milagres?


85191
Por Manoel Hygino - 20/10/2020 08:09:01
Desce o serro

Manoel Hygino

Embora programada para assinalar os três séculos da comarca do Serro, a revista Magiscultura não se limitou ao inicialmente estabelecido, apesar das restrições impostas pela pandemia da Covid-19. O presidente da Amagis, Alberto Diniz Junior, em editorial, comenta o fato e o conteúdo da publicação - riquíssima, aliás. O ensaio do desembargador Gutemberg da Mota e Silva sobre o Brasil, local de exílio de escritores celebrados e que tiveram de fugir da Europa conflagrada, é um dos pontos altos da edição, que se situa em bela altitude com preciosas colaborações.
Crônica do magistrado Roberto Vasconcelos, as considerações filosóficas de Armando Barreto Marra, os artigos de Armando Freire e Rogério Medeiros Garcia de Lima, a poesia de Llewellyn Medina, Elson de Paula Silva e de Fernando Armando Ribeiro (que oferece ainda o conto “Gratidão”), e João Quintino Silva, os contos de Renato César Jardim e Wander Marotta completam o número da Revista.
Dos tempos decorridos se há de extrair exemplos e experiências. O desembargador Rogério Medeiros observa que, tão logo se iniciou o declínio do ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste, descobriram-se por aqui os primeiros veios de ouro. Era a vez da região, numa que muito exigiria dos corajosos aventureiros, aqui instalados nas áreas antes habitadas pelos índios botocudos. As feras concorriam, procurando dominar a região supostamente inexpugnável.
“Tudo era feroz e contrário à penetração humana nessas terras misteriosas e sinistras”, comentou Augusto de Lima Junior. Onde hoje está o Serro, em Ivituruí, “terra dos ventos frios”, chegaram os bandeirantes Antônio Soares Ferreira e João Soares, pai e filho, e fundaram dois arraiais conjuntos, que se transformariam, dada a sua rápida expansão e o adensamento da população, em povoado; depois, em 1714, a Vila do Príncipe e, finalmente, Serro.
O advento do município do Serro, por Lei Provincial, ocorreu em 6 de março de 1838. Em 8 de abril de 1938, a cidade é tombada pelo Patrimônio Histórico, e Artístico Nacional. Para os mineiros continua simplesmente a Terra do Queijo, com toda sua fama de sabor.
Em 1709, criara-se a capitania de São Paulo e Minas, já não mais integrando a do Rio de Janeiro, no reinado de D. João V, sendo governador da capitania D. Braz Baltasar da Silveira, erigindo-se em vilas as povoações de Caeté, do Príncipe ou Serro e a de Pitangui. Logo após, surgiram no enorme território das Minas Gerais as comarcas de Vila Rica, Rio das Mortes e Rio das Velhas. A de Serro Frio, com sede na Vila do Príncipe, atual Serro, se deu em 1720.
O importante, ou mais importante, é enfatizar que o Serro, “simboliza a convergência dos valores históricos, culturais e cívicos de Minas Gerais”. No entanto, a região (e a cidade) é berço de gente ilustre da província, do estado e do país. Lá nasceu, por exemplo, Teófilo Ottoni, o liberal por excelência, o revolucionário.



85184
Por Manoel Hygino - 17/10/2020 07:56:54
O traficante escapa

Manoel Hygino

O horizonte não é belo nesta semana. Com certeza, o ambiente sombrio dos últimos dias será sequência que sobreveio do Dia da Senhora Aparecida e do Dia da Criança.
Há conflito no Supremo Tribunal Federal entre o agora decano Marco Aurélio Melo e o recém-empossado presidente Luiz Fux. Motivo: libertação do megatraficante André de Oliveira Macedo, o conhecido André do Rap, que já comeu espaço abundante em todos os veículos de comunicação. Mas o caso não está encerrado. Neste período suficientemente quente de antagonismos, será mantido o mesmo clima.
O assunto, que pareceria um mero desencontro de opiniões entre dois integrantes da Alta Corte, desencadeou uma onda de embates políticos, muito inconveniente nesta hora da propaganda eleitoral. O desentendimento não se limitou à interpretação da Lei 13.864, a do Pacote Anticrime, pois envolve mudanças na interpretação no artigo 316, do Código de Processo Penal.
Acontece que o Pacote fora encaminhado ao Legislativo no tempo de Sérgio Moro como ministro da Justiça, razão pela qual a reação se estendeu a outros núcleos. O ex-juiz, por sinal, já se sentiu no dever de esclarecer que o instituto da prisão de 90 dias foi inserido no projeto original quando em tramitação, não se lhe podendo atribuir qualquer responsabilidade na redação resultante. Pelo contrário, a modificação deveria ter sido oportunamente vetada pelo presidente, o que não aconteceu. Daí, o imbróglio.
Agora todos gritam, todos têm razões (algumas tardiamente suscitadas) e procuram defender-se. De qualquer modo, o mal está feito e precisa ser remediado, o mais rapidamente possível. Aparentemente, o texto final visava proteger políticos com contas a pagar na Justiça. No entanto, pelo que se vê, não é apenas isso, e o caso do criminoso que se livrou da cadeia depois de longa procura em vários cantos do mundo, é apenas um.
A situação deixou mal membros da mais elevada corte de Justiça do país, obrigados a criticar o colega para se resguardar, mas a razão maior da procela está muito distante. Marco Aurélio promete “levantar questão”, levando-a para análise em Plenário. Ele afirma querer “saber se o presidente do tribunal se tornou censor de seus pares”. “Isso tem de ser elucidado”, afirmou.
Evidentemente, o affair é muito mais grave. Seria adequado que se apurasse no seio do Congresso que motivo teria conduzido a questão por ínvia tramitação, que desembarcou na situação presente, constrangedora sob muitos aspectos e pondo em dúvida magistrados que merecem respeito.
Aliás, ainda com relação ao STF, ainda há a sabatina para exame do nome do sucessor de Celso de Mello. O problema assume feição de caráter religioso, como se se ignorasse que o Brasil é um país laico. Chega de confusões.
Enquanto isso, o criminoso se esconde, talvez, no exterior.


85174
Por Manoel Hygino - 14/10/2020 07:52:35
Sempre Neruda

Manoel Hygino

Pablo Neruda, o grande poeta chileno, recordava com enlevo que o tempo no continente latino-americano é um mês amplo e florido, também cheio de bandeiras. No início do século 19, em 1810, e em setembro, despontaram ou se consolidaram as insurreições contra o domínio espanhol em numerosos territórios da América do Sul. E não só nos domínios espanhóis, podemos dizer, porque foi no nono mês, num dia 7, que se declarou a independência do Brasil, às plácidas margens do Ipiranga, em 1822. Quem não aprendeu? Foi muito importante para o mundo a cadeia cíclica de movimentos que brotaram nas novas terras, como observou Neruda.
Mas, em 2020, assim que passou aquele mês e a primavera, também os jornais noticiaram a venda do arquivo do poeta, conservado na Espanha, em que ele atuou em guerra e nas letras.
A coleção seria leiloada, em 8 de outubro, dividida em 238 lotes, variando os preços de 50 a 80 mil euros.
Cancelado em março, devido à pandemia, o leilão do arquivo com mais de 600 peças. A coleção, que inclui manuscritos, objetos pessoais, primeiras edições e livros dedicados ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez e ao ex-presidente chileno Salvador Allende, deveria ser leiloada em um único lote, em 19 de março, na Galeria La Suite, em Barcelona. Porém, o evento foi suspenso devido ao distanciamento entre as pessoas, resultante de medidas sanitárias.
Antes, houvera interesse do Chile, cujo governo esclareceu que não dispõe de recursos para o investimento total – 850 mil euros, por causa da pandemia. Também os Estados Unidos não quiseram assumir. Segundo o colecionador espanhol Santiago Vivanco, viticultor e apaixonado por Neruda, ele não poderia manter a coleção consigo, pelo seu alto valor. Em parcelas, pode ser que algum ricaço ou alguns ricaços se interessem.
A esta altura, o poeta diria, como o fez em um de seus livros: “Estas memórias, ou lembranças, são intermitentes, por momentos, me escapam, porque a vida é exatamente assim. A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho. Muitas de minhas lembranças se toldaram ao evocá-las, viraram pó, como um cristal irremediavelmente ferido.
...”Do que deixei escrito se desprenderão sempre como nas árvores de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado. Minha vida é uma vida feita de todas as vidas; as vidas do poeta”. Neruda faleceu no Chile, em 1973, dois anos após receber o Prêmio Nobel de Literatura.


85171
Por Manoel Hygino - 13/10/2020 08:00:39
Na visita soberana

Manoel Hygino

Foi-se o tempo dos reis, que não mais vêm a Belo Horizonte, como aconteceu em outubro de 1920. Cem anos decorridos, mais lembrada é a Gripe Espanhola, que deixou mortos e feridos aos milhares, na jovem capital dos mineiros. Uma metrópole com somente 21 anos.
Engalanou-se a cidade para dar boas-vindas e abrigar o rei Alberto, de 45 anos, e a rainha Elizabeth, de 43, que desembarcaram na estação, acompanhados de sua corte, evidentemente, mas também do presidente da República, Epitácio Pessoa. Na comitiva, o capelão Abade Nol, e o médico da corte, dr. Pierre Nolf. E, como companhia do presidente brasileiro, o ministro da Marinha Raul Soares, um civil; Pires do Rio, titular da Viação; e o general Tasso Fragoso.
Claro que não havia avião naquela época. Apelava-se para o transporte ferroviário. Os soberanos belgas desceram na estação, pela manhã, procedentes do Rio, em composição especial da Central do Brasil. Os carros tinham sido fabricados nas oficinas de São Paulo, especificamente para a finalidade.
Afonso Vaz de Melo, prefeito de BH, saudou os ilustres visitantes, tomando em seguida o automóvel Daumont, que encabeçava o nobre cortejo até o Palácio da Liberdade. No primeiro carro, o soberano, o presidente do Estado, Artur Bernardes, o major Tilkens e o cel. Vieira Cristão, do nosso Exército. No segundo carro, a rainha, a sra. Epitácio Pessoa, o prefeito e o secretário do rei, major Dujardin. Em seguida, uma dúzia de carros com ilustres personagens.
Foi festa como raramente se viu no velho Curral del-Rei. Segundo Octávio Penna, posteriormente prefeito, a cidade se engalanou como nunca. Os edifícios públicos da avenida João Pinheiro e da praça da Liberdade foram iluminados com gambiarras assim como os contornos do logradouro. Os canteiros ficaram lindos, também à chegada da noite: Milhares de pessoas tinham vindo de toda Minas para as festas e homenagens aos soberanos belgas. Ninguém recordava os dias amargos da Espanhola.
Naquela noite, o presidente Artur Bernardes se viu despejado do Palácio, porque seus aposentos foram destinados aos imperiais hóspedes. O mandatário de Viçosa se viu na honrosa contingência de deslocar-se para o Palacete Dantas, ali perto, aliás. A praça foi entregue às comemorações, enquanto o jantar se oferecia do outro lado, na Secretaria do Interior. Os monarcas se encantaram com o mobiliário palaciano, especialmente adquirido para que pudessem sentir o gáudio e o orgulho da terra mineira, em que deixariam marcas do poder econômico da nação belga.


85162
Por Manoel Hygino - 10/10/2020 07:05:25
Escolha para o STF

Manoel Hygino

O ministro Celso de Mello está dando adeus ao Supremo Tribunal Federal (STF), a que serviu por 31 anos. Hora, pois, de o atual presidente da República indicar sucessor, como já o fez. Uma ocasião sempre delicada, quando se acendem os faróis dos interesses, sobretudo políticos, com o pormenor de aguardar-se agora um evangélico para o alto posto, próprio chefe do Executivo. Aguardemos.
Já vai longe a época de Evandro Lins e Silva, que fora procurador-geral da República, chefe do Gabinete Civil, da Previdência e Ministro do Exterior de Jango. Em 1963, empossou-se como ministro do Supremo, quando se acumulavam pedidos de habeas-corpus em favor de presos políticos. Em 1969, por força ao AI-5 famoso, foi aposentado, juntamente com Hermes Lima e Victor Nunes Leal.
Conviveu, ao longo do tempo, com as figuras mais destacadas da vida pública do país, em todas as condições e das mais variadas ideias. Manifestou-se sobre a harmonia entre os poderes, tema tão presente nesta hora.
Lins e Silva escreveu: “Pela Constituição, a supremacia do Supremo em relação aos outros poderes é indiscutível. É ele que julga a inconstitucionalidade das leis, portanto, julga o Legislativo, é ele que julga o atos e os crimes do Poder Executivo, portanto julga os dois poderes.
Evidentemente, ele deve ter o entendimento de que a sua independência não vai ao ponto de poder ferir o outro princípio, de harmonia dos poderes. Tenho sustentado isso em muitas oportunidades, lembro que, num discurso que fiz, quando tomou posse na presidência o ministro Xavier de Albuquerque, desenvolvi esse tema longamente. Sempre dou como grande exemplo a história da Corte Suprema dos Estados Unidos da América, de que a solução adotada foi um sofisma, para evitar o confronto de poderes.
É preciso que haja exatamente essa compreensão dos juízes da Corte, para evitar o confronto. É evidente que, quando uma lei fere a Constituição, não é questão de confronto de poderes, é questão do poder que a Constituição dá ao Supremo de decidir sobre a inconstitucionalidade da lei. Posso até admitir que o Supremo não tenha razão, mas a presunção é que ele defenda com todo o vigor, com toda a garra, a Constituição da República. É este o seu dever. Acho que, se ao Supremo incumbe julgar os atos dos outros poderes, ele fica com uma inegável supremacia. Mas não pode e não deve criar conflitos desnecessários. Daí ser muito importante a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal”.


85150
Por Manoel Hygino - 7/10/2020 07:59:12
Sobre índios

Manoel Hygino

Apanho o jornal. Nas últimas 24 horas, o Brasil sofrera 831 mortes por Covid-19, pelo cômputo oficial, embora com diagnósticos referentes a óbitos anteriores. Gosto de “pegar” com as mãos as notícias, em papel impresso. Somavam, então, 4.465.702 casos oficiais, segundo o Ministério da Saúde. A causa fora apenas aquela gripezinha.
O presidente da República assinou, naquele dia, duas medidas provisórias, uma das quais aprovando a “adesão ao Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19”, conforme programa da Organização Mundial de Saúde, significando R$ 2,5 bilhões para bancar os custos do projeto assegurando-se 2 bilhões de doses para distribuição aos países membros. E Bolsonaro, como o presidente dos EUA, tudo fizera para menosprezar a OMS. O tempo deu a resposta. Donald Trump, de volta à Casa Branca, após uma rápida internação em hospital militar, conta que aprendeu agora o que é a Covid.
Em Roque Gonzales, na heroica região das Missões, Rio Grande do Sul, Nelson Hoffmann, intelectual, escritor, identificado com as melhores causas do Brasil, a partir do chão missioneiro, e povoadores, comentou o instante histórico que atravessamos. “Essa pandemia já virou pandemônio. Ninguém mais se entende. De um lado é uma gripezinha, sequer faz cócegas; de outro lado, é mortal, os números estão aí. De um lado, isso é normal, é destino das pessoas morrer; de outro lado isso é anormal, é destino das pessoas viver. De um lado importa a economia forte; de outro lado, importa a comunidade sadia. De um lado é problema político; de outro lado é problema científico. De um lado, é imprensa comunista; de outro lado, é mídia nazifascista. De um lado...; de outro lado... E, nessa barafunda toda, aqui embaixo, ao léu, rastejamos nós, pobres humanos esquecidos, procurando um porto seguro. Luz”!
Em solo gaúcho, usando o jornal “Nheçú”, o advogado Júlio Ribeiro, também professor, lembrou conversa de dia passado. Comentara com algumas pessoas sobre o belo trabalho artesanal de uma índia, que expunha seu trabalho, em frente ao Santander, em Osório. Ouviu a resposta: “Também, um bando de vagabundos que não fazem nada, têm os melhores telefones e andam de carro bom”. O ilustre causídico virou as costas e foi embora.
“Falar sobre índio no Brasil está cada vez mais difícil, assim como em todos os temas, há aqueles que amam e aqueles que odeiam. Não estou aqui para dizer como deveriam ser tratados os índios ou como suas terras deveriam ser demarcadas, senão, teria que ocupar umas três páginas para dizer o que penso e umas 10 páginas para dizer o que pensam nossos políticos sobre o assunto. Disse tudo isto para concluir o que escrevi lá no início: como está difícil falar sobre a situação dos indígenas no Brasil. Sempre tem aquele que sabe tudo sem nunca ter lido nada; tem aquele que não sabe nada, mas tem opinião “bem” formada; tem aquele que imagina que sabe; aquele que sabe, mas não acredita, enfim, temos vários pensadores sobre o assunto”.


85147
Por Manoel Hygino - 6/10/2020 08:03:18
Retrato do sertão

Manoel Hygino

Enquanto o Brasil arde em chamas que inquietam até a comunidade internacional, leio o escrito sobre uma grande região de Minas. Diz-se ali do risco que estamos padecendo por antecipação. O autor é Virgílio Vianna, um especialista. Engenheiro florestal pela Esalq, Ph.D. pela Universidade de Harvard, ex-secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas e superintendente geral da Fundação Amazonas Sustentável.
Obrigo-me a repetir o texto inicial, ipsis litteris: “O Norte de Minas Gerais vive, hoje, um momento crítico na sua história. Está em curso um processo de aumento de aridez que se agrava rapidamente, criando uma nova realidade tanto para as populações urbanas quanto rurais. Cidades grandes, como Montes Claros, estão próximas do colapso do abastecimento de água. O mesmo cenário afeta cidades pequenas, muitas com seus reservatórios quase totalmente vazios. No mundo rural, córregos e rios que antes nunca secavam agora secam todos os anos”.
Conhecemos a realidade daquele extenso trecho do sertão mineiro, porque ele já é sertão. Ao longo do tempo, sofre a inclemência do clima, as longas estiagens, a diminuição de água de rios, a exaustão dos riachos a que falta água, o emagrecimento do gado, a agonia das reses, o drama do homem do campo que vê fenecer a sua plantação, a minguada comida nossa de todos os dias. Se pouco, multidões descem da Bahia e estados mais ao Norte, porque lá a seca é pior e acumula dores e até a morte, e buscam abrigo e comida em território mineiro.
As autoridades, distantes das desditas de uma população só lembrada nos dias de eleições, ignoravam – ou faziam de conta – que tudo andava bem nas entranhas da terra descoberta por Cabral.
Ademais, havia e há problemas preferenciais, e mais importantes a serem resolvidos, como construção de estádios esportivos, áreas de lazer e divertimento nas capitais, por exemplo. E as necessidades do cotidiano podiam ficar para depois... e iam ficando.
O norte-mineiro viveu às suas próprias custas e maneiras. Tentou-se até a emancipação, mas não deu certo. As razões políticas não permitiram, nem permitirão. Ali há muito voto, a terra é bela e rica. Mas logo voltará a escassez de água nas torneiras das cidades maiores. E então?


85140
Por Manoel Hygino - 3/10/2020 07:48:33
No tempo do coronel

Manoel Hygino

Em época de pandemia, com a agressividade e extensão da que ora enfrentamos, muita coisa é esquecida ou relegada. É o caso da morte, em maio, do Coronel Pedro Ferreira dos Santos, conhecido apenas como “Cel Pedro”. Ele foi uma espécie de herói em grandes regiões do Estado, nos anos cinquenta. Tendo ingressado na Polícia Militar de Minas aos 16 anos, demonstrou coragem e disposição para enfrentar os jagunços e crimes de pistolagem.
Nascido em Brasópolis, no Sul de Minas, em 24 de dezembro de 1914, entrou para a corporação como soldado, em plena revolução de 1930. Em 1943, com a escalada do banditismo, sobretudo nos vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce. Comprovada sua eficiência, foi designado para arriscadas missões.
A palavra medo não constava de seu dicionário. Em 1950, decidiu que tinha de estabelecer-se na maior cidade da região Leste. Juntou a família e montou residência em Valadares, a antiga Figueira do Rio Doce. Ali, montou seu quartel general, de onde comandava a repressão aos pistoleiros e seus grupos.
Passou à reserva, dentro do prazo. No entanto, em 1961, já supostamente destinado ao sossego, viu-se reconvocado para o serviço ativo, para exercer o cargo de delegado supervisor de capturas no Estado. Assim, por mais de três décadas, cumpriu missão à frente de suas equipes. Mais do que isso, foi convidado a desvendar crimes os mais variados, em outras unidades da Federação, sempre com êxito e sacrifício.
Mas, chegou o dia de sua paz. No ano de 2000, por volta de 1h da madrugada, no Hospital Militar da PM, em Belo Horizonte, deu-se por encerrada a missão, velado o corpo no 6º Batalhão da Polícia Militar, sepultado com honras militares, em Valadares. Com 85 anos, na cidade onde recebeu, em 22 de junho de 1952, a primeira equipe do 6º Batalhão, chegado da capital, ora descansa.
De lá para cá, cresceu enormemente a bandidagem no interior de Minas, bem como do Brasil. O novo cangaço, como popularmente conhecido, adquiriu novas e mais modernas formas e métodos. Outros coronéis, como o de Brasópolis, são necessários nesta hora, em que tantos brasileiros são vilmente assassinados e bens públicos e privados saqueados.
Estatísticas mostram suficientemente o que acontece; o que formamos e o que somos. É até em honra aos que deram tanto de si pela comunidade que se deve evocar a figura do Coronel Pedro, um exemplo dentro da corporação a que serviu Tiradentes.


85129
Por Manoel Hygino - 30/9/2020 08:02:39
Política externa

Manoel Hygino

O Brasil sempre quis levar uma política externa independente, sem se inclinar à Casa Branca. Lauro Muller, nosso chanceler, declarou que nosso país devia estar “com os Estados Unidos, mas não a reboque”. Vasco Leitão da Cunha, diplomata de carreira, defendia não ser necessário subserviência para ser aliado.
Um dos nossos embaixadores em Washington lembrava, há alguns dias, que entre países não há amigos, há interesses, condição que obriga os chefes de governo e de Estado a se comportar dentro desses parâmetros.
Recentemente, o presidente de nossa República presidiu a solenidade de abertura de um alto forno da Usiminas, em Ipatinga. Os discursos de praxe, o Brasil retomaria o caminho da atividade econômica, e dias melhores viriam. Logo, o presidente da grande nação amiga ao Norte baixava instruções para sobretaxa ao aço exportado daqui. Muy amigos! Entre nós, aliás, há a lição: amigos – amigos, negócios à parte.
É também recente. Após a Casa Branca anunciar a suspensão de restrições a voos oriundos do Brasil, a embaixada norte-americana esclareceu que se mantêm as exigências anteriores para quem deseja entrar no país. Difícil entender.
Paulo Delgado evocou o embaixador Rubem Barbosa, então a serviço em Washington, quando se editou a doutrina de segurança nacional de George W. Bush, pela qual os do Norte passariam a reagir a qualquer ato que afetasse seus interesses. Afirmou Barbosa: “Em decorrência dessa visão, hoje o establishment americano considerou a China um adversário que fere os seus interesses concretos nas áreas comercial, tecnológica, militar e estratégica”.
O próprio Barbosa, de alto conceito no Itamaraty, observa que medidas negativas contra o Brasil foram adotadas, inclusive, a importação de 80% de nosso aço. Tio Sam renegou o candidato brasileiro à presidência do BID, pressionado sobre o etanol brasileiro para eliminar tarifas. Outro credenciado diplomata verde-amarelo, Marcos Azambuja, comentou: “O Brasil abandonou a visão de si mesmo como uma potência multinacional, multirracial, multi-ideológica, multirreligiosa, para ser um país sectário, correspondendo apenas a uma visão limitada do seu interesse imediato”.


85127
Por Manoel Hygino - 29/9/2020 08:09:39
Política danosa

Manoel Hygino

A crise no Brasil por força do problema ambiental se generalizou. Aqui entre nós, parecia uma questão de determinados grupos de pessoas e entidades que se batiam pela preservação de nossas reservas florestais. Transformou-se num imenso desafio, com envolvimento internacional, principalmente diante da intolerância da União. Esta, incrível, julga que nossa política para o setor é exemplar.
O elevado número de incêndios em todo o território nacional, por força de prolongada seca, não exime Brasília de responsabilidade nos casos mais específicos da Floresta Amazônica e do Pantanal. Pelo contrário, adverte para o período político que atravessamos e para a necessidade de adoção de medidas, drásticas e urgentes, capazes de dar fim à amplamente anunciada.
É sabido que uma das causas da hora difícil que nossa economia atravessa decorre da política ambiental praticada, considerada desastrosa. E por que não mudá-la? Quais os motivos que o impedem? Não há confiança nas propostas até aqui emanadas do Planalto, que esboroam naturalmente, uma vez discutidas entre os técnicos e os parlamentares.
O pedido de afastamento do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, formulado pelo Ministério Público Federal, dança nas altas esferas da Justiça. Ele - dos mais ligados ao presidente da República - é acusado de cometer improbidade administrativa, em atos e omissões, demonstradores da dolosa política ambiental de sua pasta.
Até quando vamos bailar de lá para cá, de cá para lá, com os ingentes problemas da nação - e, se é dela, é do povo?
Economias europeias não têm mais interesse em investir no país e podem cortar de vez ajuda na proteção de nossa riqueza vegetal. Sobre o fato, o ex-ministro Rubens Ricupero deu longa entrevista à TV Assembleia, na noite do último domingo. Ele confirma a posição equívoca do governo Bolsonaro quanto à questão ambiental. Prevê ainda dificuldades no levantamento de meios financeiros para preservar o meio ambiente, se se mantiver a atual política do Planalto. Enquanto isso, o ministro, altamente prestigiado, percorre o país sem se explicar convenientemente. Para ele, o silêncio é de ouro, para as demais partes interessadas, dá-se o contrário. Vamos levando, enquanto a boiada passa, como ele declarou na malfadada reunião ministerial de 22 de abril.
O assunto é dos três poderes da República. Disse o ministro Luís Roberto Barroso, do STF: “Uma das nossas premissas importantes é a de que a proteção ambiental não é uma escolha política – é um dever constitucional”.


85121
Por Manoel Hygino - 26/9/2020 08:01:22
Fascinação das asas

Manoel Hygino

Começa assim: ao sair para seu passeio em manhã de primavera, Aurélio não imaginava a imensa jornada que teria. As caminhadas de sábado eram o tempo que considerava verdadeiramente seu e, pelas trilhas da floresta, entregava-se à contemplação das aves, sentindo-se maior e mais vivo, não simplesmente um consumidor de utilidades, um número em meio à multidão.
Refiro-me ao livro “A fascinação das asas”, uma ficção, que Fernando Armando Ribeiro lançou no segundo semestre do ano passado e que, somente agora, em plena pandemia, tenho o prazer de ler, em sossego. Trata-se do primeiro que, no gênero, publica, e valeu a pena. Porque, se para o protagonista da novela é um mero passeio entre árvores e bichos, para o leitor constitui espaço para meditação útil, fundamental ao homem que pensa.
O passeio se transformará numa aventura, em que Aurélio se encontra com um grupo de pessoas, suficientemente preparadas e em ação contra o governo totalitário instalado. Nasce um amor profundo com uma das revolucionárias, por assim dizer, e é levado a seu convívio. Durará pouco. Logo é aprisionado pelos agentes da ditadura e cumpre um longo período com personagens diversas, inclusive com um velho, preso há anos, e que, no fundo, é um sábio, que lhe transmite experiências e aconselhamento.
A narração evolui para o fim da rebelião, as coisas retornam lentamente a seu normal, entram em cena os novos donos do poder, com o protagonista buscando posicionar-se, enfrentando dificuldades que retroagem à infância, mas sem conseguir localizar a jovem da floresta.
Em cada capítulo, uma surpresa, uma revelação, uma lição. Mantém contatos com próceres do novo governo, levando consigo, contudo, a percepção de que a primeira lei abolida no imaginário de ditadores é a da finitude humana. “Falavam e agiam como se fossem gozar de poder eterno”.
Mas havia, enquanto se esforçava por encontrar o amor perdido, a lembrança da jardineira cega que dizia ouvir as flores e a ativa reminiscência do velho prisioneiro, para quem “as revoluções que tolheram as asas serão sempre vazias e perigosas”.
Para terminar, informo: Fernando Armando Ribeiro nasceu em Belo Horizonte, tem excelente biografia, e é professor na PUC Minas.


85108
Por Manoel Hygino - 23/9/2020 08:15:06
O papel do SUS

Manoel Hygino

Ruy Nedel é polivalente. Basta conferir sua biografia no Rio Grande do Sul, onde nasceu e vive, hoje, em Cerro Largo. É desses gaúchos que não dobram a cerviz diante dos desafios. Médico, político, escritor, professor universitário, foi assessor social do reitor da Universidade Federal de Brasília, integrou a Cirurgia Geral da então Faculdade Católica de Medicina da Santa Casa de Porto Alegre, hoje UFCSPA, membro da Comissão de Ordem Social da Assembleia Nacional Constituinte, que produziu o Capítulo do Índio e o SUS, em 1988.
Em seu “História – Estado – Povo”, livro que bem resume suas ideias, Nedel conta, muito resumidamente, sua atuação na Constituinte. Para ele, a Assembleia Nacional “promoveu e aclarou algumas funções de Estado e de governo”. O cidadão foi lembrado em inúmeros direitos. Não poderia seguir-se sonegando o direito previdenciário do trabalhador rural.
Criou-se um sistema de saúde universal – o SUS – Um sistema único, com três níveis de gestão: União, estados e municípios: Diretrizes nacionais para que o sistema fosse único: Assistência a cargo do município, com auxílio técnico e financeiro dos estados e principalmente da União.
Os objetivos são nítidos e definidos: A regionalização e hierarquização em uma aldeia devem gozar dos mesmos direitos à alta complexidade que o das metrópoles. Isto é, um controle social com poder deliberativo. E trouxe os resultados esperados, embora as naturais dificuldades e resistências.
Como Nedel observa, o SUS trouxe à prática cotidiana a “questão da alta complexidade das variadas especializações da medicina, que – em muitas regiões – acabará funcionando melhor nas pequenas cidades em relação às grandes, devido às facilidades de acesso à assistência e encaminhamentos médico-terapêuticos”.
Agora, já se pode avaliar como foi importante a criação do Sistema Único de Saúde, embora o muito que ainda resta fazer para que alcance seu mais alto nível para servir à sociedade e ao homem. As próprias autoridades já lhe reconhecem a elevada valia, a despeito dos ainda parcos recursos com que a União beneficia o sistema, em termos financeiros. Se não fosse o SUS, a pandemia da Covid-19 teria sido uma tragédia ainda maior. É uma constatação e um aviso.


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Por Manoel Hygino - 22/9/2020 08:28:24
O drama das cidades

Manoel Hygino

Conversando com o médico Jackson Machado Pinto, secretário municipal de Saúde de Belo Horizonte, logo no princípio da atual gestão, eu lhe disse da coragem de que tinha de armar-se para enfrentar os problemas de uma capital como a nossa. Ele contestou, informando que o prefeito Kalil e ele estavam conscientes e prontos para o desafio.
O quatriênio, contudo, veio com o acréscimo cruel da Covid, que há seis meses inquieta e atormenta. Na realidade, os futuros chefes do Executivo que se elegerão daqui a dois meses, devem preparar-se para o imenso repto de administrar. As cidades projetadas para sedes de capital não sofreram menos.
Adalberto Lassance, coordenador de implantação do Sistema Cartográfico do Distrito Federal e membro do IHGDF, comentou na Revista do instituto, há pouco: “Não bastassem as cidades satélites diferentes de Brasília, por questões socioeconômicas e outras, o problema migratório e o mercado fácil da especulação imobiliária provocaram a discriminação desordenada de loteamentos na periferia”.
Em verdade, ponderáveis parcelas dos brasileiros do interior julgam que basta ir para a cidade maior e mais importante, que resolverão o seu problema fundamental: ter onde morar com a família. Longe disso.
Milhares e milhares pensam o mesmo e seguem esse caminho, que não resolve o seu projeto de vida e provoca novos reptos aos administradores. Como registra Lassance, da situação “decorre violenta pressão sobre os equipamentos urbanos e comunitários, particularmente em áreas de saúde, transportes e segurança pública: “que se tem constituído num pesadíssimo ônus para o governo local, como se já não fossem suficientes os problemas com os seus próprios habitantes oriundos de outras regiões do país”.
Assim é, de fato, com Brasília e Belo Horizonte em especial, mas, por extensão, com todas as cidades, com cada lote doado ou comprado das imobiliárias, tem-se um reflexo extenso: mais gentes que desejam ir para grupamento maior e com supostamente mais bons serviços à população. Esta demanda é permanente e as prefeituras têm de se virar para bem atender.


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Por Manoel Hygino - 19/9/2020 07:45:49
Ibrahim Imortal

Manoel Hygino

No último dia de agosto deste ano, fez-se eleição para a vaga de Aluízio Pimenta na cadeira nº 17 da Academia Mineira de Letras. Ex-ministro, será substituído por Ibrahim Abi-Ackel, ex-ministro da Justiça, comprometido com a abertura democrática, após o hiato do período militar instalado em 1964.
Amigo de Aluízio, de que fui aluno de Física no Colégio Santo Agostinho, lembro que, ainda rapazola, ele me fizera ler o discurso de formatura na Escola de Farmácia da UFMG, escolhido orador da turma. Nossos laços de família vinham desde quase a adolescência, poderia dizer. Depois, eis-nos confrades na Casa de Alphonsus e de Vivaldi Moreira.
De seu sucessor, poderia evocar muito. Chefe de gabinete do Prefeito de Belo Horizonte, mandei fazer a ligação telefônica para Manhumirim, terra de nascimento e onde exercia funções de advogado, até ser convidado para ocupar a Procuradoria Geral da PBH. Agora é mais um mineiro da Zona da Mata, que vem assentar-se no lugar que lhe coube no sodalício fundado em Juiz de Fora, em 1915.
Na Prefeitura da capital, o agora novo imortal teve atuação brilhante em casos memoráveis, como o do Iate Golfe Clube, de grande repercussão à época. Aliás, em todas as causas em que atuou, o fez com profundo conhecimento e eficiência.
Orador notável, demonstrou seu talento oratório nas ocasiões e temas, ao ponto de, colaborando eu com o governador Israel Pinheiro, este comentava que, nas datas cívicas, sempre se propunham os nomes dele ou do professor Melo Cançado, para fazer a solenidade maior.
Colaborador da revista “A Cigarra”, dos Diários Associados, em tempos já bem distantes, recordava com saudade a época; depois, três vezes eleito deputado estadual à Assembleia de Minas, relator geral da Constituição do Estado, e também do primeiro estatuto do Magistério Público.
Na Câmara federal, entre outras elevadas incumbências, foi relator da CPI do Sistema Penitenciário, que gerou a publicação “Novas Dimensões da Pena”, tida como o melhor trabalho sobre o tema produzido no país.
No Ministério, coube-lhe atuar em casos relativos à lei da Anistia e promoveu modificações na Lei da Segurança Nacional, dando-lhe o caráter de Lei de Segurança do Estado Democrático de Direito. Promoveu a substituição da Parte Geral do Código Penal, fazendo-o altamente avançado e dando nova fisionomia à codificação ao sistema entre nós. Chegou a vez da AML.


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Por Manoel Hygino - 16/9/2020 07:51:03
O momento presente

Manoel Hygino

A questão não reside somente em abrir o comércio a todas as atividades que lhe são pertinentes, mas possibilitar que sua clientela esteja habilitada, fiduciariamente, a pagar as compras. Os que vivem no litoral não devem simplesmente reclamar e protestar contra medidas determinadas pelas autoridades sanitárias

Aproxima-se a primavera e, logo, ingressaremos no último trimestre de 2020. Um ano inclemente com todas as nações do planeta, especialmente com o Brasil, com muitos milhares de mortos pela Covid-19, e de pacientes infectados, embora a pandemia não esteja vencida.

A Covid feriu extremamente todas as atividades produtivas brasileiras. A economia foi abalada profundamente e avultados recursos públicos, ou não, se aplicaram para conter a expansão da enfermidade, agressiva e veloz.

Enquanto aumentaram significamente os preços de alimentos nos supermercados, cresceu assustadoramente o número de pessoas sem trabalho e, mais do que isso, sem perspectivas de a ele voltar. O contingente de desempregados é assustador, o que faz ampliar a profundidade da insatisfação das ruas. O governo federal, já pensando em manter o Executivo em suas mãos, iniciou a campanha para a sucessão presidencial de 2022, enquanto as bases já se põem a campo visando ao pleito municipal de novembro.

As copiosas lágrimas do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ao empossar-se, há poucos dias, devem servir para aguçar o interesse pelo futuro da nação, que nos serviu de berço e que nos abriga.

Não se há de meditar apenas nas lágrimas derramadas pelo alto magistrado, cujos ascendentes foram vítimas da crueldade nazista, décadas atrás. Há de se pensar nas lágrimas, que também poderão atingir-nos, se não encontrarmos saídas e soluções para os problemas que nos afligem – não poucos, nem de fácil solução.

A questão não reside somente em abrir o comércio a todas as atividades que lhe são pertinentes, mas possibilitar que sua clientela esteja habilitada, fiduciariamente, a pagar as compras. Os que vivem no litoral não devem simplesmente reclamar e protestar contra medidas determinadas pelas autoridades sanitárias.

Há muito de perigos à frente e as páginas da história presente ainda não estão viradas. Disso carecem de se conscientizar os gestores da nação, agora, muitos deles aparentemente, alheios à realidade e a seus propósitos.


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Por Manoel Hygino - 12/9/2020 07:47:40
Brasil sem um ícone

Manoel Hygino

O e-mail do presidente da Associação Nacional dos Escritores, o conspícuo Fábio de Sousa Coutinho, diz o necessário: “Comunico, muito triste e pesaroso, o falecimento, no final da tarde de ontem, terça-feira, 1º de setembro de 2020, aos 89 anos de idade, de Lina Tâmega Peixoto, professora pioneira de Brasília, tendo aqui chegado em 1960, e uma das fundadoras da ANE, em 1963. Lina foi poeta de recursos extraordinários, com meia dúzia de livros publicados, de superlativa qualidade literária. Sua presença nas atividades da ANE era uma constante que a todos enchia de satisfação e alegria. A partida de Lina Tâmega Peixoto significa perda irreparável para a literatura e a cultura de sua amada Cataguases, de Minas Gerais, de Brasília e do Brasil. Ela deixa o filho Marcelo e a neta Mônica, e, em suas dezenas de amigos e admiradores, um forte sentimento de saudade, admiração e gratidão pelo privilégio de convívio tão enriquecedor, ao longo de tantas décadas”.
Em 2010, quando lançou seu “Prefácio de vida”, Lina me enviou um exemplar, com a dedicatória amável, bem típica de seu comportamento e sentimento. Na última orelha do volume, confirmo-o com o texto: “Professora, poeta e crítica de literatura, exerceu o magistério na Fundação Educacional do Distrito Federal e na Universidade de Brasília. Reside na capital do país, mas mora em muitos lugares, onde o sonho da vida habita o imaginário poético”.
Era assim Lina, que nos deixou este mês, mas legando como disse Drumond – uma herança, que é a sua poesia – que “alcança a maturidade poética, não há ternura ou indecisão de traço, tudo é firme, quando necessário, sutil e sempre lúcido e ardendo de uma chama interior”.
Grande amiga de Cecília Meireles, Lina lhe fez uma visita, quando hospitalizada e escreveu: “A última vez que te encontrei, tua vida ia sendo levada pelos deuses... Pediste-me que te levasse para tua casa. Eu respondi que sim. Que a subida seria fácil até teu quarto, pois cada degrau seria como um verso que, juntas, recitaremos”.


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Por Manoel Hygino - 9/9/2020 10:38:11
Em tempo de guerra

Manoel Hygino

Os chefes de Estado e de Governo, assim como suas esposas, participavam diretamente dos esforços gerais durante guerras e tragédias outras. Poderia lembrar algumas delas.... E deles.... No front ou ao lado dos soldados. Robert K. Massie, por exemplo, autor de um livro que se popularizou, virou filme e se tornou sucesso no cinema, relata a participação da rainha Alexandra nos últimos anos da monarquia russa, assumindo espontaneamente liderança de um grupo de pessoas da família na assistência aos soldados feridos durante a 1ª Grande Guerra.
Na velha Rússia, durante o grande conflito, a imperatriz chegava às 9h pontualmente, vestindo o uniforme cinzento do serviço de saúde, acompanhada das filhas mais velhas, Olga e Tatiana, e da amiga Anna Vyrobova, para o curso de Enfermagem. Passavam ao atendimento dos soldados, que chegavam feridos e moribundos. Para Alexandra, aquilo era a Rússia, sangrando e gemendo. Cabia-lhe dar assistência. Um espetáculo sombrio, que não a desanimava.
Semelhante esforço desenvolveu no Brasil o presidente da República, Wenceslau Braz, nos últimos tempos de Governo, quando da calamidade causada pela gripe Espanhola. A doença, trazida pelos navios da Europa, pegou a população de surpresa e se alastrou facilmente.
O chefe da nação, mineiro de Itajubá, enfrentou tudo com disposição. Além de todos os misteres do cargo naquela hora, ainda encontrava tempo para visitar, diariamente, com a esposa, hospitais e cemitérios, no Rio de Janeiro, capital da República, para oferecer o conforto às famílias. Expunha-se ao contágio, firme no propósito de determinar providências que pudessem amenizar as dimensões da hecatombe. Os cariocas se emocionavam com seu senso de solidariedade e desvelo.
O velho e solidário costume parece que se vai perdendo no âmbito das lembranças e nas descrições da História.
Os dirigentes nacionais e suas esposas se dedicam mais a outros afazeres, que sempre os há para quem quer servir à pátria e seus cidadãos. Oportunidades não faltam, mas é imprescindível uma disposição de espírito, o que, parece, vai-se escasseando no período turbulento politicamente que atravessamos.





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Por Manoel Hygino - 8/9/2020 08:21:47
Letras MG, 300 anos

Manoel Hygino

Publicado já foi e muito bem editado. Refiro-me a “Literatura Mineira: trezentos anos”, com 445 páginas, o que dá ideia da dimensão da obra, cuja organização se deve a Jacyntho Lins Brandão, da Academia Mineira de Letras, em edição do BDMG Cultural. A presidente, Gabriela Moulin, faz a apresentação, dizendo que “o leitor encontrará muito mais do que a história das diversas literaturas de Minas”.
O idealizador é Rogério Faria Tavares, jornalista e presidente da Academia, e que, como ex-presidente do BMDG Cultural, programara o livro, considerando-o “produto de interesse público, para habitar as salas de aula, as bibliotecas, os centros comunitários, os clubes de leitura de todos os cantos do Brasil” de todo o país, dedicado a Estudos Temáticos.
Na primeira parte, os artigos e ensaios são de Ângelo Oswaldo, Constância Lima Duarte/Maria do Rosário A. Pereira, Eduardo Assis Duarte, Eliana da Conceição Tolentino, Emílio Maciel, Eneida Maria de Souza, Fabrício Marques, Ivete Lara Camargos Walty, João Antônio de Paula, Leda Martins, Lucia Castello Branco, Maria Inês de Almeida, Nabil Araújo, Paulo Fonseca Andrade, Raquel Beatriz Junqueira Guimarães e Sérgio Alcides.
A segunda parte, comparecem Aline Alves Arruda, Andréia de Paula Xavier Vilela, Andréia Sirihal Werkema, Anelito de Oliveira, Antônio Sérgio Bueno, Audemaro Taranto Goulart, Cláudia Campos Soares, Daniela Magalhães da Silveira, Kelen Benfenatti Paiva, Márcia Marques de Morais, Marcos Rogério Cordeiro, Maria Alex Rosa, Telma Borges e Wesley Thales de Almeida Rocha.
São, como se vê, nomes de grande expressão no cenário das letras em Minas e que comparecem com colaborações bem apropriadas à efeméride dos 300 anos de nossa literatura. Pode-se dizer, sem medo, que a leitura corresponde a um verdadeiro curso sobre temas que dão dimensão do que fomos, somos e fizemos durante estes três decênios da História.
Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, a propósito, se manifestou na orelha: “Este livro é um marco que contribui, não apenas para um mais aprofundado conhecimento da cultura de Minas, mas, também, para melhor compreensão da própria literatura brasileira, na medida em que é impossível falar da criação literária no Brasil sem levar em conta o papel fundador e fecundador de escritores mineiros”.


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Por Manoel Hygino - 5/9/2020 08:03:30
Saúde é para todos

Manoel Hygino

Falando-se na pandemia, retrocede-se à primeira década do século passado, quando chegou ao Brasil e, consequentemente, a Belo Horizonte, a gripe espanhola, hoje uma reminiscência sombria. Muitos morreram, inúmeros viram alguém da família falecer. Um período triste iniciado no fim de 1918 e que se estendeu até 1920.
Na cidade ainda menina, com 20 anos, muito existia de incipiente, nem poderia ser de outro jeito. A Faculdade de Medicina assistira ao encerramento do curso de seus primeiros profissionais.
A pioneira entidade no âmbito da saúde na jovem capital era a Santa Casa, cujas clínicas funcionavam na área doada pela prefeitura, instaladas à medida que as doenças apareciam. Uma sucessão de construções modestas na Praça XV de Novembro, hoje a Hugo Werneck.
Tudo se fazia dentro das limitações financeiras, porque a instituição era e sempre foi particular, para atender às necessidades da população crescente e de recursos limitados. Muita dificuldade.
Eis que desembarca na estação da Central uma doença desconhecida e que avultou com inesperada velocidade. Era a Espanhola, trazida da Europa até o porto do Rio de Janeiro, capital da República, já invadida pela intrusa patologia.
Em Belo Horizonte, grande problema, o maior deles: não havia leitos suficientes para receber os doentes. A Santa Casa sozinha não dava conta e havia o risco da comorbidade. A Faculdade cedeu suas instalações para acudir.
Foi pensando nisso que o provedor da Santa Casa, o médico Hugo Werneck, sentiu a necessidade de um novo hospital para atender não somente os indigentes, cuja manutenção já era um desafio. Então fez construir o São Lucas, que se mantém até hoje como padrão de atendimento, para receber quem pudesse pagar. Por lá, passaram os maiores médicos de Minas e pacientes importantes, como José Maria Alkmim, a mãe do poeta Drumond, o pintor Guignard, o escritor Eduardo Frieiro.
A Espanhola se foi, no século XXI chegou a Pandemia da Covid, na segunda década. A Santa Casa identificou a hora de implantar, como já o fez, a Clínica São Lucas Para Todos, na rua dos Otoni, junto ao edifício original para atendimento especializado em procedimentos e cirurgias, em condições apreciáveis de pagamento, nos moldes das clínicas populares. É algo de novo e bom.



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Por Manoel Hygino - 2/9/2020 09:15:12
Pelo Velho Chico

Manoel Hygino

O Rio São Francisco, considerado da unidade nacional, está permanentemente nas páginas dos jornais e nas imagens de televisão. E também na literatura e nos livros de História, sempre.
Lembrado por escritores como Petrônio Braz, autor do maior conceito, com obras já prestigiadas por leitores de todo o país, recentemente reeditado pela Chiado, de Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde. Por sinal, ele evoca em “Caleidoscópio” que uma comissão instituída pelo Visconde de Sinimbu, nos últimos anos de monarquia, estudou os melhoramentos necessários à navegação interior dos grandes rios da costa oriental brasileira.
Pois, há poucos dias, rompeu-se uma barragem no Ceará, que represava água para uso das populações da região. O desastre obrigou a remoção de milhares de pessoas, diante dos riscos que corriam e de ficarem ao desabrigo. Donde se constata, que não é suficiente represar a riqueza líquida que ali chega, a partir do manancial da serra da Canastra, em Minas Gerais, e dos afluentes.
O São Francisco exige proteção, mediante revitalização, antes que se transforme num monumento à incúria. Que dele se cuide e antes que seja golpeado de morte pela degradação de seus afluentes, e pela poluição incontrolada, como sublinha o próprio Petrônio, nascido em São Francisco.
A propósito, o jornalista Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, residente em Brasília há anos, mas que de sua Minas Gerais não esquece, lembrou em livro que o Conselheiro profetizou aos gritos que o sertão viraria mar, e acrescentou que o povo saiu correndo, em gritos, para evitar afogamento.
Mas a água chegou, de fato, após a transposição, um velho sonho do Nordeste. Era um projeto antigo. No Ministério das Minas e Energia, havia o DNAEE (Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica), que fazia medições em todos os lugares, sendo que os militares lhe deram atenção especial.
O bispo da barra, Dom Luís Capio fez greve de fome contra o seu uso indiscriminado e leviano, por parte dos grupos políticos. Previu: “Muitas dessas obras iniciadas nunca serão concluídas”. As águas, que singrei algumas vezes, continuam reclamando atenção, carinho e proteção.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2020 09:11:46
A hora de votar

Manoel Hygino

Este ano é de eleições. Desta vez as municipais, em 15 de novembro, data da proclamação da República no já distante 1889. Tempo de grande movimentação de populações no interior, onde a presença de autoridades é mais marcante. Outrora, oportunidade para tiros de espingarda e de garruchas 320 ou 380, ou para foguetórios antes, durante ou depois das votações. Tempo perigoso, sim senhor.
Geraldo Tito Silveira, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e das Academias Montes-Clarense de Letras e João Guimarães Rosa, lembra a sua época de menino em Brejo das Almas, nome que inspirou o título de um de seus livros.
Quando o Brejo era distrito de Montes Claros, hoje é cidade e se chama Francisco Sá, tomava jeito de grande centro. Logo de manhã, começavam a chegar os grupos de eleitores, montados a cavalo e vindos de lugares distantes.

Que se vissem os bravos mineiros do sertão. Muitos calçavam pela primeira vez um par de botinas ringideiras, e andavam pisando em ovos. Quando apertavam demais, comprimindo os dedos causando formigação, eles as tiravam dos pés, amarravam uma na outra, as punham no ombro. E desfilavam cuidadosamente para não se machucarem mais. Mas, não se descuidavam, engravatados, e com os pés no chão. Um espetáculo inesquecível.
O autor recorda que o eleitor votava às claras, evidentemente no candidato do chefe ou patrão. Lá, no velho Brejo, os dois líderes – o coronel Jacintho de um lado da urna e o coronel Olímpio, do outro lado. O conterrâneo entra em cena, recebe a cédula nas mãos do chefe e coloca lá na urna. Todo mundo via.
Uma vez, o cidadão João Magalhães ganhara um cavalo de presente em troca do voto. Na hora da votação, ele entrou em cena, mas um coronel advertiu: “Este é meu eleitor, compadre. O senhor deve estar confundindo com outro”. O munícipe colocou o voto na urna, mas quando saiu da seção, viu que seu cavalo sumira. Para sempre.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2020 08:18:49
Pandemia ontológica

Manoel Hygino

Uma oportunidade rara: elaborar uma antologia sobre a pandemia que ora enfrentamos sem segurança de quando terminará. A história conta sobre inúmeras pestes e epidemias, que marcaram homens, povos e épocas.
Ivan Lins, filho de Edmundo Lins, (presidente do Supremo Tribunal Federal) integrou com brilho seu período de produção literária na Academia Brasileira de Letras, e descreveu o pior dos flagelos medievais, pela extensão e efeitos, eram as epidemias, porquanto nem a higiene, nem a profilaxia, ainda menos a medicina, principalmente nos períodos de guerra e depressão econômica, eram capazes de deter-lhes as devastações, em sua tríplice: forma bubônica, pulmonar e intestinal. A todas, juntas, dava-se a denominação de peste.
Para explica-la, invocava-se a conjunção dos astros e a má reputação de Marte, enquanto remédios preconizados eram contraindicados como o arejamento das casas e quartos. As habitações, a sua vez eram infestadas de ratos e pulgas, enquanto suínos e outros animais defecavam pelas ruas. Assim, ultrapassamos a Idade Média e chegamos ao século XXI.
Sou, agora, surpreendido. Com “A Escrita em Tempo de Pandemia”, uma antologia de vários escritores em minha homenagem. Além de sentir-me grato, comovi-me porque se trata de uma espontânea manifestação de apreço dos autores da maior cidade do Norte de Minas, que já me haviam honrado com eleição a membro-honorário do sodalício.
São dezesseis os autores: Amelina Chaves, Dário Teixeira Cotrim, Dorislene Alves Araújo, Edson Ferreira Andrade, Felicidade Patrocínio, José Jarbas Oliveira Silva, Juvenal Caldeira Durães, Karla Celene Campos, Mara Yanmar Narciso, Maria Luiza Silveira Teles, Maria Ruth G. V. Pinto, Miriam Carvalho, Wanderlino Arruda (presidente de honra da entidade), e Zoraide Guerra Davi, todos acadêmicos, além da prof. Ivana Ferrante Rebello, que assina um artigo e o posfácio, e Maria da Glória Caxito Mameluque, empossada na presidência do sodalício, em fevereiro, que fez a apresentação e redigiu um artigo.
A capa da edição é excelente, em cores, da artista plástica Ssara Dinizz. Através de artigos, contos, crônicas e poesia, tem-se um panorama muito vívido e sincero de como estamos convivendo com a pandemia.
Muito oportuna a iniciativa de Maria da Glória e de seus confrades e confreiras. Algo que merece ser lido.


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Por Manoel Hygino - 22/8/2020 20:11:39
Um Nobel do Brasil

Manoel Hygino

Conto a história: Manoel Firmato de Almeida, médico, ex-chefe da Cirurgia Pediátrica da Santa Casa de Belo Horizonte, após um curso, nos Estados Unidos, nascido em Itambacuri, no vale do Mucuri, MG, é claro, volta ao Brasil. Nova Iorque, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, enfim um avião para Governador Valadares, já com o pai.

No percurso final, o encontro com o distinto cavalheiro com o qual trava uma longa conversa a bordo, em inglês. O jovem soube, então que o distinto viajante conhecia um professor na Pediatria exatamente em Minneapolis, onde Manoel Firmato estudava. O professor Robert Good era seu amigo e a ele enviou um cartão de saudações, através do passageiro.

De regresso aos EUA, ao receber o bilhete, Good comentou: “Então está feliz em ter conhecido um Prêmio Nobel, pessoalmente”? Só aí o jovem médico mineiro soube que o interlocutor a bordo era o professor Peter Medawar, Nobel de Medicina de 1960, cuja experiência em imunologia dos tecidos após retirada de timo em roedores fora bem sucedido e seria tema de um próximo trabalho do pediatra mineiro.

Segundo Ronaldo Vieira de Aguiar, na Revista da Arcádia de Minas Gerais, novembro de 2010, Peter Brian Medawar nascera em 28 de fevereiro de 1915, em Petrópolis, no Sanatório São José, depois Hospital Santa Tereza. Lá, era apenas o “Pedro”. Em seguida, transferiu-se à Inglaterra, para estudos universitários, onde residiam os pais a irmã Pamela, que se casaria com o secretário particular de Churchill.

Com o pai emigrado do Líbano em 1913, Peter venceu notáveis prêmios, mas se sentiu em aperturas para avançar no campo da ciência, porque não prestara serviço militar, sendo obrigado a naturalizar-se inglês, em 1960. Naquele ano a maior distinção científica foi concedida à dupla Frank Burnet - Peter Medawar, aquele um cientista australiano. O tema era sobre enxerto de tecidos, fundamental a transplante de órgãos e, por sua descoberta, de tolerância imunológica.

A rainha Elizabeth o nomeou cavaleiro do Reino Unido, embora haja um dossiê sobre Pedro, o brasileiro, de ascendência libanesa, ganhador do Nobel, para definir sua nacionalidade.


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Por Manoel Hygino - 18/8/2020 10:39:50
Os fura-teto

Manoel Hygino

A administração da nação virou um rolo, se me permitem a linguagem um tanto chula, mas perfeitamente compreendida. As divergências da Procuradoria Geral da República – ou nela, por força do affair com a Lava Jato chegaram a tal ponto que não se sabe quando terminará e se a conclusão será a que mais interessa ao país e a tão importante área de governo.
A questão da famosa “rachadinha”, que envolve um filho do presidente da República, incomoda até os apreciadores de novelas televisivas, com capítulos diários que revelam que os protagonistas não sabem como se safar das acusações ou suspeitas. Até as defesas se comprometem à procura do difícil equacionamento e todo o distinto público sabe porque.
O novelo é rico em pormenores e passeiam por tribunais dali e de acolá. Assume as manchetes agora o tema focalizado pelo ministro da Economia e pelo presidente da Câmara dos Deputados, que afirmam não aceitarem pressões para aumentar as despesas da União nesta quadra de duras incertezas e horizontes ainda sombrios, por mais que tentem mudar o cenário.
Paulo Guedes é claro: “Os conselheiros do presidente que estão aconselhando a pular a cerca e furar teto vão levar o presidente para uma zona de incerteza, uma zona de impeachment por responsabilidade fiscal”. Rodrigo Maia é também cáustico: “Não tem jeitinho, não tem esperteza. O que tem é uma realidade, uma carga tributária de mais de 33% do PIB somado ao déficit primário”.
Trata-se de uma reação aos “fura-teto” de gastos públicos, em período doloroso para os pacientes da Covid-19 e também para o coitado do contribuinte. Mara Narciso, que é médica e jornalista, comenta: “Tempo bom foi aquele em que havia uma só verdade, a realidade dos fatos que a ciência e os livros podiam confirmar não como hoje em que há muitas verdades e incontáveis mentiras, atreladas a autoverdade e a pós-verdade, confundindo os incautos com opiniões travestidas de notícias e desejos disfarçados de ciência. A internet é um excelente meio em si, mas os maus internautas se valem da aparente terra de ninguém, para manipulações e distorções, em que os ingênuos acreditam, especialmente nesse período de mentes frágeis pela pandemia”.
Em todo caso, a entrevista de Guedes, Maia e Alcolumbre lançou um pouco de luz quanto à situação fiscal. Enfim, chegada a hora de aprovar o orçamento de 2021.


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Por Manoel Hygino - 17/8/2020 16:20:36
A vacina e a bomba

Manoel Hygino

A apresentação da vacina contra o coronavírus por Putin, há poucos dias, deu uma demonstração de que a Rússia não se omitira enquanto as outras nações e a indústria farmacêutica faziam pertinazes esforços e investimentos, chamando a atenção para o fim da II Grande Guerra. Claro que as circunstâncias são outras e os objetivos, praticamente inversos - naquela época se trabalhava para produzir uma bomba atômica.

Na metade do século passado, Estados Unidos e Inglaterra e União Soviética lutavam para destruir o Terceiro Reich, da Alemanha e de Hitler. Mas a perspectiva de chegar-se à bomba aumentava a desconfiança mútua entre soviéticos e americanos. Estes e os britânicos já tinham criado secretamente a arma para se protegerem e a empregarem contra a Alemanha. Não aconteceu como previsto, porque os nazistas se renderam antes que ela estivesse pronta.

John Lewis Gaddis, em “História da Guerra Fria”, de 2005, registra que o segredo do Projeto Manhattan não se mantivera o suficiente para impedir que o serviço de informações soviéticas, por meio de espionagem, descobrisse bastante a respeito. Houve pelo menos três tentativas soviéticas bem sucedidas para tirar a segurança de Los Alamos, onde a bomba era fabricada.

O autor mencionado observa que o fato de Stálin ter montado uma importante operação para espionar seus aliados em meio a uma guerra que tratavam lado a lado, é outra forte indicação da falta de confiança entre eles – embora se deva reconhecer que os próprios anglo-americanos preferissem informar Stálin só depois do artefato testado com sucesso no Novo México.

Desse modo, na Conferência dos três grandes em Potsdam – Stálin não se mostrou muito surpreso, quando o presidente Truman, sucessor de Roosevelt, lhe comunicou o êxito da experiência. Stálin só reagiu fortemente quando os EUA usaram a bomba contra os japoneses três semanas depois. Um teste no deserto era uma coisa, muito diferente era empregar um armamento atômico contra uma população.


84980
Por Manoel Hygino - 12/8/2020 09:46:40
O complô fatídico

Manoel Hygino

Finalmente, esclareceu-se, ou parece, o caso de um documento misterioso elaborado no âmbito do Ministério da Justiça, que nada menos de 579 servidores daquela pasta foram citados e teriam assinado. A maioria deles era da área de segurança e de crítica ao governo federal, principalmente ligada a um movimento antifascista.
O ministro André Mendonça, da Justiça, declarou que tomara conhecimento do relatório depois de tornado público pela Imprensa, quando buscou informações. Ele trocou a chefia da área respectiva, assegurando ainda que ela não exerce qualquer atividade de perseguição os opositores do governo.
De todo modo, as providências ministeriais foram extraídas, embora a fórceps, depois de ecoar muito nos meios de comunicação. O fato faz lembrar o célebre “Protocolo dos Sábios do Sião”. É o seguinte – O escritor francês Maurice Joly, em 1864, publicou “O Diálogo no Inferno de Maquiavel e Montesquieu”, em Paris e, 35 anos depois, o folhetim chegou a Mathieu Golovinski, exilado russo na França e prestador de serviços à polícia secreta de Nicolau II, último czar, a famosa “Ochrana”.
Para provar ao imperador que havia um complô contra ele, o exilado russo plagiou a obra do autor francês, apresentando a versão de que um grupo de judeus influentes pretendia acabar com o império russo mediante um plano de dominação mundial.
O livreto, transformado em “Protocolo”, foi traduzido a várias línguas e percorreu o mundo, estimulando o crescimento do anti-semitismo, que causaram “pogroms”, assassinatos em massa de judeus, que teriam, inclusive, sugerido o holocausto de Hitler. Um ardil montado por Golovinski que gerou milhões de mortos e a II Grande Guerra.
Eis um tema atraente, mas complicado. Em 1931, um desencantado monarquista confessou ter forjado os Protocolos simplesmente porque um judeu, gerente de banco, lhe recusara um empréstimo e resolveu reagir incriminando todos os semitas, copiando as ideias centrais do livro de Joly.
E o manifesto ou “dossier” de agora no Brasil?


84976
Por Manoel Hygino - 11/8/2020 15:00:59
O encantador de pássaros

Manoel Hygino

Isaías era menino nascido na roça, que pegou um pássaro com as mãos e cujo pai propalou dele poderes sobrenaturais. Mudando para a cidade a fim de estudar, lá chegara a fama, mas ele não encantava os animaizinhos voadores, achando então que não passava de um pobre mágico-mirim, sem cartola nem truques. Juiz de direito em sua comarca, sem veleidades, “despido da vaidade, pássaro de penas douradas, esforça-se para dar conta de uma tarefa infinda, levando aos ombros a balança da justiça dos homens em que deve medir os seus atos, sob o prisma das construções jurídicas previamente estabelecidas e codificadas”.

Já se supondo caminhando para a velhice, o juiz Isaías Caldeira tem “a sensação de inutilidade, de fracasso pessoal e das instituições, por não atender minimamente aos anseios de um povo acuado e desprotegido, em permanente risco de morte em meio a uma guerra civil não declarada”.

Confessa: Atuando na área criminal há muitos anos, sei que perdemos a batalha contra a criminalidade. Explica-se: “Cadeias superlotadas, algumas já interditadas, centenas de novos inquéritos chegando mensalmente às varas criminais, estruturas precárias em todos os setores responsáveis pela aplicação da lei e combate aos crimes, esta é a realidade vivenciada. Não há mais vagas no sistema prisional para maiores e menores. Para se prender alguém, coloca-se em liberdade outro, revezando-se nas celas dos presídios e centros de recuperação para menores. Acabado o expediente forense, após várias audiências, despachos e sentenças, retornando para casa, imagino o país daqui a alguns anos, se continuar neste ritmo, e temo caminharmos para o impasse, para o confronto social, onde o descrédito nas instituições nos conduzirá à luta fratricida, no desespero das vítimas dessa guerra civil em curso, que mata mais que em países oficialmente em litígios bélicos.

Mas talvez exista algum pássaro na cartola das autoridades responsáveis, e que façam a mágica de apresentarem ao público uma solução para o impasse, devolvendo a paz hoje perdida, embora desde menino saiba que não é tão fácil pegar pássaros de verdade sem o uso de métodos convencionais, no caso, leis mais duras, com penas que desestimulem os criminosos e efetividade no seu cumprimento.

Parece simples, mas é preciso coragem para se fazer o óbvio, deixando de lado malabarismos jurídicos e retóricos. Afinal, a ave da injustiça já se assenta nos umbrais das portas e não é preciso mágica para tocá-la com as mãos”.


84970
Por Manoel Hygino - 8/8/2020 19:35:02
O embate na PGR

Manoel Hygino

A Lava-Jato foi a maior operação de combate à corrupção em todo o mundo. As notícias do trabalho desenvolvido pelos promotores e demais, que se dedicaram ao projeto, nascido silenciosamente, satisfaziam aos seus autores e orgulhavam o Brasil. A nossa má fama como gestores de dinheiros públicos perdia força.

A Lava Jato passou a ser referência na hora de decisões de interesse nacional. Quando Temer teve de escolher o núcleo palaciano, constatou que cinco dos pretendentes a relevantes cargos eram objeto de investigações da operação.

A corrupção se generalizara. O empresário Marcelo Odebrecht, em determinada ocasião, declarou que a sua empresa era o próprio Estado e que “os irmãos da JBS financiaram 1.850 políticos, elegendo prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidentes da República”, como lembrou alhures o jornalista Aylê Salassié Filgueiras Quintão.

O brasileiro tomou conhecimento pela imprensa, tão criticada e vilipendiada, do festival de dinheiro público, ou seja, dos cidadãos, angariado fraudulentamente e utilizado em campanhas, e mesmo no exercício de cargos de relevo. A palavra “propina” deixou de ser apenas usada para as gorjetas nos restaurantes.

Um instituto de avaliação dos gastos de governo constatou que, em 20 anos, R$ 2 trilhões de recursos públicos foram desviados. A Lava Jato tentou vencer contrários, mas se atirou em um mercado de interesses políticos e de ciumeira governamental.

Eis o momento em que nos encontramos, quando o espaço nos meios de comunicação são tomados pelo noticiário, com muita razão, sobre a pandemia. O procurador-geral da República de hoje descobriu que os agentes de Curitiba, principalmente, teriam excedido no exercício de seus misteres, ou no cumprimento de diligências. O titular da PGR acha que é “hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure”.

Acha S.Exa. que é chegada a hora de centralizar as ações da Procuradoria em Brasília, depois de ação enérgica e bem sucedida da Lava Jato. Mas há em meio a tudo possíveis outros motivos, que precisam ser analisados. Um retrocesso, como parece possível, seria altamente prejudicial para a nação e para a própria PGR.


84953
Por Manoel Hygino - 1/8/2020 06:42:02
O coração do menino

Manoel Hygino

Quando o coronavírus se expandia por todo o mundo, a Santa Casa de Belo Horizonte, integrada ao grande esforço de amparar os contaminados pela insidiosa moléstia, deixou claro que não deixaria de atender aos pacientes das 35 especialidades a que já servia. É que a instituição mantém o maior hospital 100% do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo referência em média e alta complexidade, como transplantes, cirurgias neurológicas e tantas outras.

O provedor Saulo Levindo Coelho já vinha envidando esforços para levantar recursos visando a ampliar seu CTI Infantil, o primeiro no Estado, para suprir em casos complexos de cirurgias cardíacas pediátricas, pois de médicos competentes já dispunha. Foi desse modo que, em plena guerra contra a Covid, a instituição pôde atender o segundo caso de transplante de coração em criança.

O beneficiário foi Renan Pereira dos Santos, de dez anos, que ganhou um novo coração, em julho. O menino é de Brasília de Minas, no Norte do Estado, e - em estado grave – aguardava um transplante no CTI pediátrico, esperando doação.

Uma situação delicadíssima, porque a criança se debilitava, e o tempo parecia não passar. Necessitou-se, para manter a esperança, adquirir um cateter fora do padrão, de alta tecnologia, enquanto se aguardava doador. Que, enfim, apareceu e a equipe de cirurgia cardíaco- pediátrica e demais profissionais, sob a liderança do médico Marcelo Frederique, entrou em ação. E o fez muito bem, para a felicidade geral, com os demais cirurgiões Vinícius Loureiro, Célia de Oliveira e Felipe Magalhães.

Foram sete horas de trabalho operatório. O essencial é que tudo correu no melhor dos mundos, como diria Pangloss, sintetizando o otimismo de Leibnitz, assimilado pelos diretores da centenária instituição, o médico Guilherme Riccio e Gonçalo de Abreu Barbosa.

Os profissionais da Medicina que acompanharam o caso seguiram o pensamento da pediatra Filomena Camilo do Vale, do CTI Infantil. Ela, que acompanhara o paciente de perto, emocionou-se: “Espetacular, talvez, não expressasse todo o sentimento do que vivemos nas últimas 24 horas. O transplante cardíaco do Renan, a angústia que sofremos, e, hoje, ei-lo extubado, conversando, com evolução surpreendente”.


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Por Manoel Hygino - 28/7/2020 08:18:27
Rui, aqui e sempre

Manoel Hygino

Há cem anos, Rui Barbosa, tão pouco lembrado no Brasil presentemente, pronunciou um discurso que se tornou antológico. Foi em 1920, como paraninfo dos formandos daquele ano, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, berço de algumas das maiores vozes das ciências jurídicas do Brasil.
Com 71 anos, já com saúde debilitada, o notável advogado que brilhara em Haia teve o texto lido pelo prof. Reinaldo Porchat. Em Belo Horizonte, a Del Rey o publicou, por iniciativa de Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza, ex-confrade na Academia Mineira de Letras.
Confessa sua satisfação em dirigir-se a jovens, cujo coração “ainda está incontaminado; e Deus assim o preserve”. Rui dá uma aula àqueles que concluíam o curso jurídico. O orador declara que, “se não soube imitar nas artes medrançosas de político fértil em meios e manhas, em compensação tudo envidei por mostrar ao povo os costumes de liberdade e à República as leis do bom governo, que prosperam os Estados, moralizam as sociedades, e honram as nações”.
Acrescentou: “Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade constitucional, a verdade republicana atendendo clientelas entre nós, sem armas, nem ouro, nem considerações mal achavam, em uma nacionalidade empobrecida e indiferente, nos títulos retos do seu direito”, que habilitavam “o mísero advogado a sustentar-lhes com alma, com dignidade, com sobraçaria, as desprezadas reivindicações”.
Em outro momento, adverte: “Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vós ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as que mandam, e desmandam, em tudo a saber, num país onde, verdadeiramente, não há lei, não há moral, política ou juridicamente falando”.
Acrescenta: “Mas, no Brasil, a lei se deslegitima, anula e torna inexistente, não só pela bastardia da origem, senão ainda pelos horrores da aplicação. Ora, dizia São Paulo que boa é a lei, onde se escuta legitimamente: Bona est lex, si qui ea legitime utatur. Quer dizer: Boa é a lei quando executada com retidão. Isto é: boa será, em havendo no executor a virtude, que no legislador não havia. Porque só a moderação, a inteireza e a equidade, no aplicar das más leis, as poderiam, em certa medida, escoimar da impureza, dureza e maldade, que encerrarem. Ou, mais lisa e claramente, se bem o entendo, pretenderia significar o apóstolo das gentes que mais vale a lei má, quando inexecutada, ou mal executada (para o bem), que a boa lei sofismada e não observada”.
Conclui o pensamento: “De nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as ampare contra os abusos, e o amparo sobre todos essencial é o de uma justiça tão alta no seu poder, quanto na sua missão”.
Naquela faculdade em que paraninfaria em 1920, Rui Barbosa colara grau cinquenta anos antes. Até o fim, em 10 de março de 1923, em Petrópolis, defendeu a tese: “Com a Lei, pela Lei e dentro da Lei, porque fora da Lei não há salvação”.


84928
Por Manoel Hygino - 25/7/2020 08:02:24
O trem da história

Manoel Hygino

Primeiro, houve a reunião com representantes de fundos estrangeiros que aplicam recursos na defesa da Amazônia. Depois, uma com os grupos brasileiros que ali atuam ou defendem medidas urgentes para evitar o desmatamento da maior reserva florestal do planeta. Ambas dirigidas pelo vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, que é o coordenador do Conselho da Amazônia.
O problema é grave, grande, complexo e envolve inúmeros interesses, inclusive, políticos, antigos, e para os quais não se encontram ainda as vias adequadas de solução. Depois de tudo, Mourão – que é muito objetivo em suas posições – comentou com a Imprensa: “Os europeus, assim como a maioria dos brasileiros, desconhecem o que é a Amazônia. Basta dizer que tem quase o mesmo tamanho da União Europeia, que tem 4,4 milhões de metros quadrados, a outra, 4,2 milhões. Não é brincadeira”.
Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) o revelam, à suficiência. Eles mostram que o desmatamento continua se acelerando no país, e isso soma quatorze meses consecutivos. Observe-se que o corte de mata nativa de junho deste ano era superior ao de 2019, que já era recorde, isto é, com crescimento de 10,7%.
O general Mourão reafirmou que o governo precisa encontrar soluções permanentes para a fiscalização na Amazônia legal, além da garantia da lei e da ordem, e que valerá até novembro. Aliás, o próprio coordenador admite que a operação deveria ter começado em dezembro do ano passado, se se quisesse alcançar resultados positivos contra os desmatadores, que pouco interesse têm pela Amazônia, pelo Brasil. A Guerra do Paraguai teria sido ganha em seis anos, se o Brasil tivesse, ao menos, cartas geográficas rudimentares da região.
Rondon cumpriu o seu histórico papel, percorrendo 35 mil quilômetros de trem, navio, canoa, cavalo, a pé e a nado. Seus estudos modificaram a geografia do Brasil. Agora, é obrigação das novas gerações.
O trem da história não passa duas vezes.


84911
Por Manoel Hygino - 21/7/2020 08:02:56
Duas pandemias

Manoel Hygino

A espanhola mais conhecida no Brasil é uma gripe. Dela se guardam dolorosas lembranças, embora não existam sobreviventes. Enfim, são passados cem anos, um pouco mais. Ela desembarcou aqui em outubro de 1918, por um militar que servia no Rio de Janeiro e, transferindo-se para cá, começou a contaminar a cidade.
Belo Horizonte tinha, pois, 21 anos, era a prendada filha da República, uma capital construída para sede do governo de Minas, sucedendo Ouro Preto, julgada já inapta para abrigar a administração pública. No lugar de Curral Del-Rei, exigia-se uma metrópole na verdadeira acepção da palavra. Sonhava-se uma urbe moderna, bonita, limpa, arejada, e o nome dizia muito – Belo Horizonte. Mas se pretendia mais: que ela oferecesse a seus habitantes condições efetivas de salubridade, para que vivessem bem e sãos. Tudo se fizera para que assim fosse.
Até que, naquela segunda década do século XX, a perigosa moléstia, que ligava seu nome à nação ibérica, por aqui desembarcou num vagão para passageiros, na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, tão intimamente entranhada na história do lugar que também fora denominado Cidade de Minas – coisas e fatos pretéritos, que não devem ser esquecidas. A doença entrou pela porta da frente, isso é, pela praça que se batizou com o nome de Rui Barbosa, o herói da campanha civilista à Presidência da República e que fez questão de vir conhecê-la.
Aí, então, apareceu a ibérica, que depois se demonstraria que não era da península europeia. Foi um Deus nos acuda em todos os setores da vida cotidiana, como comentam os escritores da época e, agora, focalizam novos autores atuantes no campo das letras e da medicina.
O médico Pedro Salles, colega de Juscelino na Faculdade de Medicina, discorre a respeito. Mario Lara, jornalista, faz o mesmo em espaço próprio de sua ampla biografia de Cícero Pereira, um dos paladinos pela saúde e a vida por aqui. A professora Anny Jackeline Torres Silveira, mestre em História pela UFMG e doutora pela UEMG, envereda pelo tema e nele se aprofunda em “A Influenza Espanhola e a cidade planejada”, apresentando-nos como foi e como a cidade enfrentou seus problemas.
Quando a moléstia aqui chegou, no século passado, a única instituição hospitalar era a Santa Casa de Belo Horizonte, fundada em 1899, que construía paulatinamente suas unidades de atendimento. Tudo dificílimo, mas a gente necessitada foi atendida, como o fez a Faculdade de Medicina, que interrompeu aulas para oferecer assistência em suas salas. Para atender à demanda, o número de leitos do Hospital Central cresceu para 1.220 leitos, dos quais, 692 para o Hospital Universitário.


84905
Por Manoel Hygino - 20/7/2020 08:13:05
No mês de julho

Manoel Hygino

Dezesseis de julho é data para não se esquecer. Porque é data da fundação de Mariana, primeira vila, primeira cidade, primeira comarca e primeira capital de Minas, além de primeiro bispado. Pelo visto, não é pouco e por tudo se rejubilam os ali nascidos, gente dos mais altos predicados de que tanto se orgulham a velha província e, depois, o estado.
O escritor Danilo Gomes, de querida família da antiga Vila do Carmo ou do Ribeirão do Carmo, inicialmente Vila de Albuquerque, em homenagem ao então governador do Carmo, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, foi criada em 8 de maio de 1711. Confirmada em 16 de julho de 1712, compreendia sua jurisdição todo território a Sudeste da capitania.
Antônio de Albuquerque era governador do Rio de Janeiro, quando foi, por carta régia de 9 de novembro de 1709, nomeado governador da recém-criada capitania de São Paulo e Minas de Ouro. O governador pacificou as Minas e convocou a junta de 10 de novembro, em Sabará, com a presença inclusive de Borba Gato e representantes da nobreza da terra, do clero e do povo, quando anunciou a organização de municipalidades. Os povos teriam governo próprio, de caráter democrático, para aplicação da justiça e solução de seus problemas.
Pois o Dia de Minas se atribui a fundação da cidade de Mariana, reverenciado por iniciativa de Roque José de Oliveira Camêllo, cuja vida e exemplo foram citados pelo Dr. Aristides Junqueira Alvarenga, ex-procurador geral da República.
Por lei sancionada em 19 de outubro de 1979 pelo governador Francelino Pereira, tornou-se realidade o propósito de criação do “Dia de Minas Gerais”, confirmado pela Emenda nº 22 da Constituição de Minas Gerais, o governo de Minas continuasse a se transferir para Mariana no dia 16 de julho de cada ano.
Eis o 16 de julho de 2020, em meio ao torvelinho político e o morticínio que causa a Covid-19. Para o ex-procurador da República, nem tudo se esvai com a existência de um amigo. Disse ele: “a fulgurante vida do meu colega de infância não se apagou em 18 de março de 2017, aos seus anos de idade. Brilhará sempre”.


84895
Por Manoel Hygino - 15/7/2020 08:20:56
O briguento Putin

Manoel Hygino

A natural predominância do noticiário sobre a pandemia no Brasil, simultaneamente com o conturbado momento político que a nação atravessa, não me permitiu conhecer o resultado do plebiscito em torno da sucessão do poder na Rússia. A União Soviética já terminara há bem tempo, mas os métodos empregados para se definir quem governaria a grande nação não variam suficientemente. A própria ascensão de Vladimir Putin ao comando em 1999/2000, primeiramente como premier, e, em seguida, como presidente, ainda está envolta em detalhes misteriosos que somente o tempo conseguirá, talvez, revelar. Para se melhor conhecer os desvãos dos fatos, há de se estudar muito, ler muito, conversar, estudar.
Foi o que fez Macha Gessen (e o nome coaduna com o significado em língua portuguesa – macha) jornalista russa, autora de mais de vinte livros, editora da revista Snob, testemunha de parte da história mais recente de sua pátria, ao publicar “A face oculta do novo Czar”, o título português.
Para se sentir as raízes mais distantes do problema, há de se reportar à segunda grande guerra. Gessen evoca: “A cidade soviética de Leningrado, onde Vladimir Putin nasceu, no ano de 1952, foi, para aqueles que ali viviam, um lugar de fome, pobreza, destruição, violência e morte, Tinham-se passado apenas oito anos desde o fim do célebre cerco à cidade. Tudo começou, em 8 de setembro de 1941, quando as tropas alemãs conseguiram cercar Leningrado, deixando-a incomunicável, e só terminou 872 dias depois. Morreram mais de um milhão de civis, vitimados pela fome ou pelos bombardeios que aconteciam sem trégua enquanto durou o bloqueio. Quase metade dessas pessoas morreram tentando fugir de lá”.
No pós-guerra cresceu a criança, já com fama de briguento. Rapazinho, sonhava tornar-se agente da KGB, assumir os destinos do país e dominar o mundo. A evolução da personalidade do jovem e sua pertinácia na busca de concretização de seus anseios são descritas em minúcias, enquanto a nova Rússia procurava assumir seu papel histórico. Os pais do futuro presidente eram um inválido e uma mulher que quase morreu de fome, mãe de dois filhos também falecidos; um bebê e outro na infância.
Putin viveu, vamos dizer, no fundo de um quintal, num pátio coberto de lixo e cheio de marginais. “Aquele pátio era uma coisa”, disse um dos biógrafos, um ex-colega de Putin e seu amigo de infância, Viktor Borienko. “Um bando de marginais. Uns sujeitos sujos, com a barba por fazer, com cigarros e garrafas de vinho vagabundo nas mãos. Sempre bebendo, xingando, arranjando brigas. E Putin ficava no meio disso tudo...”. E, assim, chegou à escola, com modos de brigão.
Putin foi excluído do grupo dos jovens pioneiros, um castigo raro, exótico, geralmente reservado aos alunos que, por perder anos, viviam repetindo as matérias, sendo considerados casos perdidos. Não trazia no pescoço o lenço vermelho, símbolo da organização comunista para crianças de dez a quatorze anos. Para Putin, a credencial de delinquente era sinal de status. No entanto, soube vencer as adversidades, entrou para a KGB, aprendeu sambo, a autodefesa sem armas. Com ela, passou de jovem brigão a adolescente aplicado, e com metas bem definidas.


84893
Por Manoel Hygino - 14/7/2020 09:06:37
Lava Jato no limbo

Manoel Hygino

Acabrunhado pela coercitiva e parcial inatividade, e condenado pela inclemência do novo coronavírus, o brasileiro se põe a meditar sobre a situação do país, neste segundo decênio do século. Além das praticamente indesviáveis consequências de uma doença sobre a qual a ciência sabia tão pouco, o cidadão deste país inventado por Cabral há mais de quinhentos anos pensa: o tempo político não é muito propício.
Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, jornalista de nome raríssimo, domiciliado em Brasília e natural do extremo da Zona da Mata Mineira, está entre aqueles que se dão ao sacrifício de meditar. Para ele, como para outros milhões, o futuro se tornou uma angústia. O indivíduo transformado em consumidor está irritadamente exposto e aborrecido, principalmente pelo que lê nos jornais ou ouviu e, ainda, pelo que conhecerá pelo noticiário das televisões. Não é difícil adivinhar.
Além das dificuldades para a sobrevivência diária acrescentadas de inúmeros revezes, o brasileiro se torna pessimista, pois, sem perspectivas, diante dos fatos que se sucedem no âmbito da política e da administração pública. Salassiê, por exemplo, lembra que nem a Lava Jato, nem o Supremo Tribunal Federal, mandando um punhado de cleptocratas para a cadeia, conseguiram conter a capacidade resiliente dos personagens do patrimonialismo político no Brasil. “Um delinquente era preso em um dia e solto no dia seguinte”, talvez para rodízio nos estabelecimentos penais, talvez para fazer de conta que a lei tinha primado e não esquecida.
Mas, de um momento para outro, eclode aquilo que se mantinha em processo de decantação. A Lava Jato passou a receber críticas e reservas, sobretudo a partir do momento em que o ex-juiz Sérgio Moro caiu no rol de inimizades do atual ocupante do Palácio do Planalto. Curioso é que a chapa vencedora da mais recente eleição presidencial contara exatamente com a simpatia, o apoio e a graça do magistrado de Curitiba para levantar votos.
A Procuradoria Geral da República aparece agora para afirmar que pretende unir as três frentes da Lava Jato num organismo único. Eles são somente integrantes de um órgão de Estado, movidos para operações especiais.
Seja o que for, a iniciativa cheirou mal, depois dos reconhecidos e notórios serviços prestados à nação na luta contra a corrupção. Os resultados têm nos sido revelados pela Imprensa, mas o mais relevante possivelmente seja sua força sobre a consciência dos brasileiros que esperavam sempre uma ação poderosa contra a corrupção.
A confiança pública, possivelmente, ampliaria as atividades da operação e de seus objetivos. Não foi assim. Moro perdeu o cargo em Curitiba e criou inimizades na cúpula política federal, embora o brasileiro queira que a ação contra a corrupção e os corruptos não sofra solução de continuidade. Repetindo Luiz Carlos Azedo, “a Lava Jato constitui o maior expurgo já promovido na política brasileira num ambiente democrático, desde a proclamação da República. É excelente oportunidade para testar o que se conseguiu evoluir em termos de enfrentamento da corrupção e de como e quanto a operação resultou ferida agora em seus propósitos e programas”.


84887
Por Manoel Hygino - 11/7/2020 09:10:46
Sem Atheniense

Manoel Hygino

Ao percorrermos as páginas dos jornais do passado 4 de julho, independência dos Estados Unidos, tomamos conhecimento do falecimento, no dia anterior, de um cidadão das mais altas virtudes.

Aristóteles Dutra de Araújo Atheniense. Ele soube preservar e honrar em seus 84 anos, como advogado, respeitado entre seus pares, mesmo entre aqueles com os quais teve como contendores no exercício da profissão. Aristóteles se impôs como uma das maiores expressões do Direito, entre nós.

Com biografia exemplar e com currículo dos mais ricos, exerceu cargos importantes no seio das entidades de classe, inclusive, como presidente da OAB-MG, diretor da OAB nacional, membro da Federação Interamericana dos Advogados, dentre outros. A extensão de sua cultura e seu interesse por ela o levaram a eleger-se ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, de que é patrono Lincoln Prates, e a presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas, além de professor na PUC-MG.

Afável e amável, participava das solenidades em que sua presença fosse necessária, a que comparecia com simpatia e com simplicidade, qualidade considerada por Gibran Calil o mais alto grau da cidadania.

Em resumo, perdemos um brasileiro dotado das mais belas qualidades e de que sentiremos falta, além de seus artigos na imprensa. Ele recordou, por exemplo, o 13 de dezembro de 1988, quando tomou posse como presidente do Supremo Tribunal Federal o mineiro de Curvelo Antônio Gonçalves de Oliveira. Presentes as mais representativas lideranças de Minas, inclusive, o então governador Israel Pinheiro. Saudou o empossado e seu vice, Oswaldo Trigueiro, o Dr. Sobral Pinto, cuja primeira parte da oração constou de uma exaltação do Direito e da Democracia, além de um apelo à preservação da independência dos Poderes da República.

Durante a fala, um cidadão cuja identidade não foi conhecida aproximou-se do orador e deixou um papel, lido por Sobral, que interrompeu o discurso para informar que, naquela data, a Câmara dos Deputados, por 246 votos a 141, negara licença para cassação do mandato do deputado Márcio Moreira Alves.

Aristóteles Atheniense lembra que, no dia seguinte, o valoroso Sobral estava no Hotel Umuarama, em Goiânia, preparando-se para paraninfar a formatura da Faculdade de Direito, quando recebeu a informação de um auxiliar do governo Borges de que seria preso, mas havia um avião para levá-lo a qualquer parte do país ou do exterior. Sobral se negou a aceitar o convite. Em seguida, foi preso e levado para uma guarnição do Exército.

Aristóteles evoca o passado e relaciona a ação destruidora do ato e declara: “Convivi com o Ato Institucional nº 5, desde a sua edição (1968) até a revogação (1970) operada pela EC nº 11 no governo Geisel, cessando os Atos Institucionais completamente, com o restabelecimento do “habeas corpus” em crimes políticos”. Conclui Aristóteles que entregar agora o autoritarismo que inspirou o malsinado AI-5 equivale a coonestar todas as arbitrariedades praticadas na sua vigência.


84879
Por Manoel Hygino - 9/7/2020 06:57:03
Voz de um Andrada

Manoel Hygino

Meus amigos não me deixam sem documentos importantes sobre a história. É o caso de Danilo Gomes, grande cronista e poeta, nascido em Mariana, que, há exatamente onze anos, me enviou precioso volume, “Fui secretário de Getulio Vargas”. O autor é Luiz Vergara, de ótima redação, contendo depoimento do tempo em que colaborou com o conterrâneo no velho Rio de Janeiro.
Fico assim sabendo que Antônio Carlos, o Andrada, que teve papel fundamental na Revolução de 1930 e que exerceu a Presidência da República, “ocasional mas integralmente as altas funções de presidente” em agosto de 1934 (outro agosto na vida de Vargas), quando Getulio fez viagem oficial à Argentina e Uruguai. Faço minhas suposições: em Montevidéu deve ter participado da inauguração da bela avenida Agraciada, que tantas vezes cruzei outrora.
Não havendo vice, o substituto eventual era o presidente da Câmara dos Deputados, no caso, o mineiro Antônio Carlos, que a nação já bem conhecia como um cidadão ilustre do clã Andrada, descendente dos que ajudaram na independência. Vargas morava no Palácio Guanabara, o substituto se instalou no Catete com a família, levando para a Casa Militar o general Newton Cavalcanti e o secretário Otto Prazeres, procedentes da Câmara. O substituído dera instruções para deixar Antônio Carlos à vontade. Assim se fez. O Andrada não era madrugador, deitava-se e acordava tarde. Passava o dia recebendo visitas numerosas e austero salão de despachos, aberto para o parque, se transformava num ruidoso salão de palestras, com Antonio Carlos, pontificando à vontade, com ares senhoriais, distribuindo perdulariamente às suas frases sutil e cáustica malícia”.
Quando todos saíam, Vergara e Simões Lopes despachavam ou faziam de conta. O presidente dizia: “Não quero saber de papelório. Guardem para Getúlio”.

Desdobrava comentários, contava anedotas, ria e fazia rir, ficando ali até que viessem avisá-lo de que a família o esperava para o jantar. Comentava que o cozinheiro talvez não soubesse preparar bons churrascos, mas os pratos mineiros e baianos eram de um verdadeiro mestre na arte culinária.
Na véspera do retorno de Vargas, Antônio Carlos pegou os dois auxiliares e convidou-os para um passeio pelos jardins, quando monologou, dirigindo-se a ambos: “Agora que estamos sós, quero fazer-lhes uma confidência. Vocês devem ter achado um tanto surpreendente a minha maneira de exercer as minhas funções de presidente da República. Viram-me instalar neste Palácio das Águias, tão famoso desde os tempos nada saudosos do meu amigo Bernardes”. Continuava: “Talvez lhes pareça tudo isso despropositado e algo ridículo, não meninos? Mas eu me explico. Este velho Andrada já havia escalado todos os degraus de uma carreira aparentemente brilhante. Fora deputado, senador, presidente de Minas, presidente de uma Assembleia Constituinte, mas faltava atingir o último, o mais alto na hierarquia republicana, a Presidência da República.
Começava a perorar: “Não posso esconder que era a minha maior aspiração. Encerraria a minha vida pública no topo da cúpula do regime. Uma ambição justa. Por certo, que não me envergonho de proclamar, comparando-a num topo muito gasto de literato provinciano, ao “último canto do cisne” da minha movimentada carreira política.
Mas, me digam: “Quem pode dizer agora que este Andrada não foi presidente da República”?


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Por Manoel Hygino - 9/7/2020 06:55:37
A mortandade

Manoel Hygino

Há de se tomar conhecimento dos fatos, embora desagradáveis. Vive o Brasil um período de sua história já estigmatizado por dores e sofrimentos de múltipla causa.
Pelo Montesclaros.com, recebo diariamente a síntese do que ocorre no Norte de Minas, uma extensa região vincada por problemas, às vezes, não rigorosamente seus, com as das secas do Nordeste. Milhares e milhares de pessoas a pé, a cavalo, em caminhões, desciam no mapa em busca de melhores condições de sobrevivência. Um espetáculo tristíssimo a que assistimos sem muito ou nada podermos fazer para amenizar o padecimento dos retirantes – homens, mulheres, velhos e crianças, maltratados, pela vida, famintos ou enfermiços.
Faziam pequenos serviços em suas paradas, tentando amealhar alguns trocados até tomar o trem de ferro, pois ali era o final dos trilhos da Central do Brasil, inaugurada no remoto 1926. O Eldorado ficava mais ao Sul, São Paulo, talvez Paraná, que passara a constar dos sonhos dos fugidos da longa estiagem e da pré-miséria.
Extremamente longos os percursos, extremamente penosa a adaptação aos novos locais de trabalho, outras pessoas, os costumes. Mas viver é preciso, aqui ou ali, perto do lugar do nascimento, onde se estabeleceram famílias há décadas e décadas.
Mas, no ano da graça de 2020 de nosso Senhor Jesus Cristo, eis que aparece uma nova desgraça, esse tal de coronavírus, muito maior e destruidor de esperanças que outras pestes e pragas de eras passadas. Muita dor, que proíbe até as pessoas saírem de casa, no sertão remoto ou mesmo no Sudeste ou Sul, que representavam esperança.
As pessoas ficam doentes, não mais de gripezinhas ou dor de barriga, de irritação na pele ou febre. Mais do que isso, a doença nova é ameaçadora e perigosa, mata milhares, muitos milhares, como dizem os jornais, televisões e as rádios. E mais: atinge todos, de qualquer idade, sem dó. As estatísticas são reveladoras. Muitos milhares sob acompanhamento médico rigoroso, novos casos, muitos óbitos confirmados, um número enorme de pessoas em observação.
No norte-mineiro, Salinas prorroga o isolamento total por mais muitos dias, depois que o número de casos duplicou em uma semana. Comércio fechado, supermercados, padarias e sacolões impedidos de sistema de entrega em domicílio e a circulação de pessoas nas ruas proibida, salvo por força maior. E é a terra de uma das melhores cachaças do Brasil, só consumidas quase às escondidas.
Bocaiúva, terra de José Maria Alkmin, do caricaturista Henfil, dos Dumont, do deputado Patrus Ananias, também professor universitário, volta atrás. As medidas de liberação das atividades gerais também sofrem novo hiato, depois da “flexibilização” – a palavra é, pelo menos, elegante. Suspendem-se as reuniões, atividades públicas e as cerimônias religiosas. A Covid não tem preferência por este ou aquele credo.
Vejo que Montes Claros e Janaúba se incluem entre as cidades de Minas com “situação complicada”. Complicada? Só MOC tem quase 500 mil habitantes... No momento em que redijo o texto, a capital da região chegava a 113 mortes e, Janaúba, a 120, superadas de longe por Uberaba, Uberlândia, Teófilo Otoni, Muriaé, Juiz de Fora e Itabira. Desolador.


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Por Manoel Hygino - 27/6/2020 08:04:07
Urgente mudar

Manoel Hygino

No final de semana, arrefeceram-se os exaltados ânimos, que marcaram os dias anteriores na política. Embora acostumados às cálidas (se o adjetivo não for suficientemente forte) manifestações dos autores em cena, tivemos período de efetiva crise, não fosse a atuação dos mais prudentes.
Verdadeiramente, a nação não está nem se sente em paz, tão necessária ela para superarmos os terríveis efeitos de uma pandemia jamais vista tão trágica e cruel para todos os povos. A amplitude e gravidade dos problemas de que o povo teve notícia através de todos os veículos de comunicação, permitem deduzir que novas discussões estarão em debate a partir de agora e com uma veemência e uma agressividade não compatíveis com as circunstâncias da hora.
A polarização não conduzirá à melhor solução, mas se percebe que ela não se restringe mais aos círculos debatedores, estes já rompidos pelo conhecimento de todos os setores da sociedade. O descontentamento e a desconfiança, há bem tempo, ultrapassaram as rampas do Palácio do Planalto ou da Alvorada. Eles estão nas ruas, já sofridas sobremaneira pela perversidade múltipla causada pela pandemia que atinge uma população já cercada pela dificuldade de ir e vir, de adquirir medicamentos, de viajar, de alimentar-se, de usufruir as folganças do esporte e do lazer, de os filhos frequentarem as escolas.
Estamos em face de uma poderosa enrascada, da qual precisamos sair com a possível rapidez, antes que se agrave a situação, que se mostra das mais ameaçadoras, por motivos que a sociedade conhece. Se não escaparmos, agora, estaremos condenados irremediavelmente a provas e consequências mais dolorosas e frustrantes.
Os casos envolvendo Fabrício Queiroz e Abraham Weintraub são apenas a face de um imbróglio muito maior. Os embates entre os poderes constituídos, contrariando o explícito na Santa Magna, têm de cessar. Já Luiz Carlos Azedo aponta: “Uma parte do conflito de Bolsonaro com o Legislativo e o Judiciário é fruto de sua personalidade; a outra, mais preocupante, decorre de uma concepção de Estado descentralizado e vertical ainda arraigada, apesar de ultrapassada, compartilhada por alguns generais que o cercam”.
Imprescindível o fim das bravatas. E, como disse o jurista Sacha Calmon: “É hora de iniciar um novo ciclo de nossa história, sem arreganhos autoritários e planos factíveis de desenvolvimento econômico”.

Urge.


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Por Manoel Hygino - 24/6/2020 09:16:37
Aconteceu em agosto

Manoel Hygino

Por muito menos, talvez, houve o suicídio de Getulio em 24 de agosto de 1954. Um inquérito policial-militar, instalado no Galeão, no Rio de Janeiro, queria identificar o mandante do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, na rua Toneleros, dias antes. Ele denunciava abertamente desvios do governo. Gregório, o guarda-costas e chefe da guarda pessoal do presidente, com QG no próprio Catete, homem de confiança de Vargas e família, “se recusou obstinadamente a reconhecer que tinha havido alguém acima dele que deu a ordem” de eliminar o jornalista. O próprio Lacerda afirmou: “Ele se atribuiu quase tudo e já então passou a admitir, dizendo: A ideia foi minha”. O propósito era executar Lacerda.
Benjamim Vargas, o Bejo, foi intimado a depor no Inquérito, porque tinha ascendência sobre Gregório. “Pela presente, fica o sr. Benjamim Vargas intimado a comparecer ao quartel, assinado, coronel Adil de Oliveira. Benjamim, que deveria revelar o fato ao mano, no Palácio, entrou no quarto do presidente e disse: ”Getulio, estou intimado a comparecer ao Galeão para depor”. Getulio teria dito: É o fim”.
O presidente se sentiu pessoalmente atingido, como contou Lacerda. “Traído, enganado pela família; o irmão envolvido no assunto, não mais apenas o chefe da Guarda Pessoal”. Alzira, a filha predileta e sempre ouvida, confirmaria os fatos. “Bejo chegou ao quarto do irmão dizendo: “Estou aqui com um mandado de intimação para depor”, e Getulio respondeu: É o fim”, e, em seguida, deu um tiro no coração”.
O atentado contra Lacerda se deu em 5 de agosto, em Copacabana, na rua Toneleros, onde residia o jornalista. Este, após cumprir naquela noite um programa de palestra em um educandário, acompanhado pelo major Rubem Florentino Vaz, da Aeronáutica (havia em torno dele sempre um oficial daquela força para protegê-lo), desceu do carro, já passara da meia-noite, demorou para achar a chave do apartamento, vislumbrando um vulto a uns três metros de distância do automóvel.
Imediatamente, ele abriu o paletó, sacou uma arma e começou a atirar. O indivíduo, contratado para executar Lacerda, acertara o oficial. Desarmado, Vaz avançou sobre o assassino. Nada feito. Era tarde demais.
A sucessão de depoimentos na República do Galeão, como se apelidou a central das investigações, não surpreendeu Vargas, embora a nação se achasse em ebulição. “Na solidão do poder em ruínas”, Getulio não se dá por vencido, mesmo supondo que possa ser convocado a depor sobre o assassinato do major.
Na inauguração da Mannesmann, em 12 de agosto, pronuncia um discurso arrasador: “As injúrias que me lançam, as pedras que me atiram, a objurgatória, a mentira e a calúnia não conseguiram abater o meu ânimo, perturbar a minha serenidade, nem me afastar dos princípios de amor e humildade cristã por que norteio a minha vida e que me fazem esquecer os agravos e perdoar as injustiças. Por outro lado, não terei condescendência para aqueles que se fazem agentes do crime ou instrumentos de corrupção”. Adiante: “Saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbação da paz e da tranquilidade pública”.
Depois, seria 24 de agosto. Pela manhã, no Catete, Vargas se mata com um tiro de revólver calibre 32, cabo de madrepérola. O coração para.


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Por Manoel Hygino - 23/6/2020 08:09:35
As prescrições perigosas

Manoel Hygino

Interesses, muitas vezes, escusos levam pessoas a adotar determinada posição em torno de algum acontecimento ou episódio, de uma autoridade ou de alguma coisa. O que se tem visto, repetidamente, nestes dias de dúvidas, dores e angústias com a Pandemia do coronavírus, de alto desemprego, de precipitadas atitudes políticas. Quando o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta anunciou uma série de medidas para combater o mal ainda tão mal conhecido, foi um Deus nos acuda.
Permanecer em casa enquanto é tão bom ir às ruas, e às festas, andar de bicicleta, passear, adquirir um bronzeado na praia ou na piscina, assemelha-se a uma séria ofensa ao cidadão moderno e saudável. Sobretudo entre nós, que gostamos de esportes, de praticá-los, de ir ao futebol, pareceria um ultraje à orientação oficial. No entanto, vemos que agiram os gestores de Saúde como deviam, evitando males maiores. Mas, há gentes – uso plural – que persistem em suas decisões, contrariando o que a autoridade competente propõe. São aqueles que assim agem para aparecer, em grande parte, para se promover, como no caso famoso do uso da cloroquina proposto para combater a Covid-19. Como o infalível presidente dos Estados Unidos afirmara que o produto era indicado e eficaz, outros chefes de governo o seguiram, e não é preciso acrescentar que o Brasil foi atrás, a despeito de pareceres contrários de organizações credenciadas e profissionais de notório saber. Aconteceu com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cuja posição científica séria foi criticada por Trump.
O atual ocupante da Casa Branca deu o exemplo: já estava tomando a cloroquina, embora todas as advertências. Até que chegou a público conhecimento o julgamento da Food and Drugs Administration, a poderosa agência que expressa a palavra final e oficial sobre assuntos dessa natureza.
O respectivo documento é claro e objetivo: “Estudos recentes apontam que não há diferença e eficiência no uso do medicamento contra o Sars-CoV-2; a agência diz acreditar que as dosagens para hidroxicloroquina não têm efeito antiviral; diretrizes médicas dos EUA não recomendam o tratamento com as substâncias e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos Unidos (NIH) não defende o uso fora de pesquisas.
Desmente-se, assim, o ditado popular de que “aonde vai a vaca, o boi vai atrás”. Principalmente, quando se trata de saúde e vida do ser humano. Ainda bem que não houve, ao que se sabe, até agora, consequências mais perversas, de que também padeceria Trump. Se bem que ele mesmo declarou que, com o uso do medicamento, não se sente melhor, tampouco pior.
Mas fiquemos atentos: “Já foram reportados à OMS mais de 7,8 milhões de casos da Covid-19, com mais de 430 mil mortes atribuídas a ela. Levou mais de dois meses para os primeiros 100 mil casos serem reportados. Nas últimas duas semanas, mais de 100 mil casos foram reportados quase todo dia”.



84851
Por Manoel Hygino - 22/6/2020 08:36:12
Os reis magos

Manoel Hygino

O Rio Grande do Norte, que atravessa um dos períodos mais dramáticos de sua história com a Covid-19, pela falta de adequadas condições para atender a sua população, me vem à cabeça, porque – pelo Natal de 2018 – o escritor Franklin Jorge me enviou uma joia. Trata-se de “Actas Diurnas”, bela edição do Novo Jornal em parceria com Ludovicus Instituto Câmara Cascudo, contendo crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Pois a terceira crônica do memorialista potiguar chama especialmente a atenção dos brasileiros, até há algum tempo muito interessados nas lições da religião que os lusitanos para cá trouxeram. Informa que, dos quatro evangelistas, apenas Mateus toca no assunto (II, 1-12), enquanto Lucas, Marcos e João silenciam.
E registrou parcamente, no capítulo II, versículo I: Ecce Magi ab Oriente Venerunt Jerosolyman – isso é, “uns magos vieram do Oriente a Jerusalém”. Não acrescenta quem eram os visitantes, quais os nomes, o que foram ali fazer. Tudo o que mais se sabe foi obra do folclore, da cultura popular; até os visitantes procedentes do Oriente adquiriram feições próprias, nomes, o que eram, frutos da devoção do mundo católico.
A visita de personagens reais ao Messias fora profetizada nos Salmos de Davi e Salomão e em Isaías. Mas os cristãos simpatizaram com aqueles senhores que tinham vindo de tão longe procurando o Rei dos Judeus, guiados por uma estrela milagrosa. Nunca mais foram vistos na vida de Jesus. Consta que São Tomé ainda os encontrou velhinhos, em algum lugar não sabido, e os teria abençoado. Quem disse, onde, quando? Mortos, seus corpos ficaram na Pérsia, e Helena, mãe do Imperador Constantino, levou-os para Constantinopla, por ele fundada.
Emest Hello, em “Physionomies dos Saints”, informa que “Sainte Helenne les fit deposer avec magnificence dans la Brasilique de Sainte Sophie”. Mas a comparação das datas revela incongruências. Santa Helena faleceu em Roma, no ano 327, enquanto a Basílica foi construída em torno de 531 e inaugurada em 537, no reinado de Justiniano. Desse modo, o templo não existia na época da santa.
Consta, ainda, que o bispo Eustaquilo teria levado as relíquias para Milão, séculos depois. Em 1162, o imperador Frederico Barbaroxa destruiu a cidade e os três magos foram transportados para Colônia, na Alemanha, onde devem permanecer.
Cascudo observa que a palavra “mago” quer dizer sábio, doutor, sabedor. Assim os três magos eram tidos, Maggi, como os considerou Mateus, uns sábios. Mas existe na igreja de São Vital, em Ravena, Itália, um mosaico dos Reis Magos, com coroa real e nomes. Data do século VII, constando a sigla SCS, Santos. O Rei Negro é o último, que fica perto do Deus Menino.


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Por Manoel Hygino - 17/6/2020 08:13:12
Racismo, zero

Manoel Hygino

O Brasil está atento aos acontecimentos nos Estados Unidos, após o sepultamento do ex-segurança negro, morto por um policial branco em Minneapolis, há meio mês. O ignóbil assassinato não encerra o processo e o problema, que sensibilizou todas as nações e impôs manifestações condenatórias de suas maiores lideranças. O episódio de agora, e os protestos que desencadeou nas grandes cidades dos EUA, renovou as lembranças da morte de Martin Luther King, em 1968, o mais simbólico dos defensores dos direitos dos negros no país.
Mas deve-se meditar sobre a observação de Angela Merkel, chefe do governo alemão: “O racismo sempre existiu. É, infelizmente, também o caso aqui”, referindo-se à sua pátria. Na realidade, o problema tem muito maior amplitude e alcança também o Brasil, habitado grandemente por afrodescendentes, conterrâneos que deram essencial contribuição à construção nacional.
Os nossos meios de comunicação divulgaram, à suficiência, os episódios alusivos à morte de Floyd e as tevês destinaram-lhe espaço específico. Mas não se pode ficar apenas nisso. É imprescindível mudar a mentalidade das pessoas, que tem raízes no próprio processo de colonização. Há, sim, racismo entre nós, com preconceitos que se revelam em muitas ocasiões, às vezes, com ampla repercussão e registros policiais.
É coisa que vem de longe, como aponta Darcy Ribeiro, lembrando que o Brasil e as demais nações latino-americanas enriqueceram secularmente as metrópoles, mediante extração de bens, que representaram “o desgaste de milhões de escravos”. Os episódios registrados na mais poderosa nação do mundo demonstraram, à suficiência, que não basta riqueza. Para viver bem, as populações têm de fazer parte de uma comunidade, efetivamente, de uma nacionalidade. Não somos governados e governantes, pois o povo não se sente um mero pagador de tributos e responsável somente por deveres.
Os regimes políticos passam, transformam-se, as instituições sociais desaparecem, e outras surgem substituindo-as, mas a nação permanece, um aparelho social cuidadosamente constituído, perfeitamente delimitado, meticulosamente regulado. Está à frente do Estado um povo que quer fazer sentir e prevalecer seus anseios e mais caros ideais. O povo, dono do poder, não é formado só por brancos, porque todos somos parte da nacionalidade. Não há espaço para racismo. Isso já era. A raça é a humana.


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Por Manoel Hygino - 16/6/2020 08:30:24
Além do vírus

Manoel Hygino

Neste nosso tempo, algo invisível assusta o mundo, produzindo uma pandemia, enquanto cientistas buscam identificar exatamente o que é e como eliminar a “coisa” que ora infecta e mata muitos milhares de pessoas. Assim, não traria novidade o romance “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector. A obra da escritora ucraniana que viveu no Brasil até partir é consentânea com esta hora e suas circunstâncias.
A psicóloga e escritora, que reside em Brasília, Vera Lúcia de Oliveira, de reconhecido prestígio e notório saber, fez palestra na Associação Nacional dos Escritores e marcou uma noite na capital da República. O romance conta o caso de uma mulher, escultora, sem marido e filhos, que vive em apartamento de cobertura no Rio de Janeiro. Sua empregada se demite e ela se sente à vontade para percorrer aquilo que lhe pertence.
Visitando o ex-quarto de Janair, verifica que tudo está em ordem, limpo, mas se espanta com um desenho a carvão de um homem, uma mulher e um cão. As figuras fazem pensar em múmias que vêm de outro tempo. Percebe que há energia no desenho e um sentimento de ódio, “uma espécie de ódio isento, o pior ódio”, de alguém socialmente invisível, “mas que seria o da antiga empregada”.
Aquela negra-rainha africana parecia estar ali para julgá-la. “O quarto divergia tanto do resto do apartamento. Para entrar nele era como se antes tivesse saído de minha casa e batido a porta, “oposto do que eu criara em minha casa, o oposto da suave beleza que resultara de meu talento de arrumar, de meu talento de viver, o oposto de minha ironia serena, de minha doce e isenta ironia.
G. H., a protagonista, sente uma cólera inexplicável e resolve lavar o quarto, jogando baldes e baldes de água para afogá-lo; “eu queria matar alguma coisa ali”. Entrei no quarto-caverna, onde o único ruído residia na “ressonância do silêncio roçando o silêncio”, “um silêncio acumulado de séculos”, “silêncio que é a respiração contínua que ouvimos do mundo”. G. H. sente os primeiros sinais do desabamento nela de “cavernas subterrâneas que ruíam” sob o peso de camadas arqueológicas estratificadas.
Percebeu precisar de alguém que entendesse o que acontecia. Quedou-se na análise do desenho e, ao abrir a porta do guarda-roupa, sofre um susto enorme ao defrontar-se com uma barata – grande e supostamente velha. Horrorizada, já que tanto temia baratas, regressa ao tempo imemorável da formação da vida na Terra, quando todos os seres ganhavam sua primeira forma.
Sente no mais íntimo de si mesma: “Uma barata tão velha que era imemorial”. (...) elas já estavam na Terra, e iguais à de hoje, antes mesmo que tivessem aparecido o primeiro dos dinossauros; saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e vivas, saber que elas testemunharam a formação das grandes jazidas de petróleo e carvão no mundo, e lá estavam durante o grande avanço, e depois durante o grande recuo das geleiras ‘há trezentos e cinquenta milhões de anos se repetiam sem se transformarem”. E era só uma barata!


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Por Manoel Hygino - 13/6/2020 08:03:13
Sob o céu de BH

Manoel Hygino

Como presente de aniversário, recebi o exemplar de “Sob o céu de Belo Horizonte”, em cujas quase 250 páginas, Pedro Rogério Couto Moreira conta fragmentos da vida da capital, principalmente nos anos 40, 50 e 60 do século que ficou para trás.
Trata-se de obra cuja leitura não se deve nem se pode adiar, por muitos e justificáveis motivos. Editada pela Thesaurus (que sabe prestigiar os bons autores), aguarda o término desta terrível pandemia de coronavírus em 2020 para lançamento oficial.
Estou certo de que o adiamento será precioso incentivo no interesse do leitor pelo conteúdo, e pelo especial sabor que imprime Pedro Rogério a seus escritos. Liminarmente, diria tratar-se de uma descrição bem-humorada dos seus 21 anos de vida na amorável casa do pai, saudoso escritor Vivaldi Moreira, no número 600 da rua Professor Morais, antiga Paraibuna, a do Canal, no Funcionários. A residência não existe mais, nem nenhuma outra no trecho, pois cederam lugar a luxuoso hotel. Mas ficaram, felizmente, as lembranças daquela época, do local, da vizinhança e tantos outros etcéteras. São eles exatamente que dão calor ao livro, acrescentando recordações e informações.
Filho de sábio escritor e incomparável leitor, o confrade acadêmico na AML alimentou-se certamente na farta biblioteca do pai. Teve muita sorte. Assim, leu, além de muitas preciosidades outras, “A Capital”, de Avelino Fóscolo (emprestei meu exemplar, não devolvido); “O Cabo das Tormentas”, de Eduardo Frieiro; “João Ternura”, de Aníbal Machado; “Meu Fabulário Infantil”, de Euryalo Cannabrava; “Baú de Ossos”, de Pedro Nava; “Serra do Curral”, de Sylvio Miraglia; “Memórias de um Chauffer de Praça”, de Moacyr Andrade; além dos mais recentes, como “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino; “Hilda Furacão”, de Roberto Drumond; “Prisioneiro do Círculo”, de Ricardo Gontijo; e “Juventude, Juventude”, de Odin Andrade, além de recorrer a suas próprias reminiscências e muitos mais bons autores.
Mas não se pode deixar de realçar a importância que Pedro Rogério dá a “O amanuense Elmiro”, de Cyro dos Anjos, nascido em Montes Claros, e colaborador precioso de Benedito Valadares, governador. Mas o tom de “Sob o céu” é o da capital desde o seu primórdio, dos bons autores mencionados, que souberam amar Belo Horizonte e em Belo Horizonte. Porque o verbo é conjugado em todos os modos e tempos.
A numerosa gente que veio para cá para construir a cidade merece carinho, como a de procedência italiana, a comunidade católica, os adeptos do futebol, os fundadores dos clubes sociais, os empresários, como o judeu que instalou a Casa Arthur Haas, onde se encontra até hoje, ou a Salles, de Armas, na São Paulo com Caetés. Mas se recorda o Cine Grátis, o Maria das Tranças, o restaurante térreo do Automóvel Clube com Pedro Aleixo e Milton Campos na chegada da noite, a Pampulha e a gafieira Elite, o Cine Glória, enfim, a cidade inteira – dos céus e da terra, com fatos e acontecimentos. Juscelino, Milton, Djalma Andrade, festas e suicídios, as reuniões dos rapazes na Mansão Vivacqua, a que compareciam Drumond, o de Itabira, Milton Campos, e toda a flor das artes, das letras e do pensamento. Pedro conhece as coisas e sabe contá-las.


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Por Manoel Hygino - 10/6/2020 11:31:27
NOITE DE CRISTAL

Manoel Hygino

Os recentes acontecimentos no Brasil, em especial na capital federal, no âmbito político-jurídico-militar, trouxeram à tona a famigerada Noite de Cristal, na Alemanha de Hitler. Havia uma perigosa onda de anti-semitismo com o país varrido por perseguições aos judeus. Registrou-se a destruição de sinagogas em Munique, Nuremberg e Dortmund. Em Berlim, proliferavam insultos e dísticos injuriosos. Tudo partia de um grupo organizado – os homens do SA, que expunham em todos os lugares desenhos de judeus degolados, torturados, feridos, juntamente com inscrições obscenas. Ademais, janelas quebradas e restos da pilhagem das lojas de judeus nas ruas e sarjetas. Popularizou-se o protesto das vítimas: “ser judeu não constitui crime”.
De quem partira a ordem? De Goebbels, tudo levava a crer. Ou teria partido do próprio Hitler? Himmler, dirigindo-se aos generais do SS, atacara violentamente os judeus. Os judeus estavam decididos a destruir a Alemanha e deveriam ser expulsos do país, “com uma impiedade sem exemplo”. “Se a Alemanha não triunfasse nesse combate de morte, não haverá um só teto sob o qual um teuto encontre abrigo; todos perecerão de fome ou serão massacrados”.
A Alemanha se preparava para a segunda grande guerra e não encontraria mais apoio de outras nações. A Noite de Cristal, quando grupos de população impelidos pelas liderança do Reiche, com conhecimento de Hitler, arruinaram os bens de propriedade dos judeus, incrementou o sentimento de o conflito ser irremediável.
O historiador John Toland considera que as lideranças, a começar de Hitler, admitiam aquelas manifestações e tudo que resultou na Noite de Cristal, procurando que a comunidade internacional conhecesse os fatos. O auxiliar mais importante de Himmler, Heydrich enviou mensagens urgentes a todos os quartéis e postos do SD-Serviço de Segurança e da Polícia, concitando-os a cooperar com os líderes do Partido e da SS, “para organizar manifestações”. Judeus, principalmente os ricos, deveriam ser presos, quanto fosse possível alojar nas cadeias existentes, para depois serem encaminhados a campos de concentração.
O historiador comentou: “Foi uma noite terrível, uma noite de desespero que os judeus conheceram na Alemanha, enquanto a Polícia testemunhava, de braços cruzados, a destruição e as violências físicas impostas às pessoas”.
Segundo dados oficiais, foram arruinadas 814 lojas, 171 residências particulares, 191 sinagogas incendiadas, 39 homens assassinados e outros 36 gravemente feridos. O próprio Heydrich, contudo, admitiu que os números reais dos acidentes, mortes e incêndios “deveriam ter sido consideravelmente superiores”. O nome Noite de Cristal lembrava o grande número de vidraças partidas. Em todo mundo, a Alemanha foi classificada como país de bárbaros. Contra aquele estado de coisas, temendo que chegasse ao Brasil, manifestou-se o decano do STF, Celso de Mello, em mensagem reservada, já de conhecimento geral.


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Por Manoel Hygino - 8/6/2020 16:16:03
O JUDICIÁRIO EXISTE

Manoel Hygino

Quando os políticos e determinadas autoridades debatem e se enfrentam sem chegarem a uma conclusão necessária aos interesses da sociedade, costumam atribuir os maus resultados de seus projetos à Imprensa. Imprensa que existe para publicar informações, obedecida a legislação pertinente e consentânea com os princípios éticos da atividade e do exercício da profissão de jornalista.
É, assim.
Vê-se que, no entanto, para serem bem sucedidos em propósitos e projetos, pessoas invadem reiteradamente áreas a que não estão habilitadas e nelas passam a atuar, apelando para novas ferramentas de comunicação, como ora acontece, prejudicando abusivamente a verdadeira Imprensa. O que se poderia considerar estratégia marxista de prostituir o vocabulário, de deformar a realidade e mentir, como antes se observava nas ações do MST e na violência black bloc, parece mudar de mãos. E o povo do Brasil, que quer pelo menos tranquilidade para sobreviver e produzir, queda indeciso sobre aprovação a este ou aquele candidato ou autoridade, enquanto os problemas, ora avultados com a crise sanitária de dimensões jamais sofridas, permanecem e ganham vulto.
Os fatos do último final de semana se repetiram nas capitais do país, sobretudo na Federal, que sequer pudera comemorar este ano o seu sexagésimo aniversário. Mutatis mutandis, poder-se-ia repetir aqui o que Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra e membro do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, afirmara em 2014: “E nós, jornalistas, corremos o risco de sucumbir a esse gingado e à instrumentalização semântica”.
Indivíduos, por motivos sabidos ou ainda não identificados, obstruem as vias públicas em manifestações, formam-se em frente a prédios públicos, atacam indefesos integrantes de equipes de saúde, agridem jornalistas (fatos já de amplo conhecimento), passando-se por “ativistas” e “militantes”.
Di Fraco resumiu: “Nosso papel é informar. Nossa missão é rasgar a embalagem e mostrar a realidade”. Todos os deslizes e abusos precisam ser esclarecidos, principalmente se já considerados crimes. E há numerosos que precisam ser investigados e, concluídas as investigações, se houver culpados, levados à barra dos tribunais.
Porque o que a Imprensa, os jornalistas em sua predominância pretendem é que se cumpra a Constituição, porque o decrépito direito divino dos reis foi substituído pela soberania popular. Convém ainda lembrar: “O Poder Judiciário, no desempenho da jurisdição, exerce agora uma parcela do poder político, conforme o magistrado francês Antonie Garapon, o controle crescente da Justiça sobre a vida coletiva é um dos maiores fatos políticos contemporâneos”. “A judicialização na vida social no Brasil tomou ritmo assustador. Tornou-se o poder público incapaz de resolver, sem recorrer ao Poder Judiciário, conflitos de múltipla natureza”. Merece, pois, como a Imprensa, ser respeitado, para que se deixe o brasileiro viver em paz.


84789
Por Manoel Hygino - 30/5/2020 08:06:39
Vinte anos de esforços

Manoel Hygino

No ano findo, a Santa Casa de Belo Horizonte, em maio, comemorou os seus 120 anos de fundação, correspondente também aos 450 da Santa Casa de Macau, incrustada hoje em território da China, nosso maior parceiro comercial, dirão os entendidos. Neste mês, além de registrar mais um aniversário da benemérita instituição mineira, criada em 21 de maio de 1899, considerei justo lembrar o fato.

É que, em 30 deste quinto mês de 2020, completam-se os vinte anos de posse de Saulo Levindo Coelho como provedor, o mais alto cargo da entidade. É época que, pelas circunstâncias impostas pela calamidade do coronavírus que se abate sobre a comunidade mundial, não é própria para festa. Há milhões sofrendo e morrendo nesta hora. Precisamos ser humanos e solidários.

Mas não se poderia deixar que passasse em branco a data, e esta é uma razão para o registro. Estar à frente de uma instituição, cujas raízes remontam acima de quinhentos anos, é uma honra, sim, mas de extrema responsabilidade, e a palavra “misericórdia” explica o suficiente.

Vivemos num país continental, como se proclama orgulhosamente, mas com extensas parcelas da população em pobreza, em todas as regiões, nas áreas rurais ou nos grandes centros. Gente humilde, sem formação educativa ou profissional, sem ter onde morar, como e onde trabalhar para viver dignamente, como merecem todas as pessoas de boa vontade e honestas.

Esta gente historicamente não encontrou onde tratar da saúde, daí a fundação da Santa Casa aqui, como em Portugal. O Sistema Único de Saúde, criado no Brasil há 30 anos, veio preencher um vazio, e já presta significativa colaboração/dever do poder público. É um esforço meritório, em que as filantrópicas colaboram eficientemente. São responsáveis por oferecer à saúde mais de 50 % do número total de leitos da rede pública. Não é pouca coisa, pois.

Saulo, o provedor, em duas décadas, disse a que veio, numa gestão que lembraria ilustres provedores, como José Maria de Alkmin, que ficou mais de 30 anos à frente da instituição. Outros deram também esplêndida ajuda, escondidos os nomes talvez na grandeza construída neste mais de século. Agora, além de tudo o que se vê e se sabe, há um centro de transplantes que é líder hospitalar na atividade, o Ensino e Pesquisa-Instituto, o Centro de Especialidades Médicas e, mais recentemente, a Faculdade Santa Casa. Ampliou o seu pioneiro CTI Infantil para atender a cirurgias cardíacas pediátricas demandadas no país, segue um intenso programa de obras e de dinamização e otimização de serviços, prevendo-se para logo a inauguração do Instituto de Oncologia. Se perguntarem ao provedor pelos vinte anos de luta, talvez ele diga, como em soneto de Camões: “Mais servira, se não fosse para tão nobre causa , tão curta a vida”.



84779
Por Manoel Hygino - 27/5/2020 07:59:56
Devagar com o andor

Manoel Hygino

A liberação de gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril despertou mais do que curiosidade ou simples interesse: em verdade, uma ansiosa expectativa. O que seria natural, diante da polêmica e celeuma estabelecidas em torno das declarações do ex-ministro Sérgio Moro sobre a pretendida intervenção, ou não, do presidente da República na Polícia Federal.

Muito ainda resultará do conteúdo da reunião e de sua divulgação, que envolve interesses políticos múltiplos. Mas, chamará a atenção de toda a nação o baixo nível de intervenções de participantes do encontro, considerando o seu nível e representatividade. O brasileiro perguntará: é assim em tão alto escalão da República? Viu-se baixar, na sede do governo nacional, em momento de especial cuidado, o que se poderia até classificar de torpe linguajar dos segmentos baixos da sociedade. É fenômeno social e ético, que fere o decoro e o respeito que as pessoas se devem. No entanto, de nada vale asseio de forma sem limpeza de fundo, como ensinava um velho professor da língua.

Torna-se, a cada dia, mais difícil entender a maneira como sobrevive o país, com manchas e contra-manchas, afirmações e desmentidos, encontros e desencontros que, evidentemente, repercutem na sociedade. Esta atravessa período conturbado, e mais será quando desabarem as consequências da tragédia que atinge o mundo, de maior repercussão em nosso país. Ele não é o que se quer, porque estamos inchados de novos e graves problemas.

O xingatório e troca de acusações na reunião do dia 22, em Brasília, em nada contribuirá para amenizar os desafios à frente. Antes pelo contrário. O problema, por sua extensão e complexidade, pelo número de pessoas envolvidas, é extremamente perigoso para muitos. Moro, que entrou no caso por ser então ministro da Justiça, é apenas um personagem.

Atente-se que, somente há bem pouco, o empresário Antônio Marinho, que emprestava sua residência para encontro e local de gravação na campanha eleitoral está sendo inserido na questão. Certamente, terá muito a esclarecer. Não é sem razão que grande parte das investigações se concentram no Estado do Rio, domicílio eleitoral do ex-concorrente à presidência. E há os casos da vereadora executada Marielle Franco, até hoje sem solução; dos pretensos mandantes do crime, um dos quais residente no mesmo condomínio na Barra da Tijuca; o episódio da rachadinha, envolvendo salários de deputados à Alerj; o affair do miliciano homenageado pela Assembleia carioca e assassinado na Bahia. Juntando todas as peças dessas investigações, sem falar nas fake news, que aparentemente estacionaram no tempo e no espaço, haverá trabalho robusto para quem investigar e julgar.

Há muito caminho a percorrer para cumprir tão complicado itinerário. O chefe da nação tem carradas de motivos para perder as estribeiras como o fez, grosseiramente, no dia 22, que está entrando para a história. Se bem que nada justificam querelas com o Legislativo e os ataques ao Supremo Tribunal Federal.

Nem se justificam as expressões de simpatia a ditaduras, nas quais tanto já sofreram os brasileiros. Chega!


84760
Por Manoel Hygino - 21/5/2020 07:19:28
Ferindo a ordem

Manoel Hygino

Aparentemente, o chefe da nação carece de especial defesa, a julgar quantas áreas se obrigam a esse mister. Em âmbito formal, oficial, há o segmento que zela pelo presidente e seus familiares, comandado pelo general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete Institucional. É cidadão próximo a Bolsonaro, dão-se bem, convivem.

Mas, no imbróglio da substituição do diretor da Polícia Federal, que gerou o entrevero jurídico-político que se desenrola, ouviu-se que o presidente desejava pessoa mais afinada com ele, também visando coleta rica de informações e mais segurança para seus familiares e amigos. Tudo tem sido esmiuçado nos mínimos detalhes, até pela imprensa. Não é só isso que existe, contudo. As sucessivas manifestações na capital federal, mas também em São Paulo e Belo Horizonte, em que se discursa contra o Legislativo e o Judiciário, fazem pensar. Afinal, o que pretende aquela gente? Quem a sustenta? Quem paga sua locomoção e ação nos estados? Por que insistem em se reunir diante de instalações do Exército, inclusive uma em frente ao Quartel General em Brasília?

Em São Paulo, assoberbado por sua posição como maior centro de infecções e óbitos pela Covid-19, cerca de 15 indivíduos fizeram manifestação à frente do apartamento em que reside o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Protestavam contra a anulação da nomeação de Alexandre Ramagem para direção da Polícia Federal.

A reação veio através do Ministério Público de São Paulo, que denunciou dois manifestantes – Jurandir Alencar e o engenheiro Antônio Carlos Bronzeri, da Frente Brasileira Conservadora, por difamação, injúria, perturbação do sossego e ameaça à “vítima no local”. O juiz Márcio Lúcio Falavigna Sauandag, da 22ª Vara Criminal de São Paulo, aceitou a denúncia do Ministério Público e colocou ambos no banco dos réus.

Por outro lado, o Ministério Público do Distrito Federal ingressou com uma ação civil pública contra os integrantes do movimento 300 do Brasil, pró-Bolsonaro, que vem atuando em Brasília há um mês.

A ação, assinada pelos promotores Flávio Augusto Milhomem e Nísio Tostes Ribeiro Filho, pede o fim do acampamento do grupo na capital federal, a busca e apreensão e também a revista pessoal em seus integrantes, para encontrar armas de fogo em situação irregular ou cujos donos não possuam autorização legal. A líder do movimento, Sara Winter, ex-feminista convertida ao conservadorismo, reconheceu que alguns integrantes do 300 do Brasil possuíam armas de fogo. Sara, no entanto, ressaltou que as armas eram usadas apenas para a defesa dos próprios membros do acampamento, e não nas atividades de militância.

Os promotores descrevem o grupo como milícia armada e firmam que sua presença na capital federal “representa inequívoco dano à ordem e segurança públicas”. A ação também coloca Sara Winter na posição de ré.


84756
Por Manoel Hygino - 20/5/2020 08:45:58
Desde Catilina

Manoel Hygino

“Quousque tandem abutere patientia nostra? A pergunta foi feita por Cícero a Catilina, seu poderoso inimigo na velha Roma. “Até quando abusarás de nossa paciência”? Mas, sabia, certamente, o célebre orador que tinha diante de si um adversário perigoso e corajoso, embora ele próprio lembraria Carlos Lacerda, do século XX no Brasil, capaz de desafiar Getulio Vargas.

Catilina, partidário de Sila, já demonstrava sua crueldade com os que não estavam ao seu lado. Cícero fora informado de que o inimigo mandara matá-lo em sua própria casa, mas que o plano fracassara. Acusado Catilina, no Senado, pelo antagonista, tentou fugir para junto de seu Exército, escapando à Espanha. Com sucessivas decepções, resistiu perto de Pistóia com três mil homens, mas caiu com eles, após encarniçada resistência.

No Brasil de hoje, assistimos à não dissimulada guerra entre grupos poderosos, além da que já deixou mais de 120 mil combatentes, brasileiros de muitos rincões, contra o coronavírus. As batalhas que aqui se tratam envolvem riscos, muitos e reais, envolvendo litigantes que não se afinam.

A Imprensa do país entrou em meio às batalhas, como sempre acontece aqui e alhures, em todos os tempos. Através dela, a sociedade conhece (?) a evolução dos fatos, com versões diversas, de acordo com os interesses dos grupos, esquecida reiteradamente a verdade.

E o coronavírus segue sua marcha inexorável eliminando vidas ou deixando-as trancadas. Num cerco ainda mais cruel, agrava-se a situação econômico-financeira nacional, reduzem-se duramente as atividades produtivas, fecham-se portas da indústria e do comércio, avulta o número de desempregados, enquanto a fome e as enfermidades (se pouco maligna a pandemia) ganham terreno em todas as regiões. Para onde estamos indo? Até quando suportará a população a angústia? O prestigiado jornalista Luiz Carlos Azedo se manifesta: “Aqui no Brasil, diante da maior crise sanitária que o país enfrenta, desde a epidemia de gripe espanhola de 1918, e de uma recessão que cavalga a pandemia, nossas instituições estão funcionando”.

No entanto, os resultados práticos são pouco proveitosos. E os jornalistas tentam descobrir mistérios, guardados a sete chaves, sem conseguirem desvendá-los. Por que? Há algo de espúrio, ilegal ou podre? O ministro do STF, seu decano, quase às vésperas de deixar o alto cargo, Celso de Mello, expõe seu ponto de vista. “Na realidade, os estatutos do poder, numa República fundada em bases democráticas, não podem privilegiar o mistério, porque a supressão do regime visível de governo – que tem na transparência a condição de legitimidade de seus próprios atos – sempre coincide com os tempos sombrios em que declinam as liberdades e transgridem-se os direitos dos cidadãos”. Quem é ou são os Catilinas nesta hora tão delicada da história brasileira?


84753
Por Manoel Hygino - 19/5/2020 08:13:29
Uma hora preocupante

Manoel Hygino

O presidente da República declarou, há dias, que é Messias (parte de seu nome), mas não faz milagres. Não demorou senão mais dias para classificar seu ex-ministro da Justiça de “Judas”.

E daí?

O Judas, da história religiosa, era um dos apóstolos de Cristo – e não o único com esse nome –, traiu o Mestre e entregou-o ao Sinédrio, que não pôde executá-lo, porque a atribuição lhe fora subtraída pelos romanos. Houve aquilo que já se sabe, está também no Novo Testamento. O ritual de condenação passeia entre romanos e judeus, bem como nos meandros da Justiça brasileira. A Justiça tem de ser cuidadosa para não cometer injustiça. Pedro Rogério Moreira, confrade na Academia Mineira de Letras, em livro atraente e útil sobre as curiosidades da Bíblia, evoca os fatos. Executando Jesus no Gólgota, Judas sentiu-se arrependido e envergonhado e, na mesma madrugada, dirigiu-se ao Templo para devolver o dinheiro. Os sacerdotes, porém, considerando o dinheiro espúrio, não quiseram recebê-lo. Judas, mais uma vez, humilhado, apanhou as trinta moedas de prata e atirou-as no altar.

Por aqui, o Messias não consegue livrar-se de imputações que lhe fazem e o Sinédrio de cá (que não é religioso) manda abrir sindicância para esclarecer investigações sobre faltas que teria cometido e tornadas públicas. Momento de crise aqui, como o foi há mais de 2.000 anos no outro lado do mapa.

O dinheiro não recebido no Templo, em Jerusalém, segundo algumas versões, foi usado para comprar o terreno do Campo do Oleiro, a fim de lá se instalar um cemitério para estrangeiros. A área passou depois a ser chamada de Campo de Sangue, conforme os “Atos dos Apóstolos”, por um desses motivos: pela procedência maldita do dinheiro utilizado para adquiri-lo, ou por ter ocorrido nele a morte de Judas, o que pode ser objeto de próximo comentário.

Não resta dúvida, contudo, de que – tanto para o atual Messias ou para o acoimado Judas – resta um longo caminho a percorrer, com indesviáveis aborrecimentos, seguidos passo a passo pela Imprensa; que não dá folga ou se atrasa, visando cumprir sua missão. Simultaneamente, todo o aparato político estará atento, porque interesses múltiplos existem, desde os mais importantes para a vida e os destinos nacionais, mas também os mais mesquinhos.

Enquanto isso acontece, a população suporta o distanciamento social, porque sabe que ele é fundamental para enfrentar o invisível e ardiloso novo coronavírus, personagem central dos noticiários de televisão, rádios e jornais, enquanto as autoridades da área de Saúde se esforçam para vencer o adversário perigosíssimo.

As vias públicas, urbanas ou as rodovias sentem a redução de veículos, o comércio e a indústria reclamam; a dispensa de empregados no trabalho cresce e inquieta. E o pior, há gente, muita gente, vivendo miseravelmente. Esperando milagre, talvez.

E daí?


84738
Por Manoel Hygino - 13/5/2020 16:14:30
Wenceslau e a outra crise

Manoel Hygino

Em declarações a jornal da capital, o promotor de Justiça e reconhecido pesquisador Marcos Paulo de Souza Miranda, lembra que “Minas Gerais”, em seus mais de 300 anos, enfrentou situações tão ou mais difíceis que a do coronavírus. Superou todas, mesmo em época de incipientes conhecimentos epidemiológicos.
Presidente da República na segunda década do século passado, o mineiro Wenceslau Braz, nascido em Itajubá, teve de enfrentar os problemas decorrentes da primeira guerra mundial, não apenas no campo das finanças públicas, combalidas, e que repercutiram em toda a administração.
Darcy Bessone, em livro memorável em 1968, pela Imprensa Oficial, exaltou o trabalho de Wenceslau, que recolheu o espólio da massa falida que recebeu para, através de uma política financeira sensata, ver seus esforços recompensados quando a Casa Rotschild atestou que nunca as finanças do Brasil estiveram tão florescentes.
Pois, no próprio livro, o reconhecido membro da magistratura (em início de carreira como juiz de Direito em Montes Claros) demonstra a importância de Wenceslau para o Brasil, fazendo-o para governar Minas.
Bessone evoca: “Nos últimos dias de governo, o presidente se viu em face de uma calamidade. A influenza, trazida pelos primeiros navios chegados após o término da guerra, apanhou de surpresa tanto as autoridades como a população carioca, podendo alastrar-se, assim, veloz e facilmente. Não havia meios nem tempo para debelá-la antes que produzisse os terríveis efeitos que suscito”.
Paciente como todo bom pescador, Wenceslau Braz não se intimidou: “O presidente fez quanto pôde: substituiu o diretor da Saúde Pública, suspendeu o expediente nas repartições e escolas, improvisou hospitais, enfermarias e postos de assistência, providenciou socorros e alimentos”.
Mutatis mutandis, não é o que ora se faz? “Adotando as únicas medidas possíveis, então, ainda encontrou tempo para visitar, diariamente, com a esposa, hospitais e cemitérios, expondo-se altruisticamente no contágio, sempre no propósito de identificar e promover as providências que porventura pudessem reduzir as dimensões da hecatombe. Emocionou-se a gente carioca com o desvelo de um chefe de Estado que, mesmo nos últimos momentos de seu mandato, revelava tão apurado senso de responsabilidade, tão generosa sensibilidade humana”.
O jornal “O Imparcial”, que circulava na capital federal, comentou: “O Sr. Dr. Wenceslau Braz não ignora que o povo do Rio de Janeiro é incapaz de dissimulações. A sua opinião sobre os homens do governo é manifestada francamente, desassombradamente, quaisquer que sejam as providências tomadas para evitá-la. Se o povo o tem saudado carinhosamente, sempre que o encontra, isso quer dizer, de modo positivo, que está satisfeito com a direção dos negócios públicos e que sua honestidade, a sua lisura, a sua ponderação têm tocado de perto o coração popular”.


84711
Por Manoel Hygino - 5/5/2020 08:05:04
O essencial do "não"

Manoel Hygino

Passados oitenta anos do início da II Grande Guerra, ainda restam perguntas a fazer e considerações a tecer. Em última análise, transcorrido todo este tempo, o conflito ainda influencia este século XXI, começado há 20 anos.
Não sem razão a rendição do marechal Petain é objeto de discussão, assim como a inesperada atitude de De Gaulle, que fugiu de sua pátria para, em outro país, organizar a resistência para retomar à França ocupada. Oito décadas depois, ambos são julgados pela História, não simplesmente pela opinião e posição de seus compatriotas.
Entrou no julgamento um tertius, que – do outro lado do canal da Mancha – teria a incumbência perigosa de decidir de que lado estaria a Inglaterra na sangrenta luta que começaria. Refiro-me a Churchill, evocado pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, ao receber o diploma profissional em maio de 2011, pela Universidade de Brasília.
Já amplamente reconhecido pela sua atuação na Imprensa, Luiz Cláudio afirmou que o “foco preferencial do jornalismo são as pessoas que dizem “não”, as pessoas que têm a coragem de dizer “não”, a coragem de enfrentar desafios, de contrariar interesses, de rebater dogmas, de fazer as perguntas mais impertinentes, mais absurdas e desnecessárias. A Winston Churchill, que faleceria 25 anos após, coube a missão de dizer não em hora essencial à vida da humanidade.
O homenageado, em seu discurso, afirmou: “Conservador, reacionário, imperialista, rabugento, desbocado, teimoso, beberrão e fumante compulsivo, Winston Churchill foi grandioso nas atitudes inspiradoras, insuperável na elegância da melhor prosa inglesa, imbatível na fina ironia e invencível na determinação de enfrentar a mais assustadora ameaça do século 20: Hitler e sua ideologia totalitária.
Seu granítico “não” salvou a humanidade da submissão ao nazismo. Em cinco dias decisivos de maio de 1940, entre a sexta-feira, 24, e a terça-feira, 28, a Grã-Bretanha estava assombrada pela rendição inesperada da França e o virtual esmagamento das tropas inglesas em Dunquerque. Churchill estava virtualmente só, inclusive, dentro do gabinete, procurava uma saída para o armistício com o III Reich.
Opondo-se a Lorde Halifax, o ministro das Relações Exteriores que apoiava a política do apaziguamento com Hitler desde Munich, o primeiro-ministro mudou a história ao dizer ‘não” à paz em separado. Se tivesse cedido, a Inglaterra teria saído da guerra e o nazismo triunfaria para sempre, com seus aliados da Itália e Japão.”
Embora estejamos em democracia plena, em estado democrático de Direito, boa parte dos cidadãos que podem e devem manifestar-se sobre determinado assunto ou pessoa não têm a necessária disposição ou coragem de exprimir-se. Predominam as conversas de bastidores, as críticas veladas, que não contribuem para solução conveniente e eficaz. Há medo, o que é terrível numa hora como a que vivemos, em que o mundo vislumbra economia difícil em meio ao sofrimento maior para ponderáveis segmentos da humanidade.
Em resumo, não é só o novo coronavírus que nos atenta.


84703
Por Manoel Hygino - 2/5/2020 10:47:14
A ajuda emergencial

Manoel Hygino

Preocupava-me assistir pelas televisões as imagens diárias dos candidatos ao recebimento do Auxílio Emergencial do governo, apertando-se, as pessoas se empurrando à porta dos estabelecimentos oficiais de crédito. Não se importavam os candidatos à ajuda com as distâncias mínimas previstas pelo projeto de distanciamento social estabelecido pelas autoridades, a fim de evitar a disseminação do novo vírus, introduzido nos costumes de quase todas as nações neste princípio de século.
Homens e mulheres de todas as idades, geralmente com roupas surradas, resultado do longo uso por falta de substituição, desalinhados, inquietos, desgrenhados, na maioria das vezes, manifestavam seu descontentamento pela longa, e ainda incompleta espera, para encerrar a negociação anunciada por Brasília com tanta ênfase.
Sabe essa gente humilde, como a classificou Chico Buarque, que a liberação do dinheiro não se faria com a velocidade e presteza aguardadas pelos gestores dos recursos públicos da nação. Nada é fácil, num país sempre difícil, e quando o Banco Mundial prevê uma redução superior a 5% no PIB de 2020.
Em cada brasileiro na ilusória fila, muitas pessoas que se ergueram da cama nas primeiras horas do dia, para chegar mais cedo à porta das agências bancárias, a despeito do aviso prévio de existir uma nova ordem a ser obedecida, novos critérios para, finalmente, ter as cédulas do Tesouro à mão.
Mas esses patrícios, de muitos estados e numerosos municípios, foram demitidos, mas seus salários já eram destinados a cobrir despesas escolares, despesas domésticas impostergáveis, - o aluguel, a lista de armazém, medicamentos, tributos, a conta de luz e água, e que mais?
Disse uma: “Com meu trabalho, estava conseguindo pagar minhas contas, pagar o aluguel. Desde quando fui deligada da empresa, as coisas ficaram bem apertadas. Moro com uma amiga e com esse dinheiro eu vou conseguir ajudar a pagar o aluguel, vou conseguir colocar comida dentro de casa e pagar algumas contas que não são tão caras, mas, como estamos ficando em casa, devem aumentar”, explica Stéfane, que conta ter conseguido negociar o valor do aluguel, que passou de R$ 875 para R$ 600, com a proprietária do imóvel”.
Milhões de brasileiros já receberam o quinhão de R$ 600, que tanto representou em assunto para a mídia. Ainda muitos não puseram o dinheiro no bolso, que pouco equivale em bens. Daqui a pouco, ele se terá esgotado e, do jeito que a coisa anda, isto é, sem perspectivas de conseguir um novo local de trabalho, tudo se desvanecerá. A situação é muito triste, e muitas lágrimas de dor e de revolta serão vistas nos olhos dos de baixa ou nenhuma renda. Ter-se-á de quitar as elevadas dívidas, incalculáveis, com a pertinácia do vírus – que aniquila vidas e esperanças.
Leio no jornal de hoje:
“Vou comprar arroz e feijão para a minha casa e pagar meu aluguel. Vou comprar comida porque já está acabando. Lá em casa a gente está na última lata de óleo, e se essa quarentena continuar, vai só piorar a minha situação”.


84692
Por Manoel Hygino - 28/4/2020 16:36:21
Abril sem festas

Manoel Hygino

Quarto mês do ano 2020, quase meados. Em que pesem os problemas decorrentes da indesejada pandemia, há muito civicamente a registrar no tempo que ainda temos. São fatos importantes de nossa história que cumpre lembrar e reverenciar.
O primeiro deles, o 21 de abril, em que a nação homenageia Joaquim José da Silva Xavier, que deu sua vida, em 1789, à razão maior: a conquista da Independência, abrindo caminhos indesviáveis e decisivos para o 7 de setembro de 1822.
É ainda a data de falecimento de Tancredo Neves, um episódio doloroso, que marcou seu nome definitivamente aos destinos do Brasil, pelo que ele representou para a República, em seus 131 anos de proclamação e de lutas pela consecução dos mais ardentes sonhos e justas reivindicações de seu povo.
É, ainda mais especificamente, o sexagésimo aniversário de inauguração da capital que um outro mineiro de cidade histórica fez construir no âmago do solo brasileiro, tornando realidade um projeto consignado na Carta Magna.
Brasília se fez, assim, síntese e símbolo de roda a história de um povo, posto à prova até estes dias, para se erguer a grande nação do hemisfério sul do planeta, uma nova Roma, uma civilização, mestiça e tropical, forjada com a inesgotável contribuição também de negros e indígenas. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Arnaldo Perrotti, se advertiu para a elevada destinação histórica de Brasília, que identifica como centro americano de novos tempos de paz e de concórdia, sem qualquer pretensão hegemônica, lastreada na igualdade fraternal entre os povos latinos da América.
Com a inauguração de Brasília há sessenta anos, agora revitalizados em livros memorialísticos de Adirson Vasconcelos, que ali desceu com Juscelino, naquele tempo, o grande construtor da obra grandiosa, quer-se dar ênfase ao acontecimento, como o querem todos os que ali ajudam a erguer uma nação mais equitativa e feliz neste pedaço do mundo.
Embora as perspectivas para as festividades sejam remotas neste ano que estigmatiza a vida do povo brasileiro, em virtude da pandemia de um terrível vírus, o tempo demonstrará que a memória dos que ilustraram e honraram a pátria não se apagou. É o que o futuro confirmará.



84684
Por Manoel Hygino - 25/4/2020 08:57:58
Perdemos um notável

Manoel Hygino

Na segunda-feira, 6 de abril, em meio ao torvelinho causado pelas providências que se tomavam para enfrentar os malefícios terríveis da pandemia do coronavírus novo, faleceu uma das mais queridas e admiráveis personalidades do cenário literário do Brasil. Mais do que homem de letras, Ângelo Machado foi um pesquisador singular no campo da arte e da ciência, nosso confrade na Academia Mineira de Letras.
Na Casa de Alphonsus de Guimaraens e de Vivaldi Moreira, deixa um vazio imenso, porque ninguém como ele tinha qualidades, simpatia e conhecimento para ganhar espaço em torno de si. Já o demonstrara em suas aulas na universidade e em palestras pelo Brasil afora, que percorrera denodadamente, vencendo as próprias dificuldades e prováveis incompreensões do meio.

Muito fanhoso, parecia impossível que pudesse dedicar-se ao magistério, mas exerceu a profissão em nível universitário durante 55 anos, após se formar doutor pela UFMG, onde se diplomara em 1957. Aposentado como titular de Neuroanatomia, concorreu a vaga para lecionar no Instituto de Ciências Biológicas da universidade, criando o Centro de Microscopia Eletrônica e o Laboratório de Neurobiologia do IC, tornando-se professor emérito da Federal.

Nascido em família privilegiada, em que conquistaram prestígio notável Aníbal e Maria Clara Machado, que pontificara na cena teatral do Rio de Janeiro, da escritora Lúcia Machado de Almeida (cada um vale uma biografia inteira), deixou mais de quarenta livros publicados para crianças, sobre meio ambiente e peças de teatro, todos de grande popularidade e aplaudidas.

Transcrevo algumas notas, em seguida, sem perder o ensejo para lamentar seu passamento, pois tinha menos de noventa aninhos bem vividos e felizes. Merecia mais, e nós também.

Natural de Belo Horizonte, Ângelo Machado era cientista, ambientalista e escritor. Suas obras literárias já receberam vários prêmios, destacando-se: o Jabuti, Adolfo Aizen e o Selo de Altamente Recomendável da FNLIJ. Pela peça de teatro O Casamento da Ararinha-Azul, recebeu também o prêmio Sesc-Sated de melhor texto de teatro infantil de 1996. Foi professor do Departamento de Zoologia da UFMG, onde fez pesquisas principalmente sobre libélulas. Membro da Academia Brasileira de Ciências, tem numerosos trabalhos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Participou de organizações ambientalistas como a Conservação Internacional do Brasil, da qual era presidente, e Fundação Biodiversistas. Há 25 anos desenvolveu atividades visando a proteção do meio ambiente, destacando-se aquelas voltadas para a educação ambiental para crianças e jovens. Entre seus livros há infantis e juvenis e um de humor para adultos. Pela Editora Lê, além de O Menino e o Rio (novela), hoje com 19 reimpressões, publicou: A barba-do-velho-da-barba, A viagem de Tamar e O Casamento da Ararinha Azul, nas versões novela e teatro, O Boto e seus amigos, além da versão teatral de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-Guará e O Menino e o Rio. Sua obra literária tem como tema dominante as questões ambientais e caracteriza-se por um fino senso de humor.


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Por Manoel Hygino - 21/4/2020 11:06:01
A dor continua

Manoel Hygino

Um dia singular na história da Igreja, a sexta-feira que marca o término da passagem de Cristo pela Terra. Jesus fora preso na véspera da Páscoa, comemorada pelos judeus, anualmente, sempre num sábado. Pedro Rogério Moreira, meu confrade na Academia Mineira de Letras, interessado no tema e nas dúvidas que o transcorrer do tempo não apagou, pergunta: “E o dia e o mês?”

O calendário judaico era móvel, dificultoso para os estudiosos e, mais ainda, para os simples que decidiram acompanhar Jesus em suas lições. A hipótese mais aceitável é de nisan, mês que começava no meio do que hoje é março e terminava em meados de nosso abril. “Astrônomos e historiadores fixam em 7 de abril, bem próximo à data em 2020, que ocorreu no dia 10. Não convém entrar em detalhes, que nada acrescentam ao objetivo deste texto.

Enquanto as nações do planeta se esforçavam por todos os meios possíveis para enfrentar a terrível pandemia que já destruíra milhares de vidas humanas, e a muitos mais ameaçava, o sucessor de Pedro na condução da Igreja de Cristo em Roma sentia-se impedido pela ameaça da terrível doença a sair até das dependências do Vaticano para falar às multidões na grande praça. Esta permaneceu vazia e em silêncio, como a gravidade da crise exigia.

Às vésperas da Semana Santa, pelos modernos meios de comunicação, o pontífice expressou seu afeto e solidariedade por todos os que, em todo o mundo, padeciam os males da cruel enfermidade.

“Se permitirem, gostaria de conversar com vocês por alguns instantes, neste período de dificuldades e de sofrimento. Eu os imagino em suas famílias, enquanto vivem uma vida incomum para evitar o contágio”, afirmou. Francisco ressaltou que este “é um momento difícil para todos” e se lembrou, por exemplo, dos doentes, dos que temem os impactos econômicos, dos idosos e dos que vivem só. Francisco confessou sentir-se como todos os homens e mulheres, distribuídos pelos quatro cantos do mundo, sofrendo estes dias de dor e angústia, elogiando os médicos, os profissionais de saúde, que não largam de seus deveres, “heróis” do cotidiano, de todos os dias e de todas as horas.

Acrescentou:
“É um momento difícil para todos. Para muitos, dificílimo. O papa sabe e, com estas palavras, quero expressar a todos a minha proximidade e o meu afeto”.

Para Jorge Bergoglio, há de se confiar e pedir a Deus, porque a esperança não decepciona. Ao recomendar que as pessoas ajudem por algum meio os que se encontram em quarentena, explicando que, “mesmo isolados, o pensamento e o espírito podem ir longe com a criatividade do amor”.

Como devem estar pensando todos os cristãos, o papa observou que, neste ano, a Semana Santa está sendo celebrada de modo não habitual. Talvez lembrando sua infância e adolescência na Argentina, declarou que, no silêncio de nossas cidades, ressoará o Evangelho da Páscoa, em Jesus ressuscitado, a vida que venceu a morte. “Esta fé pascal nutre a nossa esperança. Gostaria de compartilhá-la com vocês esta noite. É a esperança de um tempo melhor, para sermos melhores, finalmente libertados do mal e desta pandemia”.


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Por Manoel Hygino - 9/4/2020 11:08:26
Ele Ressuscitou

Manoel Hygino

Quaresma é o período que se estende da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Páscoa. São quarenta dias, em que os cristãos cumprem deveres especiais, quando realmente se devotam ao cristianismo e ao catolicismo, no caso do Brasil, que se mantém como maior país do mundo seguindo Roma, sob este aspecto. A Sexta-feira Santa em 2020 será em 10 de abril. Na Quaresma de 2017, registrou-se um fato pouco focalizado pela mídia, aqui e lá fora, o que tem razões e explicações. No tempo vertiginoso que atravessamos, de tantos compromissos e não menos divertimentos, há coisas que se relegam a plano secundário, deixa-se para depois ou simplesmente não despertam interesse.

Após nove meses da restauração, foi aberto, então, em Jerusalém, o túmulo de Jesus. A solenidade se deu na quarta-feira, dia 22 de março, na igreja do Santo Sepulcro, local de obrigatória visitação dos cristãos que se deslocam à histórica cidade.

A Basílica do Santo Sepulcro se acha no centro do bairro Cristão da Cidade Velha de Jerusalém e é mantida pelos católicos romanos, greco-ortodoxos e armênios. No centro de sua área se encontra a Colina do Gólgota (ou Calvário) e a rotunda, que abriga o Sepulcro. Ali, Jesus foi crucificado, enterrado e ressuscitou. Na 12ª Estação, indica-se o local exato onde estivera a cruz, assim como pontos negros mantendo a posição das cruzes dos dois ladrões.Perto, está a estátua de madeira da Mater Dolorosa, doada pela rainha de Portugal, em 1778, lembrando a aflição de Maria com a morte do filho.

Na 13ª Estação, um altar se construiu para apontar exatamente onde Maria recebeu o corpo de Jesus, após a crucificação. Em seguida, o corpo foi colocado sobre a Pedra da Unção e umedecido com mistura de mirra, aloé e óleos aromáticos. Os cristãos convictos sentem justamente esses acontecimentos, principalmente na Semana Santa.

Na 14ª Estação, eis a tumba de Jesus, local sagrado do cristianismo, no centro do Santo Sepulcro. A rocha sagrada estava coberta por uma pedra de mármore, desde 1555, e sobre ela vários quadros representam a ressurreição.

Documentou-se oficialmente a reabertura em uma cerimônia com a presença de líderes religiosos de diferentes confissões. Naquele ano, o santuário voltara à cor original, porque o monumento estava antes completamente escuro em decorrência da fumaça das velas dos peregrinos, segundo a chefe da equipe de restauração, Antonia Moropoulou.

O patriarca greco-ortodoxo, Teophilos III, de Jerusalém, saudou os presentes ao ato, declarando que a restauração e reabertura eram uma doação à humanidade. E, felizmente, tem resistido ao passado sem maior interesse de certas instituições religiosas, e políticas. Para o mundo cristão, tratava-se de acontecimento magno, porque se chegara às paredes originais de calcário da tumba. O homem se aproxima mais de Cristo, mesmo que o corpo de Jesus lá não estivesse, como há séculos. Ressurrexit, non est hic.

Ali, no primeiro fim de semana após a morte no Calvário, Maria Madalena e outras mulheres foram visitá-lo, mas a pedra sobre o túmulo, muito grande e pesada, fora revolvida. O túmulo vazio constituiu para os primeiros cristãos um sinal essencial, não desaparecido sequer na metade do século II, quando o imperador Adriano arrasou Jerusalém. Bom para se meditar nesta tumultuada quarentena de 2020. Enfim, o medo não pode predominar no cenário tenebroso de coronavírus.


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Por Manoel Hygino - 9/4/2020 11:03:55
Os perigos do vírus

Manoel Hygino

A Previdência será o maior problema nacional. Durante anos a questão foi debatida em todos os âmbitos. Evidentemente, a grande maioria dos brasileiros cuidava de assegurar-se com remunerações quando o período legal de prestação de serviços se esgotasse. Ponderável parcela de funcionários públicos se esforçava, por todos os meios possíveis, para ter a velhice suficientemente provida de recursos no ocaso da vida. Os que mais percebiam durante os muitos anos de atividade não queriam passar necessidades, chegado o tempo de sombra e água fresca.

Acontece que o erário não é uma fábrica de dinheiro. A arrecadação começou a ficar curta para cobrir o sistema, comprometendo sua solidez. O país trabalhava para pagar aposentadoria e mais benefícios. Durante exercícios e mais exercícios, lutou-se para reduzir déficit do sistema, mas os esforços eram infrutíferos.

Até que, enfim, se chegou à conclusão de que ou se resolvia o problema da Previdência ou ela afundava toda a estrutura do Estado. O primeiro ano do atual quatriênio presidencial foi consumido neste projeto, que conseguiu sucesso. Parabéns para o governo, parabéns para os contribuintes. Novas iniciativas, porém, já estavam relacionadas. Agora, seria a vez das reformas Tributária e Administrativa.

Não para mais tempo. O coronavírus, o novo, já no segundo mês de 2020, mostrava sua cara perversa aos brasileiros, como o fazia em todas as nações do planeta, neste século, e o fizera, de outros modos, em épocas e lugares muitos da História.

Vírus, sabe-se, é o germe patogênico que causa doenças no homem, nos animais e nas plantas, provocando a formação de anticorpos específicos com 8 a 250 milionésimos de milímetro. Tem incomum faculdade de multiplicar-se, sofrer mutações, adaptar-se ao meio ambiente, um ser vivo parasita, do tipo mais simples. E, assim sendo, distribui males diversos pelo mundo, enquanto cientistas, médicos, técnicos de saúde, procuram curar enfermidades que ferem e matam.

Esse bicho, que não se sabe rigorosamente o que é, baixou ao mundo, na vez presente, chegando ao Brasil com força total, apoquentando os técnicos e estudiosos, matando pessoas de todas as nacionalidades e sexo, e de faixas etárias, exigindo esforços jamais vistos por aqui até hoje. As ruas foram esvaziadas, as pessoas coagidas a cumprimentar-se à distância, transformando a convivência social, os planos de governo, a economia, com restrição à alimentação e ao descaso noturno.

Até as posições políticas são postas à prova, porque o germe é capaz de modificar posições ideológicas e técnicas.


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Por Manoel Hygino - 4/4/2020 08:14:47
A árvore inesperada

Manoel Hygino

Pensei em redigir um texto lembrando o naturalista francês, que tanto ensinou os brasileiros a conhecer a sua pátria. Saint-Hilaire, decidido, percorreu a lombo de cavalo léguas e mais léguas de nossa terra, enfrentando toda espécie de dificuldades, oferecendo há dois séculos o resultado de suas observações. Uma delas se popularizou numa simples lição: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. É, mutatis mutandis, o que ora acontece com o coronavírus.

Mudei, todavia, o foco do escrito, ao receber como regalo “Meditando com Brian Weiss”, que já terá vendido duzentos mil exemplares por aqui. Ele, médico, especializado em Psicoterapia, relata inicialmente o caso de sua experiência com Catherine, que o procurara, em 1980, no consultório, para tratar seu caso – um quadro crônico de ansiedade, fobia e ataques de pânico e dificuldades de relacionamento.

Foi tratada durante dezoito meses pelos procedimentos habituais de psicoterapia, mas a paciente apresentou apenas melhoras modestas. O médico recorreu à hipnose e lhe pediu que retornasse ao “tempo em que seus sintomas começaram a se manifestar. “Tiro e queda”, como se afirmava antigamente.

Catherine se transportou a uma existência passada há 4 mil anos e outras vidas, onde se deram as tramas que originaram seus problemas. Vivenciou-os e curou-se. Weiss tirou conclusões: “Acredito que não somos somente humanos, nem mesmo seres que desfrutam eventualmente, mas seres espirituais, que têm experiências humanas”.

Há uma série de fatos, de episódios, que marcaram a vida do médico, que também influenciaram definitivamente o cliente. Chamou-me especial atenção o caso de uma das pacientes, que já se tinha tratado e recebido alta. Determinado dia, procurou-o no consultório, como se tivesse ganhado em uma loteria ou na sena. O médico se interessou muito especialmente pela cliente feliz e ela lhe revelou: “Acabei de descobrir uma árvore maravilhosa na porta da minha casa! O tronco é vigoroso, a copa é frondosa e as folhas têm os mais lindos tons de verde!”

O psicoterapeuta, que a conhecia e à localização de sua residência, estranhou. Como aparecera a árvore? Quem a plantara? Como não soubera antes? Como surgira assim de repente, como por encanto? A paciente explicou tudo com felicidade e alegria:

– Ela sempre esteve lá – a planta –, mas eu nunca tinha reparado. Saía e entrava em casa correndo, preocupada com as crianças, com as tarefas domésticas ou com o que me aguardava no trabalho.

O médico compreendeu, como compreenderão os brasileiros no caso da Covid 19, como esclareceu Luís Carlos Azedo. No Brasil, se a epidemia atingisse escala sobremodo elevada seria o caos no sistema de saúde, já pressionado por outros fatores: acidentes de trânsito, balas perdidas, acidentes domésticos, outras epidemias, tentativas de feminicídio.

Luiz Carlos Azedo explica, até certo ponto, o caso. Aconteceu como na Coreia do Sul, no que se refere à Covid. Os coreanos estavam atentos aos fatos e admitiram a possibilidade de uma epidemia. Cuidaram-se, prepararam-se para o futuro. Não ficaram simplesmente aguardando um “milagre”, como o que aconteceu com a cliente de Weiss.



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Por Manoel Hygino - 1/4/2020 12:02:23
A IDADE MÉDIA

Manoel Hygino

A pergunta pode parecer uma crítica à evolução do homem e da sociedade, diante do que enfrentam as atuais gerações. Mudou muito, mas precisaria acabar, o que está longe das perspectivas, a julgar pelo que os médicos, cientistas e técnicos do setor de saúde têm revelado, com o advento do novo Coronavírus, no século XXI.
O estudioso da Idade Média, Ivan Lins, se manifesta sobre o assunto, dizendo: “O pior dos flagelos medievais, por sua extensão e pelos seus efeitos, eram as epidemias, porquanto nem a higiene, nem a profilaxia, ainda menos a medicina, principalmente nos períodos de guerra e de recessão econômica, eram capazes de deter-lhe as devastações. Pela sua tríplice forma; bubônica, pulmonar e intestinal, a epidemia trazida do Oriente, em 1344, por navios genoveses, engloba todas as outras sob a denominação geral de peste.”
Especificamente sobre calamidades públicas, Michel Mollat se refere ao problema em “Difficultés Matérielles de L’Europe”, em 1955: “sem contar contágios locais, já havia a Europa tomado conhecimento de outras epidemias generalizadas, como, nas proximidades de 1315, a disenteria e diversas variedades de infecções nos países do Norte, desde a Suécia até o Loire. Depois da grande pandemia de 1348, os sobreviventes viram renovar-se o flagelo em 1358 e 1360, entre 1373 e 1375 e, de maneira mais difusa, entre 1380 e 1400.
Em 1389, em Paris, não se cuidava senão de enterros a cada instante, a ponto de se proibir o seu anúncio pelos pregoeiros públicos. Em 1414 e 1427, a coqueluche (tac, euquete e dando) abafava, nas cerimonias religiosas, a voz dos oficiantes. Em 1431, a peste fez milhares de vítimas entre os jovens, e voltou, generalizada, com a varíola em 1438.
Procurou-se explicar o fenômeno: invocava-se a conjunção dos astros e má reputação de Marte, enquanto os remédios preconizados eram os mais contraindicados, como o de evitar o arejamento de casas e quartos. Por outro lado, as habitações eram infestadas de ratos e pulgas, perambulando livremente pelas ruas suínos e outros animais, atirando-se os dejetos na via pública, sem o mínimo constrangimento. O primeiro esgoto subterrâneo em Paris só foi construído em 1356.
À época, os cemitérios funcionavam nas áreas dos mercados, mas já escrevi sobre isso. Em tempo de corona, alguma coisa do século 14 se mantém. Mas as autoridades de saúde e seus servidores têm demonstrado eficiente e decisiva disposição de vencer o monstro. É essencial. O mundo moderno tem ainda muito a fazer pelo homem.


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Por Manoel Hygino - 31/3/2020 08:13:56
Petrônio no Chiado

Manoel Hygino

Petrônio Braz enviou-me magnífico presente em 13 de março, por coincidência ou em comemoração ao aniversário do novo nonagenário, nascido no ano da revolução. Não foi um regalo comum.

O escritor de São Francisco esbanjou generosidade ao encaminhar pelos Correios quatro volumes, editados em 2020, contendo parte de sua extensa produção literária, jurídica, administrativa e no campo do Direito.

Trata-se de “Nas Asas do Tempo”, “Tempo de Seca”, “Caleidoscópio”, o já consagrado “A Saga de Antônio Dó” (que já chegou às telinhas), e “Léxico dos Gerais”, muito esperado e que lhe deve ter exigido anos de pesquisa e pertinácia. O Léxico compreende ainda a Biota das Gerais, expressões idiomáticas, provérbios e quadrinhos populares. E mais não há, por enquanto, para não chegar a 500 páginas. Os quatro compõem a Coletânea Escritos dos Gerais, que passa a indispensável nas bibliotecas. E com ótima apresentação gráfica, editados em Lisboa pela Chiado Books e impressos no Break Print Books.

Nos vários gêneros a que se tem devotado, o autor já publicou 27 trabalhos e, com a nova fornada (se me permitem a palavra), dois eram inéditos – “Tempo de Seca”, ficção sobre as viagens de vapor pelo rio São Francisco, e “Léxico dos Gerais”.

Diria eu, leitor ávido, que as quatros obras ajudam a entender e sentir o homem do sertão mineiro, em que nasceu e viveu a infância o autor, iniciou os estudos e abriu as perspectivas para chegar ao que hoje é, com todas as honras e justiça. Tornou-se cidadão de vários municípios, recebeu diploma na capital, exerceu cargos públicos na sua cidade, desde a vereança, chefiou o Executivo municipal, além de ser juiz de paz. Prestou e presta assessoria a agentes públicos e a professores de Direito Administrativo, no estudo, mas tomou seguramente o itinerário que lhe parecia mais adequado à vocação, sem se desligar das demais.

Personagens e fatos se completam ou se explicam nos volumes editados, que mereceram evidentemente o melhor interesse de quem tem sua vida plantada numa das regiões mais atraentes de grande região do Brasil. Em “Caleidoscópio”, com quase quatrocentas páginas, Petrônio Braz relaciona gente do Norte de Minas, que ingressou na História e se plantou em seu coração e em sua admiração.
É muito bonito ver isso, nesta época em que cedo se esquecem até os melhores amigos. Mas a obra que o escritor nos está legando é das que não se duvidam e, o que de mais importante, vida nos oferece. Entre elas, certamente, esses livros do menino de São Francisco que cultua e admira os livros, tanto quanto nos premia com o que produz. Eles dão sentido à própria existência.


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Por Manoel Hygino - 20/3/2020 06:29:26
O importuno, inoportuno e perigoso vírus incomodou muito e ainda segue sua nefanda trajetória. Até quando, não se poderá fixar. O término de sua agitação pelo mundo seguirá por tempo incerto e não sabido, inquietando e executando seres humanos.

No domingo, dia 15, no Rio de Janeiro, faleceu o acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco Filho, quinto sucessor da cadeira 29, na Academia Mineira de Letras (AML), cujo patrono é Aureliano Pimentel. Foi fundador Lindolph Gomes, mas ocupada ainda por Milton Campos, Pedro Aleixo, Gustavo Capanema e Murilo Badaró.

O corpo foi sepultado na segunda-feira, 16, no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista não há as cerimônias protocolares, para evitar elevado número de presenças.

Em 2018, Fábio de Sousa Coutinho, com sua capacidade de compartilhamento do espírito, publicou – com apoio da Thesaurus - Editora “Juristas na Academia Brasileira de Letras”, um volume extremamente útil e cujo conteúdo fazia falta àqueles que operam com as letras e o direito. Fez um bem imenso visando à “direção construtiva de um país melhor”.

O maligno vírus que desceu da China serviu apenas para impedir a Bienal Mineira do Livro, marcada para maio. É quando o presidente emérito da Academia Mineira de Letras, Olavo Romano, será homenageado e se realizarão duas mesas temáticas – sobre Alphonsus de Guimaraens, com o acadêmico Ângelo Oswaldo, e o Legado de Bartolomeu Campos de Queiroz, com os também acadêmicos Patrus Ananias e Márcio Sampaio.

Não se perde por esperar. Por fim, o corona terá fim, Deus queira que não demore. A pragazinha não vai destruir projeto tão bonito como a bienal. Muito especialmente me alegra a escolha, porque foi Olavo que me saudou na mansão Borges da Costa, quando ali tomei posse na cadeira 23 na Academia, em ano que se vai somando a outros. Era um mineiro nascido em Morro do Ferro, no distrito de Oliveira, recepcionando o modesto autor de Montes Claros, em pleno sertão, que imortalizou João Guimarães Rosa, mas também reconhecidos escritores.

Para Rogério Faria Tavares, presidente da Academia Mineira de Letras, “quando o homenageado da Bienal Mineira do Livro de 2020 é um presidente emérito da AML, a casa se sente honrada e orgulhosa”. Olavo, ao longo de sua carreira literária, dedicou a Minas Gerais o melhor da sua inteligência e de sua criatividade. Já publicou quase 20 livros, sendo 18 deles adotados em escolas de Minas e de outros estados, focalizando o jeito, a fala, a vida no interior mineiro.


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Por Manoel Hygino - 14/3/2020 08:22:04

O tempo e o vírus

Manoel Hygino

Março pela metade. Depois de chuvaradas pelo Sudeste, deixando mortos às dezenas em Minas Gerais, litoral de São Paulo, terras e serras do Espírito Santo, favelas do Estado do Rio, até da Bahia, a gente da extensa região brasileira quedou na ansiosa expectativa em torno dos próximos dias. Chover ou não chover? Em Belo Horizonte, o prefeito Kalil terá tempo de recompor o piso das vias públicas e demais danos causados por temporais.

As dúvidas se dão em face do Dia de São José, - popularmente o das enchentes das goiabas, que anunciam, segundo a gente da roça – o fim da temporada das águas no interior de Minas. Mas, como será 2020 já com tão desagradáveis surpresas nas atividades humanas? As hidrelétricas do Sudeste e Nordeste do Brasil, onde se localizam os principais reservatórios do Brasil, vão receber chuvas acima da média em março, contribuindo para recuperar o nível dos lagos, projetou o Operador Nacional do Sistema Elétrico em relatório. O Sudeste e o Nordeste deverão receber, respectivamente, precipitações equivalentes a 111% e 101% da média histórica para o mês - parte do chamado "período úmido" na região das usinas, que vai de novembro a abril. O volume esperado para o Sudeste, contudo, ficou abaixo da projeção de 117% divulgada no boletim da semana anterior. Para o Nordeste, o ONS elevou a projeção em 21 pontos percentuais.

Ninguém, no entanto, terá segurança para afirmar sobre o que o futuro nos reserva para 2020, além do que preconizam os meteorologistas. Chover ou não, é o que predominantemente menos inquieta esta metade de século. De fato, a declaração da Organização Mundial de Saúde com relação ao coronavírus confundiu o mundo e põe em sobressalto todos os países.

Uma coisa é certa: os povos começaram a perceber o que é exatamente uma pandemia. Impressionou uma informação da OMS de que a palavra se emprega quando uma doença espalha-se por grande área geográfica, não se restringindo a uma região ou povo. O planeta treme. Interrupção de grande parte das atividades do homem, a suspensão de viagens aéreas e cruzeiros marítimos, das aulas, do direito de ir e vir livremente, a frequência a práticas esportivas. E, como se fará para tratar um mal, que jamais nesta escala foi enfrentado pela humanidade? Quem paga a conta dos estragos cruéis do vírus? Como se comportarão as nações mais pobres de todos os continentes, se sabemos que os mais ricos e poderosos estão assustados ou em pré-pânico?

No Brasil, o ministro da Saúde opina que a contaminação pelo coronavírus se dará em progressão geométrica, a partir da semana que vem. Segundo ele, a situação é alarmante. Pediu recursos para o SUS, a fim de suportar a demanda. A ANS obrigará hospitais particulares a prestarem atendimento. Jornal de São Paulo revela que o Brasil poderá ter 4 mil casos em 15 dias. Para Mandetta, a letalidade do vírus é baixa, mas o principal impacto será a sobrecarga do sistema de saúde, que precisa de mais dinheiro público.

Onde buscá-lo?


(N. da Redação - Manoel Hygino, que ontem completou 90 anos no auge de suas atividades de escritor e jornalista, é também ouvidor da Santa Casa de BH, um dos maiores hospitais de Minas, onde está em contato diário com os maiores especialistas médicos de Minas)


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Por Manoel Hygino - 12/3/2020 15:23:43
O Dia da Mulher

No segundo dia de março, Montes Claros perdeu, com quase 89 anos, Zezé Colares, pioneira em iniciativas dignas de lembrança na cidade. Passou da crônica social, em que atuou por sessenta anos, para o mecenato, o amparo às artes e à cultura. Graças a seu devotamento, centenas de jovens viajaram pelo mundo para participar de congressos de folclore e levou a inúmeros países, o grupo Banzé, sua dança e sua música.

Domingo passado, por sinal, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, que deveria inspirar respeito, amor e admiração por aquela gerada para acompanhar o homem em sua vida terrena. No entanto, o que se viu pelos veículos de comunicação foi a sucessão de notícias de crimes, até bárbaros, cometidos contra aquelas que são nossas mães, esposas e filhas. Que século é este? Que milênio vivemos? O que aprendemos com as lições da história? Ou, como disse Fukuyama; a história acabou?

A mulher, vilmente tratada e assassinada, é a mesma que espontaneamente surgiu durante a Idade Média, como lembra o humanista Ivan Lins. Ele ensina que se mede o grau de civilização de um povo – na expressão de Robertson – pela maneira com que nele é tratada a mulher, primitivamente considerada um ser inferior.

É ainda Ivan Lins quem diz que a mulher, tal qual se nos apresenta e a consideramos hoje, “o eterno feminino” de Goethe, é o misto de ternura e pureza, uma lenta criação da humanidade, isto é, resulta da longa e tormentosa evolução da humanidade desde o pântano em que nos achávamos enchafurdados, até os dias em que já começamos a parecer homens.

Gibson registra que, entre os antigos, nada mais subalterno do que o papel das mulheres – meras máquinas de procriar, sem merecerem o menor apreço sob o ponto de vista intelectual, quer mesmo sob o aspecto afetivo, compreendidas no Direito romano na classe das coisas. Não lhes cabia o direito de tratar dos próprios negócios, nem serem assistidas por um tutor, legalmente instituído, do qual dependiam inteiramente. Mesmo as patrícias ficavam, sob o nome de tutela, numa espécie de escravidão permanente.

Haveria imensamente a considerar e escrever. Mas lembraria, por exemplo, que – durante a fase ascendente da atividade conquistadora dos romanos é que cresceu o apreço pela mulher. Provam-no os nomes de Vetúria, mãe de Coriolano, imortalizada por Shakespeare, e Cornélia, a mãe dos Gracos, que preferiu a viuvez ao leito de um soberano.

Eis um rico e belo desenvolver. O conceito de mulher é indispensável ao sentimento de grandeza de seu significado para a sociedade e para a humanidade. Há muito a fazer, muitíssimo, para que a mulher seja instalada, efetivamente no lugar a que está destinada, começando por estabelecê-la na categoria de providência moral da espécie, como apregoava Comte. E os homens serão mais do que bípedes: precisarão ser gente, educar-se, respeitar para que as almas masculinas não sejam punidas como quis Platão.


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Por Manoel Hygino - 10/3/2020 09:01:26
A vez do vírus

Manoel Hygino

O oftalmologista Li Wenlang, de 34 anos, chinês, que trabalhava em Wuhan, alertou no final de dezembro sobre o aparecimento de um vírus. Resultado: foi punido pelas autoridades e lhe sobreveio a morte, devido a uma infecção. Seus colegas protestaram: “é um herói que deu o alerta e pagou com a vida”. A mensagem, em rede social chinesa, foi censurada, pura e simplesmente, como convém aos governos totalitários. Mas o problema não cessou, exigindo uma investigação que revelou o significado macabro da advertência.

Ninguém segurou o coronavírus. Menos de três meses depois, todo o planeta estava com medo, com mais de 100 mil infectados, em 91 países e territórios, e 3,4 mil mortes. O Brasil também se assustava, apesar do pedido de serenidade formulado pelo ministro da Saúde.

O mundo entrou em plantão permanente, a despeito da empáfia inicial da Casa Branca, que esperava espantar o fantasma surgido na China simplesmente com um baú de dólares. O corona também chegara lá e deixara rastros fúnebres e temor generalizado.

As consequências finais, ou seja, numéricas, eram imprevisíveis e a Terra encerrou a primeira semana de março sob o signo do medo, inclusive, porque já pesava nos cálculos dos institutos de pesquisa com números alarmantes para a economia mundial. Antevia-se o agravamento da crise.

Na sexta-feira, Dia de São Leandro, alguns dos jornais publicaram as seguintes manchetes: “Se repetir a China, é administrável, disse o nosso ministro da Saúde”. “Diante da explosão de casos, Minas vai decretar emergência”.“Ministério da Saúde antecipa vacinação contra a gripe”. “Disparam no Brasil casos suspeitos de coronavírus”. “Coronavírus: chegam a 132 os casos suspeitos no país”.

O que se terá à frente, quanto ao coronavírus, é imprevisto, tudo dependendo da evolução da doença no mundo, sendo certo que ela avança todos os dias. Todas as áreas do fazer humano estão sendo afetadas. O movimento internacional de pessoas por terra, mar e ar já decresceu expressivamente. Tudo sofrerá modificações profundas e rápidas. É preciso salvar o possível, enquanto possível e com rapidez e eficiência. Jornal da capital opinou: “Democrático, o novo coronavírus prova que não tem ideologia nem preconceito. Ataca cinco continentes. Os estragos por ele causados se disseminam pelas economias globais e ameaçam uma quebradeira geral. Pobres e ricos estão com a espada de Dâmocles sobre a cabeça.”

Todo o sistema de saúde de Belo Horizonte se acha em ação permanente, com o secretário municipal, Jackson Machado Pinto, na liderança. A Prefeitura de Montes Claros, maior cidade do Norte do Estado, informou que não existem casos de coronavírus na cidade, mas apenas um paciente com suspeita do vírus. Está internado no Hospital Universitário Clemente de Faria, atendido dentro dos protocolos internacionais estabelecidos para a doença.

A Arquidiocese de BH orientou os fiéis a evitarem contato físico durante as missas. Dom Walmor deu a orientação de forma restrita à arquidiocese: “A Arquidiocese de Belo Horizonte, em comunhão com a Igreja em todo o mundo, está sempre comprometida com a defesa da vida, com o bem-estar de cada pessoa. A vida é dom de Deus, precioso, e por isso mesmo deve ser preservada e promovida, em todas as suas etapas, da fecundação ao declínio, com a morte natural. Por isso mesmo, a igreja une-se aos que hoje buscam combater a disseminação do coronavírus, uma ameaça à saúde, principalmente dos idosos e enfermos”.




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Por Manoel Hygino - 4/3/2020 15:20:52
O Ceará como é (ou foi)

Manoel Hygino

As lutas travadas no Ceará ao longo dos tempos vêm de longe e roubaram muitas e muitas vidas. Os tensos acontecimentos de agora já se tinham registrado, de algum modo, nos anais da história. O jornalista Lustosa da Costa, já falecido e com quem mantive correspondência, escreveu e se pode repetir sem medo de errar:
“O que é bom no Ceará dura pouco. O governo de Franco Rabelo, apoiado fervorosamente pela sociedade, é deposto pela contra-revolução do Cariri, que reuniu beatos e cangaceiros, abençoados pelo padre Cícero Romão Batista, o patriarca de Juazeiro, e liderado por José de Borba Vasconcelos e pelo médico Floro Bartolomeu. Gostosamente, o presidente Hermes da Fonseca, títere nas mãos de Pinheiro Machado, cuja candidatura ao Palácio Catete Rabelo se recusara apoiar, nomeia interventor do Estado, a 15 de fevereiro de 1912, o general Setembrino Carvalho”.
Os ódios acumulavam-se. Vicente Deodolindo Loyola, de O REBATE, para evitar agressões físicas, se refugia numa fazenda. Deodolindo, cidadão corajoso, fica em Sobral, disposto a tudo. Grupo de quarenta a cinquenta vai à sua casa a fim de puni-lo por suas ousadias. Deodolindo, que mantém seu jornal, está só e vai à porta, apertando um objeto volumoso às mãos. Grita: “O primeiro que entrar vira bagaço, porque estouro esta granada nos seus peitos”.
Os manifestantes, enfurecidos, saem em busca de atos menos arriscados, recordando atentados recentes, em Fortaleza, contra o general Thomaz Cavalcante e o deputado Gentil Falcão. Gentil Falcão? Que nome!
O Ceará é de gente brava. É o que se constata por fatos, sucessivos, inclusive os de 2020. Um deputado com motoniveladora tentando destruir barricadas de amotinados em quartel. Lustosa da Costa já contava:
Em 1922, vereador em Sobral, Chico Monte está de baixo, com o governo de Idelfonso Albano que sucedeu a Justiniano de Serpa, falecido no exercício do mandato e suscita o ódio dos “marretas”. Os correligionários lhe estimulam as estrepolias. A 7 de março, de manhã, numa roda no bar Itatiaia, os amigos lhe dão corda. Dizem-lhe que o novo chefe do destacamento policial, tenente Antônio Castello Branco, veio para Sobral só para lhe quebrar a castanha, por encomenda do chefe rabelista Dondon Pontes, em cujo hotel se encontrava hospedado. Para cúmulo do azar, entra no bar um democrata, Francisco de Freitas, a quem se atribuíam críticas a Chico Monte. Este o desacata. Freitas foge para o café da Maria Felismina, vizinho. Chico o segue, de arma na mão, atropelando mesas e cadeiras e lhe espeta a faca no traseiro.
Sangrando e humilhado, Freitas vai, disposto, ao Hotel do Norte reclamar providências do policial. Este tenta fazer corpo mole, sai, primeiro, à procura do delegado de Polícia, Júlio Aragão, na Praça do Menino Deus, que desparecera. Convenientemente, viajara para sua Fazenda Mato Grosso. Volta ao hotel. Dondon insiste em que prenda Chico Monte que se encontra em atitude de desafio, na esquina da Praça do mercado, diante da loja de Eloi Sabóia. Nada. Ele resiste. Por fim Maria Felismina lhe lança, no rosto, na presença de todos os hóspedes, o desafio mortal:
“Tenente, se o senhor não tem coragem, vista minha saia e me empreste sua farda que eu prendo o homem”.


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Por Manoel Hygino - 4/3/2020 07:49:59
Crimes sem castigo

Manoel Hygino

O brasileiro, responsável, assiste com profunda preocupação ao que acontece. Não mais se ouve sequer falar das manchas de petróleo que, de um instante para outro, começaram a aparecer no litoral do Nordeste para baixo até as praias fluminenses. O grande interesse em saber mais sua procedência desabou num silêncio inexplicável.

As fronteiras se transformaram em peneiras pelas quais passam, diariamente, contrabandos de toda espécie, de preferência drogas e armas de países vizinhos. Afinal são produtos de franco consumo e alto valor no mercado. A rede rodoviária nacional, a sua vez, facilita o transporte da carga perigosa, a despeito do policiamento. Inúmeros se enriqueceram com a venda da sórdida mercadoria. É o demorado motim policial no Ceará? E as atividades criminosas dos milicianos, sobretudo na Baixada Fluminense? E a inflexível devastação da floresta amazônica?

Brasileiros de vários recantos, que viajaram para os Estados Unidos na esperança de uma vida melhor e mais feliz, voltam às pencas, no longo e triste retorno. Os americanos do Norte não querem saber de estender as mãos aos que carecem de trabalho digno e salário justo, vindos de outros mundos. Um triste espetáculo, que já existia antes, do Rio Grande para baixo. Não se esperaria outra resposta do presidente americano.

Trump há certamente de argumentar que Tio Sam fez um grande papel, liberando a importação de carne bovina in natura do Brasil, suspensa há longo tempo, isto é, desde 2017. Uma notícia, contudo, chega simultaneamente com outra desfavorável: o rombo das contas externas brasileiras cresceu no início deste ano.

Segundo o Banco Central (BC), o déficit do setor externo foi de US$ 11,9 bilhões em janeiro. O resultado é o pior do mês nos últimos cinco anos e foi influenciado, sobretudo, pela queda das exportações brasileiras. O déficit em transações correntes (entradas e saída de dinheiro proveniente do comércio de bens e serviços, pagamento de transferências e as contas relativas a investimentos) de janeiro é cerca de 30% maior que o registro do mesmo mês do ano passado (US$9 bilhões). E é ainda maior que o rombo esperado pelo Baco Central (BC), que, no fim do ano passado, projetou resultado negativo de US$8,7 bilhões para resultado de janeiro passado.

E o motim dos policiais do Ceará? Custou resolver, não foi?



84525
Por Manoel Hygino - 23/2/2020 07:58:48
Pelos céus daqui e dali

Manoel Hygino

No Brasil, as coisas, mesmo as mais simples, se complicam. Assistimos ao imbróglio de radares nas rodovias federais; as idas e vindas foram tantas, que sequer os motoristas devem saber como tudo ficou. Uma das causas reside exatamente em não poucos quererem dar palpite em seara alheia, mesmo preparados ou principalmente não o estando.

Algo semelhante ocorreu com o pagamento do IPVA. Devia pagar-se ou não? Como seria a arrecadação? Para onde iria o dinheiro? O contribuinte, coitado, buscou informar-se melhor para manter em dia seus compromissos com os cofres públicos, municipais, estaduais ou federais. Em determinado momento, o brasileiro sequer sabia a quem recorrer, para conhecer o valor do tributo.

Como todos os anos, repetiu-se a façanha para definir o salário mínimo. Que troço complicado. Chegou-se a determinado valor, logo substituído por outro pretensamente de maior interesse da nação. É? Seria? Será? De todo modo, o capítulo está vencido.

O mesmo ocorre com o piso do seguro desemprego, que passou de R$ 1.039,00 para R$ 1.045,00. O que é um excelente prêmio.

Buscam-se, ou não, os brasileiros na China? Dúvida cruel. Pelo menos, uma atitude foi tomada e os conterrâneos estão de volta. O que mais se poderia fazer? Deixá-los morrer lá na China?

Maior número de conterrâneos percebe agora o salário mínimo. Espera-se que algo lhes sobre para as despesas do carnaval. Pelo menos isso.

No dia 17, suspendeu-se a vistoria, emplacamento e emissão de documentos, por causa das placas do Mercosul. E promete voltar. É sempre assim. Não funciona o esquema previsto e cada estado vive seus problemas. As novas placas estão sendo cogitadas desde 2016, se não me engano.

Algumas coisas e fatos estão claros e definidos. A arrecadação de tributos no país venceu o limite do exercício anterior antes do período, o brasileiro não está dando calote.

Segundo autoridades, o tráfico de drogas na cracolândia de São Paulo arrecada R$ 97 milhões por mês, o que é sintoma da pujança da economia nacional. Por esta e por outras, o mercado desse tipo de produto evolui muito no país. É um grande negócio, que as autoridades não conseguem eliminar, a despeito dos renovados esforços.

Centenas de brasileiros, que se tinham deslocado para os Estados Unidos, inclusive com a família, em busca da sorte grande e oportunidade de vida melhor, estão de volta, de mala e cuia, além de muita frustração. Não é como esperavam. Já é o quinto voo, mas se aguardavam mais.

Enquanto isso, os que por aqui permaneceram entraram na fila do Bolsa Família, já com 3,5 milhões de pessoas. Fazer o quê? No Brasil ou lá na terra de Trump, a situação para os herdeiros de Pedro Álvares Cabral não anda boa. Haja disposição de ânimos.


84512
Por Manoel Hygino - 11/2/2020 08:52:12
Uma voz do sertão

Manoel Hygino

Mesmo reconhecendo o indiscutível talento literário de autores de outras regiões, não posso fugir à situação privilegiada nesse labor pelo Norte de Minas, que apresenta um elenco excelente em nomes que conquistaram justa projeção no Estado e no país. Alguns chegaram à glória da Academia Brasileira de Letras, e razões existiram para subirem os degraus do Trianon.

Há de se considerar, entre outros fatores, que as dimensões geográficas de Minas, aliadas ao seu poder econômico, lhe permite os da terra permanecer entre as montanhas, contando com veículos próprios de comunicação e editoras que partiram para outros caminhos ou – ainda – preferiram ali viver e laborar.

No âmbito estadual, sem menosprezar outros centros e regiões, ganha especial destaque o Norte mineiro, terra dos nascidos em chão roseano e pelos que assentam praça nas cidades de maior expressão no vasto território. Ali, montaram o seu QG para alcançar os públicos mais próximos ou enveredar pelos da capital e de outros flancos da velha província, outrora a mais populosa do Brasil.

Itamaury Teles de Oliveira é um deles. Nascido em Porteirinha, começou o itinerário na cidade mais importante, que é Montes Claros, onde ingressou na imprensa aos 16 anos. Participou da Fundação da Academia Juvenil de Letras do Norte de Minas e de folhas estudantis, como me informo pela orelha de um de seus livros. Editou um “house organ” do Sesc, fundou e dirigiu “O Brejo”, de Francisco Sá.

Simultaneamente, fez Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e advocacia, além de mestrado em Administração pela Federal, defendendo tese, em 2004. Não ficou nisso. Exerceu cargos de assessoria superior em Brasília, ingressou no Banco do Brasil como principal gestor em agências do interior e da capital.

É muito título para pequeno espaço. Repito o que consta da segunda orelha de um dos seus livros: Foi agraciado com prêmio internacional pela elaboração do melhor Plano de Negócios (Outstanding Business Plan), no Moot Corp Latin American, competição realizada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, em março de 2003. Em 2004, participou de curso de verão sobre a economia da União Europeia, na Universidade de Schmalkalden, na Alemanha, onde proferiu palestra sobre o Mercosul. Como professor universitário e de cursos de pós-graduação, lecionou nas Universidades Estadual de Montes Claros, Federal de Minas Gerais, Federal de Juiz de Fora e na Católica do Leste Mineiro.

Edita a Revista da Academia Montes-clarense de Letras e o site noticioso e cultural “Minas Livre”. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, tendo participado da primeira diretoria da entidade. Ocupa a cadeira nº 4 da Academia Montes-clarense de Letras e é membro Honorário da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco (Aclecia).

Mas não deixou a imprensa escrita: autor de “Balangador de rede”, “Doce prejuízo”, “Noturno para o Sertão”, “Urubu de Gravata e outras crônicas”, no campo das Letras, utiliza exemplarmente o vernáculo e delicia com textos atraentes, reveladores do “elevado grau de domínio artístico do autor na manipulação de seu ponto de vista”, como se manifesta o historiador Petrônio Braz.

Já andou muito e muito caminho resta à frente. Não lhe faltam méritos e condições.



84510
Por Manoel Hygino - 10/2/2020 07:58:54
As enchentes de 1978

Manoel Hygino

1º de fevereiro, ainda bem que sábado, passadas as doze horas do dia, quando “uma nuvem que os ares escurece sobre nossas cabeças aparece”, como disse Camões na sua obra maior. Em seguida, na capital dos mineiros, a chuva forte, acompanhada de ventos intensos sopra pelos sopés da Serra do Curral e pelo amontoado sempre crescente de prédios ali construídos. E sobreveio o granizo em determinadas áreas, porque a natureza programara um temporal completo. Esperava-se que, pelo menos sem vítimas humanas, como nas anteriores chuvaradas no mês anterior.

Depois dos terríveis dias de calor de 2019, eis as tempestades de 2020, que mudam muito na vida brasileira, principalmente no Sudeste. Não constitui novidade, mas modifica planos administrativos, as perspectivas do Carnaval, o início das aulas escolares.

Recordo o governo de Minas sob Ozanam Coelho, quando se avizinhava uma séria recessão e o PIB estadual regredia: como se não bastassem essas condições adversas, o verão 78/79 marcado por chuvas torrenciais que provocaram enchentes devastadoras em todo o Estado, principalmente em Belo Horizonte e sua região metropolitana, obrigavam o governo a desviar os já escassos recursos para socorrer a população menos favorecida, a mais atingida. Mas era imprescindível a realização de obras emergenciais, sobretudo de barreiras e pontes, destruídas pelas enchentes.

Efetivamente, o agressivo período de chuvas de 78/79 marcou e castigou Belo Horizonte e atingiu o coração do governador, na expressão de um dos seus auxiliares mais íntimos... “Porque ele era um homem mais dedicado à pobreza, e os que sofreram com desabamentos foram os menos afortunados ele mandou construir, através do DER-MG, umas casinhas, para resolver o problema emergencial, lá nos Gorduras, que estão lá até hoje. Foram construídas para serem retiradas depois, era só para atender aquela emergência dos desabrigados, em vez de os colocar em um galpão. O DER-MG trabalhou dia e noite e construiu lá umas casinhas. Isso afetou demais a sensibilidade dele. Lembro-me até que ele foi dar uma entrevista na televisão e não conteve as lágrimas. Porque foi uma coisa que tocou mesmo, ele sentiu o problema isso marcou muito o seu governo, e as enchentes impediram que ele fizesse muita coisa que pretendia fazer”.

E o próprio Ozanam, na Associação Comercial de Juiz de Fora, disse:

“Tudo o que era possível fazer, foi feito. Mobilizamos e convocamos, atendemos e ajudamos na medida do possível, sobretudo na primeira hora, quando, justiça seja feita, a Cedec revelou-se um instrumento operacional e criativo de extrema importância e agilidade mas a ajuda do governo do eminente presidente Ernesto Geisel ao nosso Estado, desde a primeira hora, quando determinou a vinda de seu ministro do Interior, o ilustre engenheiro Maurício Rangel Reis, para ver de perto, em todas as partes em Minas e estados vizinhos, o alcance dos prejuízos – o que também fez o governador do Estado às vezes com risco de vida. Com esta ajuda aprovada pelo eminente presidente Ernesto Geisel, e mais os nossos recursos, embora escassos, reconstruiremos o que enchente levou, mas é lamentável lembrar as vidas perdidas – e não foram poucas”.




84509
Por Manoel Hygino - 8/2/2020 08:58:44

Fevereiro, 6, 1930

Manoel Hygino

A data passou ao calendário nacional, por força do tiroteio em Montes Claros, funcionando como grito propulsor da revolução que manchou de sangue a bandeira do Brasil e a de Minas. De um lado, o presidente Washington Luís, seu vice Melo Viana, que anteriormente governara Minas. Formaram-se dois blocos compactos e poderosos – a Concentração Conservadora, liderada por poderosos políticos, e, de outro, integrado por grupos dispersos, constituído por gente de escol, prestigiada por Antônio Carlos, presidente de Minas: a Aliança Liberal.

Uma grande comitiva de concentracionistas viajou de ferrovia a BH, descendo no sentido do centro da cidade. Conta Milene Antonieta Maurício, autora de um livro que se tornou famoso por sua importância histórica (Emboscada de Bugres). Os próceres visitantes argumentavam que participariam de uma reunião para debater o problema do algodão, que a região tanto produzia.

O “evento” foi antecipado por intensa propaganda, contribuindo para exaltação de ânimo numa cidade e região de tradição candente entre facções políticas. O propalado congresso do algodão ocorreria em 6 de fevereiro e os sintomas da própria divisão nacional em torno de Washington Luís, que lançara o nome de Júlio Prestes para sua sucessão, se mediria pelas manifestações de rua.

Era a primeira vez que um vice-presidente da nação, em campanha pelo Palácio da Liberdade, – no caso Melo Viana – se dispusera a entrar pelo sertão para expor ideias e lutar por votos. O trem-de-ferro parou e já começaram os inflamados discursos. Foguetório, vivas e morras. Aclamações e aplausos a Júlio Prestes, um hino aos candidatos oficiais do Catete. Formada uma passeata, esta mudou de rumo e se dirigiu à praça em que residia João Alves, médico e líder da Aliança Liberal, marido da celebrada mineira – dona Tiburtina. Ele se postara à porta de sua casa, vendo o povo passar. Relata a historiadora: “contam testemunhas presentes, que alguém teria gritado de dentro do cortejo: ‘morra a Aliança Liberal’, e que ele, sacando o lenço vermelho, muito sertanejamente teria respondido: ‘viva a Aliança Libera!’. Neste exato momento, uma bomba, atirada por João Cândido Dias, adversário político, explodiu a seus pés. E ele, que era hipertenso, sofreu uma hemorragia nasal com crise de tosse e sufocamento, dando a todos, que estavam na porta e na sala da casa, a impressão de que havia sido ferido de bala. Tombou, então, com um tiro na cabeça, o jovem Austílio (Fifi), que estava bem ao lado de João Alves, e que era comensal em sua casa. Existem controvérsias de onde partiram os primeiros tiros. A impressão geral é de que todas as armas estavam engatilhadas dos dois lados, no prenúncio do choque que já se desenhava no todo do acontecimento. Aceita-se a hipótese de que foi a bomba a desencadeadora de tão lutuoso episódio, e, ainda, que ela foi a mensagem equívoca que disparou a violência. A ocorrência foi dantesca. A multidão, apavorada, corria desordenada em busca de abrigo ou então se lançava, aflitamente, ao solo. Muitos atiravam dentro do escuro em tentativa de defesa. O tiroteio durou apenas minutos, a multidão fugiu. A banda de música silenciou. Os foguetes e as bombas não mais explodiam em desafio de festa, o pavor e a dor abraçaram o silêncio da noite, numa profundidade de censura, lástima e melancolia, pelo sangrento desenlace que feria a própria alma da cidade”.

Resultado final: sete mortos e dezenas de feridos, inclusive Melo Viana, com um tiro no pescoço.


84505
Por Manoel Hygino - 4/2/2020 09:38:22
Meia volta, volver

Manoel Hygino

Estas cidades, ou os meros povoados que sejam ainda, cercando Belo Horizonte e formando a região metropolitana, têm sua história, merecendo respeito e admiração; exigem que se as conheça, algumas já inseridas na crônica definitiva da metrópole.

Sobre Nova Lima preparei uma tosca matéria, que acaba de ser publicada na revista “Memória Cult”, dirigida por Eugênio Ferraz, um engenheiro de São Lourenço, ex-diretor da ex-Imprensa Oficial do Estado, detentor de altos e vários títulos.

Com Sabará, tão perto da capital e tão dentro de nosso coração, tive a oportunidade de contribuir com o projeto do governador Israel Pinheiro na integral restauração do seu belo teatro, em estilo elizabetano, que se encontrava destroçado. Um excelente trabalho em que se empenhou e a que se dedicou Israel, nascido ali bem perto, em Caeté, onde também se encontra sepultado. A responsabilidade técnica do projeto coube ao professor Luciano Amedee Peret, diretor da Escola de Arquitetura da UFMG, cujo filho hoje é coordenador do Cememor – Centro de Memória da Medicina, também da Universidade Federal.

As pessoas assistiram por televisão à situação a que foi reduzida Sabará, com as pesadas e destruidoras chuvas que lá caíram. Brava gente andou por aquelas paragens, procurando riquezas, a começar pelas ambicionadas esmeraldas que em nada resultaram para Fernão Dias, Borba Gato e o fidalgo Dom Rodrigo Castelo Branco, friamente assassinado em 1681, mas se beneficiou. Não se encontraram esmeraldas, mas ouro não faltava.

Esta uma linda história, envolvida em lendas, que João Oliveira Gomes publicou, despretensiosamente, com apoio do empresariado local, no livro que recebeu o nome de “Histórias do Alto Rio das Velhas”, que dá a entender muito do que aconteceu em Sabará e redondezas, através de séculos recentes.

Em 1823, um ano após a Independência, portanto, Dom Pedro concedeu a Vila o título de Fidelíssima, por não ter aderido aos movimentos de rebelião contra sua atuação. Em 1831, deu na telha do jovem imperador sair da sede da Coroa para transmitir pessoalmente seu reconhecimento àquele povo. Dom Pedro foi à Casa da Ópera, mas, ao invés de expressões de gratidão, deparou profunda frieza. Ouviu-se, em determinado instante uma voz, única e isolada: “Viva o Imperador”. Em meio ao silêncio frustrante, Pedro Gomes, fundador do jornal local, ergueu-se para gritar:

– Viva o senhor Dom Pedro I, enquanto constitucional!

Diante do espanto e do mal-estar generalizado, o jovem Pedro encerrou sua visita e retornou à corte. Cumpria o dever de agradecer o apoio da gente sabarense em momento que tanto precisava. Um historiador comentou: “ninguém lhe recusou a reverência devida ao monarca... Em todos os lugares as Câmaras recorreram aos setores municipais para as galas e o floreado das saudações votivas.

Mas não havia entusiasmo, efusão, cordialidade e isso o homem de nervos vibráteis que era Dom Pedro percebeu sem dúvida. Ele sabia que não conseguiria dirigir a nação sem Minas a seu lado. Era uma província fortemente tingida por ideais liberais e, além do mais, em que o liberalismo dominante encontra muito por onde florescer e progredir. Não se esquecerá que era também a província mais populosa do Império. Isso sentiu Pedro I em sua viagem, percorrendo ruas e casas, ora destroçados pela lama das enchentes.

Tenho certeza de que o meu bom amigo desembargador Hélio Costa, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, professor da Escola de Direito da Universidade Federal, daria uma aula sobre o assunto. Sabarense, ele amava o berço e estaria pranteando os prejuízos sofridos pela cidade natal neste primeiro mês de 2020.


84498
Por Manoel Hygino - 1/2/2020 09:21:58
Na pista da criminalidade

Manoel Hygino

Não mais causam espanto ou susto, porque as notícias estão inseridas no regular noticiário de todos os veículos de comunicação. São referentes à onda de violência que invadiu o Brasil e propagou pelos estados, pelas favelas – transformadas em comunidades, pelos conjuntos habitacionais, até as mansões e palacetes. Mata-se muito, contrariando a nossa pretensa tradição de gente pacífica e cordial. Transformamo-nos ou a eficiência da imprensa é maior do que antes e dissemina mais amplamente informações sobre as maldades cotidianas?

Há dezenas e dezenas de especialistas em criminalidade se manifestando sobre causas do fenômeno, suas consequências sociais e penais, o clima de temor que as pessoas têm na intimidade do lar ou na simples locomoção nas ruas, no cumprimento das jornadas de trabalho, em qualquer atividade e horário. O brasileiro mata e o brasileiro tem medo. Sua vida pode estar por um fio.

Pelo rádio do táxi, é ainda manhã, tomo conhecimento dos últimos episódios, os da madrugada, quando mais vidas foram ceifadas, mais sangue se derramou por motivos fúteis ou torpes, pelo extremo etílico dos autores (como costumam dizer os soldados da PM), pela fúria dos namorados ou maridos, diante muitas vezes de fuxicos ou pela canalhice dos que querem cobrar a bala os débitos contraídos por vítimas dos usuários de drogas.

Os dados são horripilantes. Pelo menos 38.436 pessoas foram assassinadas nos nove primeiros meses do ano passado no Brasil – o tempo normal para gestação de uma vida humana. A cifra, porém, é ainda maior. Maranhão e Paraná não divulgaram os dados referentes ao nono mês, embora o progressista Estado do Sudeste sequer divulgasse os dados de julho e agosto. No entanto, o cômputo contabiliza todos os homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidos de morte, que compõem os chamados crimes violentos letais e intencionais.

Embora muito se comente sobre a violência no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e do Norte, nas regiões fronteiriças de Roraima, Paraguai e Bolívia, a verdade é que nenhum rincão deste país (grande e bobo, como diz o escritor Eduardo Almeida Reis) escapa do quadro de letalidade. Márcia Alves, diretora de Prevenção Social ao Crime e à Violência da Secretaria Municipal de Segurança Pública da Prefeitura da capital, considera que o homicídio é “apenas a consequência final” de um contexto de desvantagens sociais. O problema é muito maior.

Enquanto isso, a despeito de esforços do poder público, continuamos matando e morrendo, mais do que no tempo das diligências no velho Oeste americano. O município quer expandir a rede de cuidados e proteção para adolescentes vítimas de agressão. É medida muito correta em consonância com nossa realidade. Mas alguma área deve também expandir a ação contra os jovens autores de agressão e de violência, de modo geral.



84497
Por Manoel Hygino - 31/1/2020 08:20:53
O sacrifício de Elza

Manoel Hygino

Realizou-se, em Belo Horizonte, em novembro, a 17ª edição do Festival Teatro em Movimento, apresentando no Brasil Vallourec, o musical “Elza”, que resgata os maiores sucessos em mais de seis décadas de carreira da cantora Elza Soares. Um espetáculo vívido, particularmente atraente para quem gosta de samba e acompanha a vida da popular intérprete.

A Elza, que ora me desperta da memória, contudo, é a Elza Fernandes, garota de 16 anos, família humilde, de quem se aproximou o baiano Antônio Maciel Bonfim, conhecido também por Américo ou Adalberto Fernandes, ou ainda Miranda, apelido que lhe davam os comunistas brasileiros, ou ainda Queiroz ou Keiro entre os camaradas soviéticos.

Era a segunda década do século XX, com o Brasil dividido entre comunistas e fascistas, até personalidades de governo. Logo veio a guerra, acrescentando ao quadro político internacional o Reino Unido, a França e, finalmente, os Estados Unidos. Os comunistas se achavam com a corda toda por aqui, erro que levou ao fracasso da chamada Intentona de 1935.

Miranda era bom de bico, como por aqui se diz, mesmo simpático, “de grande loquacidade”, como o definia William Waak. Falava francês, impressionava, mas não merecia integral confiança. Elza se chamava, de fato, Elvira Cupelo Colônio, sempre alegre, ria muito, contava casos, inclusive fazia visitas em nome de companheiros, ora para recados, ora para buscar dinheiro para o partido, conforme conta Maria Werneck, em “Sala 4”, um livrinho de lembranças.

Em depoimento à polícia, Miranda, ex-secretário do PCB, conta que conhecera Elza ainda menina, 13 para 14 anos, em Sorocaba, cuidando da casa da família, em meio a muitas privações. Os pais, napolitanos, já tinham morrido, deixaram filhos, e nove ainda viviam. Duas irmãs faleceram por tuberculose, os irmãos remanescentes não se prestavam a serviços domésticos.

Embora não comunista, Elvira ou Elza sofreu prisão por suas relações com Miranda e pelo relacionamento com os camaradas. Pelo seu envolvimento sentimental com Miranda, um dos chefões do PCB, por suas ligações com homens e mulheres, de vária formação, inclusive ideológica, Elza acabou por viver sob suspeita de trair os companheiros. Como disse Sérgio Rodrigues (nascido em Muriaé, atuante na imprensa paulistana e autor do romance “Elza, a garota”), a jovem se tornou alvo no meio revolucionário. Indefesa, de uma ingenuidade desconcertante, depois de ter sido “julgada” por comunistas, foi estrangulada covardemente com uma cordinha de varal, e o corpo enterrado no quintal de uma casa de subúrbio carioca, como relata Carlos Herculano Lopes.

O crime ganhou os jornais, alcançou rumos inesperados, envolvendo altas autoridades, peritos, gente de toda espécie. Nas tentativas de apuração sobre possível traição, Miranda também foi vítima de terríveis torturas pela polícia. Um certo Matoso, jornalista ligado ao partido, conta que “a Elza padeceu três dias de surras tremendas. Nua, os tiras torciam-lhe os seios. Não lhe arrancaram nem uma palavra. Grande bravura”.

A verdade verdadeira é que Elza perdeu a vida após tormentos e sevícia. Acusado de ter determinado sua morte, Prestes saiu pela tangente: “eu não mandei matar Elza. O que ocorreu foi que a polícia ligou a morte dela com a carta minha, escrita antes de ser preso, em que eu recomendava a punição para os traidores. Quem mandou matar Elza foi o partido”.


84492
Por Manoel Hygino - 30/1/2020 06:57:25
Pré-visão do caos

Água superabundante no Espírito Santo, em Minas Gerais, no Norte do Estado do Rio. Inúmeras moradias destruídas, os bens de seus proprietários – das geladeiras, aos sofás e televisões, tudo reduzido à zero pela força da enxurrada que entrava pelos quartos e caminhos sem pedir licença. Depois, restava “contabilizar” o prejuízo, como insistiam os repórteres de tevê e rádio. E buscar, no meio dos escombros e da lama os corpos dos parentes desaparecidos. E se teria de computar os feridos, os desalojados, os que não têm para onde ir ou apelar. No sertão mineiro, o técnico José Ponciano Neto, registrava, o sol insistia: “a chuva tá pirracenta”. Depois, chuviscos para abrir caminho à consumação das previsões da Meteorologia.

Desde o princípio da formação e Minas, muito antes de capitanias, era assim. O historiador João Camilo de Oliveira Torres lembra que os núcleos de povoações que constituíam as Minas Gerais e já existiam no século XVIII, cujos habitantes se dedicavam à mineração, nasceram no fundo dos vales, à beira das montanhas. Dizia mais, e é importante dizê-lo:

“Ora, o clima destes vales montanhosos é frio e úmido. As altas montanhas condensam as nuvens e as chuvas caem, provocando a desagregação dos terrenos”, tudo surgindo nos anos e séculos seguintes pela população que não tem recursos para adquirir terreno em lugar mais seguro para ali construir suas moradias.

O complicado relevo orográfico, com as mazelas decorrentes, com ruas e estradas transformadas em rios de lama, faz do mineiro um prisioneiro da montanha. Formados os núcleos habitacionais, é pelas encostas dos morros ou dos declives que acharam os mineiros onde habitar, mesmo com os riscos previsíveis.

Ao se escolher um local para construir uma nova capital, tudo assim ficou: dos morros de Vila Rica para as serras de Belo Horizonte, belas em determinadas épocas do ano, ameaçadoras quando as chuvas mais pesadas despencam dos céus.

Há o que temer, como há de se precaver. Mineiros sabem que a temporada anual de chuvas por aqui se estende até o terceiro mês do Dia de São José... Ou enchente das goiabas, em 19 de março. Até lá, muito pode ocorrer, mas o importante é acompanhar o boletim da Defesa Civil, alertando para os sinais que a natureza nos envia, ininterruptamente.

Os jornais advertem que não haverá trégua, nesta desmesurada estação das águas, quando se tem como certo grandes volumes de água na região metropolitana, bem como também em outros pedaços desse grande território das Minas Gerais. Os deslizamentos matam mais que chuvas propriamente. E a vida vale muito.

Na capital das Minas, contudo, a situação chega ao pré- caos, como divulgaram, à suficiência, os veículos de comunicação, na terça-feira, 28. Jamais Belo Horizonte assistiu a espetáculo tão desastroso e, seguramente, doloroso para muitas famílias.

E, ainda, para os integrantes de equipes que formam a raça em extinção que não falham em seu dever de informar, qualquer o tempo e as circunstâncias hostis.


84483
Por Manoel Hygino - 24/1/2020 08:35:43
O celibato clerical

Manoel Hygino

Embora emérito, Bento XVI (ou 16) envolve-se em um ruidoso escarcéu na cúpula da Igreja de Roma. No dia 14 de janeiro, em reportagem publicada com assinatura de Rafael Belincanta, informava-se da edição de um livro de Joseph Ratzinger, em coautoria com o cardeal Robert Sarah. No texto se dizia que este cardeal que é de Guiné – “guineense”, portanto –, e não ser confundido com guianense natural da Guiana.

É um assunto muito mais complicado, contudo. A obra, que teria sido redigida pelo cardeal e pelo ex-papa, prega o celibato sacerdotal como é hoje, enquanto o Sínodo da Amazônia defende a ordenação sacerdotal de homens casados para atuarem na extensa região da América.

O problema aqueceu Ratzinger, considerado um dos pontífices mais cultos da Igreja. Ele negou a coautoria do livro, mas o religioso africano fez publicar provas de sua colaboração. Pessoas próximas a Bento 16 contestam-na. De todo modo, a mídia está em cima e “Des profondeurs de nos coeurs”, deverá ser um sucesso. A editora é a Fayar, francesa, mas o papa emérito se exclui e não ver-se envolvido em participação, segundo uma fonte anônima.

O editor, Nicolas Dist, observa que o religioso alemão não aprovou o texto final nem a capa do livro, nem autorizou que se confirmasse ter autorizado a expressão “escrita a quatro mãos”.

Vê-se que problema de desencontro de informações e o jogo de interesses sempre existem, devendo-se ressaltar que Robert Sarah é nada menos que prefeito da Congregação para o Culto Divino, opositor severo de Francisco, segundo se informa. Nesta hora em que o Sínodo da Amazônia poderá ser posto em prática sob os olhos dos países com interesse naquele pedaço do mundo, o pior que poderia acontecer seria um duelo entre Francisco e Ratzinger.

O mais sensato entre todos os argumentadores é Andrea Tornielli, diretor editorial do “Vaticano News” – nada será mais que uma contribuição sobre o celibato sacerdotal em filial obediência ao papa. Ele afirma ainda que a posição de Francisco sobre o celibato é conhecida: “o celibato sacerdotal jamais foi um dogma. Trata-se de uma disciplina eclesiástica da igreja latina, que representa um dom precioso, definido deste modo por todos os últimos pontífices”.

O assunto, simplesmente por entrar em pauta, é sumamente interessante, mas de extrema delicadeza para a cristandade de um modo geral, em torno do qual há a ação de quantos nada têm a ver com religião. No seio da igreja, o celibato é a obrigação de perfeita castidade que ela impõe aos seus sacerdotes sob forma de voto perpétuo e solene, implícito na ordenação. Objetiva obter do clero o mais alto grau de santidade, a dignidade do serviço divino e a maior eficácia e condições de pleno cumprimento do ministério sacerdotal. A igreja latina impõe tal obrigação ao conferir o subdiaconato. Quem esteja já unido por matrimônio não pode receber ordens sem dispensa da Santa Sé e, se a obtém, deve viver em continência e separado da mulher.

Na Grécia antiga era considerado crime não só o celibato, mas também o casamento de má maneira, como de um jovem com uma velha ou de um velho com uma jovem.




84481
Por Manoel Hygino - 23/1/2020 08:44:39
Abrindo o livro

Manoel Hygino

Suponho que já tardamos na abertura do livro. É hora, ou já retardamos no reconhecimento de erros do passado, pelo menos para evitar repetição. Há um descrédito generalizado nos partidos e nos políticos, não poucos envolvidos em crimes contra os interesses da sociedade, em desvios de recursos públicos, na organização de quadrilhas, especializadas em tempos recentes, enfim na dilapidação do patrimônio nacional, nas respectivas áreas de atuação.

Seria necessário dizê-lo?

Cristovam Buarque, já ocupou cargos importantes, pronuncia palestras e escreve para os meios de comunicação, ex-ministro da Educação, e fez uma confissão: “nós (a esquerda brasileira), como bloco, toleramos a corrupção, o aparelhamento do Estado, convivemos com mordomias. Não acabamos com as mordomias, elas aumentaram. Temos que reconhecer que erramos e discutir quais foram os erros”.

Eis o mea culpa poderia estender-se a membros de outros partidos que existem no país e cujos integrantes são identificáveis até pela simples enunciação dos nomes. Inúmeros já tiveram suas mazelas e ações criminosas investigadas e esclarecidas.

O jurista Sacha Calmon, ex-professor titular da UFMG e UFRJ, escreveu, há algum tempo, sobre “Movimentos Sociais”, lembrando que o “Brasil enveredou pela social-democracia europeia e seu ideário, para impor ao estado objetivos sociais. Disse, então: “é errado supor que o constituinte não devesse fazê-lo. O problema é pragmático. Faltou um ‘sempre possível’ ou ‘na medida dos meios orçamentários’. Exemplo disso é o artigo 6º, a cuidar dos direitos sociais, assim escrito: ‘são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a Previdência Social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição’. Um sarcástico constitucionalista – não vem a pelo citá-lo – se perguntou se tudo isso cairia do céu, uma espécie de fubá (ou maná, como no mitológico deserto hebraico), ou deveria o Estado, da noite para o dia, realizar o voluntarismo desbragado dos constituintes. Ao que sei, nada daquilo posto no artigo 6º realizou-se a contento. Cá estamos já em 2015 metidos em severa crise. O governo da União falido e sem meios sequer para as coisas mais essenciais”.

E era 2015!

Mas se constata que a falência não circunscreve-se ao poder central. Lá de cima até na parte mais baixa da administração pública está em semelhante situação.

Basta verificar-se o que dizem os jornais impressos, televisivos e falados para constatar que a situação é dramática. Não há recursos para as escolas primárias, faltam merenda escolar, o transporte dos alunos é precário (onde existe); não há com que tapar os buracos nas rodovias, federais e municipais; as folhas por serviços prestados pelos funcionários se atrasa; há movimentos de insatisfação nas ruas e nas repartições públicas; os remédios que chegam à rede de assistência à saúde são insuficientes; o sistema de abastecimento de água e o de esgoto são extremamente exíguos, põem em risco as grandes cidades. E as pequenas, os distritos, os povoados? Chora-se em cada esquina por demandas não atendidas e se apela à revolta pela dor que não esmaece.



84478
Por Manoel Hygino - 21/1/2020 10:33:54
A droga e seu preço

Manoel Hygino

O problema da droga – ou das drogas – não é de nossa época. Mas, com o evoluir do tempo, ele tomou as dimensões catastróficas de agora. Todas as nações estão atentas e buscam solução, mas os males crescem avassaladoramente.

Para onde estamos indo? Qual o destino das futuras gerações? Como se combaterá esse mal ou ele não tem remédio? Muitos milhares de homens e mulheres, sobretudo de jovens, em todas as partes do planeta, estão envolvidos. Nas escolas, públicas ou particulares, à porta dos cursos primários, nos estabelecimentos de ensino médio, nos jogos esportivos, nas festas de aniversário ou de casamento, nos “pancadões” que reúnem para divertimentos centenas e centenas de pessoas da periferia, como acontece nas comunidades (a palavra favela foi banida do vocabulário) das capitais. Lembre-se o ainda recente “evento” em Paraisópolis, na maior cidade do país. Nove mortos!

Agora leio que um estudo no Brasil contesta o uso recreativo da maconha como estratégia de solução de danos em dependentes de crack e de cocaína, em reabilitação. Informações, em artigo publicado pela revista “Drug and Alcohol Dependence”, mostram que o consumo da erva (maconha) piorou o quadro clínico de pacientes, em vez de amenizar, como se esperava, a ansiedade pela droga, aspirada ou fumada em pedra, isto é, o crack.

Nada mais triste que ver nas grandes cidades brasileiras, até no âmago dos centros urbanos, as cracolândias, grupos de pessoas degradando-se no consumo destes produtos, já transformados em vício contra o qual praticamente todas as tentativas foram feitas, sem resultados práticos. O dependente de drogas é um subumano ser, que perdeu o caminho da vida social e não sabe retomá-lo. Lamentavelmente, esses núcleos crescem inapelavelmente, por maiores que sejam as tentativas das famílias bem formadas, de religiosos, de educadores, das autoridades do setor saúde, em redirecioná-los.

O pesquisador Hercílio Pereira de Oliveira Júnior adverte que a exposição precoce à maconha teria um prognóstico pior não só em relação à própria maconha, como a outras substâncias. Declarou: “O impacto negativo da maconha e da cocaína no processo de maturação cerebral é a caracterização de um pior prognóstico da doença”.

E tendo tudo custo muito caro. Por exemplo, o ex-boxeador Mike Tyson, de 53 anos, revelou que fuma o equivalente a R$ 158 mil em maconha por mês. Para ele, é pouco. A declaração foi dada no último episódio de seu programa de arquivo transmitido pela internet. Tyson possui um rancho em que cultiva a erva em parceria com outro ex-atleta.

Ele investiu R$ 1,9 milhão na produção de Cannabis. O ex-boxeador revela que está construindo um resort dedicado à erva. Essa é só uma das diversas polêmicas já enfrentadas por Tyson em sua trajetória.

Em uma das lutas mais épicas de todos os tempos, ele deu uma mordida na orelha de Evander Holyfield, em 1997, e foi desclassificado. Tyson também foi pego por uso de maconha após uma luta em 2000. Em 2005, foi preso no Brasil depois de agredir um cinegrafista em casa noturna.

Quais as vantagens que a droga pode trazer? Ou não há nenhuma? E toda a sociedade paga o alto custo do perverso vício. Os tratamentos são de elevado custo, assim como a manutenção de estabelecimentos próprios ao tratamento.



84473
Por Manoel Hygino - 18/1/2020 08:21:05
Antes dos aiatolás

Manoel Hygino

Ninguém urdira um plano de sabotagem ou terrorismo. Ninguém quereria, certamente, que o avião da Ucrânia caísse após levantar voo do maior aeroporto do Irã. Quarenta e cinco quilômetros de um voo para a morte. O comandante sequer anunciou emergência.

Eram 63 pessoas, das 176 que perderam a vida, pretendendo voltar ao Canadá, onde residiam, estudavam, após fugirem à Revolução Islâmica de 1979.

Nenhum míssil teria sido lançado contra a aeronave, informou-se. O Estreito de Ormuz, o lugar mais sensível para a guerra, em todo o mundo, nas circunstâncias de então, permaneceu intacto. O avião caíra sozinho (?).

Trump esbanjou felicidade: “nenhum americano foi atingido, não sofremos perdas, nossos soldados estão seguros”, afirmara o presidente após a execução do general Soleimani. Só o preço do petróleo bruto subiu 6% desde então, mas logo voltou ao patamar considerado normal.

Não fora um atentado, julgara-se inicialmente, nem um mero acidente aéreo. O presidente do Irã, Hassan Rouhani, dias depois, porém, viu-se na obrigação de confessar que o avião ucraniano fora derrubado acidentalmente por míssil do seu exército. “Os responsáveis serão castigados exemplarmente”, prometeu categoricamente.

Rouhani determinou a prisão de trinta envolvidos. Assegurou que nenhum novo caso do tipo acontecerá. Ninguém sobreviveu. O governo dos aiatolás tremeu nas bases. Manifestantes saíram às ruas de Teerã para protestar, principalmente jovens.

O último embaixador do Brasil no Irã, antes dos aiatolás, que lá até hoje se acham instalados, foi Pio Corrêa, ministro plenipotenciário. Ele fez depoimento precioso sobre aquele tempo. O Shah Reza Palhevi lhe confessou que não podia sequer visitar sua irmã, porque tinha de tomar precauções. Era vigiado: “não sei quais são, onde estão os meus inimigos; mas sei que sempre haverá algum à espreita”. Era 1958.

“E dizia a verdade. Em dois anos no Irã não conheci ninguém que tivesse tão profundo conhecimento dos problemas do país, nem tão apaixonado desejo de resolvê-los, quanto o próprio Shah. Ele tinha realmente a ambição de despertar o Irã de sua modorra secular, modernizá-lo, dinamizá-lo, transformá-lo em um Estado eficiente, próspero e poderoso – uma espécie de Japão do Médio Oriente. Queria o progresso e o bem-estar de seu povo – e isso custou-lhe o trono, custou a vida de dezenas de seus fiéis, e mergulhou o país nas trevas de um obscurantismo fanático que o fez retroceder de mil anos ao tempo das Cruzadas em que um chefe religioso intolerante e sanguinário, o ‘Velho da Montanha’, reinava pelo terror, fazia assassinar quem lhe desobedecia no menor detalhe, e chegou a causar temor ao próprio Sultão Saladino, o cavalheiresco adversário de Ricardo Coração-de-Leão, que no entanto não era homem que se impressionasse facilmente. O ‘Velho da Montanha’ encontrou a sua reencarnação no Ayatolá Khomeini, religioso de maus fígados. O Shah Mohamed Reza esqueceu-se de que no Oriente as estruturas sociais e políticas podem manter-se inalteradas durante séculos e até milênios ancoradas na imobilidade”.


84462
Por Manoel Hygino - 15/1/2020 09:09:43
O papa e o rebanho

Manoel Hygino

O papa Francisco não tem fugido ao desafio dos problemas da Igreja Católica em nosso tempo, até trazendo do passado distante aqueles que aparentemente já teriam sido assimilados ao longo da história. A missão a que se evoca o pontífice é das mais difíceis, nem se precisará perguntar porque.

Neste meado de janeiro de 2020, caiu nas mãos de Francisco um novo repto com lançamento pelo papa emérito Bento 16, um dos mais cultos da Igreja de hoje, o livro que ele escreveu, coadjuvado por um cardeal conservador, em que defende o celibato clerical.

Trechos de “Das profundezas dos nossos corações” foram publicados no domingo, dia 12, pelo jornal francês “Le Figaro”.

Na obra, Bento 16 diz que o celibato – que se tornou uma tradição estável na Igreja há mil anos – carrega “grande significado” porque permite que um sacerdote se concentre em sua missão. Ele diz “não parecer possível realizar as duas vocações (sacerdócio e casamento) simultaneamente”. No entanto, em outubro, o documento final do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia propôs que homens casados em áreas isoladas pudessem ser ordenados sacerdotes. O papa Francisco agora, analisará o tema em documento próprio, conhecido como Exortação Apostólica.

Lembro aqui, por oportuno, o que disse – há décadas – Ivan Lins, que integrou as academias Mineira e Brasileira de Letras. Filho do eminente jurista Edmundo Lins, ambos mineiros, observava Ivan que o celibato eclesiástico é instituição do maior alcance social e, entretanto, veementemente censurado ao catolicismo.

O Lins filho recorda que, até o advento do catolicismo, os principais cargos sacerdotais constituíam privilégios de determinadas famílias, apresentassem ou não os seus membros as aptidões exigidas pelas funções correspondentes.

O escritor acrescentou: “a esse regime teocrático de oligarquia sacerdotal fez o catolicismo, vencendo obstáculos, suceder o regime sociocrático do mérito, quanto a ascensão aos mais altos postos da hierarquia”.

À guisa de ilustração, evocar-se-ia o caso do carpinteiro Hildebrando, eleito Gregório VII, na opinião de Ivan Lins o maior pontífice de todos os tempos. Sem esquecer o guardador de porcos Nicolau Breakpeare, que alcançou o trono pontifício sob o nome de Adriano IV.

Tinhas sobejas razões, pois, o nosso Padre Antônio Vieira, no “Sermão do Primeiro Domingo da Quaresma”, preste-se atenção! – pregado em Roma. Defendera que “o fidalgo particular pode aspirar a conde; o conde a marques; o marques a duque; e aqui para o desejo, porque o ser rei está fora da esfera da ambição. Nesta corte (a papal) não é assim. Da sotaina podeis subir à murça, da murça ao mantelete, do mantelete à mitra, da mitra à púrpura e, da púrpura, à tiara”.

Isto é: do mais humilde mister chega-se à chefia da Igreja Apostólica Romana. É bom saber, não é verdade? Para muitas correntes de opinião, cuidar dos filhos, da família, pode causar dificuldade nos cuidados e assistência aos rebanhos.



84461
Por Manoel Hygino - 14/1/2020 10:15:48
Poesia e dor

Manoel Hygino

Após deixar a presidência da Academia Mineira de Letras, a primeira (e única) mulher a exercer o cargo ao longo da centenária existência do sodalício fundado em Juiz de Fora, a acadêmica Elizabeth Rennó cuidou de lançar o seu novo livro de poesias – “Quântico”. São 123 páginas, com que a Editora Aldrava Letras e Artes, de Mariana, oferece a oportunidade de se apreciar a poesia da autora, nascida em Carmo de Minas, no Sul do Estado.

É o Estado que ali se encontra, porque – no dizer de Elizabeth – “Quântico, alegre e triste, desesperançado mas confiante na Palavra Maior, a que dirige as nossas vidas”. Para Andreia Donadon Leal, em prefácio, no livro cada poema, antes publicado por outros meios e em outras épocas, vagava como uma trajetória inespecífica. A aglomeração dessas partículas em livro conduz o processamento semiótico a partir do conjunto, mesmo que o olhar esteja voltado para uma partícula de um poema ou para um poema específico”.

Há uma “Viagem da Memória”, como um retorno ao lugar de nascimento: “Volto à cidade primeira”, as mesmas casas de janelas azuis, as mesmas ruas estreitas todas ali permanecem. A estátua continua no centro do jardim envelhecida e desgastada, ao lado do coreto. A igreja centenária será ainda procurada no turbilhão de hoje? Tudo ficara engessado na corrida dos dias. No entanto eu já não era a mesma, mil ocorrências, anos tempestuosos eram passado perdido nas marcas profundas do amargor da saudade persistente de um tempo/que não volta mais”.

Há muito de doloroso nestas páginas. As de nosso dia a dia e lugar e as, lá longe, no Oriente, de que brotam as lições de tolerância e amor. Elizabeth evoca uma cidade sofrida nos embates de uma região que não encontra paz: Aleppo:

“Ruídos assustadores sobre a multidão sedenta, sem teto ou agasalho, com frio e com fome, reunida neste curral humano que a desespera. As bombas destruíram os reforços salvadores. Caminhões lotados voaram pelos ares, alimentos, remédios, água se fizeram carvão pulverizado junto a corpos sobrepostos no chão inóspito e hostil. Sem uma vírgula, não há pontuação. Assim se prova a desumanidade, a selvageria e o homem. Irmão do lobo acorrentado, o aniquilamento de uma raça morena na tragédia continuada de Auschwitz em que se esquece, mais uma vez, a palavra de Cristo”.

A morte não escolhe lugares e pessoas. Ela comparece indistintamente num pedaço do mundo, bem mais perto do que nós do lugar em que nasceu Jesus. Um grande avião ucraniano deixou 176 mortos naquele recanto do planeta que insiste e persiste, através de séculos, em fazer maldade.
Um avião ucraniano caiu na capital do Irã logo após decolar do aeroporto internacional de Teerã, em plena madrugada. Sem sobreviventes: 82 iranianos, 63 canadenses, 11 ucranianos, dez suecos, quatro afegãos, três alemães e três britânicos.

O Irã não entregará a caixa preta. O ouro dispara. Pouco interessa. Os que perecem nada reivindicam. Os demais países envolvidos nos interesses do Oriente trocam acusações. Defuntos não falam, não postulam. A poesia expressa dores e verte lágrimas. É da condição humana.
Este é o mundo, assim somos.


84457
Por Manoel Hygino - 13/1/2020 10:32:08
A vaca e o brejo

Manoel Hygino

Leio o noticiário do dia 6 quando me chegou às mãos. Um buraco de um metro de diâmetro na pista da rodovia 122 está causando danos e perigo a motoristas que trafegam pela região. O texto é suficientemente claro:

O caso foi notificado pela própria Polícia Rodoviária Estadual e, o mais grave, é que a cratera fica tomada pelas águas, impedindo a visibilidade dos motoristas. O mesmo problema foi registrado em 2010, quando a estrada ficou intransitável, com vários buracos. A pista do referido trecho foi construída em 1980 e, portanto, tem 40 anos. Passou apenas por reparos.

O relato partiu das próprias autoridades, o que demonstra a gravidade da situação, pois vítimas, algumas fatais, poderão resultar de um problema histórico, a que não se dá a devida atenção. E não é apenas lá. O sistema rodoviário nacional, como um todo, é extremamente precário, sem despertar o interesse do poder público e, se interessa, não faz a recuperação imprescindível.

Os rombos do orçamento são divulgados tão plenamente quanto possível, assim como as informações sobre aqueles outros que advêm dos desvios de recursos, de que a operação Lava-Jato oferece somente sintomas. Há muito mais dinheiro para fins e organizações criminosas!

Tudo, sem embargo, não impressiona num país em que o ministro da Educação escreve o verbo “impressionar”, usando “c” em comunicado ao chefe da nação.

As investigações sobre desencaminhamento de dinheiro dos brasileiros como um todo, não de apenas alguns, são inúmeras e intermináveis. Há pouco, a Greenfield denunciou 29 ex-executivos de fundos de pensões – Petrobras, Funcef e Valia por gestão temerária na aprovação de investimentos e participações. A força-tarefa respectiva pediu a condenação e a reparação de R$ 16 bilhões. Para o MP, entre 2011 e 2016, os responsáveis pelos fundos ignoraram os riscos dos investimentos, as diretrizes do mercado e os próprios regimentos internos, sem realizarem estudos sobre os aportes.

Mais uma vez, a vaca afundou no brejo e os brasileiros foram com ela.

Há algo pior. O novo chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais do Ministério da Economia, promovido há pouquíssimos dias, está inserido na lista de denunciados na operação, embora ele já se tenha defendido, explicando que suas atividades se cumpriram como membro do conselho do Funcef e em consonância com a lei. Mesmo assim, terá de provar que sua atuação foi rigorosamente legal. Em administração pública não basta ser honesto. É preciso prová-lo.

Ainda no final de dezembro, o ministro Dias Toffoli, presidente do STF, impediu que o governo de Minas Gerais sofresse um rombo de R$ 78 milhões em suas contas. Restrições teriam sido impostas a MG em razão do descumprimento do mínimo de 12% do orçamento em saúde em 2018, como fixado na Carta Magna.

São fatos e circunstâncias de que o público na maioria das vezes, sequer tem conhecimento.





84454
Por Manoel Hygino - 9/1/2020 08:26:23
Nos tempos do Coronel

Manoel Hygino

O Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, de que é presidente o escritor Ronaldo Poletti, lançou no final do ano que ficou para trás, mais uma edição – a nona – de sua Revista, de que é editor o padre José Carlos Brandi Aleixo. Presentes em suas páginas, como não poderia deixar de ser, mineiros que têm expressiva atuação nas atividades culturais em Brasília, inclusive o próprio Sacerdote, também membro da Academia Mineira de Letras, filho do grande brasileiro Pedro Aleixo, cuja biografia a nação bem conhece.

Comparece na edição outro mineiro: Ronaldo Costa Couto, que integra o sodalício, ocupando a cadeira número 128, patroneado por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Na Mineira de Letras, de que é também titular, a sua cadeira é a 16, cujo patrono é Paula Cândido e fundador Diogo de Vasconcelos.

Profundo conhecedor dos meandros da política e da administração pública, além de escritor de reconhecida competência, com ênfase da história, Ronaldo evoca em artigo o coronel Afonso Heliodoro, da PM de Minas, que esteve anos ao lado de Juscelino, seu conterrâneo e amigo desde os velhos tempos do Tijuco.

O articulista volta a 2010, no Lago Sul, Brasília, casa de Afonso Heliodoro, quando alguém perguntou quem era JK. O coronel respondeu: “Um extraterrestre que veio do futuro. Ele acordou, alegrou, mudou e modernizou o Brasil. Fez o brasileiro ter orgulho do país”.

As relações de JK com Afonso Heliodoro dos Santos, que viveu 102 anos e encerrou seu roteiro num condomínio junto à capital mineira, são também contadas na Revista do sodalício, de que o coronel foi presidente. Costa Couto relata: “amigo íntimo da família Kubitschek, viveu muitos momentos pitorescos, alguns hilários. Gostava de contar uma passagem da visita do presidente Getúlio Vargas a Belo Horizonte”. Eis o que se publica: “quando Sara Kubtischek soube que a primeira dama Darcy Vargas gostava de ouvir anedotas, chamou Afonso: “coronel, vou oferecer um chá às cinco horas lá no Palácio da Liberdade. Reunir senhoras da nata da sociedade em torno de dona Darcy. Quero muita alegria! Ela adora ouvir piadas. Você poderia trazer o Thales? O Juscelino me disse que ele é o melhor contador de piadas que temos”.

Afonso: “tudo bem, dona Sarah. Mas se ele tiver bebido, acho melhor pensarmos em outra pessoa”. Ela, incisiva: “que nada, Afonso! Traga ele de qualquer jeito”!”.

O tempo era curto. Foi direto à casa do amigo Thales da Rocha Viana, sujeito bom e espirituoso, divertido e irreverente. Amava uísque e livros. De JK: “um boêmio adorável”. Ele tinha tomado todas. Não queria ir. Só consentiu depois de muita insistência.

Comprido, magro, meio desajeitado, conseguiu equilibrar-se para vestir um surrado terno cinza amarfanhado, cheiro de naftalina, de mangas muito curtas, os punhos da camisa branca para fora. Só precisou de ajuda para botar uma velha gravata vermelha. Chegaram exatamente às cinco.

Muita gente, muitas luzes, muita cor e movimento, discrição. Clima de respeito e reverência à primeira dama do Brasil. Formou-se uma roda. Sarah: “dona Darcy, amigas, este é o Thales, nosso maior contador de anedotas”. E ele: “só de bunda sei 59”.


84453
Por Manoel Hygino - 8/1/2020 09:57:10
Um fantasma solto

Manoel Hygino

Ao fazer resenha da produção literária de Valdir de Aquino Ximenes, nascido em Fortaleza, formado em medicina e residente em Brasília, o escritor Anderson Braga Horta, em excelente artigo, pergunta: “médico romancista? Engenheiro poeta? – Ainda haverá quem estranhe. Pensar-se-á que o profissional de áreas de conhecimento embasadas antes em ciências ou tecnologias não se dá ao desfrute de escrever poemas ou histórias inventadas, ou não tem jeito para o negócio”.

Anderson lembra os engenheiros calculistas Joaquim Cardozo e Samuel Rawet, destaques nacionais na poesia e no conto. O primeiro conheci em Belo Horizonte, ele – o grande responsável pelos complicados cálculos das criações de Niemeyer, depois do trágico desabamento do Pavilhão de Exposições, na Gameleira, que deixou um saldo de dezenas de mortos e feridos.

A propósito, cabe registrar que Clauder Arcanjo, autor de “O Fantasma de Licânia”, nascido em Santana do Acaraú, Ceará, é graduado em Engenharia Civil pela Universidade daquele Estado, a quem se devem elogiados livros de poemas, contos e crônicas.

Um polivalente vitorioso, o Clauder, produtor e apresentador do programa Pedagogia de Gestão pela tevê a cabo de Mossoró, membro de um punhado de prestigiadas Academias de Letras e de pesquisas Brasil afora, vencedor do Prêmio Geir Campos, da União Brasileira de Escritores. Não se esquecerá de que é também diretor-executivo da Sarau de Letras, revista e editora, crescentemente ganhando espaço no país por sua qualidade.
Sânzio Azevedo, nome nacional, da Academia Cearense de Letras, na orelha do livro mais recente de Clauder, observa que Licânia, município do Estado, era calma até que apareceu por lá um fantasma, que passou a incomodar até o Padre Araqueto, o vigário.

Ítalo Gurgel, o prefaciador, do Instituto Cultural do Oeste Potiguar e da Academia Cearense de Língua Portuguesa, tece elogios ao livro, mas quanto ao seu desfecho, acha melhor que o leitor vá ao final, até porque o autor advertira já no início – Licânia tem um único e mísero fantasma. E o fantasma furtou ou abduziu a jumenta, que gerou todo o escarcéu.

A pequena cidade chegou praticamente a parar a sua atividade. Os apelos do vigário em nada resultaram, contratou-se um grande investigador, formou-se um batalhão de adolescentes para descobrir o ser que levava o desassossego às noites. O Sherlock Holmes e seus comandados em ação incessante. Nada de resultado positivo.

Esta a história (?) desenvolvida por Clauder Arcanjo que, como redator, introduzia-se no texto, explicava-se, dava palpites, assumia compromissos com o leitor.

O prefeito de Licânia confessa estar em ponto de decretar calamidade pública. Até os negócios nos botecos caíram a níveis nunca vistos e as meretrizes decidiram por férias coletivas. O investigador contratado argumentava ter aprendido com grandes mestres da investigação que o segredo e a discrição são a alma do negócio. A descrição das ações é feita em minúcias.

O romancista comparece: “o mundo dos fantasmas em Licânia se resumia a um único (e mísero) fantasma; e permanecerá enfiado nas brumas do mistério. Deixo para a posteridade este cadinho de enigma”.

Quem quiser participar deve recorrer ao romance.



84448
Por Manoel Hygino - 7/1/2020 09:50:47
Mundo, cruel mundo

Manoel Hygino

Graças a esforços sempre renovados de alguém, o mundo se vê possivelmente às vésperas de mais um novo e grande conflito. O presidente dos Estados Unidos tem sido coerente com suas ideias e insiste. Procurando, com denodo, adversários à altura de Tio Sam e de sua voracidade de poder.

Nestes anos transcorridos na Casa Branca, Trump se esmera em buscar contendores para sua desmesurada ambição. Não se satisfaz com desentendimentos com os países do Novo Mundo, porque frágeis e pobres. A fronteira de milhares de quilômetros com os mexicanos, pedindo ajuda ao outro lado, não o satisfaz. Quer ingressar nas páginas da História como um mandatário de alto nível, isto é, capaz de grandes façanhas.

Não se ilude com aventuras como as das Ilhas Falkland, as Malvinas, que pode servir ao Reino Unido, a Boris Johnson, talvez. Mas, para a mais poderosa nação do mundo, há necessidade de algo mais expressivo. Ninharias à parte.

Experimentou uma briga com a Coreia do Norte, mas não deu certo. Ficou-se em uma guerra de palavras, de troca de ameaças. Além do mais, o presidente do outro lado do mundo não parece bom da cabeça. Melhor esperar. Com a China, sabe-se, não é bom negócio, principalmente se conhecendo que lá se encontra a maior população de um país neste planeta. Devagar com a louça.

Procura adversários mais por perto. O Oriente Médio seria bom prato. Tem feito experiências para enfrentar o ocidente com relativo sucesso. Além do mais, mantém-se aceso o argumento do petróleo. Do lado de cá, a cena com a Venezuela está montada e o espetáculo bélico pode começar a qualquer instante, mas é algo extremamente perigoso. Um vespeiro.

Do lado Leste do Mediterrâneo, como sempre ao longo da História, serve para uma proeza, que poderá levar o presidente honroso ao registro por futuras gerações. Se serviu para resolver problemas que contribuíram para a Primeira e a Segunda Grande Guerras, pode novamente prestar-se a embrião e anfiteatro de conflitos outros.

A hora chegou: o assassinato do maior líder militar e da inteligência do Irã, o general Qassim Soleimani, proporcionaria a ocasião de definir quem é quem naquela região turbulenta do planeta.

O primeiro passo se deu. Uma ação militar comandada desde Washington, com equipamentos modernos como um fantástico drone de 11 milhões de dólares, deu o sinal da partida. Soleimani foi liquidado, mas apenas ele. O que virá em seguida parece não interessar ao titular da Casa Branca. Os Estados Unidos já se mobilizaram para o campo de batalha e enviaram reforço às tropas lá aquarteladas.

Para Huascar Terra do Vale, o homem é o animal mais cruel e sanguinário na superfície do planeta Terra. A História é uma sequência de invasões, chacinas, assassinatos, torturas, roubos, escravidão.

Certa vez, Calígula mandou prender a maior parte de seres supostos inimigos de Roma e furou-lhes os olhos. E fez mais. Nero. Em suas bacanais, amarrava cristãos a postes, besuntava-os com óleo e resina e punha fogo. Na tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, Maomé II, com 200 mil soldados, atacou a cidade, matando cerca de dez mil soldados, que foram trucidados.

Assim começou a Idade Moderna. O homem não evoluiu como se desejaria.




84443
Por Manoel Hygino - 4/1/2020 07:59:35
AL e as mudanças

Manoel Hygino

A América Latina em conflito. Mais uma vez. São séculos de revoltas e muitos milhares de mortos e prisioneiros. Há turbulências social, política e econômica. Como antes. Na Venezuela, rica em petróleo, luta-se contra a opressão do ditador Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, por não querer deixar o governo. Há fome, suor, lágrimas, sangue, faltam medicamentos.

Na Colômbia, repetem-se os panelaços em Medellín, ato batizado de “cacerolazo latino-americano”, contra a gestão do presidente Juan Duque. Na Bolívia, as ruas se enfrentam, mesmo depois da deposição de Evo Morales, acusado de fraudar o resultado das urnas, que o levaria ao quarto mandato. No Equador, sacudido por manifestações populares contra o preço dos combustíveis, milhares enfrentam a polícia.

No Chile, o presidente Piñera não consegue pacificar o país, mesmo após o anúncio de uma eleição presidencial ainda neste primeiro semestre. O poeta Pablo Neruda, que trabalhou para o Ministério do Exterior de sua pátria, inteiramente de esquerda, Prêmio Nobel, defensor do comunismo, senador, declarou certa vez:

“A América Latina gosta muito da palavra ‘esperança’. Agrada-nos que nos chamem ‘continente da esperança’. Os candidatos a deputados, a senadores, a presidentes se autoproclamam candidatos da esperança. Na realidade, esta esperança é algo assim como o céu prometido, uma promessa de recompensa cujo cumprimento se adia. Adia-se para o próximo período legislativo, para o próximo ano ou para o próximo século”.

O Palácio de La Moneda já foi chefiado pelo comunista Allende. Como o ditador Augusto Pinochet, deixou as marcas de sua ação. E o Chile segue esperando “Um dia mais. Um ano mais. Um lustro mais. Nossa esperança não foi decapitada. Nem será decapitada”, como proclamou Neruda, há muito não aparece mais nas páginas dos jornais e nos comícios. Simplesmente morreu.

O poeta confessava compreender naturalmente que as revoluções e, especialmente seus homens, caíam de vez em quando no erro e na injustiça. Dizia: ninguém pode escapar a equívocos. Reconhece os erros da esquerda, que cantava a Internacional em Santiago. E o vate surge dos escombros para advertir: “É preciso falar mais do espírito... Exaltar mais o mundo livre/ e para que serve Cristo?”.

Para terminar: “enquanto isso, sobem os homens pelo sistema solar... Deixam pegadas de sapatos na lua... Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas. A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... Teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito florescer a mudança... Caramba!... A primavera é inexorável!”.


84442
Por Manoel Hygino - 3/1/2020 08:43:03
O ano é novo

Manoel Hygino

O ano é novo, pelo menos no calendário. Estamos no 2020 da era cristã, que nos dá oportunidade de corrigir erros do passado e de trilhar o bom caminho. E este existe. Repito aqui trechos de um artigo do desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Rogério Medeiros Garcia de Lima, publicado no agonizante 2019:

“Há mais de duas décadas o Brasil foi transformado em um lodaçal, a corrupção alastrou-se na vida pública. Políticos, autoridades e servidores do Legislativo, Executivo e Judiciário, no âmbito da União, Estado e municípios, foram flagrados em práticas da improbidade administrativa”.

Não é novidade, sequer estigma que atinge apenas o Brasil. Os que aqui vivemos, sabemos e conhecemos onde estão os corruptos, quem são eles, os cargos que ocupam ou ocuparam, como atuaram. E a imprensa, tão criticada, até vilipendiada, exatamente por relatar publicamente os fatos, é acusada por fazê-lo.

A história aí se revela, não é estática, é dialética, e os tempos sombrios também passam. Mas voltam. O escritor, já falecido, Emanuel Medeiros Vieira, perguntava: “o que está por detrás disso? É o que em latim se chama “Auri Sacra Fames”, Fome de Dinheiro”.

Falta ética, um dos substantivos mais utilizados em nosso tempo, inclusive no Brasil. Medeiros evoca o saudoso político e jurista Franco Montoro, cidadão íntegro, que cheguei a conhecer pessoalmente. Ele se impressionava com o número de publicações sobre ética nos anos de 1990.

Tratava-se de ética na política, no direito, na indústria, no comércio, na administração, na Justiça, nos negócios, no esporte, na ciência, na economia e na comunicação. Simultaneamente se promoviam movimentos populares ou associativos, reivindicando ética na vida pública, na vida social e no comportamento pessoal. No entanto, tiveram resultado desalentador e, muitas vezes, trágico. Cumpre, pois, meditar sobre o tema, como repetidamente proclamo.

Aproxima-se o pleito municipal, uma nova oportunidade de mostrarmos o que somos e o que desejamos na política, sobretudo depois de sucessivos desencantos e até crimes. É uma nova ocasião para nos redimirmos e deixarmos um exemplo para as próximas gerações.

Comentando a fase ora vivida, o desembargador acrescentava, em artigo: muitos dos que xingam os corruptos são os mesmos que elegem políticos almejando benesses pessoais.

A cultura do descompromisso com o Brasil se acentuou deliberadamente nas últimas décadas. Mas, não seria esta a hora propícia para mudar? Afinal, é ano novo. E o que é novo geralmente nasce limpo e puro, ainda que a délivrance seja numa manjedoura, como aconteceu com Jesus, filho de Maria, em Belém de Judá, há dois mil anos. Aprender é bom e salutar.




84437
Por Manoel Hygino - 31/12/2019 08:38:56
Voltando no tempo

Manoel Hygino

O Natal 2019 passou, mas deixou registros inapagáveis em cada ser humano que o viveu, sobretudo entre os cristãos. Em sua tradicional homilia, além da bênção Urbi et Ortbis, no Vaticano, o papa Francisco enfatizou a importância do amor incondicional diante da lógica do mercado. Em missa na Basílica de São Pedro, o pontífice, argentino de nacionalidade, Jorge Bergloglio, apelou à paz entre as nações, pedindo especificamente pelos países latino-americanos, que passam “por um período de agitação social e política”.

A missa de Natal celebra o nascimento de Jesus, em Belém, segundo a tradição cristã. Embora nenhum texto do Novo Testamento indique o dia e a hora, sua comemoração se faz em 25 de dezembro, como escolhido no século 4, o que permitiu a circuncisão no dia 1º de janeiro. A comunidade cristã permanece assim no âmbito de acontecimentos milenares.

Geoffrey Blainey, autor de obras consagradas como “Uma breve História do Mundo” e “Uma breve História da Cristianismo”, brilhante estudioso e já consagrado, professor de Harvard, faz algumas observações, adequadas ao tempo de agora. Ele pergunta: Afinal, quem foi Jesus? Um mito ou um homem de infinita sabedoria? Qual a origem dos Evangelhos e o que se sabe a respeito daqueles que os teriam redigido? Que fatos levaram o cristianismo ao redor do mundo?

Recorda o autor, por exemplo, que Jesus em quase todos os seus ensinamentos usava uma língua semítica, o aramaico, ainda empregado presentemente em várias regiões do Oriente Médio. Ele falava um pouco de hebraico e um pouco de grego, mas o aramaico era o natural. Assim, a palavra “abba”, que significa “pai” e empregada por Jesus quando orava no Jardim de Getsêmani, é do aramaico, como aconteceu durante a crucificação, embora o idioma fosse pouco usado pelos grupos cristãos fundados nas primeiras décadas após sua morte. A maior parte das primeiras igrejas cristãs da Palestina se valia do hebraico, principal língua dos judeus. Mas os judeus cristãos que se reuniam fora dali utilizavam o grego, a principal na metade oriental do Império Romano. Os quatro Evangelhos, que compreendem a essência do Novo Testamento, foram escritos em grego.

Assim, Jesus e Bíblia são gregos, como o é “anjo”, significando mensageiro. Depois da morte de Cristo, os doze apóstolos receberam o nome, também grego, de “apóstolos”; bispo quer dizer “inspetor” e eucaristia “Ação de Graças”; “Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa”. Até hoje, ouve-se a oração “Senhor, tem piedade” na versão grega – “Kyrie eleison”.

Em Roma, a língua dos primeiros cristãos era o grego. Vitor, um norte-africano morto em 198, foi o primeiro papa a abandonar o grego e escrever em latim. Perpétua, morta no Norte da África, em 203, foi talvez a primeira cristã a escrever em latim, que acabou por ser o idioma dos cristãos ocidentais.

E há muito mais. O mais antigo registro feito por um dos primeiros cristãos é uma carta de poucas linhas, escrita por Paulo – a Primeira Epístola dos Tessalônicos, encontrada em torno de vinte anos depois da morte de Jesus.


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Por Manoel Hygino - 30/12/2019 08:06:39
Apagando as luzes

Manoel Hygino

Notícia boa para dezembro, que os jornais publicaram em manchete: mercado formal de trabalho criou, em novembro, mais de 99,2 mil vagas. É o melhor resultado em geração de empregos em nove anos. Agora restam pouco mais de 12 milhões sem trabalho....Gugu Liberato, o apresentador de tevê, recentemente falecido, doou os órgãos possíveis de seu corpo a expressivo número de pessoas. Rose, médica, a companheira de quase duas décadas, mãe dos três filhos do casal, não foi contemplada na herança. O inventário corre em segredo de Justiça, mas ela não foi casada oficialmente, nem lembrada em testamento de 2011. Não havendo relação estável...

Em 11 de novembro, o presidente da República editou Medida Provisória que extinguiu o Dpvat, seguro obrigatório sobre veículos, existente desde 1974. Em sessão virtual, o Supremo Tribunal Federal suspendeu a medida. Lewandovski, Gilmar e Celso de Melo não apoiaram o relatório de Edson Fachin.

O impostômetro da Associação Comercial de São Paulo chegou à marca de R$ 2,4 trilhões de impostos pagos pelos brasileiros (ou não) em 2019.

Considerado até o último dia de 2018, o valor pago agora chegou 13 dias antes do ano findo. No dia 17 de dezembro, o Congresso Nacional aprovou o Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões, visando às eleições municipais de 2020.

Ainda dezembro: Polícia Civil, Ministério Público e Polícia Militar fizeram operação nas sedes da Máfia Azul e Pavilhão Independente, torcidas do Cruzeiro. Apuraram-se crimes de tentativa de homicídio, associação criminosa, lesão corporal e provocação de tumulto. O trabalho se estendeu a Contagem, Betim, Vespasiano, Ribeirão das Neves, Barão de Cocais e Monlevade. Esporte?

Polícia do Rio de Janeiro às voltas com as investigações sobre atentado às instalações da produtora do Canal Porta dos Fundos, que se diz de humor. Terrorismo? A hipótese é amplamente negada. Contra o imóvel foram atirados coquetéis molotov por agentes mascarados que usaram moto e carro. A ação foi pela porta da frente ou dos fundos?

A Petrobras em ação. Aumentou o preço de gás doméstico ou industrial em 5% em outubro, 4% em novembro e mais 5% em dezembro. Aquecer a comidinha de fim de ano fica mais caro.

A advogada Janaina Paschoal, de destacada atuação no julgamento do impedimento da ex-presidente Dilma, agora deputada estadual em São Paulo, comenta: “já na campanha, identifiquei que o presidente é um líder do conflito. Ele só sabe liderar no conflito”.

O ano passou e a tese de encarceramento de réus após condenação em segunda instância ficou como antes. Por 6 a 5, o Supremo alterou o entendimento até então mantido de que a prisão poderia ocorrer antes do fim do processo. O ex-presidente do STF Carlos Velloso não aprovaria: porque a decisão do Tribunal nutre “a corrupção endêmica, esse conflito adúltero entre poder econômico corrompido e poder político corrompido”.

Fica para depois a criação do cargo de juízes para instrução. Bola na rede pelo lado de fora.


84430
Por Manoel Hygino - 27/12/2019 09:48:55

Aventura de viver

Manoel Hygino

O dia de Natal é muito especialmente significativo para o mundo, mesmo o não cristão. Vê-se que, em todas as nações praticamente, faz-se uma pausa para festejar a esperança de dias melhores, de mais amor e paz. Mas também serve para que se extraiam lembranças e meditações sobre os anos já vividos, nem só de alegria e êxitos.

Ao receber o livro de Palmyra Santos Oliveira (Montes Claros, Porteirinha e outros amores meus...) não esperava um reencontro tão caloroso com a cidade em que nasci e com meditação tão afetiva, como aconteceu. A autora, conterrânea, que passou um período tão longo já transcorrido nas duas cidades, estudou na maior delas, ali fez o curso normal e outros, foi professora e diretora de escola e se dá ao prazeroso luxo de recordar – que é viver de novo.

No entanto, o volume tem muito mais conteúdo do que se poderia pensar, além de fotografias, que diria históricas, embora despretensiosas. Até a do Cine Montes Claros, da minha infância. Lá por 1926, José Gomes de Oliveira, irmão da autora, quis assistir a um filme, é claro. O proprietário do estabelecimento não o permitiu, porque o pretenso espectador tinha apenas 10 anos. O pai da criança não titubeou: associou-se a Aristides Lucrécio, seu amigo, abriram uma firma, adquiriram o cinema e, logo, para a estreia, a meninada pôde ver uma “fita”, sem restrições; uma noite, houve distribuição de brindes, como caixas de pó de arroz, brincos e anéis. Cinema mudo, instrumentistas acompanhavam o enredo com músicas românticas, nos filmes de amor, e nas cenas de tiroteio, com melodias mais rápidas.

Pelo que se observa, atravessava-se época mais amável, embora haja registros de assassinatos nas ruas. Meros registros, porque o mais trágico ficou para descrição de outros escritores.

A dinâmica D. Palmyra foi-se adaptando aos novos dias e se inserindo em novas atividades na Academia Feminina de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, para gáudio dos confrades e confreiras. Na abertura de seu livro, ela o dedica “aos meus onze filhos, que criei com muito amor e, por causa dos trabalhos, não os acariciei tanto como queria”.

O marido tinha um caminhão que ele próprio fabricara, usando peças de dois anteriores, já imprestáveis. A família cumpria, como de costume, a romaria até à cidade a Bom Jesus da Lapa, já na Bahia. Uma aventura sem tamanho, e se considerar a estrada de terra, em más condições. Os romeiros iam na carroceria, com bancadas de madeira. “Para não tomar muito sol durante a viagem, as pessoas usavam chapéus de palha de aba larga. Parávamos para fazer o almoço e, à tarde, onde parávamos para fazer o jantar, já era no lugar da pousada para dormir. Carregávamos os utensílios de cozinha, comestíveis, paçoca de carne de sol, roupas de cama, colchões, esteiras, travesseiros etc. As vezes dormíamos duas noites na estrada. Uma das vezes chegamos à Lapa e meu marido, muito cansado, alugou uma casa com muitos quartos. Ficamos na sala e ele queria dormir, mas D. Etelvina em um quarto e o Sr. Zeferino Teixeira em outro não paravam de conversar, embora meu marido pedisse silêncio. Como eles não paravam a conversa, Iozinho levantou e disse: “eu não posso dormir, porque vocês não param de conversar. Vamos embora!”.

D. Palmyra completa 100 anos em 2 de abril de 2020. Será uma festa.


84425
Por Manoel Hygino - 23/12/2019 13:59:10

A fisionomia de Jesus

Manoel Hygino

O Natal é muito próprio para indagações de toda espécie sobre o protagonista maior do cristianismo. Pretendera eu rabiscar algumas informações sobre o nascimento de Jesus, o lugar em que começou a vida terrena, mas achei que o tema deveria servir a milhares de cronistas Brasil afora, sendo perfeitamente dispensável o que eu poderia produzir.
Decidi datilografar algumas linhas sobre a sua fisionomia, tão variada na imensa criação de pintores ocidentais. Todos certamente gostariam de conhecer como era o rosto de Jesus, já que em sua época não havia fotógrafos ou fotografia.
Recorri, mais uma vez, ao confrade na Academia Mineira de Letras, Pedro Rogério Moreira, que se propôs focalizar outros aspectos da vida do menino de Belém, além do que fizera sobre aquelas terras, pessoas e episódios, em “O livro de curiosidades da Bíblia”. Ele admite problemas, mas registrou:
“Fisionomia do mestre: Difícil de recompô-la. Os evangelistas que conheceram Jesus (Mateus, Marcos e João) não deixaram uma descrição das feições do Mestre. Tampouco São Pedro, que era o chefe dos apóstolos, nada mencionou em suas Epístolas”.
E houve históricos empecilhos: Como a Ortodoxia judaica proibia toda e qualquer representação de seres vivos, com receio de idolatria, nenhum de seus contemporâneos ousou o campo artístico para fixar a figura de Jesus.
Conta Pedro Rogério: “Os partidários da beleza fisionômica de Jesus se basearam na profecia atribuída a Salomão, que diz: Sois belo, o mais belo dos filhos dos homens (Salmos 44.3). Aqueles que diziam que Jesus era feio se fundamentaram em outra profecia: Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida/não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares/e seu aspecto não podia seduzir-nos (Isaías 53.2).
O tempo se encarregou de dar a aparência que atualmente dele se tem. Só a partir dos séculos II – III apareceram pinturas do rosto de Jesus, baseadas não em dados históricos, mas idealizadas por seus criadores (Vida de Cristo, de Raciotti, p.181 e seguintes). A iconografia consagra Jesus de cabelos compridos. Mas o apóstolo Paulo criticou assiduamente essa moda, o que pode levar o leitor a crer que Jesus usava cabelos curtos (I Coríntios 11.14).
O mais importante, o fundamental, é que cada cristão tenha do Mestre a impressão herdada de velhas gerações depois de sacrifício no Gólgota. Predomina o sentimento sobre suportar a dor e todo martírio, porque assim era a vontade de Deus. Contra ela não se rebelava ou se insurgia, porque consciente de que cumpria a vontade do Pai, mais alta e divina, viera para cumprir destinação elevada e sublime, que exigia sangue e suor, e da qual não poderia esquivar-se ou afastar-se.
De um modo geral, os gênios da pintura ocidental souberam captar este sentimento sublime de submissão à vontade superior.


84423
Por Manoel Hygino - 21/12/2019 09:56:51
O poeta maior

Manoel Hygino

Antes que 2019 desabasse no precipício do calendário, aconteceu o que não esperava este redator de temas múltiplos. Editou-se, em Brasília, “Camões”, uma antologia do maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, iniciativa da Thesaurus e de Victor Alegria, proprietário da empresa, para os que por aqui tenham amor à “última flor do Lácio”, como Bilac classificou a língua que falamos.

Anderson Braga Horta, organizador da Antologia, é mineiro de Carangola. Filho de pais poetas (o genitor fora ali juiz da comarca), enuncia na introdução simpáticos pormenores da vida do poeta. Grande amoroso e “gente de guerra”, teve Camões vida fantasticamente aventurosa. Lutou na África e Ásia: perdeu uma vista em batalha; esteve preso diversas vezes, constando que numa das celas por que passou compôs o seu poema.

Submetido às críticas, que não deixam em sossego mesmo os gênios, Camões passou a ser o que é e o que representa, apesar da omissão dos que preferem o entretenimento fácil e falaz. Mas se há de convir com Anderson: “releva assinalar que é considerado o fixador da língua portuguesa”, moldada em verso e prosa por sucessivas gerações; vencendo os séculos, o vate ajudou a consolidá-la, sendo o clássico por excelência, no dizer do próprio poeta carangolense, escritor de vasta cultura.

Em tempos não remotos, aprender Camões e apreciar a beleza e grandeza de sua obra era algo obrigatório, impostergável. Ai daquele que nos vestibulares se apresentasse às bancas examinadoras sem o imprescindível conhecimento! Ele era tão relevante quanto a sua obra, esta uma síntese da história de Portugal. Ainda bem que é assim, porque nos liga intimamente à gente que, na península ibérica, construíra sua pátria e a língua transmitida a demais continentes e que, mutatis mutandis, é a que falamos.

O escritor de Carangola observa, com muita propriedade: “a língua e a poesia de Camões constituem uma força de coesão, fonte prima a que subamos com frequência para nos protegermos das forças de dispersão – que são muitas, que são insidiosas, que são de algum modo naturais num mundo que explode em crescimento demográfico e tecnológico, em convergências e desarmonias”.

Mas Anderson adverte, e nós o seguimos integralmente: “hoje, o que nos preocupa são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir”.


84419
Por Manoel Hygino - 20/12/2019 08:56:13
Investigação sem fim

Manoel Hygino

Os fatos cotidianos dão o que pensar. Em meados deste mês, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, com apoio de policiais militares, cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão contra a maioria dos vereadores de uma das mais prósperas cidades mineiras. O presidente da Câmara era um dos investigados por suspeita de participação em um esquema que desviava recursos de verba indenizatória a que os vereadores têm direito para custear a atividade parlamentar. Também se investigava a possível ação fraudulenta na contratação de empresa para prestar serviço de vigilância à edilidade.

Ora, se o episódio se deu numa cidade das dimensões de Uberlândia, uma das maiores de Minas, com arrecadação expressiva no contexto dos municípios do Estado, imagine-se o que ocorreria com as menores, com reduzido poder de reação da população e de que, geralmente, não partem, por motivos compreensíveis, demandas ao Ministério Público.

O problema é que, ao contrário do que imagina o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, não foi a “Lava Jato” que destruiu empresas no país, como a Odebrecht. Em verdade, não são os organismos investigadores que arruínam os que abusam da corrupção nos negócios com a administração pública, porque aqueles já se tinham estigmatizado por origem.

Corrupção não é privilégio brasileiro, cabendo-nos estirpá-la de nossos costumes, mesmo admitindo com Cícero que “consuetudo est quasi altera natura”.

Não é hora de blasfemar por ações da Lava Jato, operação que ainda não terminou e que, pelo contrário, deveria ser estimulada a permanente atuação para expurgar a corrupção de nosso meio. Ainda esta semana, a força-tarefa do Paraná apontou para um novo rombo. Agora é o caso de pagamento de pelo menos US$ 3.402 milhões em propinas, em contratos celebrados entre a Petrobras e a Maersk para locação de navios.

As informações são de que a empresa dinamarquesa foi um – prestem atenção – dos alvos da setuagésima etapa desencadeada pela Lava Jato. Setuagésima, repito. E, como de vezes anteriores, visando apurar casos de organização criminosa e lavagem de dinheiro, vinculadas a fretamento de embarcações.

Nada escapou à voracidade dos criminosos durante longo tempo. A operação de agora, como divulgado, é de número setenta e, evidentemente, há muitíssimo mais a investigar. Ninguém tem dúvida a respeito. Inúmeros dilapidadores do dinheiro e dos bens públicos ainda têm de prestar contas de seus atos, a despeito do interesse de muitos maus brasileiros, que prefeririam ver sepultados os projetos e planos da Lava Jato. Terão de esperar.

O mexicano Jorge Castañeda, já bem conhecido, critica as esquerdas do continente por crises econômicas, promessas não cumpridas e graves casos de corrupção, achando que quanto ao último item era questão para as elites latino-americanas. Conclui: “Não é verdade. Corrupção é algo tão enraizado no continente que somos todos vulneráveis”.


84414
Por Manoel Hygino - 17/12/2019 09:00:31
Perguntas sem respostas

Manoel Hygino

Este é o momento de as pessoas, as famílias, os detentores de algum tipo de poder, os ocupantes dos pequenos cargos e as autoridades mais altas nas diversas esferas da administração pública fazerem o balanço do que fizeram no ano que finda e programar o que falta para o que chega. É a ocasião de balanço – sincero, isento, íntimo. Será que fizemos tudo o que podíamos e devíamos? Omitimo-nos, perdemo-nos no caminho e fomos levados a desvios? E o que nos permitiu em êxitos? É uma prestação de contas, um exame de consciência.

Em torno de nós – os fatos, como são: duros, cruéis às vezes, mas fundamentais aos julgamentos, auxiliando na tomada de posições e definições para o ano que logo terá início. Não é bom alvitre tentar enganar os outros e a si mesmo. Pecado imperdoável!

Em primeiro lugar, porque se sabe perfeitamente que mais ficamos devendo do que conseguimos concretizar. E o ser humano nunca se satisfaz; quer e, seguidamente, precisa de mais e, ainda, mais crescem suas expectativas.

Nosso time foi mal no campeonato, as crianças não tiveram bons resultados na escola – seja no primário, seja na universidade, os débitos bancários se elevaram, não pagamos como desejado os compromissos... e ainda há gente doente em casa precisando de atenção médica e, talvez, do atendimento hospitalar? E há, ainda, os tributos a serem quitados, mesmo que o poder público não corresponda com eficiência a nossos pedidos e reivindicações.

Num espectro mais amplo, constatamos que o entorno rodoviário de Belo Horizonte permanece um matadouro de pessoas, sem que se tomem providências, embora prometidas. O metrô não foi ampliado como necessário e anunciado pelas autoridades competentes. Põem-se em dúvida a competência, ou que se chama “vontade política”... pois o de Caracas, na sofrida Venezuela, foi parcialmente financiado pelo Brasil.

Nem desejaria falar na BR-381, a sempre lembrada Rodovia da Morte. Promessas se fazem, são renovadas por outros protagonistas da história mais recente da República.

A importante rodovia fica no mesmo. Não é tanto. Poder-se-ia perguntar: quantos metros foram realmente construídos durante o calendário, enquanto aumentavam quilometricamente as notícias sobre corrupção nesta nação abençoada por Deus. E se não fosse?

Lembro: em maio de 2014 – decorridos mais de cinco anos – a presidente Dilma Rousseff assinou ordem de serviço para duplicação dos 330 quilômetros da 381, entre a capital e Governador Valadares. Não funcionou. A rodovia inconclusa soma as estatísticas de acidentes e aumenta o número de vítimas. Para 2020 faltam dias.

Não posso terminar sem referir-me à indefinição da prisão de condenados em segunda instância. Quanto já pagou o poder público, isto é, o contribuinte brasileiro para manter o debate aceso? Mais de duzentas nações aprovam a prisão em primeira e segunda instâncias. Ficamos entre os que não querem decidir e todo o mundo sabe o porquê. Pergunta-se como Cícero: Quosque tandem? Até quando?


84412
Por Manoel Hygino - 15/12/2019 11:48:13
Gente que escreve

Manoel Hygino

Montes Claros, ponto de passagem dos que, procedentes do Nordeste, procuravam melhor sorte no que chamam de Sul, transformou-se no grande polo econômico de vasta região de Minas e no limite da Bahia para cima.

Minas Gerais, liderando vários ramos de atividades econômicas, não ficou nisso, pois se orgulha de sua cultura e arte, contando com prestigiosas entidades de cultivo do mais belo que há em termos de sentimentos e pensamentos.

Nela, há atuantes o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, o Instituto Histórico e Cultural das Polícias Civis, a Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas, a Academia Montes-clarense de Letras, a Academia Feminina de Letras, a Academia de Ciências, Letras e Artes do São Francisco, a Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, o Grupo das Amigas da Cultura e o Grupo da Confraria de Prosa.

Em matéria para a revista Memória CULT, em novembro, eu ressaltava que a cidade sempre cresceu e buscou aperfeiçoar-se, enfrentando notórias adversidades. Hoje, lá existem universidades, institutos de educação técnica, emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas, sendo berço de figuras importantes das artes, da cultura e nas atividades políticas e sociais. Não esquecer a editora Millennium do Dário Teixeira Cotrim, polivalente e vitorioso em seus projetos, conquistando espaço desde que chegado de Guanambi (BA).

Deste modo, torna-se a este cronista fácil alinhavar o presente texto. Por oportuno, lembro que, este ano, Waldir de Pinho Veloso, professor universitário, lançou o “Direito Notarial e Registral: tabelionato de notas”, livro com 554 páginas. Destinou-se aos operadores de Direito, mas também a quantos se preparam para ingressar nesse mundo tão especial. Trabalho técnico, publicado pela Juruá, de Curitiba.

De solo assim tão fecundo, surgem poetas como Dóris Araújo, nascida sob signo de Áries, formada em Letras – Português/Francês -, dedicada ao magistério por mais de 25 anos, que se impregna de poesia e se devota a recitais em seus melhores instantes. Há algo melhor do que isso? Eleva-se quem o faz, e a quem se dá ao prazer de apreciar.

Com vários livros publicados, sempre com boa receptividade, participa das atividades literárias, com a mesma intensidade com que se interessa pela cultura. O escritor Domingos Diniz, que não está mais entre nós, da Comissão Mineira de Folclore, afirmava que Dóris trabalha a palavra à exaustão. Mas ela se obstina na lapidação, pois já traz a matéria-prima dentro de si. E faz a joia.

Dóris sabe das coisas e das pessoas, como registra no novo livro “A poética do olhar”. Assim, escreve sobre “O que é feio”: “É silenciar por omissão/é carregar ódio nas algibeiras/Feio é todo gesto de opressão/é por um nada perder as estribeiras/Feio é a exclusão por preconceito/é descumprir com a obrigação/Feio é negar ao outro um direito/é não saber compartilhar o pão”. Assim por diante.

E há “Jogue Fora: “Jogue fora tudo o que não lhe convém/jogue fora a ira, a revolta, o rancor/Tudo o que for contra a lei do Amor/O que entulha sua Alma de dor/Jogue fora a vaidade desmedida/Não seja uma pessoa ressentida/Jogue fora tudo que não lhe acrescenta/O que seu espírito não pascenta/Jogue fora a indiferença e o desdém/Jogue fora o que não lhe convém/Jogue fora todo ódio e amargura/Tudo o que lhe traz desventura/Jogue fora, para o seu próprio bem/A impaciência, o medo, a ansiedade/O ciúme, a cólera, a hostilidade/Jogue fora a preguiça, a ingratidão/Jogue fora a desenfreada ambição/A avareza, a injustiça, a falta de perdão”.


84408
Por Manoel Hygino - 13/12/2019 08:55:11
Violência sem fim

Manoel Hygino

Para tempo de paz, há muito sangue na mídia. A ideia que se tinha do Brasil habitado por um povo cordial, ameno e alegre, esvaneceu. Depois, Hollywood forjou um país que servia de abrigo a fugitivos da lei nos Estados Unidos e Europa. Fez-se palco de golpes de Estado, transformado finalmente em reino da corrupção.

Neste dezembro, fim de ano, não podemos ignorar as tropelias e violências múltiplas, nos lares e em reuniões públicas. No dia 6, noticiava-se que um filho matara o pai para defender a mãe, ameaçada de facadas, no povoado de Tocandira, no Norte de Minas. O jovem, de 20 anos, atingiu o genitor com pedradas na cabeça, tomou-lhe a arma e o executou. O cinquentão não queria separar-se da mulher, após 21 anos de relacionamento. Deu no que deu.

Em Tombos, Minas também, cidadão de 29, matou com faca o filho, de 8, portador de paralisia cerebral, e a companheira, de 26, ateando fogo nos corpos e ocultando os cadáveres. O argumento de que a criança falecera vítima de convulsões não pegou. O criminoso sofrerá, é o que se espera, longa sentença.

A mídia tem facilidade em captar notícias desse gênero. Assim, menina de 6 anos morreu baleada nas costas pelo irmão em Capitão Enéas, também no norte-mineiro. Os pais estavam em um “evento”, palavra que ganhou significado novo. A arma foi uma cartucheira artesanal de chumbinho e o tiro atingiu a região lombar da vítima. O autor explicou que tentou tomá-la da irmã, quando um disparo acidental resultou em morte.

Em todo o Brasil, repetem-se mortes e agressões a pessoas, de qualquer idade, sem condições de defender-se. Os registros de violência se ampliam por todo o território, embora as estatísticas mostrem redução dos índices. Nem se diga das marcas de hediondez, mesmo em âmbito de família, principalmente as não estruturadas legalmente. Tudo doloroso.

Outro caso bem elucidativo é o das confusões e tumultos no jogo de futebol entre Cruzeiro e Palmeiras, no Mineirão, há poucos dias. Lembre-se de que só havia ali torcidas do clube mineiro, mas a guerra declarada entre elas parecia de inimigos ferozes, ocorrências estendidas posteriormente a toda a capital e Grande BH. Um idoso foi agredido, teve a casa quebrada; coletivos foram depredados; cinco veículos do Move destruídos. O que deveria ser prática esportiva se transformou em batalha campal. No bairro Nova Contagem, uma discussão entre primos terminou com uma residência reduzida a nada e um carro danificado, em um acesso de fúria momentânea de um dos litigantes.

Em São Paulo, maior capital de estado do hemisfério e a mais poderosa do Brasil – a locomotiva que carrega consigo a economia nacional – como antigamente se dizia, deu-se o lastimável e indesejado acontecimento, na madrugada de um domingo, na comunidade de Paraisópolis. Cerca de 5 mil rapazes e moças, preponderantemente com menos de 18 anos, participavam de um baile funk, quando, durante entrevero não suficientemente esclarecido, nove jovens foram mortos, em parte pisoteados. Policiais militares entraram em ação para conter o tumulto e as pessoas foram sumariamente executadas. De quem é a culpa?

O governo paulista afirma que tudo fará para lançar luzes sobre as circunstâncias e responsabilidades do trágico episódio. Por que se mata tanto? Pergunto eu. Será que encontramos resposta no velho soneto de Augusto dos Anjos?: “O homem que nesta terra miserável mora entre as feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. É isto?


84403
Por Manoel Hygino - 10/12/2019 09:23:10
Washington X Brasília

Manoel Hygino

Projetos chineses para exploração de minérios em Minas estão atravancados. Previa-se a produção de 30 milhões de toneladas de ferro por ano a partir de jazidas em Grão Mogol e Padre Carvalho, no Norte do Estado. Afetam-se 21 municípios nas proximidades do limite com a Bahia, mas o Ministério Público Federal e o de Minas questionam a segurança. Seriam utilizadas cinco barragens, duas de rejeitos e três de água. No total, os reservatórios seriam mil vezes maiores do que o empreendimento de Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Em 25 de novembro, um terremoto foi sentido em Congonhas do Campo, às oito e meia da noite. Casas e estruturas tremeram. O Observatório Sismológico de Brasília informou que se tratava de fenômeno de pouca intensidade, com três pontos na escala Richter. A CSN Mineração, que opera na região, esclareceu que o tremor não causou qualquer anomalia.

O abalo letal foi mais longe: seis pessoas morreram e 150 se feriram em terremoto de 6,4 graus, que atingiu a Albânia, no mesmo dia. Edifícios desabaram, deixando pessoas soterradas.

A economia brasileira sim, tremeu, com a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre dólar e AI-5. O câmbio elevou a moeda americana a recorde de R$ 4,24. Pareceriam estranhos os fatos. O Brasil treme quando os terremotos ocorrem, mas não matam, felizmente. Houve um caso, há poucos anos, em Caraíbas, também no nosso sertão, em que morreu uma criança. Uma exceção.

Nos nossos lares, tremem os orçamentos, mesmo com a quota de R$ 500 do Fundo de Garantia, que amenizou a sensação de peso do preço da carne bovina nos açougues. Enquanto alguns importadores da grande república do Norte cortam suas importações do produto brasileiro, a China aumenta as compras. Primeiro, porque houve uma peste suína por lá, obrigando o consumidor a apelar para nossos porquinhos e frangos.

O Departamento de Agricultura do Tio Sam mostra que a produção brasileira de carne bovina supera em 13% a de 2017. Se na China, a doença estigmatiza os preços das carnes, por cá a situação é, por enquanto, suportável, enquanto houver algum saldozinho do FGTS e do 13º. Depois... Fiquemos de olhos e ouvidos atentos. Trump não dorme e vai enrolando o mundo, mesmo os supostos países tidos como amigos.

Anunciou-se que Washington elevará as tarifas sobre o alumínio importados do Brasil e da Argentina. Quem o disse foi o próprio sucessor de Obama, utilizando o twitter. O mandatário americano, já trabalhando para a reeleição no próximo ano, foi claro ao dizer que o fazia porque as duas nações sul-americanas desvalorizaram fortemente suas moedas (o que foi imediatamente contestado), o que não é bom para os agricultores lá de cima. Concluiu: “Portanto, com vigência imediata, restabelecerei as tarifas de todo o aço e alumínio enviados aos Estados Unidos por esses países”.

Mas enquanto assim procedia o presidente de cima e Bolsonaro prometia fazer uma ligação para a Casa Branca, o colega declarou que pediria ao Federal Reserve, o Banco Central de lá, que impeça que Brasil e Argentina armazenem vantagens com o dólar mais forte, desvalorizando suas moedas, isto é, as nossas.

Segundo o presidente brasileiro, ele tem “canal aberto” com Trump. Além disso, “eu converso com Paulo Guedes e depois dou a resposta”. Aguarde-se. Em meio ao torvelinho, a inflação atingiu o maior nível para novembro desde 2015.


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Por Manoel Hygino - 9/12/2019 08:16:19
Uma agenda cheia

Manoel Hygino

Um mês de muita atividade na Academia Mineira de Letras este dezembro. Mais do que tantos outros, porque o sodalício, ora instalado na bela mansão do médico e cientista Borges da Costa e no anexo batizado com o nome de Vivaldi Moreira, na rua da Bahia, comemora 110 anos de fundação, que se deu no último mês de 1890 em Juiz de Fora.

No dia 4, pelos 75 anos de Paulo Leminski, a professora doutora Luciana Pimenta fez palestra sobre a dimensão performática do autor curitibano, também se registrando os 30 anos de morte do poeta. No dia seguinte, a acadêmica Elizabeth Rennó, lançou seu mais novo livro – “Quântico”, alegre e triste na Palavra Maior, que dirige as nossas vidas, como explica a autora, primeira mulher a presidir a Academia.

Um dia após, o acadêmico Olavo Romano e o médico e ilustrador Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues, o Lor, apresentaram a palestra “Descobrindo Ângelo Machado”, para homenagear o celebrado escritor infantojuvenil Ângelo Machado, um dos maiores pesquisadores de libélulas do mundo. Então, lança seu mais recente trabalho – “Cristóvão e os grandes descobrimentos”, em parceria com a Caravana Grupo Editorial, destinado a crianças e adolescentes.
Uma azáfama. No dia 9, as pesquisadoras Clotildes Avellar Teixeira e Janete Flor de Maio Fonseca, conduzirão a palestra “História, Ensino e transversalidades: casos e reflexões”, em que se reúnem colaborações de professores e especialistas em torno da temática do ensino da história e valorização do patrimônio cultural.

No dia 10, será a posse do novo acadêmico Wander Mello Miranda, eleito para a cadeira nº 7, vaga com o falecimento do escritor Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza. No dia 12, haverá o lançamento pelo escritor Olavo Romano de seu livro “De volta ao tempo antigo” e o relançamento de “Os mundos daquele tempo”, com narração de casos vividos pelo escritor, presidente emérito da AML.

Não é tudo. Na sexta-feira 13, às 10h, no plenário da Assembleia de Minas, haverá a sessão com que o legislativo homenageará a Academia pela efeméride.

No dia 17, que cai numa terça-feira, os festivos acontecimentos se transferem a Juiz de Fora. A Academia Juisforana de Letras preparou, para 19h30, um evento muito justo. Será festejada a data, em plenário, realizando-se um recital de poemas dos fundadores da entidade, hoje estadual. Um encontro cordial, histórico e memorável.

O presidente da Academia, jornalista e escritor Rogério Faria Tavares, considera as atividades deste final de ano fundamentais a que se meça e se propague a importância do sodalício para a vida cultural e intelectual de Minas, a começar quanto à pureza da língua e a produção do que aqui se produz na área. Também para a preservação do patrimônio construído por gerações, inclusive a própria história de Minas.

É uma missão que não se pode perder, resultado do que se inscreve no próprio lema da instituição: “Scribendi nullus finis”.


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Por Manoel Hygino - 4/12/2019 09:02:41
Rui e a águia

Manoel Hygino

Cinco de dezembro é Dia Nacional da Cultura e, há dois anos, a Associação Nacional dos Escritores, homenageou Rui Barbosa, pois também é seu aniversário. O presidente da entidade, Fábio de Sousa Coutinho, lembrou a data, nas Quintas Literárias de 2017, em Brasília. Evocou a memória do monumental advogado, político e intelectual baiano, cuja atuação tanto eleva nossa terra. Ao ensejo, apresentou o orador do mês, o embaixador Carlos Henrique Cardim, diplomata e cientista político, aplaudido especialista na produção cultural ruiana.

Para o palestrante, Rui Barbosa, embora figura das mais citadas e referenciadas, ainda é um enigma. Registrou que, embora haja 167 volumes contendo sua obra, ele jamais escreveu um livro. Cardim observou: “O que se publicou são palestras, conferências, pareceres e prefácios”. Citou, à guisa de curiosidade, que ele traduziu, um livro “O Papa e o Concílio”, no qual o prefácio é maior que a própria obra”.

E os temas se misturam nas obras de Rui. Sua posição sobre os Estados Unidos, por exemplo, está ao lado de exposição crítica sobre o divórcio. Haveria muito a contar. O palestrante Cardim, com formação em sociologia, registra que Rui nunca foi muito prestigiado na sua faculdade. Afirmou: “Eu só vim conhecer Rui, reconhecer Rui, quando estava no Itamaraty, a partir de um trabalho do Santiago Dantas, em que ele mostrou a faceta desenvolvimentista de Rui. Ele foi o primeiro ministro da Fazenda que o Brasil teve na República e tentou industrializar o Brasil, o que não é pouca coisa. Ele foi contra todo um ciclo de pensamento, de interesses que defendiam, logicamente, um modelo agrícola exportador e quis implantar a indústria”.

Observou ainda Cadim: “E depois dizem que Deus é brasileiro. Não é. Tanto que eu mesmo, em debate com o professor Delfim e o Sérgio Amaral, disse o seguinte: Deus é mais norte-americano. Aliás, Bismarck costumava dizer que a divina providência de Deus tem uma especial predileção pelos tolos, pelos bêbados e pelos Estados Unidos”.

Rui Barbosa permaneceu pouco tempo no Ministério da Fazenda: oito, nove meses, por aí. Não aguentou as pressões numa situação sobremodo difícil. Enfrentou problemas e inimizades. No Brasil, à época, ou se era pró-Rui ou anti-Rui. Nada de meio termo.

Houve um embaixador do Brasil na ONU, antes reitor da USP, ruista doente. Ernesto Leme era seu nome. Numa conferência, ele lembrou o grande baiano como se fora de todos conhecido: Rui para cá, Rui para lá, a Águia de Haia, como apelidado. A certo ponto, um embaixador inglês, muito sarcástico, perguntou ao colega brasileiro: “Embaixador, but who is this Birdman? , que voa por todos os lados? Quem é esse homem Águia?”.

Recordou-se mais: o plenário do Senado em Brasília tem apenas dois bustos de Jesus Cristo e Rui Barbosa, este “uma figura quase santificada à distância”, acrescentou Cadim. “O Rui sofreu uma série de interpretações, as mais variadas e todas muito bem fundamentadas, mas como diz o Santiago Dantas (acho que ele foi quem mais estudou e colocou Rui em termos modernos, mostrando o lado não só progressista do Rui Barbosa, mas o verdadeiro), o Rui Barbosa foi realmente, no final da vida, só podia chamar um social liberal alinhado com o trabalhismo inglês totalmente. Somente agora estamos chegando a uma certa serenidade para poder ter uma visão clara”.



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Por Manoel Hygino - 3/12/2019 14:01:21
Juízes que se julgam

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, que presentemente preside o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, completa 30 anos de magistratura. Foi juiz de comarcas pelo interior, inclusive a de Montes Claros, de que guarda muitas lembranças.

Nascido em São João Del-Rei, “graças a Deus”, (como diz), aprendeu com mestres excepcionais, no Colégio Nossa Senhora das Dores e Colégio São João, na Politécnica de Cadetes do Ar em Barbacena e nas faculdades de Direito das Universidades Federais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

Destaca, entre seus professores, Paulo Neves de Carvalho, sua imorredoura referência, que lhe despertou o pendor pelo Direito Administrativo, também admirado amigo do autor do presente artigo. Mas não esquece outros conterrâneos como Tancredo Neves, Francisco Dornelles, Aristides Junqueira e Carlos Mário da Silva Velloso, hoje membro da Academia Mineira de Letras, nascido em Entre Rios de Minas e adotado pelos frades franciscanos do Ginásio Santo Antônio, segundo Medeiros.

Com tais mestres, confessa ele, aprendeu que “trilhar o caminho do bem e colocar o interesse geral acima do interesse individual é dever que se impõe não apenas aos cidadãos, mas também aos governantes, legisladores e juízes”. E aduz ao raciocínio, a lição de Rui, em sua “Oração dos Moços”: a magistratura é “a mais eminente das profissões, a que um homem se pode entregar neste mundo”. Completa o pensamento, citando José Américo de Almeida: o juiz tem de ser culto, operoso, justo e probo, pois “o mau juiz é o pior dos homens”.

O ensinamento do rude autor do romance “A bagaceira” serve de advertência. Rogério Medeiros observa: “Contemplo hoje o panorama de meu país e me bate um terrível desalento. Contemplo a derrocada da Justiça brasileira e penso se não é chegada a hora de parar”. Partindo a ideia de quem parte, do alto de sua posição na magistratura, exigir-se-ia de todos, sobretudo dos juízes, um olhar íntimo, sobre seu papel nesta hora tão difícil, principalmente para aqueles que se incubem de aplicar a lei para fazer justiça.

O magistrado de São João Del-Rei chegou a conclusões preciosas: “Assim percorri a minha trajetória. Sempre sonhei com um Brasil mais justo. Nunca desanimei. A minha utopia sempre foi a subordinação da ética à política, apregoada por Platão e Aristóteles: “Nessa subordinação da ética à política, incidiu clara e determinadamente a doutrina platônica que amplamente ilustramos, a qual, como sabemos, dava forma paradigmática à concepção tipicamente helênica, que entendia o homem unicamente como cidadão e punha a Cidade completamente acima da família e do homem individual: o indivíduo existia em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo. Diz expressamente Aristóteles: “Se, de fato, idêntico é o bem para o indivíduo e para a cidade, parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade; é certo que o bem é desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa, porém é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades”.

Define-se: “Não, não posso parar. Brasil: verás que um filho teu não foge à luta! Há muitas pessoas de bem em nossa Pátria e haveremos ainda de triunfar. Vou em frente. Lutarei até o fim. Recordo a profissão de fé de Fiódor Dostoiévski, no clássico romance “Os Irmãos Karamazov: “Crê até o fim, mesmo que todos os homens se hajam desviado e tenhas ficado fiel sozinho; leva então tua oferenda e louva a Deus, por teres sido o único a manter a fé”.


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Por Manoel Hygino - 30/11/2019 10:00:11
Crescer, eis o desafio

Manoel Hygino

O governo federal lançou, na primeira quinzena de novembro, o programa Previne Brasil, alterando procedimentos de transferência de recursos do Sistema Único de Saúde para os municípios. A iniciativa pretende incluir mais pessoas nos programas de atenção primária, incluindo 50 milhões de brasileiros em diferentes programas do SUS. Em números, a previsão é de que os aportes passem de R$ 18,3 bilhões para mais de R$ 20 bilhões. Serão beneficiados especificamente os casos mais frequentes, inclusive diabetes e hipertensão, através de consultas médicas, exames e vacinação em campanhas.

Uma feliz, porque necessária iniciativa da União com referência às UBS. Mas é imprescindível, além de melhor e mais rápido atendimento nas Unidades Básicas de Saúde, que os passos seguintes – como os exames – sejam facilitados. Há alguns dias, milhares de pessoas entraram em fila à porta do CEM – Centro de Especialidades Médicas da Santa Casa de Belo Horizonte para inscrição a exames pedidos pelas UBS. E se atente: aquela unidade da SCBH atende mais de 55 mil pessoas por mês, procedentes da capital e municípios do interior.

É preciso renovar a constatação. A falta de repasses às prefeituras, aliada à defasagem na tabela do SUS, prejudica o atendimento à população em Santas Casas e hospitais beneficentes de todo o país. Algumas ameaçam fechar as portas ou suspender o atendimento. A maioria dos pacientes é servida pelo Sistema, mas as prefeituras alegam que foram afetadas pela crise econômica geral e reivindicam apoio de outras esferas do governo.

O presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo, Edson Rogatti, afirma que parte expressiva dos estabelecimentos paulistas vive dificuldades. Acrescenta que a situação decorre também de problemas resultantes da crise econômica no país, além evidentemente da defasagem na tabela do SUS, sem reajuste há 15 anos, que deixou os hospitais endividados e dificulta o crédito.

O médico Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Organização Pan-Americana de Saúde no Brasil, tem opinião formada: “temos um investimento privado muito importante e um gasto público insuficiente. Não chegamos a 4% do PIB, quando internacionalmente o sistema público universal deveria alcançar 6% do PIB. Estamos muito atrás. O subfinanciamento é real, mas a gestão é fundamental”.

Para o provedor da Santa Casa de Belo Horizonte, Saulo Levindo Coelho, o SUS é fundamental para a saúde da população. Por sabê-lo, o Hospital Central da instituição, o maior de Minas e um dos maiores do Brasil, se dedica exclusivamente a clientes SUS. Os resultados são altamente benéficos, por ser um programa que vai muito além da atenção médica.

A SCMBH é, assim, mais do que mero coadjuvante, pois – partícipe essencial – incluído na lista das cem melhores ONGs do Brasil, destacando-se por sua estrutura administrativa e financeira, elevado nível técnico de serviços, captação de recursos e transparência.

Seu projeto é aprimorar sempre, atender mais, não parar nunca.


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Por Manoel Hygino - 27/11/2019 08:36:52
Napoleão, o ator
Manoel Hygino

Nascido em Mariana – o que diz muito – o escritor Danilo Gomes, além do bom humor já tão restrito em nosso tempo – é um excelente cronista, um dos maiores do Brasil atual. Residindo em Brasília, depois de longo percurso como jornalista do serviço de imprensa da presidência da República, desde o Catete, continua servindo aos seus leais leitores – inúmeros.

Recentemente, ele escreveu sobre “Napoleão Bonaparte, ator teatral”, uma jóia como se fala em Minas. Começa por referir-se a Jean Tulard, o maior especialista sobre o tema, que afirma existirem mais de 60 mil livros sobre o personagem. Danilo evoca um de L.B. Horta Barbosa, publicado no Rio de Janeiro, em 1923, em que o autor execra o imperador; “livro cruel, excessivamente severo para com o gênio político e militar”. Lembram-se seus fracassos, erros, desencantos, tudo que pudesse denegri-lo.

O marianense, meu dileto confrade na Academia Mineira de Letras, prefere um ensaio do pensador Ralph Waldo Emerson – sensato, equilibrado, justo, brilhante. Ele repete Emerson: Napoleão era “potente ator, sempre pronto, que agarrou a ocasião pelos cabelos”. Acrescenta: “divertia-se a fascinar Josefina e as suas damas de honra numa sala fracamente iluminada, pelos terrores de uma ficção, na qual sua voz e o seu poder dramático exerciam largo papel”.

O tradutor, Alfredo Gomes (não é da família de Danilo), em nota ao pé de página, observa: “Napoleão preocupou-se demais pela encenação, pelo artifício e pela retumbância”. E mais: “a colaboração de seus auxiliares lhe proporcionou a atmosfera de glória”. A personagem lembra algum político deste nosso tempo?

Não há quem, em algum período da vida, não tenha sentido um certo fascínio por Napoleão, o homem ou o artista, porque afinal todos vivemos o nosso papel na face da terra. Ele procurava haver-se com as ocasiões que se lhe ofereciam. Sabia conduzir-se diante do público, tendo declarado: “uma grande reputação é feita de muito ruído; quanto mais barulho se faz, mais longe se ouve. Leis, instituições, pronunciamentos, nações, tudo cai, porém, o ruído continua e ressoa nos séculos seguintes”.

Jean Tulard observou que Bonaparte cuidou, ele próprio, de tecer sua coroa de imortalidade. Exercia fascínio sobre as pessoas, as tropas. Fez questão de manter sua lenda, nos jornais interessados em relatar suas campanhas. Diz Danilo Gomes: era um campeão da mídia, um tal da política-espetáculo, como Carlos Magno, reverenciada a memória por outro craque das letras da AML, Pedro Rogério Moreira, em agradável livro.

No entanto, o cronista de Mariana aduziu: já no Consulado, o corso criou sua própria figura: a mão enfiada no colete, o chapéu característico e exótico para sua época; os arroubos, como ao arrancar do peito a Cruz da Legião de Honra (que ele próprio inventara), o andar inquieto, pra lá e pra cá, com as mãos para trás, como os atuais garçons de restaurantes, entrelaçadas.
Tulard vai além: “Napoleão tinha um senso inato – a propaganda”. Ainda hoje, lembra-se sua frase no Egito: “soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”. E foi aplaudido por suas legiões.

O biógrafo não deixa por menos: “penso o que teria feito, se tivesse tudo à disposição, como De Gaule, uma televisão por exemplo”.




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Por Manoel Hygino - 26/11/2019 08:36:12
JK e nossa água

Manoel Hygino

A chuvarada que caiu sobre Belo Horizonte, sábado, com pesado volume de água descendo pelas serranias, limpando a poeira acumulada pelos lados da Serra, Sion, Cruzeiro e demais bairros, fez lembrar o tempo em que a capital estava ameaçada, como hoje, por falta de água nas torneiras, em épocas futuras.

Época tormentosa, porque a população crescia e os mananciais abastecedores não eram suficientes para atender à demanda. Seus prefeitos quebravam a cabeça em busca de soluções, mas todas eram apenas paliativas.

Cedo, a cidade ultrapassara à casa de um milhão de habitantes e se sabia que a evolução demográfica não pararia. A população do interior queria e sentia a necessidade de reinstalar-se em lugar que lhe oferecesse melhores condições de vida. Desejava casa própria, assistência médica, escolas, o que, enfim, as grandes cidades podiam oferecer. A capital era a solução.

As administrações se viam em dificuldade, porque as receitas dos tributos aumentavam bem abaixo do imprescindível. Belo Horizonte se transformou num deserto de gente que pleiteava e precisava de água. As fontes mais próximas já tinham sido utilizadas, como no caso do Cercadinho, dos Menezes, depois da Mutuca e dos Fechos, esta já na gestão de Giannetti, gaúcho com grande experiência no trato da coisa pública e do empreendimento privado.

Celso Azevedo veio depois, eleito em 1954, belo-horizontino que poderia ajudar na solução. Conhecia a dimensão do desafio. Naquela época, não havia secretarias, mas departamentos municipais. O professor Saul Macedo, da Escola de Engenharia, foi convidado para chefiar o de Água e Esgoto.

Durante longo tempo, debruçou-se com seus auxiliares em procura do melhor caminho, enquanto a população pedia e reclamava. Como lenitivo, se implantou um serviço de perfuração de poços, ainda incapaz de atender às necessidades da trepidante cidade.

Diante das circunstâncias, marcou-se com o presidente da República, o ex-prefeito da capital Juscelino, uma audiência no Catete, Rio de Janeiro. Era uma grande comitiva – com deputados, vereadores, representantes do empresariado, quando o chefe do Executivo municipal entregaria um minucioso projeto de aproveitamento de cursos de água das redondezas. Seria a salvação.

No entanto, no velho palácio, depois de ouvir exposições sobre a situação hídrica da capital e da proposta, Juscelino apresentou uma inesperada proposição: captação da água do rio das Velhas, em Bela Fama, empreendimento que possibilitaria o suprimento da metrópole inaugurada em 1897 e poderia esperar um novo século. Além do mais, com execução e financiamento por organismo federal. Assim se fez, não houve objeção, nem poderia. Pôde-se aguardar até o século XXI, com ajuda de outras fontes. Agora, o desastre de Brumadinho, com interrupção da adução do Paraopeba, mudou tudo. Voltamos no tempo.



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Por Manoel Hygino - 25/11/2019 09:41:13
Antes pelo contrário

Manoel Hygino

Crer ou não crer, eis a questão. Com a curta frase, reportamo-nos, sem qualquer vênia ou autorização, à famosa dúvida suscitada por Shakespeare em seu sempre lembrado e respeitável “Hamlet”. Incontestavelmente, cruéis as indagações que perpassavam pela cabeça do príncipe, protagonista da tragédia, em que o herdeiro do trono dinamarquês procura desvendar o mistério do assassinato do pai, nas lonjuras do frio castelo de Elsinore. No último ato, muitos personagens já morreram e poucos sobraram para contar a história.

No Brasil de agora, a decisão do Supremo Tribunal Federal, proibindo o encarceramento de réus após condenação em segunda instância, ateou farta lenha à fogueira extemporânea, pois não é mais o mês das tradicionais comemorações. No conturbado período que ora se atravessa, constata-se o desagrado de ponderáveis parcelas da sociedade por determinadas decisões judiciais, embora evidentemente não se negue também que elas resultam de posições ideológicas, políticas ou mesmo pessoais. Depois de longas esperas e de extensos votos, tudo fica como antes. Nem sim, nem não; antes pelo contrário.

O ambiente, que já não é dos melhores quanto ao conceito que se faz da mais alta corte de Justiça do país, com ênfase a alguns de seus integrantes, acirrou ânimos e aqueceu interesses. Chegou-se à manifestação de grupos que saíram à via pública para protestar e acusar, suscitando suspeitas sobre a conduta de alguns ministros, cujos nomes apareceram amplamente nos meios de comunicação. Algo especialmente triste num país em que se recebiam as manifestações do Tribunal com respeito quase religioso e em que se tornou popular a lição de que sentenças são para serem cumpridas, e não discutidas.

No Congresso Nacional dos Advogados Públicos Federais, Conafe, há pouco realizado em Salvador, pôde-se verificar como se encontram divididas as opiniões sobre temas que tão intimamente tangem ao interesse nacional. Entre elas o cumprimento de prisão após segunda instância, uma polêmica que não terá fim tão cedo por sobejas razões.

Carlos Mário da Silva Veloso, ex-presidente do STJ, magistrado conspícuo, foi muito peremptório em sua posição no conclave da capital baiana: “o pano de fundo desse teatro do absurdo é a presunção de inocência interpretada isoladamente e de forma absoluta”.

Veloso citou casos diversos, inclusive de crimes contra a vida, para defender a prisão após condenação em segunda instância. E, mesmo sem pretender dar lição, o fez: “a grande função política do STF é de realmente pensar nas consequências que as decisões trazem para a nacionalidade. A vítima, a sociedade, deve ser protegida”.

No caso específico da Lava-Jato se expressou com clareza: “não fora a sua coragem, nós não teríamos sucesso em combater o conúbio adúltero entre poder econômico corrompido e poder político corrompido, ambos corruptores. Pela primeira vez, nós vimos os mais importantes representantes do poder público presos confessando delações e construiu-se um edifício probatório com base em tudo isso”.


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Por Manoel Hygino - 22/11/2019 08:22:55
Mais de um século

Manoel Hygino

A data é 25 de dezembro. Não me refiro ao Natal propriamente, mas à fundação da Academia Mineira de Letras, em Juiz de Fora, em 1909. Uma dúzia de intelectuais julgou chegada a hora de se criar uma entidade estadual para os devotados à literatura e à língua, ao modo da Academia Brasileira de Letras, inspirada à sua vez na Francesa.

Os fundadores, liderados por Machado Sobrinho, e eram gente reconhecida por seus méritos na área, como Belmiro Braga, Dilermando Cruz e Amanajós de Araújo, dentre outros. Coube a esta dúzia eleger mais dezoito outros.

Por coincidência, a Academia Brasileira e Belo Horizonte, a capital de Minas, nasceram no mesmo ano – 1897, com atenção voltada não só para cultuar o passado, mas para bem aproveitar as perspectivas que se abriam para o Brasil com a instalação da República. Assim, sentiram os pioneiros que se obrigavam a transferir a sede da AML para a nova metrópole, mais próxima dos centros do Poder e núcleo de convergência de atividades e interesses de toda natureza. Em 1915, quando presidente Hely Menegale, com apoio do prefeito Otacílio Negrão de Lima, o sodalício ganhou sede própria em edifício da Carijós. Ao comemorar, em 1917, Belo Horizonte, 90 anos, o acadêmico Vivaldi Moreira conseguiu tornar realidade o sonho de uma sede à altura da importância da Casa, instalando-se a AML no belo palacete Borges da Costa, na rua da Bahia.

Transcorridos 110 anos da Academia Mineira de letras, seu atual presidente, Rogério Vasconcelos Faria Tavares, esforça-se para comemorar o acontecimento com todo brilho. Será difícil alinhar tudo o que se fez para marcar a data. Em 11 de novembro, por exemplo, houve o chá de confraternização, com presença de familiares dos antigos acadêmicos, atraindo centenas de pessoas, a despeito da ameaça de chuva. O presidente da Academia Brasileira, Marco Lucchesi compareceu, cumprimentando e abraçando os presentes. O Hino Nacional ficou por conta do coral do BDMG, enquanto se preparava a sessão solene, que também previa um Recital de Poesia, pelo Grupo Teatral Palavra Viva. Uma noite de gáudio, a que não faltou Leila Barbosa, vice-presidente da Academia de Letras de Juiz de Fora.

Quarta-feira, a escritora Maria José de Queiroz foi homenageada pelos seus 50 anos de Academia. Algo muito especial para ela, que ora vive entre Paris e Rio de Janeiro, mas não foi esquecida, nem esqueceu.

Para a ocasião, pesquisadores de sua obra festejaram até quase meia-noite a data tão querida, aberto o amável encontro, pelo presidente Rogério Tavares, saudando-a o acadêmico Ângelo Oswaldo. O romance inédito “Terra Incógnita” foi lançado, seguido do romance, “A literatura encarcerada”, com texto atualizado. No dia 21, à noite, dom Walmor Oliveira de Azevedo, também acadêmico, no Palacete Borges das Costa, celebrou missa em ação de graça alusiva à efeméride.

O essencial é que nestas onze décadas desde a fundação da Academia Mineira de Letras, ela vem cumprindo o lema que move sua existência – scribendi nulus finis, e desempenhando o seu papel de incentivo à preservação da cultura e da literatura de Minas Gerais. Demonstra que se mantém irredutível para enfrentar os desafios da deficiência de recursos materiais e as imposições dos novos tempos.


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Por Manoel Hygino - 19/11/2019 08:33:49
Extrema pobreza

Manoel Hygino

Dizia aqui, há poucos dias, que o Brasil não está pior ou melhor materialmente do que antes. Com toda sua grandeza territorial, não conseguimos confirmar na prática o que previra, em sua carta a Lisboa, Pero Vaz Caminha, após o descobrimento. Em se plantando, tudo aqui se dará.
Evidentemente, não adivinhava que a fortuna não seria apenas vegetal. Depois se soube que havia muito mais, como ouro e pedras preciosas. Mais do que isso: o tempo se encarregou de revelar que existia inclusive o nióbio, que ora amenizará as agruras do funcionalismo público em um estado que guardava riquezas gerais em suas montanhas.
Quanto delas se extraiu durante séculos! O suficiente para manter o esplendor da coroa lusitana e para o gasto enorme da aristocracia. Jamais faltou o necessário para sustentar o luxo e a ostentação de famílias ilustríssimas, através de épocas, mediante a usurpação de um patrimônio que não poderia restringir-se a privilegiados. Não poucos sofrem até agora, quando permanece a desigualdade ignominiosa.
Não é algo restrito aos países do hemisfério ou do continente, das colônias luso-espanholas. Não melhoramos, é doloroso reconhecê-lo.
No momento em que a Venezuela, a ex-poderosa república ao Norte sofre uma das mais profundas crises de sua história, constatamos que o Brasil acumula problemas e reptos, a que não tem respondido com soluções à altura e conveniência. Esta, aliás, uma das razões da insatisfação que percorre as ruas ou pernoita sob as marquises de nosso país.
A mais recente Síntese de Indicadores Sociais, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fornece dados que enlutam as expectativas. Em resumo, demonstram que a terra em que vivemos, com amplo convite aos turistas a que a visitem e se deliciem com o mais belo que a natureza lhes oferece, tem mais miseráveis do que a soma de todos os habitantes de Portugal, Bélgica, Cuba ou Grécia. Só em nossa Minas Gerais, são 739 mil pessoas nessa situação.
Se o leitor tiver dúvida, pode reler o parágrafo e seu conteúdo. É humilhante.
Segundo a mesma fonte, que merece respeito, o Brasil, atingiu nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria em 2018. Foram 13.537 milhões, um contingente maior do que toda a população da Bolívia, que alcançou o índice de 4% do PIB, enquanto rastejamos em pouco mais de 1.
A pequena melhora no mercado de trabalho não chegou a milhares. A extrema pobreza cresce, diz André Simões, gerente da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE. A pesquisa considerou a classificação do Banco Mundial de pobreza extrema: ou seja, pessoas com rendimentos inferiores a US$ 1,90 por dia, o equivalente a cerca de R$ 145 mensais. Nem se diria pobreza, porque de fato isso é miséria, que inúmeros suportam, enquanto os privilegiados mantêm belas mansões no exterior, com direito a jatinhos para uso pessoal e iate para passeio com os amigos.
Os R$ 145 mensais constituem, em última análise, um insulto ao brasileiro.


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Por Manoel Hygino - 18/11/2019 11:06:36
Um hemisfério em conflito

Manoel Hygino

A América Latina volta a ser o que sempre foi ou se pensou que era. Os acontecimentos mais recentes, a partir da revolta no Equador, põem em evidência uma situação que se supunha superada desde o fim das ditaduras instaladas em torno da metade do século findo.
Nem se fale a respeito da tenebrosa situação a que foi relegada a Venezuela, a partir de Hugo Chávez. O governo implantado pelo seu sucessor, Nicolas Maduro, se tornou um acinte à democracia e aos melhores sonhos e projetos de sua gente, sabedora da imensa riqueza de seus hidrocarbonetos, que a fizeram uma das mais poderosas nações do continente, mesmo do mundo. Tudo se esvaiu, foi corroído pelo desvario e ambição de poder, ao final transformando a nação em fonte de famintos, desempregados, sem liberdade política, obrigada a fugir para outros países, sobretudo Colômbia e Brasil. Para aquele, ainda estigmatizado pela ação das Farcs, para o qual fugiram mais de quatro milhões de foragidos.
O Peru veio depois, somando novos dramas aos antigos, presidentes depostos, multidões desenganadas, um ex-mandatário se mata, restabelece-se o reino da discórdia e da desesperança. O Chile, a nação mais adiantada do hemisfério, ainda sofre com as dolorosas marcas da sangrenta ditadura Pinochet, se vê atropelada por novos e graves conflitos, não circunscritos a Santiago. O presidente Sebastian Piñera não conseguiu pacificar a pátria, a despeito de sua obstinada ação no campo político e administrativo.
Finalmente, a Bolívia. Embora a excelente performance econômica nos últimos anos, o presidente índio Evo Morales, já movido pela sede de poder, candidata-se ao quarto mandato e assiste à população invadir as ruas e depredar bens públicos e privados, na revolta ainda sem fim. Renunciando à chefia nacional e entregue o comando nacional a alguém não suficientemente definido, o ex-presidente escapa em avião mexicano, encontrando refúgio na terra de Benito Juarez.
Por suas dimensões geográficas e importância no contexto continental, mesmo mundial, o Brasil não escapa às circunstâncias. Tanto que, na quarta-feira, um grupo de partidários de Juan Guaidó, pretenso presidente da Venezuela, invadiu a embaixada daquele país em Brasília.
Uma enorme confusão, porque os funcionários da representação da Venezuela reagiram, houve troca de empurrões, agressões físicas, gerando problemas para o Itamaraty e para o serviço de segurança. Houve detenções, gerando um espetáculo extra para a cidade-sede do governo do Brasil.
Fatos como o registrado na capital federal podem ser repetidos, principalmente em função e decorrência do papel do Brasil no âmbito das relações com todo o continente. No fulcro dos eventos e episódios, nossa situação se torna crescentemente delicada. A nota do Ministério de Relações Exteriores da Venezuela vale como advertência. Não podemos perder de vista a extensão de nossas responsabilidades.
O texto atribui às autoridades brasileiras uma “atitude passiva” diante da invasão e cobra que o país cumpra suas obrigações como Estado signatário da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas “que estabelece a obrigação de proteger as sedes diplomáticas em qualquer circunstâncias”.


84345
Por Manoel Hygino - 15/11/2019 10:21:55
A receita municipal

Manoel Hygino

O Plano Mais Brasil, apresentado pelo Executivo ao Congresso Nacional, no último dia 4, traz medidas visando ao saneamento das contas públicas e que, sob alguns aspectos, resultaram de motivação meramente política. São três os Projetos de Emenda Constitucional.

Um deles atinge diretamente o interior, em caso de Situação de Emergência, prevista pela criação do denominado Estado de Emergência Fiscal. Mudança de grande impacto refere-se à incorporação de cidades com menos de 5 mil habitantes e com arrecadação própria inferior a 10% da receita total e que passarão àqueles que têm receita própria.

Segundo dados do Ministério da Economia, há presentemente 1.254 municípios que deixarão de existir, caso a norma entre em vigor. O prazo estipulado para adequação dos pequenos municípios às novas exigências será a partir de 2026.

À primeira vista, há muito tempo: pelo menos mais seis anos, para que se cumpram as novas regras. No entanto, o tempo não pára e medidas preliminares precisam ser postas em prática, desde já.

O secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues, julga que a providência contribuirá expressamente para redução das despesas da União, por reduzir gastos tidos como desnecessários, pelo menos para a União. “Muitos municípios foram criados gerando novas despesas e não atendendo ao cidadão na ponta. É o que queremos corrigir”, concluiu o raciocínio.

Até aí, tudo bem. Mas não é tão simples assim. Verdade é que a receita gerada pela atividade econômica de 1.856 cidades brasileiras não foi suficiente nem para custear a estrutura administrativa da sua geralmente muito cara câmara de vereadores e da prefeitura, em 2018. Os dados são do Índice Firjan de Gestão Fiscal.

Significa que a economia local não gera recursos nem para pagar o mínimo do funcionamento da burocracia local. O índice analisou a situação de 5.337 prefeituras que entregaram dados ao Tesouro Nacional.

Segundo a Firjan – Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a baixa geração de receitas pelas economias municipais é o principal entrave à gestão fiscal dos municípios brasileiros. Em 2018, 73,9% dos municípios tiveram a situação orçamentária avaliada como “difícil” ou “crítica”.

A situação atual, contudo, não constitui novidade. Esses municípios já eram deficitários, quando de sua emancipação, que serviu apenas a interesses políticos. Surgiram novos líderes (?) locais e regionais. Mas o que se pretendia era fundamentalmente usufruir do repasse às novas unidades de recursos do Fundo de Participação dos Municípios, que não é arrecadação própria. Assim, se perder a receita, proximamente os municípios voltarão à míngua anterior.

Em Minas, serão 231 que perderão a condição atual, sem terem conseguido arrecadar mais por seus próprios meios e instrumentos. Uma situação extremamente delicada, em ano de eleições municipais. Além disso, outras medidas que tocam de perto o interesse de nossas comunas serão submetidas mui proximamente pelo Executivo ao Congresso através do Plano Mais Brasil.

Aguardamos.


84337
Por Manoel Hygino - 13/11/2019 09:05:16
Morte de um Nobel

Manoel Hygino

Na oportunidade de aproximação entre Brasil e China, a exemplo do que fizeram os Estados Unidos, lembro que, em 13 de julho este ano, completaram-se dois anos do falecimento do dissidente Liu Xiaobo, de 61, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2010.

Pouco se falou do ilustre morto, acusado de subversão pelo regime de sua pátria, condenado a 11 anos de prisão, quando ou por lutar por reformas democráticas. Estava internado na cidade de Shenyang, no Norte, com um câncer terminal no fígado, transferido de prisão. À véspera do desfecho, informara-se que o paciente apresentou “insuficiência respiratória” e sofrera falência múltipla de órgãos.
Naquele julho, o escritor brasileiro, nascido em Santa Catarina, Emanuel Medeiros Vieira, ex-preso do governo autoritário, que também sofria de câncer que resultou em seu óbito, comentou em mensagem, por julgar escondida a notícia:

“Meu coração sempre esteve ao lado dos perseguidos e humilhados – na esfera política – como os perseguidos da ditadura brasileira (o signatário foi um deles...) e os presos, torturados e mortos das ditaduras do Cone Sul etc”.
Emanuel recordava que Liu fora libertado condicionalmente para tratar-se do mal que o consumia. O dissidente recebia tratamento sob guarda policial no hospital. Comparando sua situação com a do Nobel, o brasileiro observou:

“Tratar de um câncer, mesmo sem perseguição política, com todos os cuidados, já é difícil e complicado. Imaginemos (todos nós) como deve ser um tratamento com escolta policial”.

Seria verdadeiramente “comunista” um regime que persegue os seus dissidentes e que admite o trabalho escravo? Claro que não. Todos sabem que lá reina o “capitalismo de Estado”.
Para o Comitê do Prêmio Nobel da Paz, o governo chinês tem uma pesada responsabilidade na morte de Lui Xiaobo, pelo fato de “ele não ter recebido tratamento adequado por um longo período”.

O catarinense acrescentou: “só gostaria que, depois de tanto sofrimento, o dissidente chinês possa descansar em paz, e que sua morte possa lembrar – a todos nós – que nenhum homem é uma ilha, como escreveu John Donne”.
E estamos no século XXI.

Eu sei: na tecnologia, melhoramos. E no resto? Se combatemos o fascismo, o macarthismo, as ditaduras que existiram na América Latina e em outros países, não podemos nos calar. A morte do humano é a derrota da civilização e da democracia como valor universal.
No começo de sua mensagem, escreveu-me o autor catarinense, já então morador de Brasília:

“Creio que o nosso humanismo não pode ser ‘seletivo’. Em qualquer lugar, em qualquer espectro ideológico, quando os direitos do homem forem violados, nossa palavra deve ser dita – mesmo que cause incompreensões e injustiças. Espero estar correto”.



84334
Por Manoel Hygino - 12/11/2019 10:27:26
A volta da cobra

Manoel Hygino
:
Não causaram pasmo, assustaram ou surpreenderam a postura assumida e os insultos, em vocabulário de cais de porto, utilizados por aqueles que saíram da prisão por decisão do Supremo Tribunal Federal, na quinta-feira, 7 de novembro. Há gente acostumada ao verbo das ruas, que não mede o poder de ofensa ao adversário; ou pior, aos que formam a plateia, obrigada a ouvir as diatribes por circunstâncias diversas.

O Brasil não está melhor ou pior do que antes. As várias tentativas que se fazem em busca do tempo perdido e dos recursos públicos desviados criminosamente demonstram à suficiência que houve algum sucesso, mas o que se conseguiu ainda é apenas um começo. O ex-presidente, libertado após 580 dias, em seu estilo muito pessoal, sem travas na língua, endurece a crítica ao governo empossado há menos de um ano, à Operação Lava-Jato e ataca da Polícia Federal e Ministério Público a membros da magistratura.

Entre os adjetivos utilizados para classificar os antagonistas nesta hora tão triste da história nacional está canalha, sinônimo nada menos de vil, baixo, grosseiro, ordinário, próprio de gente reles, desavergonhado. Como substantivo, porção de gente ordinária, sem educação, íntima, plebe, ralé, populaça.

É com ponderável parcela desse tipo de gente que temos vivido e a quem damos ou demos a gestão dos mais altos negócios nacionais. Eles próprios o dizem e se acusam. Os que se julgam isentos acham melhor silenciar, para não provocar maior dano diante da consciência popular.

Do atual chefe da nação, disse o ex-presidente e ex-presidiário: “Bolsonaro foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para governar para os milicianos do Rio de Janeiro”. “Esse país não merece um governo que manda seus filhos contarem mentira todos os dias através de fake news”. “Ele (Bolsonaro) nunca fez um discurso que prestasse, ele só sabia ofender as mulheres, ofender os LGBTs”.

Em Brasília, Bolsonaro contesta, com veemência:
“Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa. Lula está solto, mas continua com todos os crimes dele nas costas. A grande maioria do povo brasileiro é honesto e trabalhador, não vamos dar espaço e nem contemporizar para um presidiário”.

O filho do presidente, Carlos, classificou a soltura de Lula e demais considerados criminosos repetindo o pai para que não dê mais munição ao “canalha que momentaneamente está livre”. O deputado federal, Eduardo Bolsonaro, observou: “Além de Lula, Zé Dirceu e outros quadrilheiros, milhares de criminosos estão soltos no país, fazendo com que você fique à mercê de seus atos malignos”.

Em verdade, com a decisão do ministro Tófolli, presidente do Supremo, a “jararaca – a palavra fora utilizada antes pelo próprio Lula – está solta”. E foi a cobra que classificou o juiz que o condenou:

“O Moro é mentiroso, o Dallagnol é mentiroso. Eu tomei a decisão de ir lá na Polícia Federal. Eu poderia ter ido para uma embaixada, para outro país. Mas eu fui lá para provar que o juiz Moro não é um juiz, é um canalha”.
Não deixou por menos, o ex-ministro também solto, José Dirceu: “Agora a luta não é por Lula livre. Agora, (a luta) é para nós voltarmos, retomarmos o governo do Brasil”.


84328
Por Manoel Hygino - 7/11/2019 21:01:30
Restaurar é preciso

Manoel Hygino

Nem todos têm tamanho interesse, zelo e carinho por Minas Gerais como Eugênio Ferraz, cavalheiro da melhor cepa, nascido em São Lourenço, lá no Sul do Estado. É o que se poderá sentir no dia 8, nesta sexta-feira, quando precedido de palestra – seu passado, suas histórias – ele lançará os dois primeiros volumes da trilogia “Restaurações singulares no Brasil e outras experiências acerca do Patrimônio Nacional”.

Muito a propósito: a reunião será na Academia Mineira de Letras que, em 2019, completa 110 anos de fundação em Juiz de Fora – depois, transferida para Belo Horizonte. Enfim, o objetivo era concentrar na capital projetada por Aarão Reis a gestão dos interesses da arte literária e propagá-la em todo o país. Não tem sido pouco o esforço, muito sacrifício se exigiu, pela falta de recursos do erário e dos segmentos sociais que poderiam amparar-lhe a trajetória.

Pois Eugênio Ferraz foi um dos aliados da AML, coadjuvando nas edições da revista do sodalício, enquanto diretor da Imprensa Oficial, que deixou de existir em 2017. Um atentado às nossas melhores tradições e à própria história.

No entanto, nem tudo morreu. E a prova está na própria reunião da sexta, em que se ouvirá Ferraz, em sua exposição sobre o que logrou construir durante largo tempo como engenheiro responsável por valiosas obras de restauração em todo o país, conhecendo enfim os dois primeiros volumes da obra que elaborou. É resultado de pesquisas do mais alto significado para uma nação que ainda não soube oferecer o necessário apreço a um legado insubstituível.

A edição que acaba de se liberar com distribuição nacional, isto é, os Volumes I e II – Restaurações Singulares no Brasil e Outras Experiências Acerca do Patrimônio Nacional – já foram distribuídos a bibliotecas e estão disponíveis para o público. O volume I tem apresentações do promotor de Justiça e escritor Marcos Paulo de Souza Miranda e do atual desembargador e escritor Bruno Terra Dias. O Volume II traz as apresentações do jornalista e acadêmico Manoel Hygino dos Santos e do desembargador, também acadêmico, Doorgal Andrada. Todos são unânimes em destacar a importância das obras de Eugênio Ferraz para o resgate e a preservação da história e da cultura das Minas Gerais e do Brasil.

O primeiro volume da trilogia mostra as restaurações de importantes monumentos brasileiros, exemplos de manutenções – ou o resultado de suas ausências – e outros artigos abordando o patrimônio histórico, meio ambiente, história e preservação hidromineral. Nele há ainda um breve resumo de algumas restaurações citadas no projeto e, em especial destaque, a restauração do Convento dos Mercedários de Belém do Pará, monumento histórico completamente destruído por incêndio, e o teatro Amazonas, em Manaus.


84316
Por Manoel Hygino - 2/11/2019 07:23:07
Hora de prudência

Manoel Hygino

O presidente está de volta após dez dias de ausência do país, durante os quais muito se discutiu, se levantaram suspeitas sobre tudo e todos, e nada de prático e positivo se resolveu. Não faço comparações para não acrescentar mais lenha à fogueira. Há no âmbito da administração órgãos e pessoas a que se incumbem propor soluções. Assim se fará.

De minha cidade natal – que como no restante do território nacional acompanha os fatos –, recebo a nota que bem espelha nossa realidade: “O ambiente político é de expectativa, depois dos fatos das últimas 48 horas, envolvendo o forte atrito entre o presidente e o noticiário da TV Globo. Os acontecimentos públicos das últimas horas são dos mais fortes já vistos pela República brasileira, onde a política de punhos de renda é mais recorrida do que a política com luvas de nocaute. Que o diga o governador do Rio, ex-aliado. Vamos a ver, repetiria velho mestre do Caraça, que foi berço de presidentes mineiros. O ambiente é de crispação geral. Tem sido”.

De qualquer modo, é possível repetir Shakespeare. No Hamlet, em que o soberano foi assassinado por quem o sucederia no trono, sobrepaira a afirmativa solene: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, o que acontece nas lutas pelo poder, em todas as épocas e lugares. Não mais estamos no tempo de Saxo Grammaticus, do século 12, narrador da história do príncipe que se empenhou em apurar e punir o culpado da execução do rei dinamarquês, seu pai. Aqui e agora, o governo não é feudal, pelo contrário, pretende-se aprofundar a democracia, que tanto nos custou resgatar e tanto sacrifício nos impôs.

Causaram espécie, quando não repúdio, declarações de um deputado, filho do primeiro mandatário da nação, ao admitir uma volta ao AI-5, que tantos males causou ao Brasil e aos brasileiros, deixando um legado trágico às futuras gerações.

Precisa-se sepultar, de vez as expressões precipitadas de nossas autoridades, quaisquer que sejam os cargos que ocupem. Os desmentidos supervenientes não conseguem apagar definitivamente as inquietações produzidas por votos e expressões emocionais, que só podem contribuir para acirrar ânimos e atrasar a nação na retomada do crescimento, e para aliviar os cidadãos dos pesados ônus de agora.

O Brasil repudia justiceiros. Que se apurem os fatos, punam-se os culpados por delitos cometidos. O Brasil precisa é de paz e voltar a produzir, ressarcir-se dos prejuízos do passado e, finalmente, ingressar numa nova era de prosperidade.

Disse bem o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia: “O Brasil é uma democracia”, aduzindo que “manifestações como as divulgadas são repugnantes e têm de ser repelidas. A apologia reiterada a instrumentos da ditadura é passível de punição pelas ferramentas que detêm as instituições democráticas brasileiras”.


84312
Por Manoel Hygino - 1/11/2019 07:38:45
Hora de lançar luz

Manoel Hygino

A sucessão de suspeitas e acusações nos altos escalões da República, nos últimos dias de outubro, chega ao ponto de causar indignação nos vários segmentos da sociedade. Justifica-se: na hora em que se caminha para o fim da aprovação do projeto da reforma da Previdência, indispensável à recuperação da economia, problema que desafiou gerações de brasileiros, as dúvidas que se levantam no caso Marielle podem até sinalizar desconfiança de futuros parceiros no processo de restauração.

As farpas que se trocam, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação, já provocam um ambiente de insatisfação, quer entre os segmentos mais humildes da sociedade, quer entre os mais informados, que concluem pela necessidade de completa elucidação dos fatos. Evidentemente, o choque de denúncias, inclusive as acusações tornadas públicas entre autoridades, não contribui absolutamente em nada para referendar os pleitos e temas que o Brasil está levando ao concerto das nações com que mantém relevantes negociações.

Não é hora de apenas retrucar, pois cumpre a cada um oferecer colaboração para aclarar fatos que certamente precisam de elucidação. Tentar tapar o sol com a peneira ou esconder episódios ainda duvidosos afeta a própria confiabilidade de pessoas e grupos em que a nação entregou a direção de seus destinos.

Esta não é a hora própria para insultos e suspeitas, para lançar culpas sobre fatos não suficiente e completamente investigados. Aliás, é bom observar que o presidente da República e o governador do Estado do Rio, tão atuantes no affair, apelaram em suas declarações à imprensa, citando o evangelista João 8:32: “E conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”.

Neste ano 130 da proclamação da República, em que nascemos e vivemos, cumpre lembrar o 24 de agosto de 1954. Naquele tempo de grandes desavenças, o chefe da nação admitiu que um mar de lama parecia atingir o palácio do Catete, sede do governo federal. Para evitar humilhação, decidiu por fim á própria vida, com um tiro no coração.

Não é hora de repetir a trágica experiência. Cabe afugentar os fantasmas, afastá-los para bem longe. O Brasil não terá a condescendência para aqueles que o traem.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, manifestou preocupação com a democracia brasileira. “A toada não é democrática-republicana. Os ventos, pouco a pouco, estão levando embora os ares democráticos”, afirmou em um jornal.


84311
Por Manoel Hygino - 31/10/2019 10:21:56
A nossa hora

Manoel Hygino

Mesmo no exercício de altos cargos, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima não deixa de observar seus velhos hábitos. Aqueles que vão às raízes, na sua São João del-Rei natal, que não esquece, nem deixa de visitar “religiosamente”. Aliás, o advérbio vem muito a propósito, se reconhecer os vínculos da cidade com as lições pregadas desde a colonização pelos sacerdotes de Portugal.

Em artigo para jornal de sua terra natal, conta que, em outubro, lá faleceu o amigo Eustáquio Carazza, apelidado de Taco, dono de um bar muito popular.

Lembra: “aos domingos, no final da manhã, agrada-me encontrar amigos no ‘Bar do Taco’, à avenida Leite de Castro. As mesas são postas na passarela central da avenida. Faço exercício vendo as pessoas correrem ou caminharem. A roda é capitaneada pelo nosso líder Fernando Magno Mendonça. A maior parte dos frequentadores são futebolistas de São João del-Rei. Eu sou apenas comentarista e preparador físico. A cerveja é bem gelada, acompanhada por saudáveis tira-gostos importados das cercanias: o Taco não fazia quitutes. A prosa é muito boa. O dono do boteco também participava das conversas. Taco era um sujeito dócil, respondia às inúmeras provocações com bom humor e alguns palavrões inofensivos. Muito católico, rezava todas as manhãs na grutinha de Nossa Senhora, perto da ponte do final da avenida Antônio Rocha. Eu recordo um sábado friorento do mês de julho, há uns três anos. Sentei-me em uma mesa do Bar do Taco. Ali pelas duas da tarde, aproximou-se, a passos leves e ligeiros, um magro e grisalho ancião. O Taco, à aproximação da personagem, nos preveniu:

– Esse velho é surdo e mudo. Todo dia, nessa mesma hora, vem aqui olhar o relógio. Coisa doida!

O ancião mirou um relógio de parede com o escudo do Flamengo – time do coração do Taco. Olhou para o dono do bar e este confirmou: – São duas da tarde!

Ora, diabos: o velho não era surdo e mudo? Por que o dono do bar lhe falou as horas? Por que o velho fez cara de entender? Do mesmo jeito furtivo com que se aproximou, o ancião se afastou, até sumir na primeira dobra de esquina. Sorvi um longo gole da gélida bebida maltada e divaguei um pouco mais. Por que aquele ritual das horas? Para que o ancião quer as horas? O que ele faz das horas? Então lembrei o diálogo de uma peça de Shakespeare:

– Que horas são, senhor?

– São horas de ser honesto.

Agora que o Taco se foi, eu recordo essa passagem meio fantástica. Faz sentido. O Taco era do bem. Era honesto. Vejo o Brasil. São horas de ser do bem. São horas de ser honesto. Não vamos fechar o Bar do Taco”.


84305
Por Manoel Hygino - 30/10/2019 08:33:01
A vez do Chile

Manoel Hygino

O mundo, como um todo, jamais teve paz completa. O período que atravessamos confirma a afirmativa. Nem falo do Reino Unido e do Brexit, que põe em atenção a Europa. Por ali, há uma espécie de convulsão civilizada como convém.

No Oriente Médio, é o que se sabe e se confirma presentemente, com uma guerra que se estende até a Europa, passando pela Turquia, aliada à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), mas nem tanto. Conjectura-se sobre se a morte do Califa Baghdadi, do grupo islâmico que se suicidou com os filhos, terá repercussão entre os vários grupos extremistas. No hemisfério Sul das Américas, persiste o ambiente de permanente insatisfação, que gera perspectivas sombrias.

A Bolívia, com impressionante performance econômica nos últimos anos e com PIB de 4%, em 2019, ainda assiste aos efeitos do pleito, disputado entre o presidente Evo Morales e Carlos Mesa. Aparentemente, Morales assumirá o que já está em suas mãos, pela quarta vez. Falta comprovar que o pleito foi correto, sem fraudes.

No Chile, a grande e má surpresa, pois parecia que a nação andina aprendera a andar seguro pelas vias da democracia. Não foi tanto assim, e a revolta se generalizou pelas principais cidades, apesar de o presidente Sebastian Pinëra ter revogado a decisão sobre reajuste de preços de combustíveis, que causou a revolta.

Desfaz-se, assim, o que Mário Vagas Lhosa preconizara: Tem-se de “reconhecer que esse país cresce e melhora seus níveis de vida num ritmo febril parecendo para muita gente uma forma de justificar as torturas, os exílios, as censuras e outros atropelos cometidos pela ditadura Pinochet.

Mas isso é dar forma de avestruz e tentar escamotear a verdade histórica. Simplesmente não é verdade que a ditadura era o requisito indispensável para as mudanças que fizeram o Chile o que é agora, a sociedade mais próspera da América Latina e aquela sobre a qual a liberdade se sustenta com bases mais firmes”.

Acrescentou: “foram as reformas econômicas, a abertura ao mundo, a transferência à sociedade civil das empresas públicas, e a privatização da previdência social e o formidável alento à difusão da propriedade das empresas privadas o que colocou em andamento esse deslanche que fez o Chile crescer em todos estes anos, às assombrosas médias de nove por cento e dez por cento”.

E não poderia faltar o julgamento: “o acontecido no Chile nos anos do general Pinochet é uma anomalia, uma exceção à regra; em geral os regimes autoritários trazem consigo mais intervencionismo e arbitrariedade, a democracia, para funcionar de verdade, necessita de um sistema legal equitativo e eficiente que nenhuma ditadura pode garantir”.

Contados mortos e feridos, o Chile procura voltar aos seus melhores dias. A capital, Santiago, e as demais grandes cidades tentam superar os problemas mais flagrantes como o transporte urbano, seriamente sacrificado pelos danos causados, principalmente no sistema metroviário.

O presidente Pinëra não esclareceu exatamente o que significa a sua afirmativa: “Estamos em guerra contra o inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém, que está disposto a usar a violência e a delinquência sem qualquer limite”. Nas ruas de Santiago, os dispositivos militares começam a ser reduzidos. A explosão de violência arrefeceu, nas últimas horas.


84303
Por Manoel Hygino - 28/10/2019 13:39:04
Na hora do aperto

Manoel Hygino

Quem te viu, quem te vê. No dia 21 de maio, era 1899, menos de dez anos após a proclamação da República e menos de dois da solene inauguração de Belo Horizonte, em 1897, como capital de Minas Gerais, a população sentiu que a cidade precisava de um hospital para atender à crescente demanda de assistência médica. Cuidou de resolver o problema um grupo de pessoas, a nata da sociedade como então se dizia. Assim, constituiu-se uma entidade, que seria a Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Misericórdia – era a palavra-chave da iniciativa – assumindo os primeiros médicos, dois ou três, para exercício gratuito de seus misteres, formados evidentemente onde já havia faculdade de medicina no país: Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. E mãos à obra.
Parodiando Camões, poderia dizer agora que, inúmeros sóis são passados, somando hoje 120 anos, a partir da benemérita sociedade formada no governo republicano. Ela ganhou espaços, venceu dificuldades de toda ordem, para transformarse na maior empresa da área de saúde no Brasil. O galardão foi proclamado em outubro de 2019, mediante julgamento e definição de equipe da revista Época Negócios, com parceria técnica da Fundação Dom Cabral. Para chegar ao resultado, considerou-se a avaliação dos participantes em seis dimensões: desempenho financeiro, governança corporativa, inovação, visão de futuro, pessoas e sustentabilidade.
Não foi, nem é tarefa fácil, manter essa preciosa máquina de fazer o bem sem saber a quem, funcionando 24 horas por dia, com mais de cinco mil colaboradores. Mantendo seu pagamento em dia, mesmo quando algum devedor deixa de fazê-lo à instituição, como no caso do governo de Minas. E acrescente-se: o título recém conquistado não veio de uma hora para outra, pois desde 2017 a Santa Casa BH se encontrava inserida entre as melhores empresas no setor saúde do país.
Li na Época, o título e subtítulo da matéria assinada por Silvia Kochen: “O milagre aqui, se chama Planejamento: “Desde serviço ágil de ambulâncias, já apelidado de “uber das macas” até acordos estratégicos com hospitais como o Einstein, a Santa Casa de Bh busca os caminhos da cura”.
Há de advertir-se para a dimensão, por exemplo, do seu Hospital Central, cujo complexo já integra o cenário urbanístico da cidade: são 1018 leitos para atendimento exclusivo ao SUS, dos quais 170 de tratamento intensivo. Atendendo a 35 especialidades, é o maior hospital transplantador de órgãos do Brasil, inclusive de coração, procedendo a mais de 2,6 milhões de pacientes por ano. Quem quiser, pode conferir.
Quando a doença aperta, sabe-se a quem recorrer com segurança em Belo Horizonte ou, conforme o caso, nas mais recônditas regiões da velha província, como acolhe presentemente pacientes de todo o país, para determinados procedimentos específicos. Estou certo de D. Leonor de Lencastre, fundadora das Misericórdias, há mais de quatro séculos se sentirá feliz pelos serviços que, em sua Santa Casa, se presta na capital montanhesa.


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Por Manoel Hygino - 24/10/2019 08:45:42
Vieira no Maranhão

Manoel Hygino

O padre Antônio Vieira conquistou lugar definitivo na história do Brasil e Portuga. Nem precisaria repeti-lo, mas chama a atenção que sua biografia não estagnou, não ficou parada no tempo. Edmilson Caminha aborda o fato em artigo recente. E o fez de maneira atraente, com seu estilo muito peculiar, que o distingue no mundo literário da época, em que muito se produz e se publica, mas relativamente pouco se aproveita.

Edmilson começa por contar como nasceu “Vieira na ilha do Maranhão”, de Ronaldo Costa Fernandes, romance lançado este ano pela 7 Letras. E que já mereceu elogios compreensíveis também de Adelto Gonçalves, o que corresponde dizer que se trata de mercadoria de boa qualidade.

O articulista descreve como nasceu a ideia do escritor maranhense, Ronaldo, nascido em 1951, em São Luís. Ele é mestre em Literatura Hispano-americana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Literatura pela de Brasília, dentre outros títulos, sendo autor de várias obras de reconhecidos méritos.

Eis como se forjou o projeto: em visita a Lisboa para uma feira de livros, Ronaldo identifica o título do angolano Pepetela, historiando a presença de Vieira na África, continente em que o sacerdote jamais pusera os pés. De volta à feira de livros, não achou a obra e vendedores nada sabiam a respeito.

Pesquisou mais, perambulou, mais perguntou, porém, ninguém conhecia algo sobre o bendito livro. Decidiu: “se o autor angolano não escreveu sobre Vieira na África, ele - Ronaldo Costa Fernandes – o faria, escrevendo sobre o jesuíta no Maranhão”.

No Brasil, o que se sabe, relativamente pouco é sobre seus sermões, alguns famosos, vigorosos, de crítica aos poderosos da colônia, que se esmeravam em explorar os mais pobres e humildes, os escravos. Pelo romance , pode-se aprender, mesmo se tratando de ficção, muito sobre os costumes da época, desde a cama à mesa, sem maiores cuidados e zelo, pelo vocabulário utilizado por personagens pouco pudicos.

Nada melhor, contudo, de que ingressar no clima do século de Vieira tão bem acompanhado. O romance de Ronaldo Costa Fernandes contribui para sentir e compreender o tempo em que viveu, as posições e comportamentos dos personagens que transformaram o romance numa das mais significativas criações da ficção brasileira neste ano que caminha para o fim. Edmilson é um bom julgador e conselheiro.

Vou adaptar uma linha do crítico: Bendito comentário, que nos possibilita ler “Vieira na ilha do Maranhão, romance que engrandece a ficção brasileira e honra a literatura em língua portuguesa. Por sinal, o prestigioso jornalista e escritor virá a Belo Horizonte, em 28 deste mês, para palestra na Academia Mineira de Letras, sobre um dos nossos mais admiráveis escritores, ex-integrante do sodalício. Edmilson escolheu para sua palestra o título: “as histórias de Agripa (de Vasconcelos), garimpeiro da história”.



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Por Manoel Hygino - 19/10/2019 07:21:42
Em tempo de decisões

Manoel Hygino

O tempo, inclemente, com altas temperaturas e umidade relativa do ar castigando, não correspondeu às necessidades e reclamos do Sudeste, e a chuva não caiu como desejado e necessitado. Para a semana, que começa em 21 de outubro, a perspectiva é mais generosa. Precipitações a partir de segunda-feira. Vamos ver...

Em São Paulo, um assalto no aeroporto de Viracopos deixou mortos e feridos. A ousadia dos fora da lei advertiu para a situação da violência no país, nas pequenas cidades interioranas ou na maior metrópole do hemisfério. Para restabelecer a ordem, muitas centenas de agentes de segurança municipais, estaduais e federais, entraram em ação, enquanto se suspendiam pousos e decolagens de aeronaves e se fechava uma rodovia.

Neste ambiente pesado e de inquietude, no dia em que se começava o julgamento pelo STF da controversa matéria sobre prisão após segunda instância, um alto oficial das forças armadas manifestou-se. O general Villas Boas, líder do Exército, usou das redes sociais para afirmar que o país corre risco de “convulsão social”.

Embora ainda hospitalizado para traqueostomia, Villas Boas, hoje assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, começou um depoimento com trecho de conhecida fala de Rui Barbosa, em 1914: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus e a rir-se da honra, tem-se vergonha de ser honesto”.

A Folha de S. Paulo, entre suas noticias mais lidas, noticiou que a “mensagem de Villas Bôas em suas redes às vésperas de o STF retomar julgamento sobre prisão em segunda instância, atiçou ânimos na corte”. “Ministros dizem que, desta vez, a chance de a pressão surtir efeito contrário é grande. No texto, o general cita risco de convulsão social. Villas Bôas publicou mensagem mais incisiva no ano passado, às vésperas do julgamento de um habeas corpus do ex-presidente Lula. Na ocasião, o voto de Rosa Weber foi creditado à esse gesto dele”.

Dados do Conselho Nacional de Justiça dizem que 4.895 presos seriam beneficiados com a mudança de interpretação que começou a ser julgada no Supremo. Entre eles o ex-presidente Lula, que está em sala da Polícia Federal de Curitiba desde 2018.

O jornal espanhol El Pais adiantou: “Voto de Rosa Weber no STF pode definir destino de Lula e quase 5.000 presos”. Segundo o noticiário, a corte suprema, sob pressão e em meio a alarme de bolsonaristas, o julgamento demorará, começando com previsão de até três sessões. O jornal britânico BBC resume:

“Depois de autorizar em 2016 que réus condenados em segunda instância fossem presos, o Supremo Tribunal Federal (STF) pode rever essa decisão no julgamento. Se isso acontecer, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alguns milhares de outros presos no Brasil podem vir a ser soltos”. O mundo está de olho no Brasil.

A resposta se terá, em princípio, na próxima semana, já que se preveem três reuniões para todos os ministros votarem. E cada voto demora.


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Por Manoel Hygino - 18/10/2019 08:08:55
A morte por perto

Manoel Hygino

Em 6 de setembro de 2018, a família de Adélio Bispo de Oliveira viu sua imagem pela televisão, quando tentou matar, com uma faca, o candidato a presidência Jair Messias Bolsonaro, em Juiz de Fora. O episódio chamou a atenção. No Brasil, presidentes ou concorrentes ao cargo não são vítimas desses crimes como em outras regiões do mundo.

Mas, acontecera em nossa Manchester, na Zona da Mata. Muito longe dali, em Montes Claros, no Norte do Estado, cidade natal do quase homicida, a imagem de Tuca, seu apelido, é de uma pessoa religiosa, correta e trabalhadora, que – em condições normais – nunca teria praticado o gesto.

O ato parece ter suscitado exemplo. Em 26 de setembro de 2019, o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também mineiro, declarou que foi armado à sessão do Supremo Tribunal Federal com a intenção de matar a tiros um ministro. Objetivo: executar o ministro Gilmar Mendes e depois se suicidar.

Janot acrescentou que, logo depois de apresentar uma exceção de suspeição contra Gilmar Mendes, o ministro difundiu uma história mentirosa sobre sua filha. “E isso me tirou do sério”. Segundo o ex-procurador, impediu-o do ato criminoso a “mão de Deus”. Gilmar observou em seguida: “Recomendo que (Janot) procure ajuda psiquiátrica. Continuaremos a defender a Constituição e o devido processo legal”.

A Associação Nacional dos Procuradores da República, em seguida, publicou: “Os membros do MPF repudiam qualquer ato de violência que se cogite ou seja praticado em detrimento de qualquer pessoa, seja autoridade pública ou não, como o que foi revelado pelo ex-PGR. A democracia prevê, por meio do livre funcionamento das instituições, a eterna vigilância contra a barbárie”.

O affair não ficou por aí. Uma semana depois do caso Janot, um procurador da Fazenda Nacional, em São Paulo, foi preso em flagrante pela Polícia Federal sob suspeita de tentar matar uma juíza no Tribunal Federal da 3ª Região. A magistrada viu seu gabinete ser invadido pelo procurador, que teria acertado uma facada no pescoço, mas sem gravidade.

O fato está sendo apurado. A Advocacia Geral da União informou que determinou a imediata abertura de sindicância no âmbito da instituição. Disse a AGU que “lamenta o ocorrido, registra irrestrita solidariedade à magistrada e repudia todo e qualquer ato de violência”.

Fatos novos não apagam os antigos. Quantos morreram na ponta da faca – inclusive por virulentos ciúmes entre casais – desde o atentado contra o candidato à presidência da República? A família de Adélio Bispo – olhem que é bispo, pelo menos no nome – lamenta nada conhecer a respeito, senão o divulgado por televisão ou rádio: “A gente não sabe como ele está e não tem como ir lá visitar”, disse um deles. Ao ouvir que se encontra em cela individual, com duas horas de sol por dia, vigiado, alguém observa: “Aí é que ele vai endoidar mesmo”.

Uma reportagem da Folha de São Paulo mostra que Adélio, que hoje tem 41 anos, desde os 16 saía “para o mundo e só voltava na hora que queria”, segundo uma irmã dele. E, à noite, ia orar. Virou evangélico na juventude e chegou a ser pregador em uma das denominações que frequentava a Igreja Missionária Resplendor da Glória de Deus.


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Por Manoel Hygino - 17/10/2019 07:45:33
Perspectiva para 2020

Manoel Hygino

Caminhamos para o fim de 2019 (ou nele já estamos) quando se completa o primeiro ano de gestão de Jair Bolsonaro na presidência da República e de Romeu Zema à frente do governo de Minas. Sobre ambos recai a pesada carga de administrar um país em confusão e um estado com a economia em frangalhos.

Quando agosto evoluía a óbito, como se diz, o IBGE atualizou os dados: o Brasil já tem mais de 210 milhões de habitantes, quando, no ano passado, situávamo-nos em 208 milhões. Para ser mais exato, estamos com 210.147.125 habitantes, sem contar os que nasceram depois da mais recente avaliação. São Paulo lidera, com 45.919.049, seguido de Minas com 21.168.791. A Bahia tem mais gente no Nordeste - 14.873.064 ­ e, lá embaixo, o Rio Grande do Sul, com 11.433.957.

Não findara o oitavo mês do ano, todavia, quando o confiável IBGE divulgou, ainda pela manhã, que a taxa de desemprego ficara em 11,8% no trimestre encerrado, abrangendo 12,6 milhões de pessoas. O resultado representava estabilidade frente ao trimestre concluído em julho, quando a taxa ficou em 11,8%, e o número dos desempregados foi calculado em 12,6 milhões. Em comparação com o mesmo trimestre de 2018, o desemprego caiu 0,3 pontos percentual, pequeno declínio embora consolador.

Enquanto o ambiente político-institucional-jurídico permanece enfarruscado com notícias e boatos, a bandidagem percorre estados e municípios, como recentemente aconteceu no Ceará e no norte-mineiro, no qual grupos de criminosos levaram e levam pânico às populações que querem apenas tranquilidade. Os índices de violência decresceram, segundo os números oficiais, mas assustam as informações que ininterruptamente ocupam espaços nos veículos de comunicação.

Há esperança para 2020, até ou principalmente para aqueles que gostam do descanso prolongado. E têm razão: o Brasil somará dez feriados nacionais em meio de semana, sem contar os estaduais e municipais. Representará o dobro dos de 2019, porque os do vindouro calendário serão próximos de sábados e domingos.

Recorro, para os devidos fins, ao que a imprensa relacionou: 1° de janeiro cairá numa quarta-feira. O feriado da Terça-feira de Carnaval será em 25 de fevereiro. Em abril, serão dois feriados: a Sexta-feira da Paixão, dia 10, e a sexta de Tiradentes, dia 21. O Dia do Trabalho, em 1º de maio, ocorrerá numa sexta-feira. Em junho, o feriado de Corpus Christi será numa quinta, dia 11. Em setembro, o Dia da Independência será numa segunda-feira. Doze de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, será numa segunda. O 2 de novembro, Finados, será também numa segunda. Por fim, o Natal vai cair numa sexta. Março, julho e agosto não terão feriados nacionais.

Teremos um feriado muito especial no quarto mês do próximo ano: o 21 de abril, quando Brasília comemora 60 anos de inauguração. A capital, que Juscelino construiu no planalto, confirmando a profecia de São João Bosco, já ostentava, então, população fixa de 100 mil habitantes. Hélio Silva, o historiador, lembra que, na inauguração de Washington como capital dos Estados Unidos, havia apenas 126 pessoas. Só estavam prontos para uso o edifício do Congresso, o palácio presidencial e o do Tesouro. Os departamentos de Estado, Guerra, Marinha e Correios foram abrigados provisoriamente em residências particulares. O Brasil se orgulha: a nova capital foi construída rigorosamente em três anos.


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Por Manoel Hygino - 15/10/2019 09:36:23
Dias de fé

Manoel Hygino

A Igreja Católica Romana no Brasil viveu dias de intensas demonstrações de prestígio e de fé, em outubro, com presença e participação de Francisco. Enquanto o Papa se manifestava pública e claramente sobre a posição do Vaticano diante dos problemas da Amazônia, que envolveram as nações civilizadas e suas organizações, outras questões mobilizaram a comunidade.

Em Belo Horizonte, o falecimento do cardeal arcebispo metropolitano, Dom Serafim Fernandes de Araújo causou expressões de estima e de sentimentos de pesar a quantos conheciam sua dedicação à cidade, e a seu povo. Lembraram-se suas iniciativas, atuação e presença nos encontros esportivos, a notável ampliação na Universidade Católica de Minas Gerais, suas gestões de altiva serenidade, ao lado de D. João Resende Costa no período de ditadura militar, a propagação dos instrumentos de comunicação com a sociedade, sua sensibilidade diante dos problemas que atingiam os segmentos mais carentes da população. Milhares e milhares de fiéis levaram-lhe o último adeus até seu corpo descer à cripta da Boa Viagem.

Naqueles dias, a capital e os mineiros saudaram a reabertura, após longo processo de recuperação, da Igreja de São Francisco de Assis, no complexo turístico da Pampulha, graças ao qual Belo Horizonte se integrou no rol do Patrimônio Cultural da Humanidade. E 4 de outubro, como sabeis, é o dia de São Francisco.

Mas o oitavo mês seguia e já estava agendado para o dia 13 a canonização de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce dos Pobres, falecida em 1992, aos 77 anos. A celebração, em Roma, conforme estabelecido pela Congregação das Causas dos Santos, contou com 88 bispos e cem padres, inclusive os que se encontravam em Roma, para o Sínodo.

Desta vez, houve mais: concomitante com os atos no Vaticano os brasileiros festejaram o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, data que atrai à cidade paulista muitos milhares de peregrinos de todos os estados. Mas, a partir de agora o dia do azar no Brasil, o 13 de agosto, conforme os supersticiosos, será também o de Santa Dulce dos Pobres, que por aqui não faltam.

Muitos milagres, sim, atribuídos à Irmã Dulce, uma pequenina religiosa deste tamanhozinho, que superou corajosamente todos os desafios para empreender uma obra fantástica, além – de 10 mil relatos de fiéis em todo o mundo. Entre eles, curas de câncer, superação de vícios em drogas, problemas familiares, sobrevivência a acidentes graves. Para prova, considera-se milagre, o fato ser peternatural, isto é, a ciência não explica; instantâneo, ou seja, acontece imediatamente após oração; e duradouro e perfeito.

No entanto, além desses, julgo eu, são também aqueles que resultaram na construção de um empreendimento assistencial imenso em Salvador, cujas descrições os jornais revelaram. A OSID – Associação Obras Sociais Irmã Dulce - foi instalada oficialmente há 60 anos, em 1959.

O Papa, contudo, não perdeu o ensejo e deixou um recado: no dia da padroeira do Brasil, gravou mensagem especial aos brasileiros, pedindo que a santa cubra o caminho de Justiça e acompanhe a população diante de limitações políticas, sociais ou ecológicas. “Trago no coração o povo brasileiro e envio uma saudação. Que ela (nossa Senhora Aparecida), pequenina e humilde, continue os cobrindo e acompanhando em seu caminho: caminho de paz, de alegria, de Justiça”. No vídeo, Francisco pede também “que ela os acompanha em suas dores, quando não podem crescer por tantas limitações políticas ou sociais ou ecológicas, e de tantos lugares provêm. Que ela os ajude a crescer e a se libertar continuamente. Que os abençoe”.


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Por Manoel Hygino - 14/10/2019 07:14:35
O dignitário que parte

Manoel Hygino

Na proximidade da data dedicada a São Miguel, brasileiros do Sudeste, principalmente no interior, esperavam que as chuvas marcassem efetiva presença. Aconteceu, porém, em pequena proporção – menos que o solo queria e os reservatórios das hidrelétricas exigiam. O tempo não parou.

Após setembro, chegou o dia de São Francisco de Assis, 4 de outubro. O jornalista Paulo Narciso resgatou a mensagem de Dom João Resende Costa, arcebispo de Belo Horizonte, ao ensejo da data e do santo. Dom João, com quem mantive sucessivos contatos, escreveu no já remoto 2/10/1992, sob título de “Francisco, pobre e humilde”.

“São Francisco esteve de certo modo no batismo cristão do Brasil, pois foi um franciscano, Frei Henrique de Coimbra, que, na praia de Porto Seguro, celebrou a primeira missa em chão brasileiro. Dois franciscanos, Santo Antônio e São Benedito, estão entre os santos mais queridos da devoção brasileira. E franciscanos estão aqui presentes em todas as áreas de trabalho da igreja, ensinando, pregando, santificando, distribuindo ‘paz e bem’. Ele é o santo que mais se assemelhou a Cristo. Não lhe faltou sequer o sinal misterioso das chagas do Crucificado, marcando-lhe o corpo, num trasbordamento do imenso amor que lhe queimava a alma. Francisco marcou a igreja com sua santidade. Nele brilhou a virtude da pobreza e da humildade como em nenhum outro. Ele é um monumento vivo das bem-aventuranças do Evangelho. Mostrou como as riquezas de nada valem e só um coração livre, que a elas não se escraviza, se pode encontrar a felicidade. Ele é como um irmão de todos. O irmão universal. E irmão também de todas as criaturas: do sol, da lua, das estrelas, da água, da terra, do vento, das nuvens, do fogo. O ‘Cântico do Sol’, que ele compôs, está entre as coisas mais belas que se produziu em toda a poesia do mundo. Até a morte ele chamou de irmã! Sentia-se em paz com todos e com tudo. O homem de um mundo em harmonia. Teve razão o Papa João Paulo II em proclamá-lo Padroeiro da ecologia. Francisco nos ensinou a sentir mais de perto a força do amor, a única capaz de converter o mundo. Há demasiados conflitos. Há antagonismos demais. Francisco nos ensinou como superá-los: pelo Amor!”.

Em 8 de outubro, correu a cidade a notícia do falecimento de Dom Serafim Fernandes de Araújo, cardeal arcebispo de Belo Horizonte e, sucessor de D. João, continuador de sua obra, autor e responsável por inúmeras outras no campo da assistência à comunidade. Igualmente foi fundamental sua atuação na gestão da Universidade Católica de Minas Gerais, que ganhou novos espaços no ensino universitário Brasil afora, utilizando as novas ferramentas de tecnologia.

Incentivador do esporte e das boas causas, durante a exposição de seu corpo na catedral da Boa Viagem, celebraram-se missas ao longo de três dias, quando muitos milhares de pessoas renderam as últimas homenagens ao ilustre dignitário, homem simples do interior mineiro que tanto honrou nossas melhores tradições.


(N. da Redação - A mensagem citada pelo escritor Manoel Hygino foi publicada neste montesclaros-com na sexta-feira 4/10/2019, às 17:21:38, e é de autoria do engenheiro Afonso Claudio)


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Por Manoel Hygino - 11/10/2019 15:53:17
Os políticos e o poder

Novos governantes, habitações luxuosas para os que sonham com o poder, que proporcione benesses e pompa, como acontece comumente. É natural, embora haja aqueles outros que desprezam ou relegam a ostentação.

De tudo existe, em todas as épocas e lugares, mas algo é certo: os palácios favorecem o ambiente de adulação, de bajulação, com objetivos muitas vezes escusos, embora o correto senso de servir glorifique ou honre detentores do poder. Com este propósito, eles concorrem aos pleitos e fazem promessas populares em praça pública ou pelos modernos meios de comunicação. Há os que assim procedem e esquecem os compromissos.

Há casos curiosos. Na época da proclamação da República, aconteceu um dos episódios lembráveis. Deposto Pedro II, em 15 de novembro de 1889, ele recusou uma bela pensão que lhe ofereceram a bordo do navio que o levaria para o exílio. O “Alagoas” levantou ferros depois das duas da madrugada, enquanto o imperador mantinha a maior dignidade e a imperatriz chorava. Explicou-se: “como deixar de vertê-las ao sair de minha terra que nunca mais hei de ver?”.

No Rio de Janeiro, ficaram os muitos afoitos, elementos exaltados do Governo Provisório da República. Redigiram um decreto, assinado por Aristides Lobo, ministro interino da Justiça, declarando o confisco dos bens da Coroa. Entre estes, o Palácio Isabel, depois Palácio Guanabara.

Aí o engano ledo e cego, que permaneceu por muito tempo. O Palácio Isabel havia sido doado à princesa (que proclamara a libertação dos escravos um ano e pouco antes), por subscrição pública, como presente de núpcias, quando do seu casamento com o Conde d’Eu.

Era, deste modo, propriedade particular. Logo, deram de si e elaboraram um novo decreto, do qual se excluía o Palácio. No entanto, o edifício ficou esquecido: não pertenceu ao Estado do Rio, ao Estado da Guanabara, nem ao governo federal, ou à família imperial. Somente quando Epitácio Pessoa assumiu a Presidência da República, o exílio da família foi revogado e permitido o regresso ao Brasil dos jovens príncipes, que eram rapazes.

Os que sobreviveriam dos descendentes de Pedro II voltaram com sotaque francês, mas o presidente da República morava no Palácio Guanabara, despachando no Palácio do Catete. D. Pedro Gastão, o de Petrópolis, chefe da Casa Imperial, trocava. “Como é que podia eu chegar e requerer na Justiça o despejo do presidente da República, que tinha deixado a gente voltar para o Brasil? Não era possível”.

A família real constituiu advogado o mineiro San Tiago Dantas, que entrou com ação na Justiça. Acontece que, então, lá já despachava o general Mendes de Morais, o prefeito. A mesma situação de antes: como despejar um general chefe de executivo?

Com a saída de Mendes de Morais do cargo, a ação parecia ganhar espaço. Mas com San Tiago Dantas já no Partido Trabalhista Brasileiro, como entrar contra a família imperial, para tomar do povo do Rio de Janeiro o Palácio Guanabara? Assumiu a pendenga, naquela hora, o advogado Miguel Lins, por substabelecimento. A partir daí, faltam-me informações.


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Por Manoel Hygino - 10/10/2019 06:51:20
Equador sem paz

Manoel Hygino

Embora menos frequente na imprensa do que os demais países latino-americanos, o Equador não escapa aos sobressaltos, às insânias e inquietação do novo mundo descoberto por Colombo. A história equatoriana é marcada por sucessivos governos, em que pontificaram a baixa política, a corrupção, os golpes militares.

Não se esquecerá, assim, a afirmativa de José Maria Velasco Ibarra, presidente da República cinco vezes, a primeira vez em 1934: “quero deixar explícita minha total falta de ambição pelo poder”.

Na semana inaugural deste ano de 2019, aconteceu o que antes fora registrado, algumas vezes. Trabalhadores do setor de transportes declararam greve, em protesto contra o aumento de 123% nos preços dos combustíveis. Lá como cá, os derivados de petróleo fazem a paz ou a guerra.

O reajuste resultou do corte de subsídios do governo para manter uma aparente tranquilidade social. Com a supressão dos subsídios, violentos confrontos eclodiram em todo o país e a capital se transformou em campo de batalha, obrigando o presidente Lenin Moreno a decretar estado de exceção.

No primeiro dia da paralisação houve 35 feridos, entre os quais policiais, além de 277 prisões, enquanto se suspendiam a aulas nas escolas. Nada menos de 27 milhões de pessoas ficaram sem transporte coletivo e táxi, enquanto o movimento se estendia além de Quito a outras cidades como Guayaquil e Cuenca.

Na crônica política do Equador, não se há de esquecer Abdalá Bucarán, sobrinho do ex-presidente do Congresso, de nome Assad. Eleito em 1946 (é, pois, bem deste nosso tempo), Abdalá foi afastado do poder em 6 de fevereiro de 1947 e por um motivo assás compreensível. O Parlamento aprovou moção declarando sua “incapacidade mental”.

Carlos Taquari acrescenta que outros aspectos altamente negativos eram lembrados: corrupção e comportamento inadequado para chefiar um Estado. Queria dizer o já de conhecimento público: o presidente, dentre outros fatos notórios, realizava festas em palácio, se embriagava e se divertia em companhia de mulheres de conduta duvidosa, contratadas por sua assessoria.

Foi, pelo que se deduz, um chefe de governo fora do comum mesmo na América: depois de goles caprichados, punha-se a cantar e tocar guitarra. Por seus dotes, aliás, chegou a gravar um disco com baladas românticas e rock, alcançando o máximo de exposição com apresentação em programas de auditório pela televisão. Quando alguém se referia a ele como um doido, confirmava observando: “un loco que ama”.

É bom resgatar: nos dias 6 e 7 de fevereiro de 1997, o Equador teve três presidentes: Bucarán, que foi afastado e se recusava a deixar o palácio, a vice-presidente Rosalía Arteaga, que desejava o cargo por direito constitucional, e Fabián Alarcón, presidente do Congresso, que por força constitucional tinha de assumir. E assumiu pro tempore.

Mais fatos e pormenores virão depois, todos confirmando a ideia que se tem de cidadãos que chegaram ao comando do Executivo de seus países, repetidamente com aval dos cidadãos. O futuro, deste modo, preocupa.


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Por Manoel Hygino - 5/10/2019 07:23:35
Perspectiva para 2020

Manoel Hygino

Caminhamos para o fim de 2019 (ou nele já estamos), quando se completa o primeiro ano de gestão de Jair Bolsonaro na presidência da República e de Romeu Zema à frente do governo de Minas. Sobre ambos recai a pesada carga de administrar um país em confusão e um estado com a economia em frangalhos.
Quando agosto evoluía a óbito , como se diz, o IBGE atualizou os dados: o Brasil já tem mais de 210 milhões de habitantes, quando no ano passado situávamo-nos em 208 milhões. Para ser mais exato, estamos com 210.147.125 habitantes, sem contar os que nasceram depois da mais recente avaliação. São Paulo lidera os estados, com 45.919.049, seguido de Minas com 21.168.791. A Bahia tem mais gente no Nordeste - 14.873.064 e lá embaixo, o Rio Grande do Sul com 11.433.957.
Não findava o oitavo mês do ano, todavia, quando o confiável IBGE divulgou, ainda pela manhã, que a taxa de desemprego ficara em 11,8% no trimestre encerrado, abrangendo 12,6 milhões de pessoas. O resultado representava estabilidade frente ao trimestre concluído em julho, quando a taxa ficou em 11,8%, e o número dos desempregados foi calculado em 12,6 milhões. Em comparação com o mesmo trimestre de 2018, o desemprego caiu 0,3 pontos percentual, pequeno declínio embora consolador.
Enquanto o ambiente político-institucional-jurídico parece convulsionado com notícias e boatos inquietantes, a bandidagem percorre estados e municípios, como aconteceu no Ceará e no norte-mineiro; neste, grupos de criminosos levam pânico às populações que querem apenas tranquilidade. Os índices de violência decresceram,
segundo os números oficiais, mas assustam as informações que ininterruptamente ocupam espaços em todos os veículos de comunicação. Sem falar evidentemente no episódio Janot-Gilmar, que dá a impressão de que reingressamos no conturbado ciclo do velho Oeste norte-americano.
Há esperança para 2020, até ou principalmente para aqueles que gostam do descanso prolongado. E têm razão: o Brasil somará dez feriados nacionais em meio de semana, sem contar os estaduais e municipais. Representará o dobro dos de 2019, porque os do vindouro calendário serão próximos de sábados e domingos.
Recorro, para os devidos fins, ao que a imprensa relacionou: Primeiro de janeiro cairá numa quarta-feira. O feriado da terça-feira de Carnaval será no dia 25 de fevereiro. Em abril, serão 2 feriados: a Sexta-feira da Paixão, dia 10, e a sexta do Dia de Tiradentes, 21 de abril. Já o Dia do Trabalho, em 1º de maio, ocorrerá numa sexta-feira. Em junho, o feriado de Corpus Christi será numa quinta, dia 11. Em setembro, o Dia da Independência será numa segunda-feira. Doze de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, será numa segunda. O 2 de novembro, Finados, será também numa segunda. Por fim, o Natal vai cair numa sexta. Março, julho e agosto não terão feriados nacionais.
Um feriado muito especial, teremos no quarto mês do próximo ano: o 21 de abril, quando Brasília comemora sessenta anos de inauguração. A capital, que Juscelino construiu no planalto, confirmando a intuição de São João Bosco, já ostentava, então, população fixa de 100 mil habitantes. Hélio Silva, o historiador, lembra que, na inauguração de Washington como capital dos Estados Unidos, havia apenas 126 pessoas. Só estavam prontos para uso o edifício do Congresso, o palácio presidencial e o do Tesouro. Os departamentos de Estado, Guerra, Marinha e Correios foram abrigados provisoriamente em residências particulares. Mas, o Brasil leva vantagem: a nova capital foi construída rigorosamente em três anos.


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Por Manoel Hygino - 5/10/2019 07:15:13
Após São Miguel

Manoel Hygino

Daqui a pouco outubro chegará ao meado (não miado). Mineiros confiam nas chuvas. No Norte, o nosso, choveu no dia de São Miguel Arcanjo, depois dos pingos da véspera. Caiu uma coisinha de água em terras ermas, como li em prestigiado veículo de comunicação.
Ao dealbar, como repetiu o jornalista, veio razoável chuva, de 5mm. Arrastou novas esperanças. Impôs o frescor na manhã. Acordou os pássaros mais cedo. Instaurou a alegria dos ninhos. Pôs aroma nas velhas árvores e arbustos, agradecidos. Despertou o relvado, exangue. Louvada seja a Chuva, e louvado seja o seu irmão Francesco de Assis, do Cântico das Criaturas.
O domingo seguiu nublado pela manhã, propício a mais chuvas, com nuvens por todo o horizonte, e o novelo delas vai debruçado sobre a serraria, faz dela travesseiro. Serraria - que não é Serra do Mel, onde acharam este nome?, mas é a serra dos “montes claros”, que dão nome à cidade.
Chamo atenção para a meteorologia, que já admitia chuva no período. Acertou. Mas quero alertar para a sabedoria popular.
Sabemos de muitas décadas, centúrias, que o Dia de São Miguel é a data que abre, desata o período das águas; nosso “inverno” em plena Primavera. Quase todos já ouvimos que é por volta do Dia de São Miguel, intrépido, fim de setembro, que devemos aguardar as chuvas inaugurais, pioneiras. A Chuva de Broto.
José Ponciano Neto, técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos conta: O “desenvolvimento sustentável” tão badalado na Conferência Eco-21 (Rio) na elaboração da “Agenda 21”, ainda não é realidade. A falta de políticas pode levar o nosso planeta a uma autodestruição - é a teoria do francês Antoine Lavoisier. Como o planeta não cria, tudo vai se transformar. Partindo deste princípio, virão mais tempestades – erupções – terremotos – longas estiagens. Quando a consciência da humanidade acordar para ecologização poderá ser tarde – e a problemática do ethos continuará a ser uma incógnita entre as partes: os que querem destruir deixando passivos, que pensam em conservar, e aqueles que tentam recuperar o irrecuperável.
Estão destruindo as áreas de “recargas” – nestas, a maioria deu lugar à silvicultura, que também destruiu para sempre várias e várias veredas; concomitantemente a destruição dos olhos d´água. O desmatamento das arvores nativas é o inicio da desertificação - depois vão querer recuperar o “irrecuperável”.
Muito se discute e pouco se chega ao denominador comum. A Cúpula do Clima é novamente o centro das atenções do mundo, das pessoas “ecologicamente corretas”. O que esperam as autoridades da Organização das Nações Unidas?
Como as decisões das nações irão afetar o nosso dia a dia? Que resoluções irão favorecer a gestão hidrológica com sustentabilidade? O norte de Minas espera decisões para agir localmente com os rios das Velhas, Verde Grande e PacuÍ.
Os rios estão perdendo para o homem, suas águas estão sendo interceptadas antes de atingir os lençóis que os alimentam. É quase uma utopia querer revitalizar o Verde Grande como em anos idos.
Conheci o Verde Grande na sua plenitude. Achava – até uns dez anos atrás, que ele voltaria novamente a ser perene, o ano todo, mas depois que o alto da sua bacia hidrográfica virou tapete para eucalipto e pinus; e o baixo, ao longo do talvegue, virou uma tábua de pirulito com milhares de poços profundos perfurados sem técnica e na clandestinamente. - Abdiquei! Assim, aliás, também é o moribundo Congonhas em Itacambira. O dia de São Miguel passou, as chuvas de outubro e novembro vêm aí.


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Por Manoel Hygino - 2/10/2019 08:44:43
Nicodemos em cena

Manoel Hygino

Nesta hora, as nações discutem a Amazônia e o seu futuro, a poluição no mundo e as queimadas, nossos indígenas, nossas riquezas de um modo geral e se reacendem as apaixonados debates sobre a maior floresta do mundo. O governo reitera que aquele território é brasileiro, intocável e inalienável sob qualquer pretexto ou motivação. Caberia, assim, que o conhecêssemos melhor, desde seus primórdios e àqueles que lhe dedicaram obras literárias que não podem perder-se no silêncio das estantes das bibliotecas e nas prateleiras das livrarias.

Entre os autores deste século (Raimundo de Morais é do passado), há de dar-se destaque a Nicodemos Sena, nascido em Santarém do Pará. Em tempos mais recentes, ele oferece, além de artigos publicados em sua cidade, excelentes obras já publicadas em Taubaté. Ali, de onde partiu Fernão Dias Pais, para sua obra bandeirante por imensas regiões de Minas Gerais, Nicodemos instalou seu QG para desvendar as selvas de sua região natal, com sua gente, seus bichos, suas árvores, seus segredos e mistérios.

O quartel-general de Nicodemos é a Letra Selvagem, em que promove a edição e de onde faz a divulgação de seus livros e de outros autores, importantes, que merecem interesse, sobretudo neste momento. A inspiração emana da Amazônia brasileira, da qual partiu para produções que ganharam dimensão nacional, ou mais.

Para ajudar a compreender o universo fantástico que há no Norte brasileiro, indicam-se dele “A noite é dos pássaros”, “Choro por ti, Belterra”, “À espera do nunca mais”, e “A mulher, o homem e o cão”, que proporcionam uma visão ampla sobre o autor e da sua obra e do que ela já representa no cenário de nossas letras.

Lá da fronteira Sul, em sua Roque Gonzales, o apreciado autor gaúcho Nelson Hoffmann, situa o colega de profissão: é sul-americano, brasileiro e amazônico e seu relato persegue um tempo e um espaço há muito deixados para trás, pojados de sonhos e esperança”. “Incrível Brasil. E tão verdadeiro”:

Um pouco acima do Rio Grande, Enéas Athanázio, de Santa Catarina, um dos nossos mais conceituados escritores, também emite parecer: “como tantas vezes ocorre com a boa ficção, o romance de Nicodemos Sena é um documento mais útil e veraz da vida amazônica e da época do que muitos trabalhos históricos e científicos. Mais proveito terá o historiador e o antropólogo de sua leitura do que com exame de volumosas obras de outros gêneros”.

A “Letra Selvagem”, a editora de Sena, tem propiciado ao leitor desta nação a oportunidade de saber mais sobre o território e o homem. “Choro por ti, Belterra” descreve, em cores fortes a até pungentes, a saga do projeto de Henry Ford ao instalar na Amazônia um grande empreendimento industrial. Não deu certo.

O escritor conta ali a viagem de reencontro de seu pai, com a recôndita terra de seu nascimento, Bernardino, o Bibi, nascido em Lago Grande, município de Santarém. Órfão com um ano, o avô e outros membros da família foram vítimas da “Grande Peste de Impaludismo”, um surto de malária que matou milhares de pessoas no Baixo Amazonas, quando poucos sobraram para sepultar os mortos. Era durante a segunda grande guerra e aconteceu no Brasil, na região que tanta celeuma ora causa. Resgatar a memória da Fordlândia, dos que ali passaram dias dolorosos, é um serviço que Nicodemos presta à pátria. Constitui uma lembrança poderosa para os brasileiros, um alerta nesta hora de discussões polêmicas e pouco produtivas. Um bom serviço que se presta ao Brasil!





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Por Manoel Hygino - 1/10/2019 07:43:12

O temor de Eros Grau

Manoel Hygino

O Brasil ficou de olhos pregados à televisão, em 27 de setembro, para assistir à reunião plenária do Supremo Tribunal Federal que debateria e julgaria ação que ainda pode ter grande repercussão. Por 7 a 3, decidiu que os réus delatores devem apresentar alegações finais em processos antes dos demais acusados, como aconteceu com a Lava Jato. As ações que não seguiram esse rito anteriormente deverão ter condenações revistas, alcançando um grande número de pessoas que aguardam agora decisão judicial.

O experimentado e culto ministro Eros Roberto Grau, que hoje mora na pequena e histórica Tiradentes, comentou, em sua alta sabedoria, o tema em “Porque tenho medo dos juízes (a interpretação/aplicação do direito e dos princípios”) – se expressou de maneira suficientemente clara sobre a invasão de competência do Legislativo pelo Judiciário, alertando que não mais vivemos em “Estado de Direito”, mas em “Estado de Juízes”.

Ex-integrante da Suprema Corte do Brasil, observa Eros Grau: “é necessário afirmar bem alto: os juízes aplicam o direito, os juízes não fazem justiça! Vamos à Faculdade de Direito aprender direito, não justiça. Justiça é com a religião, a filosofia, a história. (…). Assim é o juiz: interpreta o direito cumprindo o papel que a Constituição lhe atribui”.

E Eros tem “medo de que a Constituição seja corroída pelo Supremo Tribunal Federal”. “O STF, de alguns anos para cá, tem-se excedido, tem ido muito além do que a Constituição e a prudência permitem, passando a exercer não apenas o controle da constitucionalidade, mas também o controle da razoabilidade das leis. Não somente ministros do STF, mas juízes de qualquer instância julgam-se no direito de decidir se determinada lei é, ou não, razoável. O que prevalece, em cada decisão, é a preferência, o subjetivismo de cada um desses ministros.

“No Estado democrático de direito o poder é uno e indivisível, embora as funções estatais sejam atribuídas entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Todos eles exercitam a função normativa – função legislativa, função regulamentar e função regimental – mas a parcela mais relevante dessa função, a legislativa, é própria do legislativo. Ao poder Judiciário é vedado o exercício da função legislativa, ainda que lhe caiba o da função regimental. Essa regra essencial ao Estado democrático de direito é rompida sempre que os juízes passam a exercer o controle da razoabilidade – ou proporcionalidade – das leis.

“O que então prevalece na decisão judicial já não é a Constituição, porém a preferência, o valor que cada juiz adota subjetivamente, como critério de aferição da razoabilidade ou proporcionalidade de cada lei. Em outros termos, o juiz avalia não a sua constitucionalidade, mas se a lei é boa (razoável) ou má (irrazoável), segundo suas preferências pessoais. Cada qual – repito – decide conforme o seu gosto pessoal. Ainda que os juízes devam considerar as pautas da razoabilidade e da proporcionalidade na Constituição, não estão autorizados a decidir cada caso discricionariamente, segundo os valores que adotam, tomando como sem valor, como se não valesse nada, tudo quanto não corresponda aos seus valores. Como se tivessem legitimidade para exercer função legislativa. Perde-se, assim, a referência da Constituição e a harmonia entre os poderes é sacrificada. No caso do STF, tudo se torna ainda mais grave na medida em que o tribunal sai do seu recato e, voluntariamente, submete-se às pressões da sociedade, pressões às quais tipicamente, caracteristicamente, deve estar sujeito o Legislativo. O que a um Poder dá legitimidade - o decidir do Legislativo sob pressão social – a outro desnatura”.

Os mais recentes acontecimentos e episódios na vida brasileira dão razão ao grande magistrado, que decidiu instalar-se em Tiradentes, esperando ter tranquilidade para pensar e manifestar-se.


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Por Manoel Hygino - 30/9/2019 09:18:09
No tempo de Benedito

Manoel Hygino

Os tempos são outros, mas os homens, em sua essência, são os mesmos. Pelo menos em termos de corrupção na política. Não dispúnhamos, para efeito de comparação, há algumas décadas, da parafernália eletrônica no âmbito das comunicações. Não sem razão os hackers gozam de tanta e tamanha importância no jogo sujo das denúncias sobre os que fazem da política um meio de viver, de conquistar cargos públicos, de projetar-se na sociedade já conhecedora das falcatruas para chegar a postos de destaque e neles alcançar benesses.

A troca de gentilezas ou de acusações integram os embates nas campanhas ou o debate em torno de proposições no Legislativo ou no Executivo. Mais do que nunca, pode-se afirmar que política é igual guerra... e guerra é guerra.

Durante o Estado Novo, período em que Getúlio Vargas, presidia o Brasil sob forte ditadura, Benedito Valadares foi governador de Minas, sem o título de “Interventor”, considerado depreciativo pelos que insistiam na busca das liberdades públicas. Benedito, que permaneceu no Palácio da Liberdade até o fim do regime autoritário, no entanto, foi hábil articulador político e, se diria, um pacificador nos interesses de seu partido nos municípios.

Deixando o Palácio, Benedito se instalou em apartamento no 5º andar do Hotel Financial, pertinho da Praça 7. Lá o transformou no QG de suas articulações, recebendo lideranças de todo o Estado, inclusive como presidente do PSD – Partido Social Democrático, criado após o “curto período” de 15 anos de Getúlio na chefia da nação, como ditador.

A atuação do ex-governador no apartamento do hotel no Centro de Belo Horizonte era difundida pela imprensa e pelos próprios pretendentes a lugares no governo. Lá, muito se discutia e muito se decidia sobre nomeações na máquina governamental. Deputados de Minas na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal eram identificados naquele quinto andar, que era uma espécie de filial do Palácio da Liberdade, enquanto pequenas comitivas esperavam sua vez.

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, hoje presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Minas, encerrando agenda em Governador Valadares, à noite, na Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce, sobre Novas Tecnologias e Direito, falou muito sobre redes sociais, disseminação de ódio, fake news e desavenças. Terminou invocando o espírito de mineiridade.

Lembrou uma história do nosso folclore político, envolvendo o governador Benedito Valadares, de Pará de Minas.

Numa manhã, Benedito recebeu a velha-guarda do PSD, em atrito com a jovem guarda. Ouviu as queixas e lhes disse:

– Vocês têm razão!

De tarde, recebeu a nova geração e as queixas se inverteram. De novo o governador:

– Vocês têm razão!

Á noite, jantando com a esposa Odete Valadares, (nome de famosa maternidade em BH) ela falou:

– Benedito, ouvi no rádio que você recebeu as duas alas do PSD hoje e deu razão a todos. Você precisa tomar uma posição!
Benedito deu uma colherada na sopa e respondeu:

– É, Odete, você tem razão.


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Por Manoel Hygino - 27/9/2019 10:16:05
Entre Cali e a AML

Manoel Hygino

No dia 19 de setembro, juntamente com o juiz Renato Jardim, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima ministrou palestra na Academia Mineira de Letras sobre magistrados e literatura, presente o juiz do Tribunal de Justiça Militar, Fernando Ribeiro, em sessão presidida pelo escritor Rogério Faria Tavares, presidente da entidade.

Disse o magistrado, em resumo: “juiz tem de ser culto para julgar com segurança. Não só cultura jurídica, mas cultura geral. A literatura é indispensável para o juiz discernir entre o belo e o feio, o mau e o bom, o justo e o injusto. Do contrário, será um robô. Este mundo superficial das novas tecnologias nos afasta da boa literatura. A sociedade está doente, com fake news, ódio, incompreensão e falta de afeto. No almoço de domingo uma família inteira, à mesa, não conversa. Cada qual se concentra no seu smartphone. Juízes não podem ser transformados em robôs. As pessoas em geral também não podem ser robotizadas. A literatura salva”.

A palestra no palacete Borges da Costa, sede da AML, fez lembrar Cali, Colômbia, na Facultad de Derecho de la Universidad Libre, quando Medeiros evocou o jurista Jorge Eliécer Gaitán, junto a cujo busto, encontrou a frase do ilustre colombiano: “el pueblo no demanda la igualdad sino la igualdad real ante la vida”.

Admirador da obra de Gabriel Garcia Marquez, que cita Gaitán em suas memórias, o magistrado mineiro discorreu sobre o tema: “É preciso fortalecer o constitucionalismo democrático, sem esquerdismo ou direitismo exarcebados”.

Cabe, por oportuno, lembrar os fatos finais da vida de Gaitán. Aconteceu durante a ditadura de Rojas Pinilla general, sucessor do terrível Gómez, que fugira para a Espanha. Inicialmente, parecia com o novo presidente tudo daria certo. Pinilla tentou amainar a situação, mas implantou um novo sistema tributário para aumentar a arrecadação. Repudiado pela população civil, buscou amparar-se nos militares. Mas amigos e parentes entraram em cena para sua própria arrecadação, construindo fortunas. Repetia-se 1948, o 9 de abril, quando em torno do meio dia, o político liberal Jorge Eliécer Gaitán foi morto a tiros, quando saía de seu escritório, em pleno centro da capital.

Um episódio terrível. Pessoas que presenciaram o atentado, segundo Carlos Taguari, agarraram o assassino. Multidão se formou e o criminoso foi espancado até sucumbir. Não satisfeitos, os manifestantes saíram em baderna pelas ruas, depredando tudo que encontravam, desde imóveis a estabelecimentos comerciais a veículos. Milhares em fúria.

Resultado: dois mil mortos em dois dias de conflito, batizado de El Bogotazo. Era a resposta de inúmeros colombianos que pretendiam votar em Gaitán para a presidência, interrompida a campanha pela trágica intervenção das ruas. Jamais se soube exatamente de onde ou de quem partira a explosão de violência, admitindo-se que o assassinato de Gaitán fora ato de um louco.

Após o Bogotazo, o movimento teve sequência por vinte anos, deixando um legado superior a 200 mil mortos. Denominado depois de La Violencia, o confronto teve ápice entre 1948 e 1958.


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Por Manoel Hygino - 26/9/2019 09:09:53
Entrevero no Norte

Manoel Hygino

Novos problemas em escala internacional ofuscaram os desastrosos momentos que vive a Venezuela, estendida a preocupação a outras nações das Américas. A situação ali não melhorou, apenas entrou em penumbra. Na semana finda, o Parlamento do país, com maioria da oposição, ratificou Juan Guaidó como presidente e, até que cesse a usurpação do poder pelo presidente Nicolas Maduro, por reeleição tida como fraudulenta em 2018.

Enquanto Maduro acusa os Estados Unidos de insistirem em removê-lo do poder, grupos de famílias venezuelanas continuam fugindo principalmente para a Colômbia e Brasil, em busca de sobrevivência e oportunidades de trabalho. Mas Caracas anunciou, no final da semana passada, que irá denunciar Guaidó à ONU de manter vínculos com paramilitares colombianos.

Delcy Rodríguez, vice-presidente, em ato público na capital, sexta-feira última, afirmou que os fatos são mais graves, inclusive pelas ligações de Guaidó com a facção criminosa Los Rastrajos, que o teria recebido no estado fronteiriço de Táchira.

A Venezuela, contando com apoio de Moscou, tem recebido ajuda militar da Rússia, sendo documentadas cargas que chegam via aérea a seu território. O senador José Sarney, ex-presidente do Brasil, vem perguntando: “para que a Venezuela está se armando?”. Esta pergunta, que está na cabeça de cada um de nós, constitui um enigma que ninguém responde, nem entende. Tudo gira em torno de Essequibo, nome dado originalmente à região leste da antiga Guiana Inglesa, vendida ao Reino Unido.

A Guiana Essequiba (também conhecida como Território Essequibo ou, na Venezuela, de Zona em Disputa) é o nome do território do Planalto das Guianas, compreendido entre os rios Cuyuni e o Essequibo, com extensão territorial de 159.500 km². O território faz parte atualmente da República Cooperativa da Guiana, mas sua soberania é reclamada pela Venezuela internacionalmente por força do Acordo de Genebra, de 17 de fevereiro de 1966.

Ainda que a Venezuela reivindique o território como seu, ele não faz parte de sua jurisdição e em seus mapas a área somente aparece listrada obliquamente ou com a legenda: ZONA EM LITÍGIO, porque sujeita ao Acordo de Genebra, de 17 de fevereiro de 1966, e ao Protocolo de Porto Espanha, de 16 de junho de 1970.

O rio Essequibo é um curso d’água guianense que nasce nas serra Acaraí, fronteira com o Brasil, e corre para o Norte por aproximadamente mil quilômetros até desembocar no oceano Atlântico, formando um largo estuário de 32 km de largura pontilhado de 360 ilhas. É o mais extenso dos rios das bacias independentes que se situam entre o Amazonas e Orenoco.

O próprio Sarney se encarregou de descrever a questão, contando que Rio Branco decidira resolver o problema de fronteiras com outras nações do hemisfério: “Foi o caso da Guiana, naquele tempo Guiana Inglesa. Defendíamos a tese de que nossas fronteiras iam até a foz do Orenoco. Foi Joaquim Nabuco o nosso advogado. O árbitro escolhido foi a Itália, e seu rei, Vítor Emanuel III, decidiu fazer uma divisão que não fora pedida entre o Brasil e a Inglaterra. Aceitamos o Laudo Arbitral. Perdemos território. A Venezuela, que disputava com a Inglaterra a região a Oeste do Rio Essequibo, não aceitou um outro Laudo Arbitral de Paris em 1899, e considera a área como uma “Zona en Reclamación” e nela não permite que nada seja feito”.


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Por Manoel Hygino - 24/9/2019 06:13:19

Novos crimes e golpes

Manoel Hygino

O Brasil não está em guerra, mas o clima é de temor diante da violência registrada em todos os recantos, até numerosas vezes ao dia, como as queimadas que assumiram a liderança das preocupações. A despeito dos revelados índices oficiais de criminalidade, em nossa sociedade, que apontam decréscimo em alguns itens, os fatos cotidianos assustam – pelo número e pela crueldade.

As autoridades estão atentas e em ação, o que já é sobremodo importante, embora se reconhecendo que mais terá de ser feito. A Secretaria de Segurança do Estado, por exemplo, informou que, de janeiro a junho deste ano, nossas escolas recorreram às autoridades para atender 10.134 registros de furtos, ameaças e agressões.

Nas unidades de ensino, segue-se a regra geral. O número de episódios de violência foi 6,3 maior do que o apontado no mesmo período do ano passado. Segundo a Secretaria, não se trata só de agressões ou algo semelhante. Há invasões com danos ao patrimônio, hostilidade e medo na comunidade escolar, desestimulando os professores e, evidentemente, os pais das crianças.

Na imprensa, leio: é consenso que o uso da força se tornou corriqueira nas escolas. Um dos educadores se manifestou: “a violência gera o desinteresse dos alunos pela escola e provoca desgaste emocional no professor, impelindo-o a pensar em uma carreira diferente”.

As reportagens, editoriais e noticiários dão ênfase ao fenômeno. Viu-se, no saque de dinheiro do Fundo de Garantia, exemplo claro. Embora fossem apenas 500 reais a se levantar na Caixa, espertalhões atuaram, aplicando golpes, ao prometer auxiliar o beneficiário, evitando filas e agilizando o atendimento. Obtidos do sacador informações do dia e hora da retirada, eles subtraíam o dinheiro e desapareciam. Enfim, há desonestos de todos os tipos.

No caso da ampliação do objetivo do decreto de posse de arma nas propriedades rurais, e não apenas na sede, o cidadão poderá agora melhor defender-se. Pelo menos assim pretende lei sancionada pelo presidente da República. É experiência válida, mas se perguntará como agirão os malfeitores diante da nova regra.

No caso de violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha foi alterada: o agressor terá de pagar as despesas do atendimento às vítimas pelo SUS. Dará certo? O autor do crime procurará, de algum modo, safar-se da pena, principalmente sabendo que o dinheiro vai para um organismo público.

No Norte de Minas, existe também um Alvorada; não um palácio, mas um presídio, em Montes Claros. Em ação preventiva e proativa da equipe plantonista de agentes penitenciários, um telefone celular e seis chips foram apreendidos dentro de ave. A desconfiança se deu por volta de 0h50, quando funcionários observaram um pombo na tela que cobre o pátio de banho de sol. Como a ave não tem hábito noturno, os agentes desceram para socorrê-la. Os plantonistas encontraram a ave morta e com uma perfuração. O peso do animal também chamara a atenção: eram os aparelhinhos.


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Por Manoel Hygino - 20/9/2019 06:41:20
Vigiando a lua

Manoel Hygino

Toda Minas com olhos nos céus à procura de sinais de chuva e atenta às previsões da meteorologia. Jornalista de minha terra, usando expressões da região, observa: a meteorologia espicha o olho e vê chuva em redor do dia 29 de setembro. É dia de São Miguel, que pela tradição abre o período das águas.

As temperaturas continuarão altas, enquanto se prevê que devam alcançar 36 graus. A verdade é que elas vêm superando estes limites máximos em grande parte da terra mineira. Para domingo, 29, se atribui a possibilidade de início da temporada das chuvas, ou em derredor da data, quando começa a semeadura.

Este ano tem sido atípico em termos de calor, embora os especialistas e técnicos digam que se trata de algo normal no final de inverno, aproximação de primavera. Mas, a sexta-feira, 13 de setembro, teve lua cheia pela primeira vez em duas décadas. A última vez fora na sexta-feira, 13 de outubro de 2000, segundo meu conceituado informante.

Este ano pode trazer surpresas: o 13 de dezembro poderá cair também numa sexta-feira, coincidente com uma noite de lua cheia. Há décadas, estudiosos investigam a influência do satélite em nossas vidas, até no corte de cabelo, no sono, mesmo no ciclo de fertilidade das mulheres.

A velha Folhinha Mariana, editada na primeira capital das Minas, era – ou é – minuciosa em orientações para os cultivadores da terra. Deve ainda ser consultada.

Especialistas dizem que o calendário biodinâmico, que inicialmente era usado para aconselhar os agricultores nas plantações, seria capaz de concluir qual dia é ideal para a colheita das uvas. Na astrologia, há quem afirme que, quando a Lua passa pelos signos de sagitário, leão e áries, a produção pode tornar o vinho mais saboroso.

Jornal de Belo Horizonte dá em manchete que a despedida do inverno em Minas será com temperatura de 42 graus. A expectativa da primavera é de que entre em cena na próxima semana com granizo. É esperar.

Nuvem de fumaça cobriu o céu da capital e região metropolitana no meio da semana. A umidade relativa do ar atingiu 10%, 12%, propiciando clima de deserto. E não temos praia.

O governo federal proibiu por 60 dias permissão de queimadas em todo território brasileiro. Fiscalizar a obediência à ordem constitui problema. E as televisões mostram sucessão de incêndios em florestas.

A suspensão não será aplicada em casos de controle fitossanitário autorizado por órgão ambiental, em práticas de prevenção e combate a incêndios e na agricultura de subsistência de indígenas. Na semana anterior, Bolsonaro editou decreto autorizando o uso das Forças Armadas no combate ao fogo.


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Por Manoel Hygino - 18/9/2019 10:17:30
A casa de Stroessner

Manoel Hygino

Jornais da semana passada davam conta de uma descoberta, considerada macabra: era de três crânios e outros restos humanos, enterrados em um banheiro da mansão de propriedade do general Alfredo Stroessner, que governou ditatorialmente o Paraguai por muitos anos, inclusive correspondentes a Getúlio Vargas no Brasil.

Stroessner governou o país com mãos de ferro e, até hoje, investigam-se mortos, cujos corpos não foram identificados, desaparecidos na mais longa ditadura da América do Sul.

Apelidada de “A Casa de Stroessner” ou “A Mansão do Horror”, foi construída na década de 1970 e fica em Ciudad del Este, na conhecida tríplice fronteira com o Brasil e a Argentina, passagem obrigatória dos brasileiros que atravessam a famosa Ponte da Amizade para fazerem compras e trazerem muambas para o lado de cá.

Acontece que o imóvel esteve abandonado por muitos anos, desde a queda do presidente, e, lá como aqui, sofreu invasão de cerca de 180 famílias “sem teto”.

Eles (os invasores) encontraram, há duas semanas um úmero e vários crânios, três fêmures e restos soltos. Tudo foi guardado, rotulado com a placa de “protegido”. O material vai para Assunção, disse Rogelio Goiburú, da Unidade Especializada de Direitos Humanitários.

De quem eram estas partes de corpos? Tem-se como muito provável tratar-se de gente de certo prestígio, senão lá não se achariam. Se prisioneiros comuns, contrabandistas talvez, deveriam estar em locais menos guardados.

O repórter Edmar Morel, que trabalhou, no Rio de Janeiro, para os principais jornais do Brasil à época dos dois presidentes, visitou mais de uma vez aquela região, chamando a atenção para o fato de ser Stroessner de origem germânica: “o Paraguai que encontrei tinha censura prévia, cárceres cheios e serviam de abrigo a refugiados nazistas”.

Morel, contudo, admoesta que no Paraguai havia campos de concentração no Chaco, onde se prendiam os inimigos do regime, desde o governo de Higino Morinigo, um ano depois, do final da guerra, em 1946. Por sinal, o presidente esteve em Belo Horizonte, então, e a cidade foi preparada com cartazes para saudá-lo.

O jornalista comentou sobre Morinigo, “tipo perfeito do ditador sul-americano, saiu da caserna, chegara ao poder com um golpe, tal qual diversos tiranos que infelicitaram os povos do hemisfério, sufocando as liberdades políticas de seus povos. Morinigo, porém, tinha um toque especial pessoal: bonachão, barrigudo, contador de anedotas, não era arrogante”.

A visita do repórter brasileiro ao campo de concentração só se deu no dia seguinte, quando já esvaziado de tudo que lá se encontrava, até o arame farpado que o cercava. Agora, resta aguardar as diligências do atual governo guarani em busca da identificação dos ossos encontrados na “sagrada mansão” perto à fronteira.


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Por Manoel Hygino - 17/9/2019 08:22:50
Harari vê Frankstein

Manoel Hygino

Yuval Noah Harari era apenas um desconhecido há poucos anos. O escritor, todavia, conseguiu revelar-se, a partir de “Sapiens, uma breve história da humanidade”, um livrão com mais de 500 páginas, distribuído pelas livrarias de todo o mundo.

O estudo lançado em 1911, em Israel, nação de origem do autor, já percorreu o planeta em várias línguas e, presentemente, quem disser que o leu, julga-se atualizado com o que de mais moderno apareceu no mundo do conhecimento.

Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, não se cinge a responder sobre as inquinições do ser humano e da humanidade. Seu leitor deve preparar-se para uma visão ampla e profunda da história e sua evolução. Ele faz uma exposição sobre a Revolução Cognitiva, que se iniciou há 70 mil anos; depois, a Revolução Agrícola, de 12 mil anos, e a Científica, que faz 500 anos.

A obra, deste modo, é preciosa sob todos os aspectos e impõe uma leitura cuidadosa. Não é sempre que se encontra um trabalho tão valioso, capaz de exercer natural atração sobre o público de modo geral.

O autor, por exemplo, evoca a escritora Mary Shelley que, em 1818, lançou “Frankstein”, ficção sobre um cientista que tentou criar um ser superior e, em vez disso, produziu um monstro. Nos dois últimos séculos, o caso foi recontado inúmeras vezes, com variações evidentemente, transformando-se, porém, no tema central de uma nova mitologia científica. Conclusão de Harari: a história de Frankstein parece alertar-nos de que, se continuarmos brincando de Deus e fabricando vidas, seremos punidos severamente.

É imensa a gama do que há a ser discutido na obra de Harari, e o mundo hoje a está analisando. O escritor mineiro César Vanucci, por exemplo, em seu blog se manifestou há dias sobre os Estados Unidos e os norte-americanos. Vanucci não vê a grande nação do Norte como seus aliados e apoiadores.

Diz Harari: “a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776, com a “Declaração da Independência”, para dar sustentação às redes de cooperação em massa organizadas pelos seres humanos com vistas ao relacionamento em comunidade, caracterizou-se pela incoerência e hipocrisia. Embora pregando, teoricamente, a igualdade de todos os homens, a referida ordem estabeleceu como regra, na prática, uma divisão social contundente. Consagrou – sublinha ele – “a hierarquia entre ricos e pobres”.

Palavras também de Harari: “a maioria (...) quase não tinha problemas com a desigualdade causada por mais ricos que passavam seu dinheiro e negócios para os filhos. Na visão deles, igualdade significava apenas que as mesmas leis se aplicassem a ricos e pobres. Não tinha nada a ver com seguro-desemprego, educação integrada ou seguro-saúde. A liberdade também tinha conotações muito diferentes das que tem hoje. Em 1776, não significava que os desprivilegiados (negros, índios e muito menos, mulheres) podiam conquistar e exercer o poder”.

Pelo que aí ficou dito, há realmente muito a se buscar em Sapiens, nem que seja para contrapor-se. Vale a pena, portanto.


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Por Manoel Hygino - 14/9/2019 07:52:38
Um novo vírus

Manoel Hygino

Velhos problemas, velhas doenças. E o sistema de saúde do país: deficiente, incapaz de atender a ponderável contingente da população. Agora, como antes, a insuficiência de recursos para suportar a demanda crescente. Não se vislumbra perspectiva de soluções a curto prazo e o cidadão insiste em não obedecer orientações médicas.

Em Bocaiúva e São Francisco, duas crianças foram picadas por escorpiões. A da terra de José Maria Alkimim e Henfil, de 3 anos, faleceu. A segunda estava em um Centro de Terapia Intensiva (CTI).

E há a dengue. O Ministério da Saúde, no dia 11, informou que o Brasil registrou 1.439.471 casos até 24 de agosto de 2019 (aniversário do suicídio de Vargas), o que representa aumento de 7 vezes em relação ao verificado no mesmo período do ano passado. Em índices percentuais, a variação foi de 599,5%. O Brasil não pode parar.

Quando o oitavo mês terminou, noticiava-se que, nos últimos 90 dias, o Brasil teve 2.931 casos de sarampo confirmados. Em Minas, milhões de pessoas não tinham tomado as duas doses de vacina, estando vulneráveis, segundo a Secretaria de Saúde. Como São Paulo não pode ficar superado, a primeira morte por sarampo foi confirmada, em 1.637 notificações.

A tuberculose ainda perambula e a sífilis causa apreensão em quem tem o mínimo de responsabilidade. Sem esquecer o Mal de Hansen, de que poucos conhecem sequer o nome, embora amofine os especialistas de todo o planeta. Não é privilégio cá dos trópicos.

Nem se omitirá a caxumba que voltou a assustar em várias regiões do Brasil, embora baixos os níveis de vacinação. Não é novidade, porque conhecemos a terra que habitamos e com quem vivemos. No Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Bahia, Piauí e São Paulo, o percentual de crianças vacinadas não alcança 75%, quando o exigido é 85%.

Grande preocupação na recepção de hospitais e postos de atendimento é saber se caxumba se escreve com X ou CH. Não se preocupa em saber que a enfermidade pode causar inflamações no pâncreas e nas meninges, que envolvem o cérebro. Se tratar de mulher, a infecção atinge os ovários e, nos homens, os testículos.

Sem embargo, o rol das doenças que nos amofinam o cotidiano não espira aí. Surgiu um novo vírus: o patinete. A cada dois dias, uma pessoa é dele vítima em Belo Horizonte. Um engenheiro de telecomunicações, de 43 anos, morreu em pleno centro urbano. E era um sábado.

O repórter Raul Mariano, do Hoje Em Dia, informa que nenhuma das exigências colocadas pela BHTrans às empresas que oferecem aluguel de patinetes elétricas na capital tem data para entrar em vigor. A informação foi dada pelo prefeito Alexandre Kalil, que descartou a proibição dos equipamentos na metrópole até a regulamentação.

Após a fatalidade referida, a autarquia se reuniu com os responsáveis pelo serviço compartilhado e determinou a contratação de um seguro de responsabilidade civil para os usuários e a redução dos limites de velocidade do aparelho para quem estiver fazendo as primeiras viagens.



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Por Manoel Hygino - 13/9/2019 09:42:05
Além da Antologia

Manoel Hygino

Com colaboração de 36 autoras, acaba de sair a Antologia da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, que demonstra a elevada qualidade intelectual e artística das mulheres daquela cidade. É contribuição vária e múltipla, que muito bem expressa os méritos e predicados das escritoras. Estas seguem os caminhos de D. Yvone de Oliveira Silveira, por anos presidente da Academia Montes-clarense e fundadora de outras congêneres que ampliam as vias para manifestações literárias.

A partir da trilha inicial, percorreram-na as presidentes Maria da Glória Caxito Mameluque, Marta Verônica Vasconcelos Leite, Evany Cavalcante Brito Calábria e Ângela Vera Tupinambá de Castro. Agora, Felicidade Patrocínio, que usa toda sua capacidade criativa e pertinácia para consecução de novos projetos e frentes de ação.

Como fizera Vivaldi Moreira, presidente perpétuo da Academia Mineira de Letras, Felicidade conquistou espaço definitivo para a entidade, em imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico, na rua Justino Câmara, e transferido pela Secretaria Municipal de Cultura. A propriedade foi restaurada, inaugurada para servir a seus misteres, que são muitos e valiosos para uma cidade tão importante.

O lançamento da Antologia integra esse esforço, e a acadêmica Ivana Ferrante Rebello observa: “A escrita, com sua feição de catarse e beleza, é um bom ensaio para a esperança”. E dela, acrescento eu, estamos carecendo, em regime permanente.

O Norte de Minas se tornou conhecido do Brasil por circunstâncias diversas, inclusive a operosidade dos que ali nascem e trabalham, e, no campo dos que se devotam às letras, pelo alto nível dos escritores, entre os quais dois que chegaram à glória da Academia Brasileira de Letras, numa mesma época. A comunidade feminina não ficou parada no tempo, pois vem mostrando sua relevante participação em numerosas ocasiões. As integrantes da recente publicação da AFLMC são a prova.

E não somente nas artes e temas intelectuais elas se destacam. Outro dia, Petrônio Braz recordou muitas mulheres que são vozes da gente de Minas, inclusive na área política. Citou Maria da Cruz, descendente dos Ávilas da Casa da Torre, de notável e reconhecida atuação na conjura do São Francisco, em 1735, além de outras mulheres extraordinárias que merecem ser lembradas e seus esforços enaltecidos pelas gerações que as sucederam. Há muita história a contar e as historiadoras de ontem e de hoje poderão muito fazer com esse objetivo. Elas dão grandeza ao São Francisco e a toda a região mineira que o rio atravessa.

A Antologia lança luzes sobre a participação feminina no desenvolvimento de uma extensa e privilegiada região brasileira. Os nomes das 36 autoras devem ser resgatados. Ei-los: Amelina Chaves, Felicidade Patrocínio, Filomena Alencar Monteiro Prates, Glória Caxito Mameluque, Gilsa Florisbela, Ivana Ferrante Rebello, Marina Couto, Marta Verônica Vasconcelos Leite, Milene Antonieta Coutinho Maurício, Nannah Andrade, Ruth Graça, Terezinha Campos, Alcione G. R. Vieira, Carmen Netto Victória, Cecy Tupinambá Ulhôa, Dóris Araújo, Geralda Magela de Sena Almeida e Souza, Júnia Velloso Rebello, Maria do Carmo Veloso Durães, Marijô Rodrigues, Marlene Porto Bandeira, Palmira Santos Oliveira, Ângela Vera Tupinambá de Castro, Elza Costa Gonzaga, Evany Cavalcante Brito Calábria, Filomena Luciene Cordeiro Reis, Ilca Terence Noronha, Irani Teles de Oliveira Antunes, Lígia dos Anjos Braga, Mara Narciso, Maria Lúcia Becattini, Maria Luiza Meira Araújo, Marilda Versiani de Souza, Nancy França, Raquel Souto Chaves, Virgínia A. de Paula.


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Por Manoel Hygino - 11/9/2019 07:34:13
120 anos depois

Manoel Hygino

Na terça-feira, 3 de setembro, realizou-se a inauguração da Faculdade Santa Casa BH. O provedor da instituição, Saulo Coelho, como a solenidade se alongava, pôs o discurso no bolso e disse algumas palavras sobre o evento. Os secretários de Saúde do Estado e do município, respectivamente Carlos Eduardo Amaral e Jackson Machado Pinto, não ouviram, assim, o que Saulo diria, naquele momento.
O provedor, contudo, lembrou que, exatamente 230 anos atrás, os Inconfidentes mineiros tinham incluído em seu projeto de emancipação política a criação de uma universidade. Davam, assim, ao movimento emancipatório conteúdo humanístico e certeza ao povo mineiro de um instituto de ensino superior, para assegurar desenvolvimento e evolução da cultura, que já distinguiam a província no século 18.
Aliás, quando se cogitou, já na República, da criação de uma universidade no Brasil, a província de Minas foi preferida para recebê-la, por ser a mais populosa desde o Império, a mais polida do interior e geograficamente a mais adequada no meio das demais.
Evidenciou-se, à suficiência, que a semente lançada pelos Inconfidentes começava a estimular o idealismo de políticos interessados em educação. O deputado Acaiaba de Montezuma, que sequer era mineiro, teve participação muito ativa à época. Afirmou: “a haver uma só universidade, deve ser em Minas Gerais”. A posição do parlamentar e de outros ilustres homens públicos do Brasil ecoou rigorosamente.
Mais à frente no tempo, Antônio Carlos, presidente do Estado, instituiu a Universidade de Minas Gerais, em 1927 quando já existia a Faculdade de Medicina, (implantada em 1911, hoje da UFMG). Sem pretender alongar-me no assunto, acrescenta-se apenas algo sobre esta história.
A Santa Casa, primeiro hospital e instituição na área de saúde da nova capital, já somava 12 anos quando da inauguração do primeiro instituto de formação médica em BH. A entidade, desde seu nascedouro, demonstrando sua vocação para a saúde e o ensino, praticava a arte hipocrática, mas paralelamente teve notável presença no ensino, contando com atuação de expressivos vultos da medicina brasileira.
Ao longo de sua existência, a Santa Casa possibilitou a criação também da Faculdade de Ciências Médicas, cumprindo seus deveres com a cidade e com a comunidade médica. Tanto que, instalou, em 2001, o seu Instituto de Ensino e Pesquisa, para oferecer importantes cursos, como de doutorado e mestrado, além de programa de residência e especialização médica, e outros. Além, evidentemente, de manter a Escola Técnica, opção para os interessados em adquirir conhecimento e qualificação em ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação, referenciadas nas necessidades de saúde individuais e coletivas.
Dá-se um precioso passo agora, com a inauguração da Faculdade Santa Casa, com projetos já aprovados pelo Ministério da Educação. Saulo Coelho observou: “nossa centenária instituição está absolutamente consciente do papel que assume no limiar da segunda década deste século, para servir unicamente à saúde e na formação de seus profissionais. Os atos de hoje assinalam um imperativo na presente realidade e complemento lógico das atividades da Santa Casa nos seus doze decênios de existência e labor”.


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Por Manoel Hygino - 6/9/2019 09:17:32
O Uruguai é ali

Manoel Hygino

O Ministério de Relações Exteriores do Uruguai divulgou que a procura dos brasileiros pelo país como novo lar cresceu 38%, entre 2016 e 2018, e se acelerou ainda mais em 2019. Entre janeiro e julho deste ano, o Uruguai emitiu 1.591 vistos de residência fixa para brasileiros. O número de documentos concedidos no período já representa 94% do total de 2018 – quando foram emitidos 1.686 vistos.
A facilidade no processo legal de migração também contou a favor. Há casos em que os vistos de residência foram solicitados ainda no Brasil, em 2018, e emitidos quando a família já morava no Uruguai.
A maior parte dos brasileiros que migra para o Uruguai se estabelece na capital, Montevidéu. Quem se muda diz que gosta da liberdade e do modo de vida uruguaio. O Uruguai é excelente proposta. Sua população equivale aproximadamente à de Belo Horizonte, anda pelos 4 milhões de habitantes. São cidadãos altivos, conscientes de sua responsabilidade e de seus direitos. Leis existem para serem cumpridas, tanto quanto as placas orientadoras do trânsito urbano, por exemplo, que têm de ser obedecidas. Nas praças, se há a placa proibindo pisar na grama, a orientação é observada religiosamente.
As pessoas, ao passarem umas pelas outras, saúdam: “bom dia, boa tarde, boa noite”, evidentemente, em espanhol. “Gracias” é uma palavra rotineira em todos os lugares e momentos. A boa educação é amplamente cultivada, “permiso?”. Ser amável está no cotidiano, até nos estádios esportivos, e a despeito da “incha”.
Há o que se ver ou se assistir em Montevidéu. Desde as pitorescas ruas de La Ciudad Vieja, junto ao porto, ou o museu do Cerro no alto, um pouco distanciado do centro urbano, mas de onde se divisa esplendidamente a metrópole. Teatros, há muitos e bons e com peças de sucesso. Os hotéis podem ser escolhidos à vontade, e há ótimos.
Pocitos é uma atração de Montevidéu, uma Copacabana. Quem tiver disposição de fazer um excursão pelo rio de La Plata, desde que tenha plata, perdoem-me o péssimo trocadilho, muito apreciaram ir à Argentina, quem sabe?
A principal via pública – a avenida 18 de Julio – é uma passarela para todos os gostos, emoldurada com lindas praças bem cuidadas e monumentos que mais embelezam a capital. Numa delas, o grande monumento a Artigas, o herói nacional, em cujo subsolo está depositado seu corpo, guardado dia e noite pelas Forças Armadas.
Na mesma praça, um cartão de visitas – o maior hotel da cidade e o palacete Salvo, com singulares linhas, e bem próximo, o mercado, em cujo primeiro piso, ao nível da rua, pode-se deleitar com a melhor culinária, o público atendido por mozos devidamente uniformizados e falando além do espanhol.
Para quem gosta de mar, lá estão, entre outras, a playa de Pocitos, no elegante bairro, ou a Ramirez, junto à qual se localiza o Cassino em que Obdulio Varela, campeão nacional de futebol, foi croupier. Se quiser sossego, há belíssimos parques, como o Rodó, cujo nome homenageia um celebrado escritor. Nos bancos sob árvores frondosas, pode-se ler o melhor da literatura – nacional ou mundial. Já vou arrumar as malas, até porque não há necessidade de passaporte.


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Por Manoel Hygino - 4/9/2019 07:04:25
Noite no Mangabeiras

Manoel Hygino

Habitar ou não habitar o Palácio das Mangabeiras, na Serra do Curral, que circunda parte de Belo Horizonte. Esta a pergunta que se fez o governador Romeu Zema, tão logo empossado. Não queria morar em palácio, para dar ar de simplicidade pessoal e de seu governo.

Escolhido para chefiar a administração do Estado, também Juscelino sentiu necessidade de ter, fora do burburinho da cidade, das honrarias do Palácio da Liberdade, um local que lhe permitisse espairecer, que propiciasse condições de descanso ao administrador roído pela azáfama. Assim, surgiu o Mangabeiras, que virou palácio, mas não passava de casa ampla, sem luxo e pompa, de onde se descortinava a Belo Horizonte de então. Eu despachei lá, com Israel Pinheiro, algumas vezes e posso afiançar a modéstia da moradia.

Getúlio Vargas, depois do assassinato, na rua Tonelero, Copacabana, do major Rubem Florentino Vaz, em 5 de agosto de 1954, vivia sob o cerco dos oficiais das Forças Armadas, que exigiam providências drásticas, talvez a deposição. Veio, então, a Belo Horizonte, no dia 12, para a inauguração da Mannesmann, sendo recebido com carinho.

Longe do ambiente pesado da capital da República, Vargas se acomodou no Mangabeiras. Após todo o cerimonial cumprido, recolheu-se a um apartamento. Quietude não sentia. Seu estado de espírito tampouco o permitia. Os ventos sopravam fortes. De morro dos ventos uivantes, era o ambiente. Sem conciliar o sono, quis saber o porquê de tanto ruído. Geraldo Ribeiro, motorista de Juscelino (e que com ele morreria no acidente da Via Dutra, em 1976), privava da intimidade do governador, e funcionava como uma espécie de mordomo. Ele explicou: ali no alto ventava muito e agosto trazia consigo rajadas fortes.

Preocupado, Geraldo se dirigiu novamente, ao aposento de Getúlio, horas depois. Contou que o encontrara ajoelhado, junto ao leito, e chorando. O testemunho está inserido também em “Esse velho vento de aventura”, livro de Paulo Pinheiro Chagas.

Tancredo Neves não confirma integralmente a versão. Diz que Geraldo Ribeiro vira apenas Getúlio andando pelo quarto e fumando charuto. Em determinado momento, deparara a cena insólita: o presidente se encontrava junto ao leito, como se orasse. Tancredo acrescentou: Getúlio “nunca chorou”. Murilo Badaró observa que se propalava que o presidente era ateu.

Naquele dia 12, Vargas passou por um refrigério em Minas. Mas a capital federal fervia. Já nos primeiros instantes do dia, o brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica, assinou a portaria que instaurava o IPM – Inquérito Policial Militar para apurar o crime de Tonelero.

Não houve prisão. Getúlio apenas se matou no dia 24 seguinte. Havia indignação e revolta de muitos segmentos do povo. Vargas deixou a vida para entrar na história. Todos os demais personagens da hora trágica que viveu a nação são mortos. O palácio das Mangabeiras parece que se tornou efetivamente Palácio. Mas um presidente da República ali passou sua última noite. Fora do Catete – o outro palácio do qual foi levada a urna fúnebre para a terra natal, São Borja.


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Por Manoel Hygino - 3/9/2019 11:35:11
Aconteceu em agosto

Manoel Hygino

O agosto encerrado no dia 31, neste 2019, foi um dos mais marcados por profusas notícias divergentes nas áreas do poder constituído da República inaugurada em 1889. E observe-se que o movimento que conduziu Deodoro à chefia dos destinos nacionais faz, em 15 de novembro, apenas 130 anos. Tempo supostamente suficiente para que os sucessores, responsáveis pelo novo regime, tomassem juízo, como diziam meus avós. Contudo, o que se vê agora é a barafunda dos 31 dias do oitavo mês, provavelmente aziago. Chegou-se a temer por dias piores, o que felizmente não aconteceu.
Lembremo-nos de que, apenas 65 anos atrás, em outro agosto, no dia 24, um presidente brasileiro, de grande prestígio popular, revolucionário de 1930 e que sucedera Washington Luís no Palácio do Catete, desencantado com o que ocorria em derredor de si, sentiu-se maculado em sua honra. Depois de uma longa reunião no palácio, decidiu simplesmente extinguir a própria vida. Apanhou a arma, companheira inseparável, no dormitório pela manhã, apertou o gatilho e preferiu encaminhar-se a outro destino, em busca talvez de novas e mais fiéis companhias.
Em agosto de 2019, (observa-se que mudara o século, o Distrito Federal já tinha sede em Brasília, os dirigentes não eram evidentemente os mesmos, tampouco as ideias), o presidente da Câmara dos Deputados, de nome Rodrigo Maia, afirmava que muito do ativismo da mais alta corte de Justiça do país, resultava da responsabilidade (ou irresponsabilidade?) da política. Declarou com todos os pingos nos is.
“Desde que me entendo como deputado, todo conflito político a gente joga no Supremo e induz o Supremo a decidir. Muita da responsabilidade é nossa, que fomos demandando e demandando, e chegou uma hora em que alguns entenderam que esse ativismo fazia sentido”.
Nesta ocasião em que o Supremo e seus membros sofrem reparos e críticas, ouvir o que declarou o presidente da Câmara dos Deputados é relevante. Ajuda a melhor entender a parafernália de decisões que aparecem interminavelmente a público conhecimento, além de incessantes recursos jurídicos. Rodrigo, filho de outro político – César Maia, depõe:
“Quando se estimula o Supremo, ele acaba decidindo. O excesso de poder do Supremo é responsabilidade da política. Temos de organizar as reformas institucionais, reduzindo o protagonismo da Corte, com uma Constituição mais enxuta”.
É bom que se diga: uma reforma não para, como a da Previdência, embora não evolua como se pretendera. Há também um projeto de lei para debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de que é relatora a deputada Laís Tonietto. Mas como sói ocorrer, a tramitação está em ritmo de tartaruga. Além do mais, seria suficiente reformar a Carta? Nos Estados Unidos, sempre evocados, a lei maior é ainda a da época da Independência. Ou é preciso modificar a consciência dos cidadãos que há na política entre nós?
Por enquanto, diante do quadro instalado, o Supremo e seus integrantes padecerão críticas severas e o palco está montado. Os ministros sabem perfeitamente que a causa de tudo não é deles, como admite Rodrigo Maia. De todo modo, teremos cáusticos debates até que se abram as janelas para 2020, quando se comemora o terceiro centenário de nossa Capitania. De lá pra cá, muita água correu sob a ponte. E mais água virá.


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Por Manoel Hygino - 30/8/2019 07:43:01
Bom senso indispensável

Manoel Hygino

Questões ambientais e indigenistas, ampliação de queimadas na Amazônia e troca de farpas entre presidentes – um na América do Sul, o outro na Europa. Em Paris, Macron classificou como “crise internacional” a situação na Amazônia, acrescentando que os líderes do G7, antes G8, formado pelos países mais ricos, discutiram “a emergência” na cúpula do fim de semana, em Biarritz.
Em Brasília, no Dia do Soldado, o ministro do Exército, em discurso, elevou o tema: “aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem: os soldados do Exército de Caxias estarão sempre atentos e vigilantes, prontos para defender e repelir qualquer tipo de ameaça”.
Em 26 de agosto, Dia de São Zeferino, segunda-feira, grandes jornais ostentavam manchetes alentadoras, após a parafernália verbal: “Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia”, publicou “O Globo”; “Zero Hora”, de Porto Alegre explica: “G7 concorda em ajudar a conter o fogo na Amazônia”; “Diário de Pernambuco”, do Recife, a sua vez: “G7 vai ajudar o Brasil a combater incêndios”.
Ao fim e ao cabo, prevaleceu um pouco de bom-senso no que tange ao recebimento de ajuda do G7 ao Brasil. Bolsonaro titubeou sob o argumento de que Macron queria tutelar-nos. Criaram-se arestas de todo tipo, envolvendo a própria primeira-dama francesa.
Dias depois, o Brasil resolveu “aceitar” a colaboração do grupo dos mais ricos do mundo, inclinando-se a ponderações prudentes, embora esses desagradáveis episódios devam marcar o primeiro ano da gestão Bolsonaro. Macron, em discurso a embaixadores em Paris, classificou de “erro profundo” a postura hostil em resposta a emergências que ultrapassaram limites nacionais. O chefe do governo francês foi suficientemente claro:
“A Amazônia é estratégica para o mundo inteiro, tanto em termos de aquecimento global quanto de biodiversidade”, disse. “Nesse sentido, notei as inquietudes, a falta de tato de alguns dirigentes, ao considerarem que soberania, no fundo, era agressividade”, afirmou.
Em seguida, Macron insistiu no argumento de que a mancha amazônica se estende por nove países, inclusive a França – que tem um departamento em solo sul-americano (Guiana Francesa). “Vários outros (países que não o Brasil) solicitaram nossa ajuda. É importante mobilizá-la logo para que a Colômbia, a Bolívia e todas as regiões brasileiras que desejem usufruir desse auxílio possam recebê-lo e reflorestar a área rapidamente”, completou o presidente francês.
Parece incrível que, no miserê em que nos achamos, ainda tenhamos relutância em receber recursos estrangeiros para empregar em bens brasileiros, que necessitam de preservação em caráter imediato. Curioso que, enquanto “pensamos” se recebemos ou não ajuda externa das nações mais ricas, aceitemos um avião do Equador para auxiliar no combate aos incêndios na selva.
Quanto aos Estados Unidos, até agora não se viu a cor do seu dinheiro, mas apenas as palavras de elogios de Washington às decisões de Brasília. Pelo que se vê, carecemos de uma dose de serenidade – não se confundir com submissão – para tratar de assuntos de interesse nacional. Como dizia Lauro Muller, o Brasil se mantém ao lado do grande país do Norte – até em duas grandes guerras – mas não andamos a seu reboque.
Enquanto se dão os fatos, o Banco Central se vê na contingência de vender suas reservas, pela primeira vez em dez anos, para tentar conter a elevação do dólar. Prudência e caldo de galinha fazem bem até nas negociações públicas.


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Por Manoel Hygino - 28/8/2019 08:33:13
Os segredos de Frieiro

Manoel Hygino

No Festival de Rua, em BH, na Fernandes Tourinho, Savassi, no passado fim de semana, o homenageado foi Eduardo Frieiro, uma das vozes mais importantes das letras mineiras no século que ficou para trás. Não foi dos que queriam entrar em cena para aparecer, tímido sob vários aspectos. Não se afastou de Minas Gerais para brilhar em São Paulo e Rio, como do feitio dos autores da época. Nem procurou casar em família rica e conceituada, não buscou espaço nas folhas. Assim, passou toda a vida, legou cerca de 200 livros publicados, que ganham provas de apreço e admiração das gerações que o sucederam.

Criada a Coordenadoria de Cultura de Minas, precedendo a Secretaria, o professor Wilson Chaves, depois um dos fundadores da Escola de Direito Milton Campos, fez a apresentação de “Os livros nossos amigos”, de Frieiro, que cresce, com muita justiça, entre os mais lidos nas bibliotecas. É um primor de conhecimento, com fácil leitura. A edição se fez, quando o autor alcançava os 90 anos, muito já produzira, mas vários cadernos de anotações queimou pessoalmente. Frieiro tinha manias e desejos inarredáveis.

Aquele volume foi apresentado pelo escritor, já então aplaudido, Moacyr Andrade, que chegara à Academia Mineira de Letras, antecedendo-o. E o seu confrade comentou, sem fazer favor algum: “seus conhecimentos são profundos em quase tudo que é saber humano. Onde não é profundíssimo, é sempre o conhecedor bem equipado e lúcido, para dar banhos de segura informação. Basta perguntar-lhe e ouví-lo. Não se instruiu “à la diable”, embora fora de escola, pois não foi o menino além da escola primária de uma amiga professora”.

E houve mais: “O restante imenso ele procurou sozinho, mas metodicamente, rigorosíssimo no estudo curricular das matérias dos ginásios da época, feito porém, por ele em casa, avaliando o progresso de seus conhecimentos, para ele mesmo promover-se no período seguinte. Professor e aluno numa pessoa só. E ambos criteriosos: o professor era exigente e o aluno querendo saber. Com esse sistema curioso de estudar sozinho, dominou todas as matérias que constituíam, na sua juventude, o chamado “curso de Humanidades”. Assim, penetraria nos estudos de ordem universal, percorrendo os livros todos necessários, que ia buscando, mas sem qualquer mestre exterior. E, desse modo, sem diploma, ficou douto em tudo o que oficialmente é requerido para a pompa de diploma universitário”.

Eduardo Frieiro foi, assim, um produto raríssimo em nosso meio. Tipógrafo com todas as honras da nobre arte, atuou ao lado de famosos nas lides literárias, e do seu amigo Moacyr Andrade, revisor da Imprensa Oficial, e ínclita casa, que se transferiu de Ouro Preto e habitou, por muitos e muitos anos, o grande prédio da avenida João Pinheiro, esquina com Espírito Santo.

Venceram a epidemia de gripe espanhola – ele e o Moacyr, e depois das dez horas, terminados os deveres do ofício, iam conversar a pé nas ruas e no botequim do Fausto, um italiano amável, na avenida do Comércio, hoje Santos Dumont. Lá, existiam os famosos e enormes sanduiches da casa e a cerveja “Negrinha”, considerada saborosíssima, fabricada por Paulo Simoni, custando 500 réis a garrafa, época em que o chope não ingressara no mercado.

Ao longo da vida foi aquilo: avesso às rodas e companhias, preferia ficar lá pelos cantinhos, sisudo, se possível com um livro à mão e aos olhos. Para não aparecer colaborava com o jornal “Avante”, usando o pseudônimo de Bento Pires. O modernismo começava, e ele não o aprovou. Figura singular, Eduardo Frieiro, um dos autores de minha preferência, nascido em Bento Pires, antes da República – em 5 de junho de 1889.



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Por Manoel Hygino - 27/8/2019 08:09:40
No calor da crise

Manoel Hygino

Uma crise internacional que poderia ter sido evitada. Esta foi produzida em torno da questão ambiental, que tem como centro as queimadas na Amazônia e que, por motivos óbvios, atraíram a atenção do mundo. A imprensa, sempre tão criticada, teve razão mais uma vez, limitando-se a transmitir o que conhecera e apurara. Jornais de grande representatividade na comunidade brasileira, no dia 23, tinham como manchetes de primeira página:
Folha de São Paulo: “Queimadas acuam governo, que opta por ampliar críticas”. O Estado de São Paulo: “Queimadas na Amazônia provocam reação mundial”. O Globo (Rio): “Amazônia vira crise internacional”. Zero Hora (Porto Alegre): “Após críticas de Macron, Bolsonaro anunciará medidas contra queimadas”. Valor Econômico (São Paulo): “Amazônia vira preocupação global e gera crise ambiental”.
O Brasil inteirinho sabe dos problemas que inquietam os produtores rurais, os moradores de áreas atingidas pelos incêndios, ou destruição da selva, na Amazônia. Em Belo Horizonte, tão distante do palco dos acontecimentos, teme-se o fogo que se ergue nas fraldas da Serra do Curral, ameaçando a mataria, residências da elite ou de proprietários de baixa renda, até casas de saúde.
É bom que todos sintam o problema e procurem evitar danos maiores, até à vida humana. Aqui, situamo-nos no Sudeste, de mais recursos, inclusive em equipamentos de defesa e para debelar o fogo. Imagine-se lá nos rincões recônditos da maior floresta do planeta. Tem-se de cuidar, ao invés de dilatar um bate-boca, fora dos padrões de chefes de Estado ou da diplomacia, atitude que em nada ajuda, antes atrapalha.
Pode ser que o presidente Emanuel Macron tenha se precipitado, até para apresentar-se como protagonista em um drama, de que o Brasil não é ator sozinho, como se demonstrou antes da reunião do G7, em Biarritz. Aparentemente, Brasília permaneceu na conversa, enquanto os fatos se avultavam, resultando numa crise dispensável. Será que o papa também se precipitou?
O general Villas Bôas, uma das grandes lideranças das Forças Armadas, enganou-se na colocação da matéria, em recentes declarações. Os testes nucleares franceses na Polinésia, há tantos anos, jamais serão esquecidos, mas a situação agora é outra. A pátria de De Gaulle esteve ao lado do Brasil em inúmeras oportunidades no decorrer da história. Não é hora, nem há razões suficientes, para desencontros. Ademais, a Guiana Francesa faz fronteira com o Brasil, e suas angústias pela tragédia amazônica são pertinentes a ambas as nações.
Os governos da França e da Irlanda chegaram a anunciar o bloqueio do acordo com o Mercosul, o que seria altamente danoso ao Brasil, se o Planalto não tomasse providências para proteger a floresta, depois de mais de 20 anos de negociações. Logo, a questão está equacionada e clara. Nada de suscetibilidades feridas.


84173
Por Manoel Hygino - 24/8/2019 16:12:37
O que a ministra pensa

Manoel Hygino

No dia 14 de maio de 2016 – já se passaram mais de três anos pois – a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, declarou em aula inaugural da Faculdade de Direito da UFMG, em Belo Horizonte, que o Brasil vive atualmente em estado de guerra.

Observou: “e não é uma guerra contra o Estado, não é a raiva do servidor ou do presidente, mas a raiva do vizinho, porque ele não pensa igual. A intolerância é de uma geração que não quer nada diferente. E não se resolve a vida com raiva”. “Nós do Direito temos o dever de trabalhar pela pacificação – não no sentido abstrato, mas no sentido de viver em paz com o outro, porque só assim o outro se sente no estado de Justiça”.

A ministra demonstrou confiança no futuro, destacando que a democracia entre nós está cada vez mais forte. “Andamos muito para chegar a um tempo em que a pluralidade, que está presente na Constituição, seja a tônica da vida de cada um de nós”. Para ela, “a democracia, mais que um regime, é um modo de vida e uma conquista permanente”.

No entanto, manifestou-se também:

“O politicamente correto é o não pensar. O politicamente correto é uma renúncia à liberdade. Agora, é ainda pior, porque, se você não pensa igual, você não é tolerável. E isso me parece um pouco como era no Partido Comunista que tinha um slogan assim: você pensa que pensa? Pensa não. Quem pensa por você é o Comitê Central. E eu agora fico achando que estamos assim: você pensa que pensa? Pensa não. Quem pensa por você é o comercial”.

Nascida no sertão mineiro, aparentemente não é de ter medos. Mas afirmou, depois de terminar o mandato como presidente do STF, que o brasileiro não dormiria se conhecesse tudo o que ela sabe, ao comentar a situação dos presídios do país totalmente dominados por organizações criminosas:

– Hoje, temos as questões gravíssimas das organizações criminosas dominando em todos os estados do Brasil. Por isso, eu digo que não é cômodo nem confortável nenhuma poltrona na qual eu me assente, por uma simples circunstância – eu sou uma das pessoas que, mais tendo informações, não tenho a menor capacidade de ter sono.

No mesmo ano, a ministra se reuniu com os governadores no Palácio do Planalto. E disse: “não cabe ao Judiciário culpas pelos problemas na área de segurança pública pelos quais o país passa, mas, sim, de encontrar soluções”. Explicou, em seguida: “o Estado Democrático de Direito garante ao cidadão o direito ao sossego. É esse direito que faz a população confiar que o Estado vai cuidar disso”.

Sempre ouvida por presidentes da República, por membros do Senado e da Câmara Federal, além de governadores, a mineira de família de Espinosa observou: “uma democracia vive disso e só disso, da confiança de que o Estado não vai permitir que, pela força, lhe tirem os direitos. E é isso que não se está tendo no mundo de hoje, no Brasil de hoje”.


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Por Manoel Hygino - 23/8/2019 11:30:13
A violência por aí

Manoel Hygino

Não é mais um terrível privilégio de agosto: todos os meses têm sido de extremas violências. Nem há lugar específico. Os males se distribuem pelo território, em todas as regiões brasileiras, praticados por cidadãos (?) de toda cor, morador de elegantes apartamentos, de modestas casas de classe média ou de barracos dependurados nos morros, sem a poesia exaltada pelos compositores ou os moradores da margem dos córregos em que o lixo urbano é despejado sem cuidado ou compostura.
Não é o caso de se perguntar que país é este, atribuída erroneamente a frase a De Gaulle. Depoimento digno de que a indignação foi formulada por outra autoridade, fica aqui meu compromisso de revelá-lo a posteriori. Com mais propriedade eu questionaria: como transformaram este país no que aí está? No fundo, o país não é isto... Foi nisso transformado e temos de lutar imensidades para removê-lo de onde se encontra.
Examinemos: no dia 2 deste mês houve um brutal homicídio na maior cidade norte-mineira, Montes Claros, onde nasci: um antigo jogador de futebol, de 87 anos, foi morto em casa por um homem com extensa ficha criminal. A descrição dos fatos dão detalhes estarrecedores.
No dia 18, na mesma cidade, um homem, com comprometedor histórico na polícia, contratado para pintar uma casa em bairro também de classe média, assassinou a proprietária, encontrada envolvida em panos e plásticos, com sinais de violência. Era uma professora, funcionária pública, ex-diretora escolar, aposentada. O homicida estava em prisão domiciliar, réu por prática de estupro, dentre outras acusações.
No dia 20, o mundo todo viu, pela televisão, um homem armado – depois se constatou um simulacro – sequestrar pela manhã, na segunda maior cidade brasileira, um ônibus lotado na ponte Rio-Niterói. Os passageiros feitos reféns eram em torno de 40. O sequestrador, de pouco mais de 20 anos, ameaçou incendiar o coletivo com todos os ocupantes. Foi abatido a tiros por policiais de elite.
Nem terminara a semana para a mídia informar que o Brasil registrou queda de 22% de mortes violentas nos primeiros meses deste 2019, comparativamente ao mesmo período do ano passado. O fato foi revelado no índice nacional de homicídios, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.
Aparentemente, uma evolução fantástica. Mas somente em maio houve 3.521 assassinatos contra 4.327 no mesmo mês de 2018. Espantemos nós: apenas nos cinco meses deste ano foram 17.907 mortes violentas. Os dados apontam que houve 5.108 mortes a menos no país até maio. Dois estados tiveram quedas superiores a 30% – Sergipe e Ceará. Mas três – Piauí, Tocantins e Roraima – registraram alta de assassinatos.
Segundo especialistas, integrantes e ex-integrantes dos governos e entidades atribuem o declínio no número de mortes a ações mais rígidas em prisões, com constantes operações de revistas e implantação do Regime Disciplinar Diferenciado e isolamento ou transferência de chefes de grupos criminosos para presídios de segurança máxima.


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Por Manoel Hygino - 22/8/2019 07:20:37
Minas, um osso

Manoel Hygino

Podemos dizer que Minas Gerais completa 300 anos em 2020. A Capitania das Minas foi criada em 1720, sendo nomeado seu primeiro governador, D. Lourenço de Almeida, que servira à coroa portuguesa na Ásia e, ultimamente, em Pernambuco. A formalização do ato se fez pela patente de 13 de dezembro de 1720. Empossado festivamente em Ouro Preto, em 18 de agosto de 1721, teve ele a sorte de assumir quando descobertos os diamantes em Minas.
Antes, Antônio de Albuquerque, governador do Rio de Janeiro, passara a gerir, em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, recém-criada. Coube-lhe pacificar a região e convocar uma reunião, na hoje Sabará, dos representantes da nobreza da terra, do clero e o povo. Mas também anunciou a organização das municipalidades, mediante o que os respectivos povos teriam governo próprio e democrático. Vejam! Instalou-se em seguida, em 1711, em 4 de julho, a Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, hoje Mariana, tornando-se a primeira sede da capitania, transferida a Vila Rica de Albuquerque, nomeada depois Vila Rica e Ouro Preto, antecessora de Belo Horizonte, já no século XIX.
Governar este grande território das Minas Gerais sempre foi difícil. O historiador João Camillo de Oliveira Torres, nascido na mesma terra de Drummond – Itabira, registrou que desempenharam sua missão governadores, “bem ou mal, com alguns enganos, errando muitas vezes, com as virtudes e os defeitos de que eram possuidores. Na verdade, souberam dar conta de sua tarefa”. Ele se refere ao período em que Lisboa estava acima de tudo.
Naquela época, foi um osso duro, como o próprio itabirano ressaltou: “O problema era teoricamente simples; na prática, uma aventura prodigiosa: como fazer com que a imensa multidão de indivíduos, vindos de todos os quadrantes, oriundos de todas as classes sociais, movidos pela cega paixão do ouro, muitos deles, para não dizer a maioria, fugindo para Minas e, um pouco, fugindo de outros lugares, escapando à lei, como fazer com que aquela multidão se tornasse, ao fim de algum tempo, em um povo, isto é, uma comunidade de famílias e de indivíduos, vivendo dentro da lei, cada qual ocupando o seu lugar na sociedade, e todos agindo de conformidade com sua situação?
Como, afinal, implantar uma ordem em tudo aquilo?”
Mesmo o cidadão de nosso tempo, por menos conhecimento que tenha, percebe um desafio imenso: o primeiro e grave problema era fazer com que aquelas pessoas se transformassem em cidadãos, em povo. Nem se pode esquecer que tudo se fazia em regime de escravidão.
Os Dragões de Minas tiveram de agir muitas vezes no curso da história. Transcorridos séculos, não foram todos os problemas resolvidos e governar Minas ainda é um repto difícil a que têm de responder os que optaram por chegar, e chegaram, ao dificultoso desígnio de comandar as Minas Gerais.
Centênios se passaram, os costumes são outros, as leis idem, mas os problemas, que também são diversos muitas vezes, desafiam aquele território que se transformou em estado, e nele habitamos.
Trezentos anos após a capitania, enfrentam-se descomunais desafios. Assim são os grandes estados, um país dentro de outro.


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Por Manoel Hygino - 20/8/2019 07:19:52
Escolhendo candidato

Manoel Hygino

Cargo importante está na hora de ser seu ocupante definido pelo presidente da República: o do titular da Procuradoria-Geral da República, ocupado até aqui por Raquel Dodge, que tem atuação destacada, sem os abalos da gestão Janot Pacheco, que a antecedera. Nomes de proa foram lembrados, mas Bolsonaro, tão falante em outras ocasiões, mantem-se agora discreto.
O desempenho do futuro chefe do Ministério Público Federal é fundamental nesta hora de tamanhos desencontros do Planalto com outros setores, como a própria Polícia Federal, após o recuo na nomeação do superintendente no Rio de Janeiro. Não é bom negócio agora a escolha de um procurador que lance mais chamas ao fogaréu. Bolsonaro tem sido alertado de que neste caso não pode errar, sob risco de atritar com o MPB e o próprio Judiciário.
A propósito de decisões no gênero, lembraria o que o jornalista Sebastião Nery conta, quando da posse do governador Milton Campos, ao ser procurado por Artur Bernardes, que presidira Minas e a República. Eis o registro:
“Logo após a posse do governador Milton Campos, em Minas, em março de 1947, o ex-presidente Arthur Bernardes pediu ao novo governador uma audiência para aquela mesma tarde, a fim de tratar de assunto inadiável. Realizou-se o encontro, por mais de meia hora. De um lado, o ex-presidente da República, com a auréola de austeridade e energia que o cercava. Duro, inflexível, com a experiência de quase meio século de militância política. E a consciência de que fora tudo. De outro lado, bem mais jovem, o advogado oposicionista que, a certa altura da vida, escrevera cáustico artigo sobre o seu confrontante – “O Imperador Divino”. Ameno no convívio, discreto no relacionamento, mas a mesma postura e a mesma segurança no diálogo.
Bernardes invoca os termos de compromissos partidários e pede para ele mesmo indicar, como presidente do PR, os nomes de dois representantes de seu partido para o secretariado. Milton reage. Recusa. Os compromissos – que são da UDN e não pessoalmente dele – serão mantidos. Duas pastas estão reservadas para Lei da Ficha Limpa e a conjuntura brasileira 167 o PR. Mas, secretário é cargo de confiança e, portanto, a ele, Milton Campos, cabe a escolha dos nomes. Não aceitaria indicações, menos ainda, imposições. Informa que já fizera a sua opção por Mário Brant e Campos Cristo, como representantes do PR”.
Perguntou: o presidente tem alguma objeção a estes nomes? “Bernardes desarma-se, mas Milton Campos insiste: o presidente, que já ocupou esta cadeira com tanta dignidade, não há de querer que ela se diminua agora”.
O diálogo prossegue exaustivo, penoso. Milton Campos prossegue até o fim. Ele mesmo escolheria os secretários, como escolheu. Do primeiro dia de governo até o último, compreendeu e sentiu que “governar é resistir”. Fazia-o com todo respeito, como era do seu feitio e formação.


84160
Por Manoel Hygino - 16/8/2019 07:35:11
Em tempo de votar

Manoel Hygino

As eleições municipais de 2020 estão muito longe. É o que se pensa e se diz, embora os candidatos, geralmente conhecedores das campanhas e de seus óbices, estejam em pleno trabalho. O processo é lento e exige trabalho sem interrupção e cuidados até a hora da votação.

As coisas mudaram, as circunstâncias, mas não se pode deixar para depois. A semeadura é lenta mas continua até a colheita. Ainda bem que, por aqui e diferentemente de outros países, já temos as urnas eletrônicas.

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, presidente do Tribunal Regional Eleitoral em Minas, demonstra muito otimismo quanto ao desenrolar do processo. Ele tem longa experiência, nasceu em São João Del Rei, terra de políticos hábeis. Além disso, deposita confiança nas suas equipes, como manifestou uma série de vezes. Tem-se de crer no êxito de seus esforços.

Os tempos mudaram, mas se deve aguardar o melhor. Está-se muito distante da época descrita por Márcio Aristeu Monteiro de Barros, de ilustre família mineira, desembargador, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que já enfrentou grandes dificuldades, como aliás também Rogério Medeiros, este com raízes ancestrais na Paraíba, terra de João Pessoa, por exemplo.

Márcio Aristeu, o magistrado, descreve as amarguras dos juízes no interior: era muito difícil exercitar uma atividade ligada à Justiça, no já distante ano de 1958, mas se ouvia dos mais velhos que antes era ainda pior. Tudo faltava na comarca. De uma fita de máquina, goma arábica, dinheiro para selo, até as coisas menores.

Além de tudo, quando nomeado ou promovido, era uma batalha para alcançar as comarcas. Estradas de terra mal conservadas, fóruns caindo aos pedaços, serventuários despreparados. Salários? Nem é bom lembrar. Havia comarcas em que o pagamento permanecia atrasado até oito meses. “Enfim, era por muito amor à Justiça que se dedicava à judiciatura e ao Ministério Público”.

A organização da lista de jurados no fim do ano constituía um tormento. Nas pequenas comarcas, era difícil conseguir-se o número suficiente de pessoas para sua composição. Os funcionários públicos eram tirados da Coletoria e dos Postos de Saúde. As professoras, as mais indicadas, não podiam ser convocadas para não sacrificar os alunos. Além do mais, eram mestras e donas de casa.

E mais havia. Para compor o corpo de jurados, restavam os fazendeiros, que em suas atividades eram bons, mas, quando jurados, tinham compromissos político-partidários. Pequenos agricultores constituíam maior número, porém, sempre manobrados pelos fazendeiros de maior porte, de quem dependiam para serem avalistas ou fiadores. Era essa a luta do juiz nessa difícil tarefa. Os advogados, em número de dois, eram ligados aos partidos políticos, que naquela época não se misturavam e tinham fidelidade partidária.
Como fazer justiça?


84157
Por Manoel Hygino - 15/8/2019 08:18:07
Uma voz ao longe

Manoel Hygino

Para os que residem em Belo Horizonte, um bom dia especialmente para meditar. É dedicado à Assunção de Nossa Senhora, embora não poucos aproveitam o ensejo para encerrar a semana, no que passou ser apelidado de Feriadão, a que os brasileiros são tão afoitos.

Pois eu me valho de mensagem enviada em 17 de outubro de 2018, via e-mail, assinada pelo jornalista e escritor Emanuel Medeiros Vieira. Falecido em 29 do mês passado, natural de Santa Catarina e formado em Direito, começou a escrever aos 14 anos, lançando mais de 25 obras, na maioria romances (“Olhos azuis; ao sul do efêmero”); vencedor de prêmio da União Brasileira de Escritores, chegou a ser indicado pela Writers and Artists Association ao Nobel.

Não participo de sua ideologia política, mas não posso deixar de elogiar sua produção literária e sua lhana conduta com os colegas de profissão. Preso pela ditadura, sofreu muito e, ao final da vida, foi vítima de um câncer de próstata.

Na data referida inicialmente, mandou-me mensagem: “sem confetes, tua coluna é um verdadeiro roteiro humanístico e como estamos precisando desse tipo de postura nestes tempos! Vá em frente. És a voz de muitos que não têm voz! Meus cumprimentos!”.

Escreveu-me: o que é verdade? Essa pergunta também foi feita a Jesus, durante o seu “julgamento”. A realidade é difícil? Os fatos são dolorosos? Então, muda-se o conceito e abandona-se a verdade. Num exemplo muito prosaico, “vendedores” viram “consultores” – consultores de perfume e de tudo. É o reino do eufemismo!

Onde prevalece a propaganda, o mercantilismo, cerveja virou algo intrinsecamente ligada às festas de São João, tão enraizadas no Nordeste. Forrozeiros autênticos são abandonados pelos “sertanejos universitários” – que praga! Já não basta a dupla sertaneja/goiana Joesley & Wesley, patrocinada pelo BNDES, Caixa Econômica e outras instituições dominadas pelo gangsterismo e pelo banditismo, que estão ou estavam no topo da República?

Nosso mundo acelera com velocidade estonteante a informação (não a “formação”). Acelerar e aprofundar não são verbos semelhantes. Ou não? Dispersei-me. O adjetivo pós-verdade adquiriu importância e significância que transcende o vernáculo e a semiologia da geopolítica internacional.
Como alguém observou, o facciosismo fascista e a intolerância desumana hiperbólica, associam-se à hipocrisia flagrante que renega a veracidade factual do viver. (...) O niilismo está na soleira da porta. A verdade é o que é – segue sendo verdade, ainda que pensemos o revés, disse A. Machado. Qual é a primeira vítima de, por exemplo, numa guerra? É a verdade.

Um poeta espanhol disse que a verdade nunca é triste... A busca de fabulação pode anestesiar a nossa dor, mas não pode prevalecer – senão será roubada a nossa autenticidade. E eu só posso pedir que alguém acredite em mim, se previamente eu acreditar fundamente no que digo.

Ludwig Wittgenstein, acima citado, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico. Participou do chamado “Círculo de Viena”, que contribuiu para a renovação da lógica na década de 20 do século passado. Ele é considerado um dos pais da “filosofia analítica”. Estudou com Bertrand Russel (1892-1970) entre 1912 e 1913.




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Por Manoel Hygino - 14/8/2019 10:16:38
O problema ambiental

Manoel Hygino

O problema da preservação ambiental aquece a discussão em todos os lugares do Brasil. Sábado, a novidade foi o presidente da República declarar que não precisa de dinheiro da Alemanha para esse objetivo. À noite de domingo, a Globo News discutiu o problema com três conceituados entendedores do assunto, a começar pelo respectivo ministro, o quente na defesa de Bolsonaro e suas posições.

O presidente fizera uma sugestão controversa, à imprensa. Ao ser perguntado sobre medidas para equilibrar a preservação ambiental e o crescimento, apelou para o controle fisiológico humano. Explicou:

“É só deixar de comermos um pouquinho. Você fala para mim em poluição ambiental. É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também, declarou ao sair do Alvorada acompanhado do ministro Sérgio Moro”. Completou com um paralelo entre o número de filhos das famílias e sua cultura. “O mundo, quando eu falei que cresce mais de 70 milhões por ano, precisa de uma política de planejamento familiar. Não é controle não. Eu entendo que tem que ter controle de natalidade”.

No entendimento presidencial, o número de filhos será critério para esta observação. Contudo, ele afirmou ser uma exceção à própria regra. “Você olha para as pessoas que têm mais cultura – têm menos filhos. Eu sou uma exceção à regra – tenho cinco. Mas como regra é isso”.

A ideia do chefe da nação desperta para a poesia de Salomão Sousa, que habita a região descoberta por Juscelino para capital do Brasil. Com muita poesia publicada e muito mais a sê-lo, Salomão soma elogios daqui e dali, no Brasil e no exterior.

No seu livro mais recente, que é de 2020, depara-se finalmente com uma revelação, para mim desconhecida, mas que pode servir – quem sabe? – para as circunstâncias do Brasil presente e do atual ocupante do Palácio dos Despachos:

“Para concluir uma observação inútil sobre a manifestação do processo de composição poética de Salomão Sousa que, na infância, manipulava bostas secas para adubação de flores e hortaliças. Em sua poesia, os versos não advêm de uma escrita automática, mas não espontâneas e felizes como as moscas que se agrupam e se alimentam da bosta verde, indiferentes ao asco. Com a experiência de decomposição, e com o avanço do desmanche desaparecem os desenhos do arquiteto e da cartografia, desaparecem o sumário e a paisagem de onde surgem as imagens. Com a experiência da manipulação do excremento, Salomão Sousa tem confiança de que o sol ressecará com urgência a bosta verde para que desapareçam as moscas que causam o desastre social e prevaleçam a poesia e a harmonia que a Democracia estimula”.

Diante da desagradável situação por que passam os setores envolvidos, inclusive entidades internacionais e técnicos prestigiosos de várias nacionalidades (nem fale nos brasileiros), as observações de um poeta nascido no interior – como o é a cidade goiana de Silvânia (o nome já diz muito), sobre a infância de Salomão e a transformação de dejectos humanos – fazem sentido e merecem estudos adequados.


84152
Por Manoel Hygino - 13/8/2019 07:52:13
As festas de agosto

Manoel Hygino

As festas de agosto se realizam no Norte de Minas, mais precisamente em Montes Claros, há mais de cem anos. São festas religiosas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Bendito e ao Divino Espírito Santo, respectivamente. Quem o conta é o médico e historiador Hermes de Paula. Ele pormenoriza: além das práticas estritamente religiosas, como bênçãos, missas e levantamento de mastros, há ainda os marujos, cabocladas e/ou caboclinhos, catopês ou dançantes, cavalhadas, bumba meu boi, estas desaparecidas há anos dos programas.

O registro mais antigo dessas festividades é de 23 de maio de 1839, não se relacionando quais eram, mas pela coroação do segundo imperador, após o cortejo ou passeata em honra e com a efígie de D. Pedro II. Eram permitidos divertimentos durante três dias, desde que “não ofendamos a moral pública. O escritor explica que os divertimentos como o zumbi ou congada em outros lugares existiam, mas com certas características regionais.

Detalhe: os participantes eram na maioria pretos dóceis e alegres, agrupados em ternos, isto é, de mais ou menos vinte pessoas, entre adultos e crianças, somente homens, distribuídos em colunas, começando pelos mais altos, à frente.

Há um chefe, que dança e comanda os cantos entre duas colunas, com dois porta-bandeiras à paisana. Usavam uniforme simples, composto por calça, paletó e camisa, esta de cor branca ou clara. O calçado não é obrigatório. Cada ator leva um lenço atado sobre a cabeça e, sobre este, um capacete, espécie de cilindro ocado de papelão do tamanho da cabeça, aberto dos dois lados e enfeitados com espelho, aljôfar e fitas de várias cores, com metros até.

O grupo é incentivado por uma banda, com pandeiro, tamborim ou caixa. Não pode faltar uma flauta de bambu. Os dançantes, donos da festa, têm o dever de acompanhar o reinado como nas festas de Chico Rei, em Ouro Preto.

Jornalista e advogado conceituado, Paulo Narciso - como Darcy Ribeiro, sociólogo, educador e ex-ministro, este já falecido -, é ardoroso admirador das festas.

A Festa de Catopês, a mais importante manifestação cultural de Montes Claros, e que se aproxima dos 200 anos, este ano não terá a presença de um dos dançantes que nos últimos mais de 70 anos jamais faltou. O carroceiro Tonão, de presumíveis 80 anos, embora seu documento registre pouco menos, partiu deste mundo. Tonão estava internado, num quadro de complicações respiratórias. Além de Catopê histórico, irmão de João Faria que o antecedera na partida por três anos, era carroceiro. Consta que nos tempos mais difíceis da vida, quando a renda do dia não cobria todas as despesas, ele reservava o primeiro dinheiro para alimentar o burro de sua carroça, explicando que dali vinha o sustento de todos.

Os catopês, marujos e caboclinhos estão consternados, a duas semanas da sua trajetória bicentenária. Hoje ainda, nos ensaios marcados, houve homenagem ao velho companheiro, enquanto o corpo seguia em visitação, em casa, na Vila Telma.

O carroceiro Tonão, cuja generosidade era parelha com sua imensa mão de tratador de burros, foi um dos personagens mais fotografados de toda a já longa história dos Catopês. Como último pedido, o carroceiro doou suas córneas. Todos os ternos de catopês, marujos e caboclinhos se organizaram para cantar o “A retirada, A retirada, eh meus camaradas...”.

Filhos e netos de Tonão e do irmão João Faria, também carroceiro e mais novo do que ele, já substituem os dois irmãos do Terno de Nossa Senhora do Rosário. A tradição da família nas Festas de Agosto é das mais antigas, passada através de sucessivas gerações.

Há poucos anos, no enterro de João Faria, a quem cedeu a liderança do grupo, Tonão encerrou a cerimônia ao pronunciar bem alto, comovido, um “vá com Deus, meu irmão!”. Os Catopês se despediam, e o silêncio foi duradouro, solene, até que todos se retiraram.


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Por Manoel Hygino - 10/8/2019 08:39:47
Tempo enfarruscado

Manoel Hygino

Enfarruscar: nunca usara a palavra, nem a ouvira em qualquer tempo ou lugar. Recorro ao dicionário. O mesmo que mascarrar? Encontro, enfim, uma definição mais utilizada no cotidiano – o mesmo que enevoado, sujo de fuligem, carrancudo. Estes são mais utilizados. Nublado, talvez, indefinido. Companheiro de profissão vem em meu auxilio: “Muita mentira, distorções, má-fé. Ocupo-me mais em contemplar o belo céu noturno de nossa cidade. E em exaltar o Criador, do ‘oceano sem margens’, sua própria definição. O Oriente, Sigamos”. Melhor assim.

No dia 7 último, a juíza federal Carolina Lebbos autorizou transferência do ex-presidente Lula para São Paulo. A decisão foi publicada. Lula está preso em Curitiba, desde de abril de 2018, condenado pelo caso do tríplex do Guarujá. No documento, a juíza responsável pelas decisões sobre a custódia de Lula acolheu o pedido da defesa e decretou que as autoridades policiais tomassem as providências pertinentes.

Ao autorizá-la, a magistrada acatou pedido da Superintendência da Polícia Federal no Paraná. A PF diz que, desde a prisão, “diversas pessoas passaram a se aglomerar no entorno da sede da Polícia Federal”. Esta argumentou que a presença de “grupos antagônicos” (não tinham o quê fazer?) passou a demandar atuação permanente dos órgãos de segurança, para evitar confrontos, garantir a segurança dos cidadãos e das instalações. O TJ de São Paulo autorizou a transferência para a Penitenciária 2 de Tremembé.

Chamada de “presídio dos famosos”, a penitenciária abriga, entre outros, Suzane Von Richthofen, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados pela morte de Isabella Nardoni, e Gil Rugai, ex-seminarista condenado pelo assassinato do pai e da madrasta. Os três prisioneiros foram libertados para o Dia dos Pais, inclusive a primeira, assassina dos progenitores. Do último, não se teve notícia.

A defesa pediu suspensão da transferência de Lula para São Paulo por não concordar com a medida. E recorreu ao STF para impedi-la. Frei Chico, irmão mais velho de Lula, resumiu o sentimento entre os parentes: a intenção é esculachar ainda mais. O STF examinou o caso e, decidiu por 10 votos a 1, vetar a transferência de Lula.

A descrição do episódio sobre a pretendida libertação do ex-presidente dá ideia do tempo e do dinheiro público que se perde no Brasil em toda e qualquer providência. E ainda se pensa em reduzir a burocracia: é difícil, está difícil. Tudo leva a pensar em texto já envelhecido (de 2014) de João Ubaldo Ribeiro, que nos direciona à peça famosa – como tudo de Shakespeare – “Muito barulho por nada”. O texto do escritor baiano é expressivo – “O correto uso do papel higiênico”. Ei-lo:

“O título é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi, outro dia, num programa de tevê”.

Nada mais a declarar.


84144
Por Manoel Hygino - 9/8/2019 09:46:21
Um príncipe entre nós

Um príncipe entre nós. Boa parcela da população brasileira pensava que fosse algo pretérito, acolhido em lendas e contos da velha Europa ou, ainda, nas narrativas orientais, com lindas princesas ou haréns recheados de odaliscas e dançarinas experimentadas na dança do ventre. Algo dos tempos dourados de Hollywood.

Mas o príncipe que aqui veio, na primeira semana de agosto, é outra gente. Dom Bertrand de Orleans e Bragança, nascido na França, 78 anos, príncipe imperial do Brasil, o herdeiro presuntivo do irmão mais velho, dom Luís Gastão.
Protagonista de um caso mui raro, este renunciou aos seus direitos dinásticos para realizar um “casamento morganático”, ou seja, aquele em que a esposa é de condição social inferior, a quem não se transferem todos os direitos políticos e de cônjuge.

Com a família real vivia na Europa desde a proclamação da República, quando Pedro II abdicou de qualquer tipo de subsídio do governo instalado, o jovem Bertrand só veio ao Brasil com o término da II Grande Guerra, inicialmente se
instalando no Estado do Rio. Entretanto, seu pai adquiriu uma propriedade rural na cidade de Jacarezinho, onde se instalou como fazendeiro. Assim, Bertrand cresceu e realizou parte de seus estudos secundários no estado do Paraná, e,
mais tarde, estudou no Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente cursou a Faculdade de Direito da USP, formando-se bacharel em Direito em 1964.

Na Santa Casa, cerca de vinte pessoas em torno da mesa com o herdeiro da coroa. Curiosos ou interessados em conhecer, de própria voz, seus pensamentos sobre o Brasil e suas posições políticas. Confessou o que já se sabia: católico, defensor da doutrina social da Igreja, com participação em reuniões por vários países da Europa, sua oposição
ao aborto, o perigo sobre os direitos nacionais na Amazônia, a necessidade de prestigiar o militar e o policial, vítimas de campanhas de descrédito ou preconceito.
Enfaticamente contrário a uniões homoafetivas e à possibilidade de divórcio e do recasamento de divorciados, por considerar que “como católico, não posso ver com bons olhos o casamento de uma divorciada”. Quanto ao casamento do
príncipe britânico Harry, afirmou que jamais ele o teria aprovado. Se Harry se casasse com uma princesa ou uma mulher de família nobre, “e não com uma divorciada, a satisfação dos britânicos seria muito maior”.

A amável visita foi enaltecida pelo provedor da filantrópica, Saulo Levindo Coelho, que evocou a anterior em 19 de janeiro de 1921, feita pelo avô do atual príncipe, o Conde d’Eu, esposo da princesa Isabel, a libertadora dos escravos no Brasil, em 1888. Ele veio aqui acompanhado de Pedro de Orleans Bragança e do barão de Muritiba.

1921 foi o ano da morte da imperatriz Tereza Cristina, mas o Conde d’Eu deixou registrado em livro:

“A Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte deixou-me a melhor impressão pelo aperfeiçoamento que se nota em
todos os serviços e o excelente estado de todas suas partes”. O elogio era altamente significativo. As Santas Casas nasceram na casa imperial lusa no século XV, graças ao espírito solidário e cristão de D. Leonor de Lencastre, regente e rainha de Portugal.


84140
Por Manoel Hygino - 8/8/2019 08:28:05
A reboque, não

Manoel Hygino

O que acontece no Brasil presentemente lembra o tempo de Jânio Quadros, mas ao contrário. O embaixador Vasco Leitão da Cunha, de alto prestígio no Itamaraty, ao comentar a renúncia do presidente, observou: “O eleitorado, pela primeira vez na história da República, tinha eleito um presidente com 6 milhões de votos. Era uma coisa enorme! E ele traiu o eleitorado”.

Sobre Jânio Quadros, acrescentou: “Era muito inteligente, muito instruído e conhecedor dos problemas. Tinha muita razão de ser o presidente. Mas o temperamento lábil o anulava, o desequilíbrio o levava ao exagero”. Quis conferir o significado do adjetivo: lábil – sujeito a escorregar, a cair; que cai facilmente; transitório; instável. Isto é, que varia de opinião. Dá para entender o que Vasco queria dizer.

Assim, a política externa, posta em prática por Jânio e Arinos, pela primeira vez, se tornou assunto de debate pela opinião nacional. As relações com Cuba e os países africanos e comunistas eram tratados nas pautas e dividiram o país.

Leitão da Cunha explicou à Fundação Getúlio Vargas: “Acho que ela – a política externa independente – se define pela noção de que até então nós tínhamos o hábito de seguir docilmente, automaticamente, os Estados Unidos, e dessa vez íamos ser independentes da política americana, íamos criar uma política com a África”.

O embaixador era mais claro. “Eu estava de perfeito acordo em fazer política com a África, desde que não prejudicasse o interesse nacional. Mas não achava que a generalização a respeito de votar automaticamente com os Estados Unidos estivesse certa. Não tínhamos porque nos queixar maiormente dessa política, considerada a partir de então, como de subserviência aos Estados Unidos, porque nas coisas importantes sempre tomávamos as deliberações mais acertadas para o Brasil. Com os Estados Unidos, mas não a reboque, era a tese de Lauro Müller”.

Nação independente, o maior país do hemisfério sul da América, o Brasil quer andar de bem com os demais do Novo Mundo, conviver e somar esforços pelo desenvolvimento próprio e dos outros, mas sem subordinar-se. Daí, a preocupação que se tem com os passos dados recentemente com relação a Washington. Explica-se: o governo dos EUA designou o Brasil como aliado preferencial extra-Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A medida foi comunicada ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo, em memorando assinado pelo presidente Trump.

No memorando, Trump afirma que a designação se destina “para os propósitos do Ato e do Ato de Controle de Exportações de Armas”. A promessa havia sido feita por Trump durante a viagem do presidente Bolsonaro a Washington, em março deste ano.

De acordo com o Departamento de Estado, algumas das vantagens de ser um parceiro preferencial incluem a colaboração no desenvolvimento de tecnologias de defesa, o acesso privilegiado à indústria de defesa dos EUA, e aumento nos intercâmbios militares conjuntos, exercícios e treinamentos.

A medida, segundo especialistas, facilita um provável acordo comercial entre o Brasil e os EUA. Facilita, é o que consta. O presidente Bolsonaro digitou: “O Governo dos Estados Unidos oficializou na noite desta quarta, 31/07, a indicação do Brasil como aliado preferencial extra-Otan, medida mais que importante para nossa Defesa”.

O continente está de olhos ligados no andamento destas demarches, perdoem-me o galicismo. O que interessa são os “finalmentes”. O Brasil precisa de Washington, Pequim, Irã, Londres, Paris, Berlim. Viver bem com todos, eis a questão.


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Por Manoel Hygino - 2/8/2019 07:29:38
Desde o Parnaíba

Manoel Hygino

Médico-escritor não constitui novidade. Basta um correr de olhos pelas prateleiras das bibliotecas e localizar nomes de facultativos, brasileiros (ou não), que se devotaram às letras. Nem me refiro aos livros científicos, porque estes são obrigação do profissional.

Aqui em Minas não há exceção. Está na moda, com toda justiça, Guimarães Rosa, o grande nome no século passado, nascido em Cordisburgo, onde se situa a gruta famosa, e Pedro Nava, natural de Juiz de Fora, com ancestrais do Nordeste. Ou, ainda, o excelente Agripa de Vasconcelos, de Matozinhos. Os três, alunos e formados pela Escola de Medicina de Belo Horizonte, integrante hoje da Universidade Federal de Minas Gerais.

Francisco Chagas Lima e Silva veio à luz no município de Magalhães de Almeida, no Maranhão. A outra margem já é Piauí, e o rio Parnaíba, que separa os dois estados, pode ser atravessado a nado. No Piauí, nasceu Francelino Pereira dos Santos, que aqui colou grau como advogado, e ascendeu ao cimo político como governador de Minas e integrou a Academia Mineira de Letras. Quanto a Chagas, aparece agora com “pirlampejos”, poemas, o quarto fruto de sua criação literária. A edição é da Sarau de Letras, de Mossoró, Rio Grande do Norte. Com isso, desfaz-se a ideia de que a cidade é apenas local de presídio, que assusta o Estado há anos com fugas e vinditas entre os detentos.

Chagas veio para Belo Horizonte com 17 anos, em 1959, com objetivo de estudar medicina e construir carreira acadêmica. Logo, ingressou na Faculdade de Ciências Médicas, que funcionava em prédio em frente do hospital central da Santa Casa e por ela cedido temporariamente. O edifício, que deu lugar ao atual jardim, existiu até 1967.

Em 1965, concluiu medicina e, no ano seguinte, integrou a primeira turma de residentes em clínica médica da instituição. Atuou como clínico no hospital até 1970. Casou-se na capital, gerou filhos, inclusive um profissional da área médica residente e atuante nos EUA. Iniciou mestrado na USP e, após o curso, retornou a Belo Horizonte. Foi professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, e doutorado em Medicina Tropical pela Federal, e pós-doutorado na Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos.

Na Santa Casa, ideou o projeto para implantação da pós-graduação Stricto Senso, resultando no Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) da instituição. Pela primeira vez no país, um hospital filantrópico e sem ligação com universidade federal ou escola de Medicina conseguiu implementar e oferecer cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

O amor pela literatura, contudo, integra desde cedo suas realizações e devoções, ouso dizer – com obras expressivas, contos e crônicas: “Murmulhos” e “Humanâncias”; o romance “Donzela do Candeeiro” e “Pirlampejos”, lançado neste 2019. Em Minas, Chagas se revelou para a literatura e produziu páginas de rara inspiração, sempre lembrando a infância humilde e a adolescência, como comenta o escritor de sua terra Clauder Arcanjo: “sua poesia é plena de luz, advinda do fulgor das águas transparentes do rio da recordação”.

“Mortalha”, incluído no volume mais recente, é simbólico. Alguém bate na janela e acorda o dono da loja durante a madrugada profunda. “Um pai clama para comprar – sem dinheiro pra pagar – meio metro de morim para a mortalha do filho. Não parece tão aflito. No semblante, um certo alívio: quanto mais novo o menino, mais curto o pedaço de pano, mais próximo da casta de anjo, maior a certeza do Céu”.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:59
Onde a arca de Noé parou

Manoel Hygino

Amável amiga, de volta das andanças pelo mundo, traz-me um estojo com quatro conhaques e vários anos de produção, uma joia na verdadeira acepção da palavra. Um real presente, pela finura e cuidados na apresentação do regalo. Não menos precioso conteúdo, procedente da Armênia e com a marca Ararat. A curiosidade é aguçada.
A graciosa prenda viera da Armênia, uma das antigas repúblicas socialistas soviéticas, situada ao Sul do Cáucaso, com capital em Erivan, onde há uma universidade fundada pela URSS, em 1921. Localiza-se o país, assim, junto às nascentes dos rios Eufrates e Tigre, o que nos obriga uma incursão à história.
Com um milhão de habitantes – armênios, russos e turco-tártaros – o país não tem portos, coagindo os visitantes a cruzar os territórios do Azerbaijão e da Georgia. Ali, sempre foram ardentes os sentimentos de independência, ao longo dos séculos, causando à população sangrenta repressão, pois toda a região fora de domínio turco até 1914, quando se iniciou a dominação russa.
Pablo Neruda, que por lá também perambulou, exalta a terra laboriosa e legendária. Lá, pôde vislumbrar o cume nevado do Ararat, que preside a história do país. “Foi ali que a arca de Noé se deteve, segundo a Bíblia, para repovoar a terra. Tarefa difícil porque a Armênia é pedregosa e vulcânica. Os armênios cultivaram esta terra com sacrifício indizível e elevaram a cultura nacional ao ponto mais alto do mundo antigo”.
O poeta chileno, comunista de carteirinha, vencedor de um Nobel de literatura, elogia – com entusiasmo – o governo socialista naquele pedaço do mundo. Diz que só encontrou um russo, um engenheiro de olhos azuis entre milhares de olhos negros da população morena.
Pois Ararat, nome do meu conhaque e do monte na Armênia, citado no quarto parágrafo, é onde Noé estacionou sua arca, depois de vagar nas águas do dilúvio por 150 dias. Tinha 137 metros de comprimento, 23 de largura e 14 de altura, como especifica o confrade Pedro Rogério Moreira, da AML.
A arca se compunha de três pavimentos, havendo uma abertura de 45 centímetros abaixo do teto para a luz entrar, além de uma porta. Deus especificara até a madeira – gofer, isto é, cipreste, madeira resinosa. Mandara também que Noé a forrasse com piche, ou betume, por dentro e por fora.
A questão não fica por aí. Deus ainda determinara a Noé: “De todos os animais puros, tomarás sete casais, machos e fêmeas, e de todos os animais impuros, tomarás um casal, machos e fêmeas, das aves do céu igualmente sete casais, machos e fêmeas para que se conserve viva toda a raça sobre a face da terra, como se lê em Gêneses 7. 2-5. No Gêneses 7.15.15, contudo, conta-se: “De cada espécie que tem um sopro de vida, um casal entrou na arca com Noé. Eles chegaram, macho e fêmea, de cada espécie, como Deus tinha ordenado a Noé. E o Senhor fechou a porta atrás dele”.
Usufruindo o conhaque, aprazível nos dia de frio de 2019, aprendemos. Temos de aquecer os miolos e preservar a história.
Ararat contribui com suas lendas.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:31
Natal antecipado

Manoel Hygino

Embora o presidente tenha declarado publicamente que não há fome no Brasil, a verdade verdadeira é que existem inúmeros filhos desta terra passando necessidade, inclusive pelo desemprego que abrange a cifra de milhões. Sem fontes de trabalho suficiente para brasileiros de muitas categorias profissionais, o resultado desaba nas crescentes carências das pessoas e das famílias.
Assim, quando aparece a ocasião de receber algum dinheirinho, fica-se de antenas ligadas. Os governantes, aqui e alhures, precisam agradar aos anônimos eleitores e descobrem algum valor depositado em conta oficial e dele lança mão. Esperam aliviar dívidas e dores da população principalmente lembrada nas manifestações de apoio. É assim, assim tem sido, não há como mudar.
A descoberta mais recente foi a do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Vasculhando os cofres, localizaram-se R$42 milhões do FGTS e do PIS-Pasep e decidiu-se conceder um presente natalino extra no meio do ano. Só a promessa se tornou um alento valioso. Nem todo dia é 25 de dezembro.
A solução para a apertura dos que ricos não são virou uma novelinha, que preencheu páginas e páginas de jornais, virou manchete de meio palmo de altura. Mas a alegria se transformou em dúvida e, em seguida, em tristeza, porque demorou muito em se revelar o que de concreto existia.
No segundo semestre, soube-se que os saques só poderiam ser feitos a partir do nono mês, de modo que o Natal de meio de ano já se aproximava da data do nascimento de Jesus, o menino de Belém, de Judá.
O regalo, contudo, não é exatamente o que se esperava – reduziu-se a R$500 por conta ativa ou inativa, conforme calendário, com exceção dos trabalhadores com saldo poupança, que receberão automaticamente. Quem não quiser usar o oferecido deve informar à Caixa. Os saques aquém de R$100 poderão ser feitos em lotéricas. Não era tão fácil como se pensara e, em 2020, os saques poderão ser anuais. Atente-se para o verbo – poderão.
O presidente da Caixa afirma que a liberação de R$30 bilhões de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço terá efeito mínimo nas finanças da instituição, remunerada pela gestão do próprio Fundo, que é apenas 1% da sua receita. Assim, não haverá dificuldade em operacionalizar retiradas, que beneficiarão 100 milhões de trabalhadores.
O HOJE EM DIA, no dia 25 último, advertia em manchete de primeira página: “Saque do FGTS exige cautela”. No texto, alertava: “Quem optar por retiradas anuais a partir de 2020 perderá direito aos recursos restantes da conta por dois anos após adesão a essa modalidade, em caso de demissão sem justa causa”.
De tanto falar em Fundo, recordo um dos galantes escritores da segunda metade do século XIX, ao acompanhar a senhora robusta em quadris acomodando-se em bonde da época. Percebendo as dificuldades, comentou: “Nunca vi um banco ter riscos de quebrar por excesso de fundos”.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:03
Emanuel segue Ruggero

Manoel Hygino

A mensagem chegou do escritor Fábio de Sousa Coutinho, presidente da Associação Nacional de Escritores, informando que, na noite do dia 29, falecera Emanuel Medeiros Vieira, de que publicara aqui trechos de comentários. Nascido em Santa Catarina, andou pelo mundo, escreveu, foi preso, assumiu um câncer que lhe devorou o resto da resistência. O velório e o sepultamento foram no Campo da Esperança, no dia seguinte em Brasília. Transcrevo parte de um depoimento seu:
“Lembro-me do padre jesuíta italiano Ruggero – tão alto – a gente varando noites, conversando sobre Teilhard de Chardin (1881-1955), Soren Kierkegaard (1813-1855), existencialistas cristãos como Gabriel Marcel (1889-1973) – que rejeitava o termo “existencialismo” –, Emmanuel Mounier (1905-1950) – fundador da revista “Esprit” –, agnósticos e ateus, como Albert Camus (1913-1960), Jean Paul Sartre (1905-1980), e marxistas como Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). No final – sempre no final – ele arrematava: – Nunca te esqueças da Misericórdia Divina. (Ele era sempre profundo, mas – nesta frase – queria ser abertamente “solar”.)
MISERICÓRDIA DIVINA. Ele acreditava que eu era possuidor de uma “fé forte e cósmica”, mas que o tempo, as leituras e as dúvidas me afastaram dela. – Quero te dar mais ÂNIMO, e falava mais alto e soletrava a palavra “ÂNIMO”. Ria, me abraçava.
Ruggero era muito culto, leitor voraz, mas sua sabedoria maior era a simplicidade.
Tomávamos vinho, assistimos juntos duas vezes a “O Sétimo Selo”, 1957, (“Det sjunde inseglete”); ”Morangos Silvestres” (Smultronstället”), 1957, de Ingmar Bergman (1918-2007). Também vimos várias vezes “Rastros de Ódio” (“The Searchers”), 1956, de outro grande mestre: John Ford (1894-1973). Gostávamos muito também de Orson Welles (1915-1985) e assistimos algumas vezes a “A Marca da Maldade” (“Te Touch of Evil”), 1958, que admirávamos muito, até mais que “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”) 1941 – por muitos considerado o melhor filme de todos os tempos.
Um dia, ele morreu.
Tinha um carinho enorme pelos “humilhados e ofendidos da terra”, como dizia, pelos pobrezinhos, pelos sem nada. Modesto, batina puída, evangelizava operários em comunidades pobres de Porto Alegre e pescadores em Florianópolis – não era amado pelos hierarcas, poderosos e conservadores da Igreja– afora a burguesia da capital gaúcha e da Ilha do meu nascimento.
E um dia– parece incrível – fui eu a consolá-lo. Triste, ferido com injustiças e perseguições (que não relato aqui), aquele sacerdote loiro (parecendo um camponês do interior de Santa Catarina), de quase dois metros, desajeitado, possuidor de um coração maior que ele, morando em uma casinha simples de madeira, num bairro humilde de Porto Alegre (antes estivera durante dois anos em Ponta das Canas, em Florianópolis, praia bela do Norte da Ilha de Santa Catarina, minha terra natal – ainda aprazível, pregando para os pescadores, dando para os pobres até a roupa do corpo, dividindo tudo o que tinha. Sempre achei que ele nascera na época errada. Deveria ter vivido na época das Catacumbas, levando a palavra de um Jesus pobre e libertador contra o Império Romano.
Escrevi acima: Um dia, ele morreu. Qual a causa (indagam)? Foi “pelo coração” – ataque cardíaco. Mas acho que morreu de tudo, de tudo um pouco, devido às perseguições sofridas, às injustiças que percebia no tão imperfeito mundo, à inveja de que foi vítima, difamado por tantos seres medíocres e mesquinhos. Havia abandonado a batina, voltou para a Itália, mas retornou ao Brasil para se despedir. Então, já era um velho, cabelos brancos, parecendo mais baixo, o olhar azul mais triste.
– “Desta vez, fui eu quem perdi a Fé”, me confessou. Tentei animá-lo, não falando em igreja, “reconversão”, nada. Mas nos filmes que havíamos assistido juntos. – Não há nada depois daqui, ele disse.


84110
Por Manoel Hygino - 26/7/2019 07:08:24
Salve-se quem puder

Manoel Hygino

A minha interrupção nos comentários sobre a Venezuela não significa que a América Latina, construída abaixo do rio Grande, esteja em tranquilidade. Nada disso. Nem se há de referir à incessante e desumana, seguidamente trágica, campanha empreendida pelos Estados Unidos para evitar o ingresso de centenas/milhares de migrantes dos pequenos países da América Central em terra de Tio Sam, através do território mexicano.

Na Venezuela, acontece o que se sabe e o que não se sabe, tentando-se um difícil apaziguamento entre o presidente-ditador Nicolás Maduro, sucessor do notório Hugo Chávez, e o pretendente Guaidó, líder da oposição que se queria já na chefia do Executivo. Petróleo não falta, como não falta a avidez de poder por todos os meios. No momento, quando se supunha quase irreversível uma guerra civil, sobreveio o intermezzo. Até quando, não se sabe.

Assim as diminutas nações da América do meio permanecem em atitude de expectativa. Suas populações sofridas buscam caminhos mais condizentes com a condição humana, procurando até fugir pelas fronteiras, também pouco receptivas, ou por mar.

Sabe-se amplamente, todavia, que o petróleo, ainda uma das molas da economia, constitui fator de inquietude e de guerra nas regiões produtoras. No Oriente, as autoridades iranianas se mantêm em alerta, diante da possibilidade de agravamento da tensão no estreito de Ormuz. A Europa, sobretudo o Reino Unido, na presente conjuntura, teme a posição hostil de Teerã. Um navio britânico foi aprisionado, mas isso pode ser o estopim de uma crise maior.

Parece um mal sem solução: refiro-me à dos países do lado de cá, das Américas.

Na Venezuela, não houve sequer equacionamento dos grandes e prolongados desafios, mas vão evoluindo. A Nicarágua, supostamente exemplar para a esquerda da centro-América, continua sob impasse. O presidente Daniel Ortega, sucessor dos Somoza, Tacho e Tachito, sente a pátria mergulhada em severa crise social e econômica. Ortega, hoje com 75 anos, governando com a esposa, não consegue dar conta do recado. Há uma ebulição.

Na Guatemala e em El Salvador, o momento não é menos doloroso. Por via de dúvida, multidões sonham transpor os terríveis obstáculos. Trump mantém posições drásticas com relação à transposição das fronteiras com o México. Mais do que isso; quer a deportação imediata de imigrantes ilegais. As respectivas ações agora serão mais rápidas e eficazes. Salve-se quem puder.

Ainda nesta semana, o governo da Venezuela denunciou que um avião-espião americano entrou novamente no espaço aéreo do país, sem sequer notificar as autoridades aeronáuticas. Segundo Caracas, foram nada menos de 78 violações por jatos tanques só neste ano. As autoridades julgam que a série de incursões de aeronaves acentuam a crescente hostilidade entre as duas nações. Um caça venezuelano seguiu “agressivamente” um avião da Marinha norte-americana. O advérbio é da agência informativa.


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Por Manoel Hygino - 22/7/2019 15:16:30
O homem e a lua

Manoel Hygino

Dados da Nasa revelaram que junho atingiu recorde de temperatura no mundo, marcado por severa onda de calor na Europa, com superação de recordes. Mantida a tendência, julho permanecerá com termômetros acima da média global. Não foi exatamente assim no Brasil, com frentes de ar frio do Polo Sul trazendo tempo variável, com ventos fortes durante os dias até agora. A baixa umidade relativa do ar, preocupava.
No meio do mês, mais especificamente no dia 15, registrou-se o eclipse parcial da lua, o último do ano, pois o próximo, total, visível, ocorrerá em maio de 2022. O do dia 15 coincidiu com a data da missão Apollo 11 completou 50 anos, com decolagem rumo à lua. O foguete, comandado pelo norte-americano Neil Armstrong desceu em nosso satélite, deixando os terrestres com olhos pregados à tela das televisões. O astronauta faleceu em 2012, com 82 anos, restando agora apenas a memória.
Mas tudo lembra entre nós gerações de brasileiros, que - à falta de rádio e televisão, que ainda não existiam, se entregavam às serenatas, que davam um brilho melancólico às noites de luar no interior brasileiro, inclusive as de minha cidade mineira lá do Norte.
Nelson Viana, nascido em Curvelo, formado em agrimensura em Ouro Preto, por Montes Claros se apaixonou. Ali viveu mais de trinta anos, casou, tornou-se figura singular e escreveu sobre os fatos e pessoas que ali via, numerosos e preciosos livros, que são resgate de uma época e de seus personagens...
“... E as serenatas passaram pelas noites enluaradas... Eram chorões, com flautas, bandolins, violões, pistons e cavaquinhos, tocando valsas, schoticts, mazurcas ou polcas em voga, e eram seresteiros inveterados, que cantavam modinhas sentimentais como a “Casa branca da serra”, “Pela janela da saudade” ou “A pequenina cruz do teu rosário”, provocando fundos e doloridos suspiros nos recessos das alcovas, as jovens românticas cujo coração madrugava para o amor, modinhas amarguradas, ternas modinhas que eles cantavam molhando a voz de pranto, nas horas em que as ruas dormiam silenciosas nos mistérios da noite cheia de encantamento e de luar...”
Seresteiros há que resistiram às agruras do tempo, mas desapareceram aqui os velhos ritmos e as letras de músicas possivelmente tidas como perenes. A lua só aparece para os demais jovens de hoje quando envolvem um fenômeno raro, mas previsto pelos cientistas e que lhes atraí a atenção.
Pior ainda:
Estudo da Nasa revela que a lua está encolhendo à medida em que o seu interior se resfria. De forma lenta, mas em pausas, a lua perdeu mais de 50 metros nos últimos 100 milhões de anos. Cientista do Museu do Ar e do Espaço dos EUA revela que o encolhimento faz com que a superfície da lua ganhe elevações e escarpas. O efeito também causa abalos sísmicos.
“Tal como uma uva se enruga na medida em que encolhe até se tornar uma uva-passa, escarpas se formam na lua conforme o satélite natural da terra diminui”, explicou a Nasa.
Mas, ao contrário da casca da uva, que é flexível, a crosta da lua é rígida e se quebra quando seu tamanho diminui, formando falhas onde um segmento é empurrado para cima de outro.
Como será, então, a lua ou o que dela sobrar?


84108
Por Manoel Hygino - 22/7/2019 15:15:42
O mineirês existe

Manoel Hygino

Sem limites claros e definidos, Minas não é una e única, como a própria nação. Nem poderia ser de outra maneira, se se considerar o estado com dimensões maiores de numerosos países continentes afora. O falar do Sul mineiro não é exatamente igual ao que se fala nas regiões limítrofes com Bahia, Espírito Santo, Goiás, Rio de Janeiro ou São Paulo. Basta conferir em visitas que se faça, mesmo sem interesse linguístico. O vocabulário também varia.
Daí ser perfeitamente compreensível que Joaquim Mendes de Sant’Ana tenha evocado para si laborar e editar um “Dicionário Norte-Mineirês Rural”, que me foi trazido por Wagner Gomes (cujo pai é responsável por uma coletânes fotográfica memorável sobre Montes Claros), autor de belos artigos sobre o Brasil de hoje, sob aspectos sociais, econômicos e políticos).
O próprio Wagner se encarrega de dizer quem é o autor do Dicionário: “... um homem à frente de seu tempo em todos os sentidos. Desprendido das coisas materiais, sua grande riqueza consiste em seus valores e em suas raízes. Tipicamente mineiro, sem deixar de ser um cidadão do mundo. Nascido com a ajuda de uma parteira analfabeta, numa pequena fazenda de uma cidadezinha que era pequena até no nome: Porteirinha. E essa cidade foi seu primeiro amor e a ela permaneceu sempre fiel. Até imaginou, um dia, mudar seu nome para Edenópolis... Fiel a esse mundo, guardou, ao longo de sua vida vitoriosa, cada palavra que ouvia dos matutos e dos interioranos... Engenheiro por formação, humanista por convicção, fez da vida o seu repente”. A excelente capa é de Nélson Flores.
Chico Mendonça acrescenta: “Esse dicionário é fruto de 12 anos de meticulosa pesquisa, feita por quem tinha o hábito de ser em tudo organizado, o que considero atributo invejável... O leitor tem diante de si, como resultado, um livro robusto de consulta, de qualidade e confiabilidade garantidas”. Estefânia Oliveira Sant’Ana auxilia a compreensão do significado: O autor “observou a paisagem rural com clareza, exuberância e afirmação contundentes”... que “resultaram em descobertas notáveis e criaram este guia sólido”.
Depois de tais comentários, é útil registrar que não se trata de meras observações de quem se interessa pela maneira como se fala em pedaços do Brasil- brasileiro, mas não único. O vocabulário que Joaquim Mendes de Santa’Ana nos oferece é perfeitamente representativo da realidade nacional. O próprio autor declara, e razão tem, o vocabulário contém palavras e expressões usuais no Centro e no Norte de Minas, principalmente entre as classes mais populares e na zona rural. Não são exclusivas dali e muitas delas, seguramente, nem são de lá originárias, mas incorporadas, trazidas pelos nordestinos que desceram para o Sul, como se diz.
Não só, contudo, as palavras e expressões, pois o próprio falar, que pincipalmente os baianos trouxeram e foi assimilado. Chamou-me a atenção, por exemplo, o adjetivo “bondadoso”, que corresponde a – bondoso- usado em espanhol: “Zé Roxinho era um sujeito moreno, de rosto redondo, de bigodeira farta- escorrendo pelos cantos da boca sem dentes. Homem bondadoso, dono de uma fazendinha ajeitada, de terras negras nos varjões de bengo”. Dá pra entender?


84103
Por Manoel Hygino - 22/7/2019 09:37:10
O decoro em pauta

Manoel Hygino

Até se admite que o Brasil procure imitar o presidente dos Estados Unidos de hoje, muito distante daquela outra nação que teve chefes de governo ponderados, sem excesso no uso da língua pátria – a deles, claro. Educação é essencial para os que se responsabilizam por dirigir os destinos de um país, com as dimensões das antigas colônias, agora maior potência do planeta.

O presidente dos EUA, que se prepara para candidatar-se à reeleição, declarou, em seu Twitter, que quatro parlamentares democratas de origem estrangeira ou de seus ancestrais deveriam retornar a seus países. Em uma de suas recentes declarações, classificou as terras de origem das deputadas de “países de merda”.

Embora sem mencionar nomes, Trump referiu-se a elas como integrantes de um grupo conhecido como “o esquadrão”, muito crítico ao presidente. São elas Alexandria Ocasio-Cortez, nascida nos EUA, mas de origem latina; Ayanna Pressley, nascida em solo americano, mas de origem africana; Rashida Tlaib, nascida nos Estados Unidos e de origem palestina; e Ilhan Omar, nascida na Somália, mas nacionalizada americana.

Pois alguns brasileiros, em termos de deseducação, parecem seguir de perto alguns súditos do Tio Sam, como se depreende do artigo de Fábio P. Doyle, advogado, jornalista, membro da Academia Mineira de Letras, a respeito da visita do ministro Sérgio Moro ao Congresso: “perdeu tempo em depoimentos no Senado e na Câmara dos Deputados, submetendo sua paciência à prova, tendo que ouvir, sem revidar, educado em excesso que é, deputados amolecados que o acusavam usando palavrões de baixíssimo nível”.

De minha parte, há poucos dias, espantei-me com a expressão de um alcaide de cidade grande durante desfile LGBT. Partindo de um chefe de Executivo, causou-me estranheza o calão, evidentemente a ser divulgado. No dia seguinte, o assunto apareceu, em manchete de jornal local, com o palavrão.

Veio-me à memória reportagem de “Isto é”, em 2016, descrevendo o comportamento da ex-presidenta (assim gostava de ser tratada), durante uma viagem em um Airbus A319, com destino ao Equador. Tripulantes e passageiros a bordo ficaram estupefatos com o palavreado da mais alta autoridade do país. Depois de forte turbulência, ela invadiu a cabine do piloto, aos berros: “Você está maluco? Vai se f... É a presidente que está aqui. O que está acontecendo?”.

Não era a primeira vez que ela perdia o equilíbrio durante um voo. Em outra ocasião, o avião despencou cem metros, enquanto passava pela região entre a floresta amazônica e o Acre. O piloto se preparava para pousar em Quito. Devido um tranco mais brusco, Marco Aurélio Garcia, o notório assessor especial, acabou banhado de vinho e uma Ajudante de Ordens bateu com a cabeça no teto da aeronave. Copos e pratos voaram. A ilustre passageira, gritou: “não falei para não pegar esse trajeto? Quer que eu morra de susto, cacete?”.

Nos dias finais de sua passagem pela presidência, a presidenta “disparava palavrões aos borbotões a cada nova e frequente má notícia recebida. Nem com Lula as conversas têm sidos amenas”. Com um assessor, investiu contra o juiz Sérgio Moro: “quem esse menino pensa que é? Um dia ele ainda vai pagar pelo que vem falando”.


84097
Por Manoel Hygino - 16/7/2019 10:05:37
Médicos e faculdades

Manoel Hygino

O Brasil é o oitavo maior mercado de saúde do mundo. Conta com 2,18 médicos para cada mil habitantes, formando o quarto maior país com população médica. Em outras palavras, somos uma população que carece ou precisa de assistência médico-hospitalar. Temos 6 mil hospitais e cerca de 2 milhões de enfermeiros, técnicos de enfermagem ou auxiliares, atendentes, ou o que o valha. Além disso, situamo-nos em 9º lugar no ranking de países com mais gastos em saúde, o que significa 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

É um quadro de proporções gigantescas, principalmente se levarmos em consideração que esse mercado exige investimentos anuais de US$ 38 bilhões. Assusta-se, porque o negócio é em termos de dólares, num país em que há permanentes reclamações ou denúncias sobre a qualidade de atendimento à população pelo sistema ora vigente.

Não se há de esquecer que o estabelecimento hospitalar que atende ao pobre é compelido a também servir aos privilegiados economicamente, ou pelo menos, os que detenham melhores condições socioeconômicas. É o caso, por exemplo, do candidato à presidência da República, obrigado a recorrer a uma Santa Casa, em 6 de setembro do ano passado, ao ser vítima de grave atentado em Juiz de Fora (Zona da Mata). Ainda bem que o hospital estava perfeitamente habilitado, técnica e profissionalmente. Não era da rede pública de saúde, mas estava habilitado a oferecer a assistência exigida naquelas circunstâncias.

Atender à população é um fantástico desafio, mas um dever do Estado, inclusive no que tange ao problema dos médicos e sua qualidade técnica. Não formamos esses profissionais em número suficiente para suprir à demanda nem os que colam grau se sentem dispostos a se instalar em regiões distantes, que não contam com o instrumental necessário. Trata-se de drama, que a nação não conseguiu equacionar.

Daí, o apelo aos médicos de outras nacionalidades, que têm, antes de tudo, de vencer a barreira da língua e se submeter às provas de revalidação de diplomas. Existiram aqui desde os governos petistas, os facultativos contratados com o governo de Cuba, mas o contrato esgotou. Esclareça-se: cerca de 8 mil profissionais cubanos, vieram ao Brasil para trabalhar no Mais Médicos. Em torno de 2 mil ficaram no país, muitos na esperança de serem readmitidos. Desses, cerca de 700 tiveram a situação regularizada, porque se casaram com brasileiros.

O governo Jair Bolsonaro trabalha em alterações no programa Mais Médicos, que deve contemplar a reincorporação de profissionais da ilha. Eles foram desligados no fim de 2018, após críticas de Bolsonaro à sua qualificação.

O governo quer editar até agosto uma medida provisória com as pretendidas mudanças, conforme noticiado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Pelo plano, cubanos que já atuaram no Mais Médicos voltariam à atenção básica no Sistema Único de Saúde (SUS) por dois anos e, terminado esse prazo, precisariam passar por revalidação do diploma. Começa tudo de novo. Mas o programa tem que dar certo, com urgência. A população não pode esperar indefinidamente assistência. No Hospital das Clínicas da UFMG, leitos estão fechados por falta de pessoal.

Não se pode esquecer que há respeitáveis instituições interessadas em implantar faculdades, que podem suprir a demanda, formando médicos com capacidade profissional e consciência de suas obrigações com a sociedade e com o homem. As faculdades não podem ser meras fornecedoras de diplomas.


84096
Por Manoel Hygino - 15/7/2019 13:15:10

Apelo a São Pedro

Manoel Hygino

A semeadura no Norte de Minas já espera seu tempo. Há intensa expectativa porque nem sempre apraz aos céus responder positivamente à súplica dos homens. A terra queda seca, os ventos levantam poeira, o volume de água dos córregos diminui, não poucos interrompem o curso, o agricultor se irrita ou chora. Como será 2019?

As carrancas do rio São Francisco mais fecham a cara, mas ainda há esperança. O desastre no córrego do Feijão, pelos lados de Brumadinho, causando centenas de mortes, em janeiro, haverá de apagar a fé nos santos que protegem aquele solo e os milhões que a habitam? Pede-se, insistentemente, que as nuvens abram suas torneiras.

Ninguém quer crer que o velho e amado Chico agonize. Três Marias, Sobradinho, e Itaparica reclamam mais água em seus reservatórios, para que os vapores (este o nome dos navios que ali se movem) percorram sem problemas os extensos trechos sem encalhar. Encalhar é mau sinal! Até outubro muito de bom precisa acontecer.

Uma autoridade ensina, e a corrente e suas margens pedem clemência. A
estimativa é dramática: “É muito provável que tenhamos que enfrentar período de seca. O ciclo hidrológico está modificado e não potencializa as fragilidades que já existiam, e, para piorar, pelos malfeitos humanos”.

O homem trabalha para prejudicar-se pois não mede consequências. As águas, que correm para o mar, depois de abastecer a população ribeirinha, exige proteção. E se as nuvens falharem? Como ficará a matéria-prima que chega às torneiras carentes de milhares de habitações ao longo do rio, que se diz da unidade nacional?

Fala-se demais, mas se atua pouco. Cumpre a recuperação das chamadas matas ciliares, mas quem está cuidando disso todo o ano, ao invés de somente protestar? Ou rogar nas orações das donas de casa quando o drama cai sobre elas, seus filhos, suas plantas, seus animais?

Há mais de um século, os governos já pensavam na captação do São Francisco para atender à demanda regional. Entre 1844 e 1845, era o Brasil de Pedro II, registrou-se a uma estiagem brutal. Surgiu sobre a mesa dos engenheiros o projeto para levar água até o sertão.

O plano era construir um canal que sairia de Cabrobó (PE) até o Ceará. O projeto chegou a ser elaborado e foi analisado por Dom Pedro II. Um grupo foi montado para avaliar a viabilidade.

No entanto, os técnicos entenderam que não existiam recursos para fazer com que a água transpusesse a chapada do Araripe, na divisa do Ceará e Piauí. No governo Getúlio Vargas a proposta foi retomada, mas pouco avançou.

No fim da ditadura militar, o general João Baptista Figueiredo autorizou a elaboração do projeto de transposição pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento. O alto custo da obra, estimado na época em US$ 3,3 bilhões e disputas políticas na caserna fizeram com que a transposição não passasse de um projeto.

Com tantas obras no país, a da transposição do velho Chico não se concretizou inteiramente. Novos entraves surgiram. Só resta orar para que não se repita a época de Pedro II. A metade do ano já passou.


84093
Por Manoel Hygino - 12/7/2019 10:16:05
A Califórnia é longe

Manoel Hygino

Quem não se dá ao luxo de ler jornais, certamente não soube em pormenores a respeito do terremoto que atingiu o Sul da Califórnia – Estados Unidos, é claro – no fim da primeira semana de junho passado.

Não era o bairro Califórnia, em Belo Horizonte, que deve enfrentar outros problemas, evidentemente de menor expressão e periculosidade. Lá, nos States, o fenômeno se viu classificado como o maior em 20 anos e o segundo a atingir a mesma região em menos de dois dias, com epicentro próximo da cidade de Ridgecrest, cerca de 200 quilômetros de Los Angeles. E é bom que se esclareça que ela é a segunda mais populosa dos Estados Unidos.

Mais de cem terremotos tinham sacudido o Sul da Califórnia no período imediatamente anterior e, dois dias antes, um mais forte encontrara ali seu epicentro. Dois mais perigosos fizeram ressurgir na população o fantasma (como contaram as agências de informação) do "“The Big One”, isto é, o grande tremor, tão devastador que abrangeria todo o Oeste, sem risco de ação contrária dos soldados da Cavalaria de Tio Sam, como se via nos velhos filmes, inclusive os de John Ford.

Todos já ouviram pelas tevês e rádios: o estado da Califórnia está situado na região conhecida como Anel de Fogo do Pacífico, onde terremotos e erupções vulcânicas são mais frequentes por força de encontro de placas tectônicas. Recordo-me, sim, do terremoto de 7,6 graus, que devastou parte expressiva de São Francisco, causando mais de três mil mortes, quando uma parte da falha de San Andreas, que tem 1,3 mil quilômetros, se rompeu.

Observe-se: no Sul da falha, não há o desastre há 300 anos. Mas existem registros geológicos que apontam para tremores de maior volume a cada 150 anos.

Nos abalos de junho, contudo, apesar do medo que despertou, ninguém morreu ou se feriu gravemente, apesar dos incêndios provocados pelos vazamentos de gás. No Brasil, sem tsunamis ou vulcões, a situação não é a mesma.

Este ano, segundo o Ministério da Saúde, houve 339 óbitos por vírus da gripe até o fim do sexto mês, sem falar em 1.766 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, causados pelo vírus influenza. Não só: sete pessoas se feriram em ataque de abelhas no Norte de Minas. Três militares foram picados pelo inseto, exigindo ação dos Bombeiros da principal cidade da região. Viaturas ficaram no local para atender às vítimas mais graves.

Outros riscos rondam os brasileiros, principalmente os sem recursos. É o caso dos que ganharam a classificação de “moradores em situação de rua”, ou seja, aqueles que não têm onde morar, o quê comer, nem qualquer fonte de manutenção pessoal. Entregues à própria sorte, ou ao azar, amontoam-se sob marquises (quando existem) de edifícios, nos centros urbanos ou qualquer outro lugar em que se deitam. Segundo a assistência social, não há vagas suficientes em abrigos, as autoridades não dispõem de meios compatíveis com as necessidades, restando à sociedade civil, assim como entidades religiosas ou ONGs, adotar ações pertinentes; ou deixá-los ao Deus-dará, como acontece mui repetidamente. Isto é, morrerem pelo intenso frio deste julho, como aconteceu na maior cidade do país, ou perecerem queimados, servindo somente para referência policial, nos famosos BOs.


84089
Por Manoel Hygino - 11/7/2019 09:10:10

Flor do Céu

Manoel Hygino

Os espaços que os veículos de comunicação deram ao ensejo do falecimento do cantor-compositor João Gilberto, no último fim de semana, estiveram acima das expectativas. Superaram os relacionados com o passamento de ilustres estadistas como os que registraram, por exemplo, a morte dramática de John Kennedy, em Dallas, mesmo a de Onassis ou Jacqueline, viúva do ex-presidente democrata dos EUA. Ou dos Beatles, entre os artistas.

Pela imprensa de cá, se tratava de um notável artista carioca, porque a eles o Rio e São Paulo fazem singular exposição e exaltação. Mas aquele que nos deixou, há poucos dias, era um baiano, de Juazeiro, por sinal. Estes detalhes, contudo, não lograram maior realce nos noticiários, aparentemente secundários. Enfim, depois de décadas no Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, o artista da Bahia, conterrâneo de Caymmi, Gal Costa e Caetano, se tornara carioca. Sem esse verniz, nada ou pouco feito.

Mas, João Gilberto passara por Diamantina, a velha Tejuco de JK, a quem e a que dediquei um livro publicado há pouco mais de um ano. A verdade é que nordestino, descendo no mapa e na geografia, teria inequivocamente de atravessar as montanhas, como aconteceu com inúmeros brasileiros. Com João Gilberto não foi diferente, pois aspirou ares diamantinenses para alcançar o Atlântico, via RJ, e alçar a notoriedade.

A permanência, durante algum tempo, de João Gilberto em Diamantina, eu já soubera pelo livro “Vesperata”, de Wander Conceição, um estudioso da música naquele rincão. O fato foi resgatado e corroborado agora por Pacífico Mascarenhas, empresário e compositor, cujo irmão Caetano lá viveu e se tornou companheiro de JG em noites de boa conversa. Teria sido gestada na velha Tejuco a bossa nova? O jornalista Paulo Narciso responde: “O tempo, senhor dos homens, clareará”.

Outro fato é que Diamantina e Montes Claros, irmãs em termos de modinhas disputaram a autoria de “É a ti, flor do céu”, uma das mais notáveis cantadas Brasil afora. Anos depois, soube-se: a modinha não é de Diamantina, nem de Montes Claros. Veio da Tchecoslováquia, terra de origem da mãe de JK, para aqui trazida pelo bisavô materno do ex-presidente.

Quem desfez o mistério foi um embaixador tcheco, ao visitar o Tribunal de Justiça de Minas. Naquele dia, o coral do TJMG ensaiava em sala ao lado da sala do presidente do tribunal, o desembargador Hélio Costa, que nos contou o episódio: “imagina que o embaixador visitante me agradeceu, comovido, tê-lo recebido com acordes da sua terra, a Tchecoslováquia”. A modinha, aqui popular, era cantada ao lado, com letra em português, com a melodia tcheca de “É a ti, flor do céu”.

Diamantina recebeu dos eslavos ocidentais a melodia. E pôs sua lírica e paixão na letra que não se apaga, atribuída a Teodomiro Alves Pereira, mas acolheu o que de belo havia. A luz de João Gilberto se apagou, Minas continua brilhando em todo o Brasil, consolidando a tendência reclusa do baiano que liderou a “bossa nova”, sem fazer declinar o prestígio do samba-canção, pelo qual os brasileiros de Norte a Sul tinham predileção.

A letra aqui trabalhada para a modinha é simplesmente representativa do melhor sentimento brasileiro: “Quem me dera, outra vez esse passado! essa era ditosa em que vivi; quantas vezes na lira debruçado, cantando em teu colo adormeci”.




84087
Por Manoel Hygino - 10/7/2019 08:19:07
Os riscos que corremos

Manoel Hygino

Estive excessivamente preocupado com o calor, que nos aqueceu durante dias antes desta onda de frio cortante. Não só eu. A Organização Meteorológica Mundial informou, no dia 28 de junho (e talvez poucos se interessaram), que este ano está encaminhado para situar-se entre os mais quentes em toda a história. Em consequência, o ciclo de 2015 a 2019 seria o quinquênio mais quente já registrado no planeta.

Para a OMM, é ainda cedo para atribuir definitivamente o atual período de calor excessivo na Europa à mudança climática, mas ela é “absolutamente consistente” com extremos relacionados ao impacto das emissões de gases do efeito estufa. “Ondas de calor se tornarão mais intensas, mais delineadas, mais extremas, e vão começar mais cedo e terminar mais tarde”. De janeiro a maio, foi apontado 2019 como o terceiro ano mais quente já registrado no mundo. Na França, registrou-se a temperatura mais alta de sua história: 45,5 graus.

A Organização Internacional do Trabalho advertiu que as mudanças climáticas e o aumento do estresse térmico na agricultura e outros setores industriais vão provocar perda da produtividade equivalente a 80 milhões de empregos até 2030. Em relatório, a OIT considera que 2,2% do total das horas trabalhadas no mundo poderão perder-se por causa das altas temperaturas, segundo projeções baseadas em aquecimento mundial de 1,5°C até o final do século. O impacto será maior no Sul da Ásia e na África Ocidental. No total, as perdas econômicas representariam cerca de US$ 2,4 milhões em escala mundial, o equivalente à economia do Reino Unido. O estresse térmico representa um calor superior ao que o corpo pode tolerar sem sofrer danos psicológicos. Ele costuma chegar quando as temperaturas superam os 35°C.

Ouvi a respeito José Ponciano Neto, que é técnico em meio ambiente, que assim se pronunciou: quanto maior a atividade solar, associada à troca de posição dos polos, pode produzir aquecimento em um determinado continente e resfriamento em outro. Com isso, maiores são os prejuízos que chegam aproximadamente a 1 bilhão de dólares (dados da ONU). As mais prejudicadas são as empresas de satélites e energia elétrica, trazendo panes nos setores. É só aumentar as tempestades solares que celulares e energia caem nas centrais. Como o mundo demanda energia, computadores e celulares, sempre que acontece um “blecaute” nestes setores vêm os prejuízos.

Concluindo: toda alta temperatura é originada das mudanças climáticas provocadas pelo sol por meio das suas explosões e tempestades. Ou seja: destroem a camada protetora da atmosfera, que provoca uma cadeia de eventos de efeito dominó – as radiações do sol com maior intensidade derretem as massas polares, que provocam inundações nas costas, dos terremotos que fazem os vulcões entrarem em erupção e secas severas nas regiões mais próximas da linha do Equador.

Afeta também os animais que necessitam dos polos magnéticos para a sua orientação durante a migração e começam a aparecer baleias onde não existiam e golfinhos doentes, além de tucanos desnorteados no Norte de Minas. E, o mais preocupante – a grande incidência de câncer – esta última, já fomentada pelos agrotóxicos e águas contaminadas. Tudo isso está relacionado aos ciclos do sol, da lua e do “stress ambiental” provocado pelo homem.
A importância do tema nos obriga a voltar, proximamente.


84085
Por Manoel Hygino - 9/7/2019 09:14:54
O mouro e o Moro

Manoel Hygino

De uma hora para outra, embora não constituísse surpresa, dados os interesses em jogo, o ex-juiz Sérgio Moro se vê envolvido em acusações principalmente por mensagens trocadas (?) com procuradores da força-tarefa da “Lava Jato”. O ex-juiz explica: “muita gente teve interesses contrariados, pessoas poderosas que se envolveram em corrupção”. Concluiu o raciocínio: “Falsos escândalos não me farão desistir desta missão. Sempre pautarei com base na lei e na ética”.

No episódio, importantíssimo para o Brasil atual, aparece, no centro dos acontecimentos, o magistrado Sérgio Moro na Justiça de Curitiba. Conduzindo-nos sobretudo pelo nome, chegaremos à tragédia de “Otelo, o Mouro, de Veneza”, de Shackespeare, que é lá de 400 anos atrás e considerada uma das peças mais perfeitas do autor inglês.

Ali, Otelo é um audaz soldado mouro a serviço de Veneza. Os relatos que faz de sua vida levam-no ao amor de Desdêmona, patrícia que se casa com ele, mas provoca rancoroso ciúme do alferes Iago, que inventou um inexistente terceiro personagem como amante. A jovem esposa é asfixiada na cama brutalmente pelo marido. O enredo, imortalizado pelo poeta de Stratford-upon-Avon, serviu de inspiração para outros autores europeus. Otelo não era ciumento extremado, mas se envolveu nos fatos confidenciados em determinados círculos e se sentiu ofendido em sua boa-fé. Além de matar Desdêmona, suicida-se em seguida.

O mouro do lado de cá, aqui e agora, se escreve sem o U e nada tem a ver com o de Veneza. E o ex-juiz, agora ministro, não tem parentesco com Aldo Moro, o grande líder italiano que se empenhou na luta contra a corrupção em sua pátria. Seu empenho foi tão eficaz que lhe custou a vida, sacrificada a serviço de cidadãos de mãos limpas no desempenho de cargos públicos.

Escolhido para ministro da Justiça, o Moro paranaense se aproximou do Moro italiano: não do mouro, com U medial, levado à morte pela intriga do próprio alferes. Segundo entrevista a jornal, o de cá declarou: “temos de nos preocupar com as tentativas de retrocesso. Porque o enfrentamento da grande corrupção contraria o interesse de poderosos. É uma ilusão pensar que não vão ocorrer essas tentativas. Temos de assegurar que o navio não volte ao porto. Por exemplo, a própria questão da segunda instância. É fundamental a decisão do STF que no fundo representa colocar o ponto final de um processo num prazo razoável, não se tornar aquele processo que se eterniza, mas chegam a um término dentro de um prazo razoável. Mas a gente não pode estar satisfeito em apenas evitar retrocessos. E isso inclusive foi um dos propósitos que me levaram a aceitar virar ministro. Temos de pensar em avanços”.

O pensamento do Moro curitibano não corresponde aos projetos de espertalhões que falharam e, evidentemente, gostariam, de passar o tempo a que foram condenados em liberdade. Não faltam recursos para bons advogados e despesas judiciais. Melhor isso do que ficar detrás das grades, expressão antiga que não representa mais a realidade. O tempo mudou. Mais recentemente, há até refrigeradores para autores de falcatruas de alto quilate e, mesmo os sentenciados por crimes graves contra a vida, conseguem um celular nos espaços que lhe são destinados nos presídios.

Precisamos de avanços, diz o ainda jovem ex-juiz, que não almeja uma vaga no Supremo, conforme afirma. Até lá, muita água correrá sob a ponte e fatos novos revelarão o futuro: dos bandidos e dos magistrados.


84078
Por Manoel Hygino - 5/7/2019 10:51:55
No tempo de Hitler

Manoel Hygino

Irmã Arnhild, uma religiosa da Congregação das Servas do Espírito Santo, deixou de viver, há poucos dias. Notícias assim se perdem no bulício das redações ou simplesmente são esquecidas. Enfim, quantas irmãs de caridade morrem por semana nos mais recônditos lugares do planeta?
Wilhelmine Antônia Gertrud Lahrkamp, a “irmã Arnhild”, nasceu em Munster (Alemanha), em 19 de março de 1933. Em 1955, formou-se em enfermagem e, três anos depois, iniciou sua vida religiosa no Monastério do Divino Espírito Santo (Heilig Geisthloster), em Wimbern. Em 1961, fez seus votos e foi enviada ao Convento da Santíssima Trindade, em São Paulo. O nome adotado é corruptela de Arnaldo, o fundador da congregação, e Hild, homenagem a Hildegard, santa alemã que viveu no século XII.

Em 1963, a irmã Arnhild veio para Belo Horizonte e, dois anos após, começou a trabalhar na Santa Casa. Superou todas as dificuldades, a começar pela língua, aprendendo o necessário para entender-se e desempenhar seus misteres. De 1969 a 1971, fez novamente o curso de enfermagem. Aqui, orientava os seus alunos sobre a importância de oferecer conforto espiritual aos pacientes – independente da religião. Sem descanso, desenvolveu suas atividades durante 20 anos, inclusive como chefe de enfermagem.

Adotou fielmente o programa da instituição, contribuindo com todas suas forças para o projeto de fundação e funcionamento de uma escola para profissionais da área, lecionando nos cursos de atendente e de auxiliar de enfermagem. Abraçou a ideia da Escola João Paulo II e, em seguida, da Escola Técnica de Enfermagem, formalmente aprovada pelos órgãos oficiais, inclusive nos termos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Entre as muitas ações, irmã Arnhild ajudou a criar, em 1980, a creche que cuidou dos filhos dos funcionários do Grupo Santa Casa BH até 2000. Depois, diante do grande número de funcionários (atualmente mais de 5 mil), a escolinha foi transferida a outra entidade.

É bom resgatar a história. No ano em que Arnhild veio ao mundo, Hitler assumiu os destinos da Alemanha, eleito em 24 de março, pela Câmara dos Deputados, com plenos poderes. O diário nazista “Volkischer Beobachter” publicou no dia seguinte: “o sistema parlamentar capitula diante da nova Alemanha (...). Um grande empreendimento começa! Chegou o dia do Terceiro Reich”. Naquela data, várias dezenas de milhares de alemães já estavam em campos de concentração.

A família, católica, de Arnhild não se curvou à vitória e credo nazistas. Assistiu em desolação ao rumo dos acontecimentos, enquanto a jovem enfermeira se desdobrava em BH, agindo humildemente, o ditador aprimorava métodos para desfazer-se dos supostos inimigos.

Hitler defendia a superioridade do povo alemão, culpava o povo judeu pela terrível crise econômica da Alemanha após a primeira grande guerra. Esmerou-se ainda na perseguição aos ciganos, aos homossexuais e deficientes físicos. Defendendo a tese do espaço vital, pretendia o mundo sob seu guante. Na Europa, existiam nove milhões de judeus, mas Hitler eliminou dois terços, dos quais um milhão de crianças e dois milhões de mulheres. Arnhild condenara bravamente o genocídio e a cultura da morte e da crueldade. Assim foi. Sempre em nome de Jesus.

A Escola Técnica da SCMBH, por decisão do provedor Saulo Coelho, recebeu seu nome, após 54 anos de devotamento da religiosa.



84076
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 15:33:39
Tema de tragédia

Manoel Hygino

Em 13 de março deste ano (por sinal de meu aniversário), Edmilson Caminha, o escritor que o Ceará gerou para o Brasil, enviou para seus amigos um “artiguete” (como o classificou) em que focaliza “o imenso Agripa Vasconcelos, tão injustamente esquecido, cujo cinquentenário da morte se completa este ano”.
Ultrapassada metade do ano, não se fez algo de maior grandeza para exaltar, em termos nacionais, o papel de Agripa, ex-membro da Academia Mineira de Letras, como se deveria. Sua produção pode ser comparada a trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo – um, ponto abaixo, porque sem a extensão e a magnitude dos seis romances que impressionam pela riqueza literária e pelo elemento histórico”.
“Fome em Canaã”, “A vida em flor de Dona Beja”, “Chica que Manda”, “Sinhá Braba”, “Chico Rei” e Gongo Soco”, dos quais dois adaptados para novelas da TV-Manchete, conquistaram popularidade e aplauso, mas muito aquém dos méritos do romancista de Matozinhos, nascido em 1896.
Neste ano de muitas tragédias, a começar pela de rompimento da barragem do córrego do Feijão, em Brumadinho, tive a impressão de que um dos seus romances, “Gongo Soco”, acordaria Minas Gerais, o Brasil enfim, para a dura perspectiva que envolve a cidade de Barão de Cocais, arrolada entre prováveis e gravíssimas vítimas das consequências de igual ou semelhante caos. A história ainda não terminou, a comunidade sofre tão dramáticos horizontes, mas Gongo Soco permanece apenas na pauta do noticiário de imprensa.
Gongo Soco, a mina sob observação incessante de técnicos do setor minerário, pertenceu a João Batista Ferreira Chichorro de Sousa Coutinho, a maior fortuna das Minas Gerais, como lembra Coutinho. Suas riquezas só lhe serviram para forrar o caminho da sede da fazenda até a igreja local e para bucha de fogos de artifício em data de festa.
Creio que está escapando ao interesse de produtores de televisão ou cinema este precioso conteúdo, que por sinal nos evoca o Barão de Cocais, um dos líderes da Revolução de 1842, tristemente perdido no vendaval da história.
Seria excelente ocasião para que alguma editora, que busca temas no exterior, usasse do aqui elaborado, para reeditar a obra, que é de primeira qualidade e porque a edição de 1966 já se acha possivelmente toda esgotada.
Parece, ao momento em que redijo este texto, que o grande Agripa tinha razões, quando escreveu carta ao editor Pedro Paulo Moreira, da Itatiaia, afirmando: “Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural, que aqui fui no começo, me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: ‘ seu livro sobre Beja foi o melhor romance que já li’”.
Será que os brasileiros de outras regiões têm mais visão de nossa terra, nossa gente e seus costumes? Mais apreço e respeito por nossa história e tradições?


84072
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 15:32:27
Olhar o céu e orar

Manoel Hygino

Meio ano já se passou, mês que vem é agosto, de calor intenso, ventos fortes, que levantam a poeira nas cidades em que não há pavimentação, formando redemoinhos que incomodam os que andam a pé e ofuscam a visão dos motoristas nas vias urbanas ou nas estradas. Mas é também o período em que os agricultores e os fazendeiros olham para as alturas e fazem votos de que a chuva não falte para recompensa dos esforços dos que cultivam a terra.
José Ponciano Neto, técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, antecipa o que pode acontecer: “Creio que teremos boas precipitações neste próximo ano agrícola que se iniciará na segunda quinzena de julho à primeiro de agosto”. É exatamente o que esperam os que já se preparam para a semeadura. Alguns duvidam – será? Porque há anos em que as previsões falham. Espera-se que não seja 2019.
O tempo não é mais como antigamente, bem definido e seguro. E quase normal que São Pedro não descarregasse sua caixa d’água no período historicamente combinado. O técnico medita: Estamos numa região que, nos últimos anos, vem desafiando os institutos de meteorologia. Lembremos que não é comum chuva apagar fogueira em junho, mas vem acontecendo, para tristeza dos apreciadores das festas no sexto mês.
Em junho, já choveu em Glaucilândia e chuviscou em Juramento. O dia 23 foi todo nublado e neblinou na Serra do Espinhaço, próximo às cabeceiras dos Rios Congonhas, Congonhinha e Encantado.
Sem água, sem agricultura. Como todas as atividades humanas, as lavouras e o gado têm necessidade vital de que a água flua através da natureza. Um déficit prolongado nesse recurso pode afetar a atividade agrícola e a economia.
A seca pode ser definida como um episódio de falta de água, mais ou menos longo, mas suficiente para que o solo e a flora sejam afetados. Esse fenômeno pode ser cíclico ou excepcional, e pode dizer respeito a uma área geográfica mais ou menos vasta. O Norte de Minas têm 12.845.108 Km² de área.
Com seus 4,2 bilhões de metros cúbicos de água subterrânea, chuvas geralmente escassas e rede hidrométrica muito baixa, o Norte de Minas carece de água, a priori. Todos os anos recebem cerca de 14,6 bilhões de metros cúbicos de água da chuva, dos quais dois terços evaporam. 4,9 bilhões de metros cúbicos restantes de água fornecem água superficial e subterrânea.
Neste período em que a União cuida de engordar seu faturamento, a produção no campo é de grande relevo no orçamento, pela importância da agropecuária na balança de pagamentos. Não se pode perder de vista, contudo, que há brasileiros no sertão das minas gerais carentes de água, que lhes assegura alimento e uma vida menos penosa. É gente que precisa de água, um meio de sobrevivência e de sustento.
Quando a água cair das nuvens, é imprescindível que os agricultores tenham recursos para sustentar e ampliar a safra, a produção, a garantia de trabalho. Enfim, água é vida.


84070
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 11:06:54
Tema de tragédia

Manoel Hygino

Em 13 de março deste ano (por sinal de meu aniversário), Edmilson Caminha, o escritor que o Ceará gerou para o Brasil, enviou para seus amigos um “artiguete” (como o classificou) em que focaliza “o imenso Agripa Vasconcelos, tão injustamente esquecido, cujo cinquentenário da morte se completa este ano”.

Ultrapassada metade do ano, não se fez algo de maior grandeza para exaltar, em termos nacionais, o papel de Agripa, ex-membro da Academia Mineira de Letras, como se deveria. Sua produção pode ser comparada à trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo – um ponto abaixo, porque sem a extensão e a magnitude dos seis romances que impressionam pela riqueza literária e pelo elemento histórico.

“Fome em Canaã”, “A vida em flor de Dona Beja”, “Chica que Manda”, “Sinhá Braba”, “Chico Rei” e “Gongo Soco”, dos quais dois adaptados para novelas da TV Manchete, conquistaram popularidade e aplauso, mas muito aquém dos méritos do romancista de Matozinhos, nascido em 1896.
Neste ano de muitas tragédias, a começar pela de rompimento da barragem do córrego do Feijão, em Brumadinho, tive a impressão de que um dos seus romances, “Gongo Soco”, acordaria Minas Gerais, o Brasil, enfim, para a dura perspectiva que envolve a cidade de Barão de Cocais, arrolada entre prováveis e gravíssimas vítimas das consequências de igual ou semelhante caos. A história ainda não terminou, a comunidade sofre tão dramáticos horizontes, mas Gongo Soco permanece apenas na pauta do noticiário de imprensa.

Gongo Soco, a mina sob observação incessante de técnicos do setor minerário, pertenceu a João Batista Ferreira Chichorro de Sousa Coutinho, a maior fortuna de Minas, como lembra Coutinho. Suas riquezas só lhe serviram para forrar o caminho da sede da fazenda até a igreja local e para bucha de fogos de artifício em data de festa.

Creio que está escapando ao interesse de produtores de televisão ou cinema este precioso conteúdo, que por sinal nos evoca o Barão de Cocais, um dos líderes da Revolução de 1842, tristemente perdido no vendaval da história.
Seria excelente ocasião para que alguma editora, que busca temas no exterior, usasse do aqui elaborado, para reeditar a obra, que é de primeira qualidade e porque a edição de 1966 já se acha possivelmente toda esgotada.

Parece, ao momento em que redijo este texto, que o grande Agripa tinha razões, quando escreveu carta ao editor Pedro Paulo Moreira, da Itatiaia, afirmando: “Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural, que aqui fui no começo, me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: ‘seu livro sobre Beja foi o melhor romance que já li’”.

Será que os brasileiros de outras regiões têm mais visão de nossa terra, nossa gente e seus costumes? Mais apreço e respeito por nossa história e tradições?


84056
Por Manoel Hygino - 27/6/2019 10:03:07
As drogas voam

Manoel Hygino

Em 2017, o ministro do STF, Gilmar Mendes, votou favoravelmente à descriminalização de todas as drogas – se para uso pessoal. Os colegas Luis Roberto Barroso e Edison Fachin se manifestaram pela descriminalização apenas da maconha, tendo o primeiro sugerido a fixação de um limite de 25 gramas por pessoa para posse de droga. Diante do que a imprensa tem publicado insistentemente nos últimos dias, elas poderão até ser legalizadas no Brasil, inclusive porque tão ampla divulgação termina por confundir o distinto público, que pressiona as decisões em favor de seus interesses. Para o jornalista Carlos Alberto Di Franco, porém, o assunto não deve ser definido por um colegiado como o Supremo. E encerra comentário, afirmando que as evidências condenam a maconha e as políticas públicas irresponsáveis.
As informações não constituem novidade: desde 2015, a importação de óleos e extratos à base de derivados da maconha, como o canabidiol, é permitida, reconhecidos seus efeitos terapêuticos. Se a ANVISA autoriza, é porque se trata de algo útil ao ser humano, sem considerar aqueles compradores que julgam absurda impostura a exigência de apresentação de laudos e receita médica. Os pacientes, todavia, reclamam: os custos da importação são altos, daí muitos recorrerem ao próprio cultivo e apelarem ao mercado ilegal. Aliás, aqui mora um dos perigos: num país tão grande, de população pobre e mal formada, a autodefesa dos usuários é extremamente precária. Não causará surpresa alguém dizer que a maconha vendida pelos traficantes é bom para a saúde.
Deste modo, entidades se mobilizam para conseguir autorização para plantio e extração de óleos com canabidiol e THC, inclusive pretendendo agora contar com a colaboração de universidades. A ABRACE no país é a única que obteve liminar para cultivo e, ainda, a única a ter esse aval. O grupo mantém seis estufas e laboratório. A dispensação é feita a associados mediante laudos e prescrição médica. O custo fica em torno de R$ 89,90, enquanto alguns óleos importados chegam a R$1.000. “Seria uma maneira de fazer com que as pessoas não tenham que se expor a riscos de ter que recorrer ao mercado ilegal”, diz a entidade.
A empreitada judicial, porém, não é a única investida das associações. Planeja-se iniciar uma campanha para regulação do cultivo associado. Batizada de Repense, a campanha incluirá um vídeo e a distribuição de mil cartilhas a médicos e deputados com dados de pesquisas sobre a cannabis medicinal. Além da proposta da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para regulação do plantio de maconha no país, associações que reúnem pacientes que fazem tratamentos à base de derivados da planta se preparam para entrar na Justiça com ações para garantir direito ao cultivo por conta própria.
Nos últimos anos, ao menos quarenta famílias e a ABRACE já ganharam esse aval, como se disse. Agora, a ideia é ingressar com novas ações que possam ampliar o número de atendidos por meio de uma autorização coletiva a essas entidades. Em meio a tudo, contudo, há os picaretas de praxe interessados em tirar proveito da situação, sem medir os prejuízos de toda ordem que podem causar às pessoas que realmente precisam desses medicamentos.
Jornais de ontem, por exemplo, publicaram: “Um sargento da Aeronáutica, da tripulação que assumiria o voo do avião, reserva do presidente Jair Bolsonaro, foi detido por transportar drogas na bagagem, eram mais de 40 quilos de cocaína, em vários pacotes”. A prisão ocorreu em escala na Espanha, na viagem para o Japão, para Bolsonaro participar da reunião do G-20, em Osaka. Informam fontes ainda que não é a primeira vez que se registra este tipo de ocorrência, havendo o precedente, inclusive, do caso de um tenente-coronel, também preso por transportar cocaína em voo internacional.


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Por Manoel Hygino - 27/6/2019 10:02:11
A volta do rei

Manoel Hygino

Aprende-se nos cursos médios sobre dom Sebastião, aquele rei de Portugal que decidiu enfrentar os mouros no Norte da África e lá terminou por desaparecer, embora milhares de súditos continuassem a crer em sua volta para tirar a pátria da possibilidade de passar à governança pela Espanha. É uma história complicada, porque a época era de conquistas que começavam com a escolha na casa real de alguém para casar com alguém, alçar ao poder e à glória, alcançando o trono. O destino de Portugal, no entanto, estava em jogo.
Assim ocorreu com D. Sebastião, cujo pai era o príncipe Dom João Manoel, último dos nove filhos legítimos de D. João III e D. Catarina de Áustria.
Sebastião, o herdeiro do trono, era a esperança da nação. Daí, seu apelido “O Desejado” desde o berço. Mas ele se revelara enfermiço, somente assumindo o encargo de marido aos 14 anos.
É um emaranhado de nomes, de aventuras conjugais, devidas aos interesses políticos, em meio à luta com os sarracenos, D. Sebastião subiu ao trono de Portugal e Algarves, aos 24 anos, indo lutar na África. Na batalha de Alcácer-Quibir, em 5 de agosto de 1578, simplesmente sumiu, enquanto morriam oito mil compatriotas. Sovertera. Não constava que, no Marrocos, sucumbira ou fora feito refém. Apenas deixara de ser visto.
Os portugueses, que tanto esperaram por seu nascimento, julgavam até que ocorrera o mesmo que com Jesus, que deixara de ser visto por alguns dias. O soberano luso voltaria “a sentar-se no trono que lhe fora designado por Deus”. É o que conta Aydano Roriz, baiano de Juazeiro, que mora na ilha da Madeira e escreveu romance sobre o assunto (“O Desejado”, com que o estimado advogado Mauro Pereira Cândido me presenteou há algum tempo).
Os portugueses, contudo, não queriam acreditar que seu soberano morrera. Confiavam, com a graça de Deus, em tê-lo de volta, para eterna glória. Assim, segundo o autor de Juazeiro, a partir de 1584, começaram a aparecer supostos Dom Sebastião, avolumando a crença no milagroso retorno.
O primeiro aventureiro foi um noviço carmelita da Beira Baixa. O segundo, um açoriano que surgiu na praia da ericeira e anunciara entrar triunfalmente em Lisboa no dia de São João.
Mas vieram outros cidadãos de outros países. O terceiro, um pasteleiro espanhol de Madrigal, que tivera a ousadia de propor casamento a uma sobrinha de Felipe, da Espanha. O último Dom Sebastião foi um italiano da Calábria, que nem falar português sabia.
Chama a atenção o fato de que, por força do mito, todos os candidatos a Sebastião tinham conseguido seguidores e, até, conquistado prestígio e notoriedade. No entanto, se viram desmascarados e pagaram pelo atrevimento. O primeiro deles, o noviço carmelita, foi condenado a remar em galés até morrer. Os outros três tiveram fim mais rápido e trivial: foram simplesmente enforcados.
No Brasil, tivemos sebastianistas, o mais conhecido dos quais Antônio Conselheiro, que armou a sedição de Canudos, no século XIX, e urdia uma rebelião expressando seu sentimento de revolta contra “a república ateia”. Mas também teve um fim doloroso com seus fieis, o que pode ser conferido no livro clássico de Euclides da Cunha – “Os Sertões”.


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Por Manoel Hygino - 26/6/2019 08:37:47
A eleição em 2020

Manoel Hygino

O novo presidente do Tribunal Regional Eleitoral em Minas Gerais, empossado no dia 18, fez profissão de fé e exaltou a relevância da instituição. Lembrando a estrutura da Justiça Eleitoral, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima afirmou que: o modelo é bem sucedido desde sua criação em 1932. Usando a expressão futebolística, acrescentou: não se mexe em time que está ganhando.
Assim se comportará no exercício do cargo e das funções que lhe foram atribuídas. Deste modo também comporta para preparar as eleições de 2020, num dos momentos mais difíceis da história do país. Deste modo, dedicará especial atenção à cruciante problemática das “fake news”. O mundo virtual amplia a periculosidade da situação, e o exemplo mais evidente é o das acusações que se fazem ao ex-juiz Sérgio Moro, de contundente ação na operação “Lava Jato”, como registro eu.
Recordando “O veneno da madrugada”, do Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez, Garcia de Lima relata o caso dos panfletos anônimos, que circulavam de madrugada, atacando a reputação de autoridades, religiosos, casais e mais habitantes de uma cidade colombiana. Associando os fatos, conta que, como juiz eleitoral em cidades do interior mineiro, conheceu distribuição de panfletos semelhantes à véspera das eleições municipais. Porque difícil à época identificar seus autores, poder-se-ia classificar o ato de “crime perfeito”.
Para o pleito do ano que vem, sobre o qual ainda não se poderá seguramente antever acontecimentos, o presidente do TRE prometeu cumprir rigorosamente o que está definido em plano superior, para que o cidadão efetivamente participe do processo político-eleitoral.
Omitir não é boa recomendação para as pessoas de bem, sem o que se registraria o previsto por Platão: “o castigo daqueles que se recusam a ocupar-se das questões políticas é a queda das questões públicas nas mãos de gente menos virtuosa”, o que se verifica aqui e agora no Brasil, complemento eu o raciocínio.
O novo presidente do TRE adverte que a Constituição Federal de 1988, no artigo 37, caput, deve ser a bússola: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.
Assegurou que não admitirá desrespeito ao que está claramente definido: “aqueles eleitores, candidatos ou terceiros que desrespeitarem as regras deverão ser conduzidos às instituições de segurança”, não se admitindo “falta de respeito contra servidores honestos e dedicados”.
Enfatizando que os juízes eleitorais são os mesmos que atuam na justiça comum, garantiu que viabilizará o julgamento efetivo das ações penais que envolvem crimes comuns conexos com crimes eleitorais, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal, nos autos do inquérito nº 4435. Acentuou que seu compromisso é julgar em conformidade com a ordem jurídica e a verdade dos fatos. Concluiu: “Sou juiz integral. Tudo farei para jamais fracassar!” É o que o Brasil espera de todos os magistrados que trabalharão no pleito, tão importante para o tempo seguinte.


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Por Manoel Hygino - 25/6/2019 10:19:55
A despedida de Malheiros

Manoel Hygino

Um dia após o Corpus Christi, chegou a comunicação de que falecera Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza, querida personalidade dos meios intelectuais mineiros. Professor universitário de Teoria do Estado e de Direito Constitucional e membro da Academia Mineira de Letras, além de uma série de entidades. Faltaria lembrar, dentre outras, ter sido editor-adjunto da Del Rey, integrante da Academia de Letras Jurídicas e, ainda, do Grêmio Literário de Lisboa.

Residiu na capital portuguesa, onde a esposa fez curso de História e Arte na Fundação Gulbenkian. Lá, ele foi oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, condecoração especial da República Portuguesa e membro do Grêmio Literário de Lisboa, tradicional agremiação cultural fundada pela rainha Dona Maria II. Em 3 de novembro do ano passado, foi considerado cidadão português de origem – jus sanguinis, “sem deixar, é claro, de ser brasileiro em esperança”, como me disse.

Nascido em BH em 1937, honrava-se em ser também cidadão honorário de Dores do Indaiá, Boa Esperança, Pitangui e Ouro Preto, mas fazia questão de afirmar-se dorense. E confessou no seu livro “Dores de Indaiá, minha terra”, bela edição e que, se não me engano, foi seu último trabalho, publicado em vida. Justificava-se: “Minha terra? Por quê? Nasci em 1937, porém, pelo Direito Civil e pelo Direito Canônico, considero-me dorense, eis que fui concebido nessa singular terra do Oeste mineiro, numa bela noite do mês de maio de 1936. Aí fui registrado e inicialmente criado”.

Explicava seu amor pela cidade e pela gente de lá: “dorense é e sempre foi amante da natureza, da política e, sobretudo, da boa prosa. As serenatas das noites dorenses abalaram muitos corações femininos e, hoje, as músicas trepidantes de seus conjuntos abalam o corpo inteiro das moças moderninhas da cidade. Todos os dorenses são poetas: o folclore da cidade é repleto de quadrinhas cheias de beleza pura e ingênua”. “Em seguida, relaciona uma série das atrações locais que se tornam um chamariz para os turistas que querem conhecer a autenticidade de Minas.

Em tempos idos e vividos, jamais esquecidos, a viagem era pela Maria Fumaça. Depois de atravessar o rio São Francisco, ao cair da tarde, em meio à passagem bonita e agreste do cerrado, a locomotiva reunia todas as suas forças para levar os carros de passageiros e vagões de carga, para chegar, por volta das oito da noite, à querida cidade, onde os lençóis limpos e cheirosos esperavam. Muita e inesquecível saudade.

A esta altura, o confrade da Academia não deixa de evocar Guimarães Rosa, um desbravador que, a partir de Cordisburgo, descobre um pedaço do Brasil: “Minas – a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe. Sei, um pouco, sua fácies, a natureza física, vales escorregadios, os andantes belos rios, as linhas de cumeeiras, aeroplanície ou cimos profundamente altos, azuis que estão nos sonhos- a teoria dessa paisagem... Saberei que é muito Brasil, e ponto de dentro, Brasil conteúdo, a raiz do assunto. Soubesse-a mais”.

De uma pessoa que conhecera e tanto apreciara, escreveu Arnaldo Fiúza: “A notícia de sua morte deixa a mim, tenho certeza, triste com a sensação irreversível de um desfalque penoso em nossa legião terrena”. Podemos agora dizer do falecimento do belo-horizontino de Dores de Indaiá: Irá fazer muita falta para aqui também.

José Renato de Castro César, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, comentou: “Faleceu Ricardo Fiúza. Um gigante! Poeta, historiador, jurisconsulto. Um dos homens mais honrados que tivemos em Minas Gerais! Quem sou eu para declamar em sua honra? Apenas posso dizer da simplicidade com que me recebeu, e do carinho e do afeto que me dispensou quando eu sonhei ser eu... Como ele era... Tão sábio... Tão humilde, simples e intelectual. Calmo e sincero, escolhia palavras, media pensamentos e aconselhava...Hoje, já está no céu... Obrigado Deus por este homem tão bom. Que possamos seguir seus passos bem calma e lentamente!”


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Por Manoel Hygino - 24/6/2019 10:06:53
Rosa e o inverno

Manoel Hygino

Olhando para o céu como de costume, o jornalista de nossa cidade natal descobre segredos que temos receio de identificar. Mas quem sabe? Haveria prenúncio de chuva, talvez antecipada, a inquietação permanente dos que vivem no sertão mineiro. O redator de notícias e comentários medita: era para ter sol, mas o dia veio nublado. A temperatura máxima recua 2 graus e a mínima sobe 1 – é a previsão.

Realmente. O tempo está se comportando de maneira atípica neste outono. Os agricultores falam que não é bom sinal. Se era para começar a esfriar, e não esfriou, é mau presságio. Se o tempo fica nublado, em pleno junho, também não. Pode significar que as chuvas – pelas quais espera tanto o Sertão – podem se atrasar, ou até não terem a intensidade que todos esperam.

As perspectivas não são benévolas e levam a outras considerações a quem conhece o tempo. O fato é que maio não teve frio e trouxe nuvens no céu, o que não é muito comum, embora não seja exatamente incomum. Detalhe: além do dia nublado desde cedo, as nuvens rabos de galo, especiais mensageiras das chuvas, frequentaram os céus nos últimos dias. Dias de Júpiter no firmamento, risonho, translúcido, ostensivo – o supremo Deus dos Romanos. O povo da área técnica, como sempre, procura explicar tudo com duas palavras – El Niño, um personagem tão citado quanto pouco compreendido pelos nossos puros agricultores. Mas, existe Deus. Basta.

José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente e recursos hídricos, supervisor de estação climatológica e membro da Câmara Consultiva Regional do Alto São Francisco, dentre outros títulos, usa os dados de que dispõe para tirar conclusões. Todas as chuvas do quinto mês foram abaixo do previsto, esperado e necessário. E como será o inverno, a temporada de chuva na região norte-mineira, este ano? É bom preparar-se para o que vier, seja o que Deus quiser.

Os nascidos em Montes Claros, a maior e mais poderosa cidade da grande região, sabem dos problemas inúmeros dos longos períodos de seca, quando desciam do Nordeste levas e levas de pessoas, famílias inteiras que vinham de caminhão pelas estradas poeirentas, ou mesmo a pé em direção ao Sul. Fugindo da fome e das inclemências do sol que queima e arde.

Não poucas famílias se foram estabelecendo ao longo do caminho, em Minas, constituindo povoados que viraram cidades. E mais água exigiam. Em anos precedentes, a Copasa fez rodízio - maneira de racionalização ou racionamento no abastecimento a Montes Claros. Não apenas porque a população cresceu, mas porque a água que caiu das nuvens foi insuficiente para atender à demanda. E se insistiu contra o desperdício. O uso racional dos recursos hídricos englobou educação ambiental e a organização comunitária.

Assim é esta terra, esta gente, suas indecisões, suas certezas – do tempo, da política. Inspiro-me em Guimarães Rosa, no “Grande Sertão- Veredas”:
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza (...)

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”.


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Por Manoel Hygino - 22/6/2019 10:09:38
A nação quer saber

Manoel Hygino

Evidente que o Brasil tem de cobrar de outros países o débito que conosco têm. E não é pequeno. Na época em que nos julgávamos poderosos e sonhava nosso governo em manter hegemonia sobre as demais nações, foram altíssimos empréstimos que fizemos na América e África. O sonho acabou e, para mal dos pecados, estamos em situação hoje dificílima. É hora, pois, de solicitar a quitação. Não é favor algum, apenas e simplesmente o cumprimento de obrigação.

O ministro da economia, Paulo Guedes, fez um lembrete àqueles que nos devem. Há dias, em reunião restrita a deputados da Comissão de Agricultura da Câmara, ele se referiu ao problema, enfatizando que o Brasil ultrapassou R$1 trilhão, dos quais R$600 bilhões de calote já consolidado. Guedes foi objetivo: “Um cano de trilhão por conta de uma ideologia obsoleta”. Declarou, referindo-se ao socialismo falido, que levou a Venezuela à situação pré-guerra civil.

É oportuno e imprescindível repetir, nesta hora em que o BNDES se acha na berlinda. O banco mesmo revelou que, em abril, os governos da Venezuela, Cuba e Moçambique já acumulavam dívidas superiores a R$2 bilhões conosco. O dinheiro se destinava a financiar obras de infraestrutura de que nós carecemos e impeditivas à retomada do nosso crescimento. Não só os três países se beneficiaram da generosidade do governo brasileiro. Também Gana recebeu US$98 milhões e o Senegal US$95 milhões, através também do BNDES, embora o segundo país tenha sido perdoado na gestão Dilma Rousseff. Além disso, nos termos da modalidade Proex, estava destinado e deve ter sido liberado um crédito de R$215 milhões, isto é, em torno de US$98 milhões para compra de equipamentos agrícolas das indústrias brasileiras, a fim de beneficiar agricultores daquele país.

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, foi exonerado fragorosamente do cargo pelo chefe da nação, há pouco, por não divulgar a situação do Brasil com as nações beneficiadas. Agora, que já tem sucessor, é hora de se contar o caso, tintim por tintim, porque o dinheiro emprestado pelo Banco não lhe pertence, mas à nação, ao povo. Aliás, o advogado Aristóteles Atheniense, há muitos meses, advertia que “não se tem notícia de qualquer providência do Congresso que pudesse evitar tamanhos favorecimentos em empréstimos reconhecidamente impagáveis”.

A época é outra, outros são os dirigentes, chegou a hora de se cobrar dos devedores. Em verdade, o Brasil não sabe quanto concedeu em empréstimos às nações “amigas”. Cabe apurar e tentar receber, porque o dinheiro saiu das economias do país, dos altíssimos tributos pagos pelos brasileiros, que vivem presentemente uma das mais penosas fases de sua história.

Mesmo assim, não faltam piadas sobre a ilha dos Castros. Conta-se que, em Cuba, um menino retorna da escola faminto e pergunta: “Mamãe, o que vamos comer?” Ela responde: “Nada, filhinho”. A criança viu o papagaio da casa e questiona: “Nem papagaio com arroz, nem papagaio assado?” Seria só passar na churrasqueira elétrica, mas não havia eletricidade. Enfim, que tal papagaio frito? Mas tampouco havia óleo. O pássaro falante interferiu: “Viva Fidel! Viva Fidel!”.


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Por Manoel Hygino - 21/6/2019 08:37:01
O Partido único

Manoel Hygino

Alaor Barbosa, prestigiado escritor nascido em Morrinhos, GO, publicou há seis anos “Pensar e Viver”, estudos e opiniões sobre temas políticos e jurídicos. Altamente conceituado, mereceu elogios francos do crítico Wilson Martins, que afirmou tratar-se de “romancista da província de Goiás, onde nada do que é humano lhe será estranho”, acrescentando que ele é daqueles autores que ainda não receberam a atenção que merecem”.

Admirador de Guimarães Rosa, com ele manteve sucessivos encontros, escrevendo uma biografia do autor de “Grande Sertão- Veredas”, que lhe deu dores de cabeça, em face da oposição de Wilma, filha do romancista cordisburguense, que tentou impedi-lo na Justiça. A Academia Mineira de Letras o trouxe a Belo Horizonte, para – no Auditório Vivaldi Moreira – pronunciar excelente conferência, sobre Rosa e sua produção.

Em “Pensar e Viver”, Alaor focaliza com ênfase o partido único, dentro da prática que prevaleceu na Itália e Alemanha e que, parece até certo ponto, “uma consequência natural da adaptação fascista do pensamento soreliano”, na opinião de Afonso Arinos. Este recorda que, na Alemanha, foi o Partido Trabalhista Alemão, fundado em janeiro de 1919, com um programa militar fascista, que se transformou no Partido Nacional – Socialista, o partido nazista, o partido de Adolfo Hitler”.

Para Afonso Arinos, o partido único da revolução moderna, o comunista, foi concebido por influência do pensador Sorel. Com ele não concordando, contudo, Alaor Barbosa, chega a afirmar: “Por mais que haja sido o pensamento revolucionário da Europa, precisamente no período em que se desenvolviam os partidos revolucionários na Rússia e na Europa, a verdade é que a ideia de um partido único, vanguarda do proletariado e fator de transformação socialista da sociedade rumo ao comunismo, é inerente ao pensamento marxista”.

O escritor goiano não se sente suficientemente convencido. “Ficariam as perguntas: Como construir o socialismo? Como liquidar e exterminar a burguesia? Senão pela mão fortíssima e inexorável de um partido único e unido da forma mais monolítica possível, sem divisões e dissidências enfraquecedoras do partido e do poder e desviadores da direção para a grande meta final e o oceano largo do comunismo?”.

A questão estava posta e esquentou a cabeça de Karl Marx. Ao longo de sua tormentosa existência, empenhou-se, com todas suas forças, para formar e desenvolver um partido proletário, o partido da Revolução Comunista. Aliás, Barbosa observa que, antes até do “Manifesto Comunista”, em 1848, Marx se preocupava com a ideia de criar tal agremiação.

“Lutar afincadamente por constituí-lo foi uma das demonstrações dadas por Marx de que teoria e prática devem-se complementar reciprocamente, uma a outra. É o que ele denominou práxis. Fiel a esta ideia, Marx toda a vida foi um teórico militante e um militante teórico incansável. Suas ideias, teses e teorias foram engendradas em meio a lutas práticas, sob a motivação e necessidade de encontrar justificações e métodos para a sua ação prática. Em Marx, a teoria é filha da prática, e a prática uma aplicação da teoria”.

Assim sendo, pensando e agindo, concluiu que havia necessidade de um partido do proletariado. Um partido. Assim, procedeu bem antes de 1848, pregando e defendendo sua ideia, tornando-se o dirigente mais importante, como na fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores e quando fundou o Partido Socialista Operário Alemão. Uma agremiação que tivesse condições para opor-se a todas as formações partidárias das classes possuintes. Para Barbosa, o que Lenine fez foi retornar e continuar as ideias de Marx e Engels, o “centralismo democrático”, no qual as decisões tomadas pelo partido não podem mais ser questionadas.



84033
Por Manoel Hygino - 18/6/2019 11:12:02
A dependência química

Manoel Hygino

A incessante publicação, em manchetes enormes, de reportagens sobre estudos que se fizeram sobre o uso da maconha, deve excitar e estimular o seu consumo por estes Brasis afora. Se o assunto não fosse tão importante, não levaria cientistas a tão aprofundadas pesquisas por todo o mundo. Mas, por outro lado, devem mais estimular os jovens a prová-la. O que o experimentador deste hemisfério ignora é que os testes científicos se interessavam por propriedades psicoativas e medicinais. Há de se ficar atento porque o que ajuda também pode prejudicar.

O que se diz da maconha poderia ser dito de outras drogas. No caso do cigarro, por exemplo, estudo do Instituto Nacional de Câncer do Ministério da Saúde revelou que é preciso, isto sim, divulgar o problema com ênfase indispensável. Primeiramente, para que se saiba que a lei que instituiu ambientes 100% livres de fumaça do tabaco resultou, entre nós, na redução da mortalidade infantil, evitando 15 mil óbitos pela diminuição da exposição das crianças à substância. Lamentavelmente, porém, a fumaça nas residências persiste. Se o vício não continuasse em casa, outras milhares poderiam ter sido salvas. O Brasil se situa em 34º lugar entre 149 países pesquisados. Em resumo, estamos permitindo que nossos filhos sejam mortos.

Mas não apenas o tabaco. Quem assiste às reportagens por televisão fica terrivelmente impressionado com as dolorosas cenas de ruas nas cracolândias existentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. O pior é que o vício pode ser um mal sem remédio. No caso paulistano, sabe-se que 56% dos viciados internados desistiram do tratamento.

Na maior cidade do Brasil, no nosso mais rico Estado, dos cerca de 10 mil dependentes químicos que passaram por internação psiquiátrica custeada pela prefeitura, nos dois últimos anos, mais da metade abandonou o tratamento.

Segundo a Folha de São Paulo, em 11 de junho, 54% das internações são de dependentes químicos que retornaram aos hospitais psiquiátricos pouco tempo depois de voltar às ruas. Há poucas informações, porém, sobre o grupo restante, isto é, dos dependentes que, de fato, aderiram ao tratamento, ficando internados até alta médica e, depois, fizeram o acompanhamento ambulatorial com médicos e uso de remédios. São 3% do total das internações e nulas as informações sobre efetividade do programa, como o número de pessoas que conseguiram afastar-se efetivamente do vício ou retomaram à rotina.

Realmente, as normas mudaram para internações involuntárias. Concedeu-se prerrogativa a agentes públicos, e não mais apenas a familiares, o poder de encaminhar um dependente para hospital psiquiátrico, mesmo contra sua vontade. Não queremos seguir por aqui o que acontece no Canadá, que espera iniciar em dezembro a venda de alimentos com maconha, para evitar a venda ilegal desses produtos. Ficam proibidos aqueles que contenham a cannabis em doces e sorvetes, para não atrair as crianças.


84029
Por Manoel Hygino - 15/6/2019 09:14:06
Minas não se curva

Manoel Hygino

Humilhantes é o que se poderia dizer das condições estabelecidas pela União para Minas aderir ao regime de recuperação fiscal pretendida. Embora se diga que se trata apenas de recomendações de técnicos do Tesouro Federal, não se poderá deixar de convir que elas são deprimentes para uma das maiores unidades da Federação, que tem oferecido contribuição valiosíssima ao longo da história.

Embora o governo de Minas esteja alinhado às propostas a serem apresentadas, e após analisadas pelo Legislativo, é incontestável que nossa situação financeira é de penúria, como se pode aferir e conferir com o regime que aqui se vive. Com compromissos assumidos além de sua arrecadação, não resta dúvida de que remédios amargos terão de ser administrados ao paciente, como registram os próprios técnicos.

Segundo o Diagnóstico do Tesouro, Minas Gerais acumulou R$ 36,2 bilhões de déficit de 2014 a 2018. Somente a folha de pessoal aumentou R$ 13 bilhões em quatro anos. Mencionado relatório, aliás, acrescentou: “são preocupantes os fortes reajustes das remunerações das carreiras da segurança e educação; o pagamento do piso do magistério para professores com carga horária inferior a 40 horas; e as regras benéficas da previdência dos militares”, ainda não inteiramente satisfeitos com as remunerações.

Ter-se-á, contudo, de decidir e agir com o devido cuidado diante dos altos custos dos medicamentos previstos para o enfermo. No que concerne, por exemplo, à privatização da Cemig, cabe considerar aspectos históricos, como as de fundação da empresa. No governo do ínclito mineiro Milton Campos, o Plano de Recuperação Econômica e Fomento da Produção, embasado em minuciosos estudos do secretário Américo René Giannetti, da Agricultura, Indústria e Comércio, já considerava uma empresa energética indispensável para assegurar a Minas desenvolvimento nos anos seguintes, diante do estrangulamento da geração e transmissão. Com base nessa constatação, Juscelino estabeleceu o binômio – Energia e Transporte - para sua gestão, prevendo a criação da estatal que relevantes serviços prestou ao Estado. E presta.

A garantia de eletricidade capaz de promover o desenvolvimento de Minas Gerais, maior em dimensões geográficas e potencialidade do que numerosos países, resultou de inequívoca demonstração de obstinação. Foi uma causa defendida ardorosamente pelos governos que passaram pelo Palácio da Liberdade, e confirmadas por todas as mensagens do Executivo, de Afonso Pena a Magalhães Pinto.

Minas Gerais não seria presentemente o que é sem a energia da Cemig, exemplo para muitas grandes empresas, inclusive Furnas, Itaipu e Eletrobras. É insofismável que ninguém é arauto do retrocesso e estagnação. Há bens e causas, como as três estatais, que não podem ser simplesmente privatizadas por dívidas contraídas pelo próprio poder público. Condições de segurança desaconselham.

Para grandes territórios, grandes problemas, grandes desafios, que precisam ser encarados com superior grandeza. A hora é extremamente difícil e a terapêutica muito exigirá dos mineiros, que jamais se dobrarão às circunstâncias adversas.

Agora, como em tantas épocas, exige-se prudência nas decisões. Não é a primeira vez que o drama acontece em Minas. Em 1780, examinando a questão mineira, o desembargador José João Teixeira Coelho se expressou na famosa instrução para o governo da Capitania das Minas Gerais. Advertiu sobre a sua lastimosa situação econômica e social, que podia resumir-se em: desorganização econômica, ruína, indolência e pobreza. Não chegamos a esse ponto, mas a situação tem de ser enfrentada com toda a força de Minas posta à prova. Não poderá apenas simples e servilmente dobrar-se às circunstâncias adversas. Estes não são o feitio e a postura do Estado e de sua brava gente.


84028
Por Manoel Hygino - 14/6/2019 09:48:10
A segurança nacional
Manoel Hygino
O período eleitoral no interior de todo o Brasil é tempo de festa, com foguetório nos dias de comício, quando há fartos comes e bebes, a que não faltam também, às vezes, desavenças causadas repetidamente pelo excessivo apelo à aguardente. De todo esse espetáculo cívico (?), restam sempre lembranças alegres e amargas, que conseguem vencer os limites do tempo. Assim tem sido, assim será, a despeito da inserção da televisão nos costumes nas pequenas cidades, vilas e favelas.
A turbulência no pleito do próximo ano pode extrapolar. Nunca antes, jamais, em tempo algum, chegou-se a tamanha e tão delicada situação, suscitada por acusações e suspeições de toda procedência. As redes sociais ganharam espaço antes não vislumbrado e se registrou uma invasão imprevista de notícias falsas, que – entre nós – ficam mais chiques na tradução inglesa – fake news.
Há alguns anos, o quase conterrâneo José Luiz Rodrigues, professor de Matemática e Química na Escola Normal de Montes Claros e no Colégio São João, de Januária, fez proezas; fundou o primeiro cursinho e mais dois centros culturais na região e participou do encontro da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco. Após escrever o primeiro livro, logo se popularizou.
José Luiz decidiu reunir em um só volume três trabalhos já editados, acrescendo poesias não conhecidas. Uma das crônicas se refere ao período que viveremos: o eleitoral, em que os candidatos fazem a pregação em favor de seus candidatos, seus projetos e plataformas.
O escritor conta que, eleito vereador por Mocambo, Zé Funil, seu personagem, assumiu a tribuna, e num vozeirão de barítono, apresentou o projeto principal:
- Povo de minha terra, aqui estou para assegurar um direito que é de todos nós. Solicito e defendo uma quota de pelo menos dez por cento de analfabetos em nossa terra. É questão de segurança mundial.
Vaiado de pé, Zé Funil foi questionado pela oposição num aparte cheio de ironia: “Vossa Excelência perdeu o juízo? Explique-se!”
O orador pediu silêncio e, quando o público se acalmou, toda Mocambo ali representada ouviu um discurso recheado de lógica incontestável. É o seguinte, senhores, meus pares: O governo quer acabar com o analfabetismo. Isto é um perigo. E se tudo que ensinam nas escolas estiver errado? Escutem minhas razões: A medicina é estudada desde antes de Cristo. Mas não se consegue curar uma simples gripe. Existe um tal de micróbio que ninguém vê. Só os doutores. É exame disso e daquilo só pra comer o dinheiro da gente. As leis mudam tanto que a gente passa a desconfiar. Aquela lei de ontem tava errada? E a de amanhã vai consertar a lei de hoje?
Fez uma pausa, para descansar as cordas vocais, e voltou ao tema: E assim vai, assim vai indo, sem fim. A Matemática ensina que a estrada mais curta é uma reta. E sabemos que Deus escreve certo é por linhas tortas. E assim, senhores, se essas ciências todas estiverem erradas, é bom que a gente tenha uma reserva de analfabetos. Deste modo quando aparecer a verdade, todo mundo já estará contaminado. Por isso, proponho uma quota de dez por cento de analfabetos. Por medida de segurança.


84026
Por Manoel Hygino - 13/6/2019 09:15:37
Uma enrascada para Moro

Manoel Hygino

Interesses múltiplos interferem pesadamente no andamento de projetos em tramitação no Congresso Nacional e, consequentemente, repercutirão na vida do país: se não bastassem as idas e vindas de providências anunciadas ou decretadas pelo Executivo na gestão iniciada em janeiro. E o sétimo mês logo terá início, pondo em dúvida o ilustre eleitorado: É para valer? Ou não?

Em 22 de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça e Segurança Pública para o Ministério da Economia. A gestão passa de uma para outra importante área do governo. Ou seja, de Sérgio Moro para Paulo Guedes, nomes de grande evidência no cenário da administração, por motivos sabidos.

A transferência aprovada pela Câmara dos deputados mereceu mais de uma interpretação: derrota para o governo Bolsonaro, representando dupla vicissitude: para Moro, que nutria esperança de mencionado Conselho permanecer em sua pasta e, para o colégio eleitoral do país, que confiava mantê-la no ministro/ex-juiz, uma espécie de guardião contra falcatruas e corrupção.

Verdade que a ida do Coaf ainda teria de passar pelo crivo do Senado Federal, mas as mesmas razões que totalizaram 228 votos da Câmara prevaleceram entre os senadores. Isso equivaleu a uma segunda derrota do Executivo e nova decepção e desesperança para aqueles que adivinham o que estaria por detrás dos números.

Até agora, porém, a maioria do povo não percebeu o sentido da manobra de alguns de nossos representantes no Congresso. Caso soubesse, talvez programasse passeatas contra a corrupção e a armação urdida para mudança do Coaf.

O momento é muito mais crítico do que parece, deles se ressentindo os brasileiros de modo geral, mais perdidos do que cegos em tiroteio. Como escapar, eis a questão. Chama a atenção a posição a que foi lançado Sérgio Moro, juiz-símbolo da Lava-Jato, num “sistema centenário lubrificado a dinheiro público e relações de compadrio”, na expressão correta de Antônio Machado.

Moro se transformou? A articulista Cora Rónai, no último dia 15, em O Globo, registrou: “Dizem que o brasileiro precisa ser estudado. Quando isso acontecer, sugiro começar por Sérgio Moro, que encarnou todas as promessas de um novo tempo, mas preferiu trocar a sua independência e o seu bom nome por um carguinho em Brasília. Seria uma história como tantas outras se não tivesse elementos políticos explosivos, não se misturasse com o destino do país e não comprovasse, mais uma vez, que não existem salvadores da Pátria.

No final do ano passado, quando aceitou o Ministério da Justiça, Moro era maior do que Bolsonaro. Moro era um herói, Bolsonaro era apenas o candidato eleito na falta de um nome pior. Para parte da população que estava apreensiva com o novo governo, Moro era o avalista moral da nova administração, a garantia de continuidade da Lava Jato e de respeito à Constituição.

Agora, nem seis meses passados, ele encolheu como uma camisa que nunca deveria ter sido lavada na máquina. “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos muito bem”, dizia o Millôr.

Conhecíamos o juiz Moro, o que bastava: o seu trabalho, a sua coragem, as suas sentenças, as suas camisas pretas cafonas, a inicial aversão a entrevistas. Raramente, tivemos, no Brasil, um juiz que, como ele, peitasse os grandes e os mandasse para a cadeia”.

Não sem razão, o jornalista Leandro Manzzini afirmou após a polêmica conversa telefônica entre Moro e Dallagnol, que tanta celeuma tem causado à nação: “A fragilidade de Sérgio Moro é tudo o que a criminalidade queria. Lula da Silva, com todas as provas contra ele, sai de inocente; os bandidos do Congresso travam o pacote anticrime do ministro; os bandidos da Lava Jato ganham fôlego e argumentos para deixar o então juiz sob suspeição; e o caso ameaça tirar Sérgio Moro do STF – onde uma turma de togados adora censurar e perseguir jornalistas”.



84024
Por Manoel Hygino - 12/6/2019 08:28:52
Jesus: Um julgamento político

Manoel Hygino

“Jesus” é o título do livro de Rodrigo Alvarez, tido pela editora Leya como o autor laico que mais vende livros de temática religiosa no Brasil. Levado a Pilatos, estava um homem machucado, extremamente cansado, que provavelmente passara a noite sem dormir, rezando e refletindo sobre as consequências do julgamento, tão apressado quanto injusto e agora tendo que responder à ironia do prefeito: “É você o rei dos judeus ?”.

Pedro Rogério Moreira, meu confrade na AML (filho de Vivaldi, presidente perpétuo da Academia, sobrinho, pois, do poeta Édson Moreira, cujo centenário ora celebramos), intervém em seu “O livro de curiosidades da Bíblia,” afirmando ter sido um julgamento político, o de Jesus Cristo. Explica: “O Sinédrio, misto de tribunal religioso e civil, composto da nobreza da nação judaica, condenou Jesus à morte. Mas não tinha a autoridade de matar. Por este motivo, o Sinédrio encaminhou o condenado ao representante de Roma em Jerusalém, Pôncio Pilatos.

Deu-se, então, a segunda fase do processo, diante do tribunal civil romano, o Pretório. Pilatos não se convenceu da culpa de Jesus e o enviou à presença de Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia, a mais alta autoridade civil judaica. Nem mesmo Antipas, que mandara matar João Batista, viu culpa em Jesus. E o enviou de volta a Pilatos. Mesmo sem convicção jurídica e moral, o representante de Roma acabou fraquejando por medo político, e referendou a sentença imoral, reclamada aos berros pelo populacho arregimentado pelo Sinédrio (João18, 13-27 e 19.1-13 e ‘Vida de Cristo’, de Ricciotti)”.

O rabino Rami M. Shapiro, presidente do Centro Metivta de Judaísmo Contemporâneo, em Los Angeles, provido de uma série de títulos de relevo, não foge a indagações: “Crê que Jesus foi crucificado pelos romanos? “Sim. Jesus atraía grandes multidões, e estas deixavam os romanos nervosos. Eles eram o exército de ocupação e muito odiados pelos judeus. Sempre havia a possibilidade de uma multidão se rebelar.

Crê que as autoridades judaicas fizeram um acordo com Pilatos para acabar com a ameaça de violência que a atração de multidões por Jesus representava? “Sim. A fim de manter a integridade do Templo, os sacerdotes tiveram de fazer um acordo com Roma. Acho que a motivação da liderança judaica era política e não teológica, ao contrário do que alegam os Evangelhos. A Palestina do Século I estava repleta de candidatos a Messias, e Jesus teria sido visto como apenas um outro numa longa linhagem de representantes ao trono de Davi.

O que lhes causava preocupação era a ameaça que Jesus representava para a sobrevivência nacional. Crê que o povo judeu rejeitou Jesus e trocou sua vida pela de Barrabás? “De modo nenhum. Em primeiro lugar, a lei e os costumes romanos não permitiam a libertação de um criminoso.... A história foi deliberadamente invertida a fim de passar a culpa pela morte de Jesus dos romanos para os judeus, e com isso facilitar a propagação do cristianismo entre os romanos”.



84022
Por Manoel Hygino - 11/6/2019 11:53:00
São João no TRE

Manoel Hygino

Nascido em São João del-Rei, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima assume a presidência do Tribunal Regional Eleitoral em Minas no próximo dia 18 e pretende desenvolver um programa intensivo para cumprir os deveres antigos e os mais recentes: que os processos de crimes comuns, conexos com crimes eleitorais, sejam julgados pela Justiça Eleitoral. Ou seja: o trabalho já está em pleno desenvolvimento. “Nós já estamos recebendo alguns processos, aqui em Minas, os outros Estados também, e precisamos dar efetividade à decisão do Supremo Tribunal Federal”.
A disposição para o trabalho vem de longe, mas não lhe tolhe o humor. Começou a carreira na comarca de Bonfim, mas foi um bom começo, passando pelas de Montes Claros e Visconde do Rio Branco, logo promovido por merecimento a Belo Horizonte. Depois, ei-lo desembargador do TJ de Minas e, sem sofrer solução de continuidade, ascende a outros relevantes cargos e altos misteres, até empossar-se como vice-presidente do TRE de Minas e Corregedor Regional Eleitoral.
Tudo isso, diga-se, sem deixar de exercer o magistério em duas prestigiosas faculdades de Direito, como professor universitário, ou em cursos de graduação e pós. Sem falar, ainda, na elaboração de livros jurídicos e monografias ou participação em numerosos cursos, congressos e seminários de avaliação de teses de doutorado e dissertação de mestrado.
Não pestaneja sobre as fake news: “Evidentemente, a conclusão inevitável é a de que as fake news são um mal que acompanham a proliferação das redes sociais. Não há como eliminá-las totalmente; o importante é aprendermos a conviver com elas e diminuir o seu impacto”.
“A gente fica muito esperançoso, porque a recente experiência foi traumática, mas nos ensinou muito. E, nesse ponto, devo destacar o papel muito importante da imprensa e de entidades da sociedade civil, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na contrainformação, que é a verdade. E que os próprios partidos políticos e candidatos entre si promovam esse debate no mais alto nível”.
Ao regressar de viagem pela América do Sul, declarou: “proferi hoje minha palestra em Cali, Colômbia. Falei de improviso e resumi o texto que preparei e será publicado pela Universidad Libre. O público entendeu o meu surrado portunhol; e ainda me pediu para falar meia hora além do tempo regulamentar sobre o Poder Judiciário. Desmistifiquei certas pregações contra determinadas decisões da justiça brasileira. Aplaudiram-me. Que bom ter conseguido esclarecer! Ao final recebi efusivo cumprimento do amigo e coordenador professor Jaime Angel. Grato aos colombianos”.
Na Argentina, foi também autêntico: “Amigos. Entrei naquela do verso de Manuel Bandeira: O único jeito é tocar um tango argentino. Fui à tradicional casa de show de tango” El viejo almacén”. Onde los Hermanos argentinos vão. Tango clássico. Tomei um honesto vinho Mendoza. Como praxe, chorei quando ouvi” Por una cabeza”, de Carlos Gardel; e” Adios Nonino”, de Astor Piazzola. Haja vinho para consolar as emoções... ou como se diz em Minas: eta ferro!”


84011
Por Manoel Hygino - 5/6/2019 18:11:26
Os caminhos do pescador

Manoel Hygino

Junho, sexto mês do ano, é o das festas que movimentam todo o interior brasileiro, herança lusitana. Joaquim Cabral Neto, mineiro, advogado, com uma série de títulos na carreira, incluindo a presidência da Associação Mineira do Ministério Público e da Confederação Nacional, professor de Direito Penal da PUCMG por mais de 25 anos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, decidiu prestar reverência a Pedro, apóstolo de Cristo, e o fez, este ano, publicando “Pelos caminhos do pescador”. E o fez em um livro de quase quatrocentas páginas.
O autor confessa que sempre imaginou Pedro como “o mais humano dos Apóstolos, em quem encerravam todas as virtudes e fraquezas do homem: vaidade, animação, medo, desprendimento, fé, amor, alegria, fingimento, arrogância, coragem, bazófia, confiança e covardia. Pobre, estouvado, trabalhador, honesto, bom pai de família e temente a Deus, era a imagem do homem comum. Talvez seja por isso que eu tenha encantado com ele! Sem nenhuma característica especial que o destacasse dos demais tornou-se um líder. Isso é que o diferenciava de Paulo – um renovador extremista – e de Thiago, o justo – um conservador empedernido”.
Descrever um homem assim não foi missão fácil para o magistrado, mas conseguiu fazê-lo com todo mérito, embora o seu livro não se tenha restringido ao apóstolo de mais de dois mil anos atrás. Joaquim Cabral reconstrói, em pormenores, os anos vividos por Pedro, um judeu simples que se meteu numa enrascada ao lado de Jesus para chegar também ao martírio em nome de uma causa.
Mas o autor não se cinge ao lado humano de Pedro e de seus companheiros de aventura, acompanhando Jesus. Aprende-se muito, porque Cabral nos leva a conhecer as estradas percorridas para difundir a Boa Nova, a crença num Deus eterno e supremo, cuja imagem não pode ser reproduzida e que não há de perecer. Um pormenor: A mensagem, atraente: Todos iguais! Ricos, pobres, escravos, romanos, gregos ou judeus, letrados, incultos, agricultores e comerciantes. Todos recebidos pelos Nazarenos, que os tratavam com igualdade, porque o seu Deus tinha a todos como filhos.
Mas, como foi o desempenho dos Apóstolos dos primeiros tempos, se o líder fora sacrificado no Gólgota? Onde se reuniam, como se comportavam, quem os acudia, onde se localizava o seu trabalho? O autor procura oferecer respostas a todos os quesitos, e o faz em amplitude e profundidade.
Admira a constatação de que uma religião, que surgiu numa remota província romana, ao cabo de relativamente poucos anos, expandia-se tão rapidamente, examinando-se os fatores que colaboraram para a transformação. A partir de um pequeno grupo judeu, o movimento adquiriu maiores proporções dentro do Império, primeiramente nas províncias orientais de língua grega e, em seguida, nas províncias romanas ocidentais ao longo da Europa mediterrânea. O cristianismo era, então, um fenômeno urbano, desenvolvendo-se especialmente nas cidades costeiras do Mediterrâneo.
Cabral alerta que a língua grega, na qual os textos cristãos foram originalmente escritos ou traduzidos – era, na verdade o Coiné, um dialeto falado pelo povo nas regiões helenizadas do Oriente. Deste modo, se Paulo não houvesse escrito suas Epístolas em grego e os textos da Boa Nova não tivessem sido traduzidos para aquela língua, poucos teriam sido convertidos entre os não-judeus de língua grega, e o cristianismo dificilmente se teria tornado um religião mundial no decurso de três séculos.
A difusão da mensagem cristã, por muitos anos, se fez através do grego, e não só aramaico ou do hebraico. Os judeus, já no século IV a.C., estudavam o antigo Testamento na chamada tradução dos setenta (Septuaginta) elaborada em Alexandria por sábios da diáspora. É o que o livro de Cabral conta, em linguagem acessível, e ensinando muito, o que justifica sua leitura.


84007
Por Manoel Hygino - 4/6/2019 17:50:53
São Miguel em ação

Manoel Hygino

Não é do meu feitio usar o cotidiano espaço para referir-me a assuntos que, de algum modo, me dizem respeito. No entanto, não posso omitir-me. No dia dos 120 anos de fundação da Santa Casa de Belo Horizonte, fomos honrosamente homenageados: o conceituado médico Odilon Lobato, a família de José Maria Alkmim e eu, com a medalha Aloysio Faria (belíssima por sinal), em ato presidido pelo provedor da instituição, Saulo Levindo Coelho.
Na capela, repleta, contemplava-se a imagem de São Miguel, supostamente de tamanho natural, parecendo que dele se esperava uma ajudazinha extra à padroeira Nossa Senhora do Carmo no amparo à entidade centenária e aos que dela dependem nas carências e nos infortúnios. Ficou a dúvida: por que?
Em verdade, precisaria retroagir no tempo. A instituição (fundada em 1899) na hoje Praça Hugo Werneck (antes,15 de Novembro) fez funcionar o primeiro hospital da capital mineira, e integra uma legião de misericórdias existentes no Brasil. Inicialmente, aqui a protetora era só Nossa Senhora do Carmo, como proposto por um dos pioneiros – o cel. Emydio Germano.
Ocorre que, antes das Santas Casas, outras associações beneméritas já marcavam presença na assistência aos mineiros, tornando-se credoras da gratidão e veneração dos que recebiam seu amparo. Basta conferir o que o historiador Caio C. Boschi, nosso confrade na Academia Mineira de Letras, registrou em Saparata da Revista de Ciências Históricas XI, Universidade Portucalense, em 1996: “A destacar, também, o fato de que, em Minas Gerais, as Santas Casas surgiram muito tardiamente. Por isso, na sua ausência, ou mesmo como fator inibidor ou neutralizador ao seu advento, é que determinadas irmandades, como as da invocação do Santíssimo Sacramento, de São Miguel e Almas e das Almas, especialmente estas últimas”, passaram a formular determinadas reivindicações ou, de algum modo, impô-las.
Em resumo, como chegaram primeiro, ficaram as funções assistenciais a cargo dos Senadores das Câmaras e das associações legais. No interior das gerais, os habitantes da região encontraram ajuda espiritual e material. Com isso, ainda que pareça paradoxo, indiretamente essas agremiações atendiam aos interesses do Estado, na medida em que lhes transferia o encargo de certas obrigações essenciais ao convívio social, particularmente aquelas relativas ao assistencialismo, onde não existissem as misericórdias.
Entre os privilégios de certas associações, estava assegurar o enterro de seus associados ou fiéis. A atitude diante da morte era uma das preocupações dominantes. “Participar de uma ou mais irmandades tornava-se condição de vida e morte para o habitante das Minas”, sendo importante e necessário ser “irmão” de uma irmandade. Vê-se que aqueles sodalícios tinham prestígio e poder, até religioso ou quase. Com razão José da Paz Lopes observou que “era importante e necessário ser irmão”.
A festa litúrgica de São Miguel é em 29 de setembro e, no Apocalipse, lidera os exércitos de Deus contra as forças de Satã e seus aliados. Em Epístola, Miguel é citado especificamente como arcanjo. Convém lembrar que ele é venerado tanto pelo cristianismo como pelo judaísmo e padroeiro da Igreja Católica Apostólica Romana.
Apurei, no Google, que os santuários cristãos em honra a Miguel começaram a aparecer no século IV, quando era considerado um anjo de cura e, com o tempo, protetor e líder do exército de Deus contra as forças do mal. No século VI, a devoção a São Miguel já se havia disseminado tanto no Oriente como no Ocidente. Assim, São Miguel não concorre com a Senhora do Carmo: até acrescenta.


84008
Por Manoel Hygino - 4/6/2019 17:49:55
Moro na berlinda

Manoel Hygino

Interesses múltiplos interferem pesadamente no andamento de projetos em tramitação no Congresso Nacional e, consequentemente, repercutirão na vida do país: se não bastassem as idas e vindas de providências anunciadas ou decretadas pelo Executivo na gestão iniciada em janeiro. E o sexto mês logo terá início, pondo em dúvida o ilustre eleitorado: É para valer? Ou não?
No dia 22 de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a transferência do COAF do Ministério da Justiça e Segurança Pública para o Ministério da Economia. A gestão passa de uma para outra importante área do governo. Ou seja, de Sérgio Moro para Paulo Guedes, nomes de grande evidência no cenário da administração, por motivos sabidos.
De um modo geral, a transferência aprovada pela Câmara dos deputados mereceu mais de uma interpretação: derrota para o governo Bolsonaro, representando dupla vicissitude: para Moro, que nutria esperança de mencionado Conselho permanecer em sua pasta e, para o colégio eleitoral do país, que confiava mantê-la no ministro/ex-juiz, uma espécie de guardião contra falcatruas e corrupção.
Verdade que a ida do Conselho de Controle de Atividades Financeiras ainda teria de passar pelo crivo do Senado Federal, mas as mesmas razões que totalizaram 228 votos da Câmara prevaleceram entre os senadores. Isso equivaleu a uma segunda derrota do Executivo e nova decepção e desesperança para aqueles que adivinham o que estaria por detrás dos números.
Até agora, porém, a maioria do povo não percebeu o sentido da manobra de alguns de nossos representantes no Congresso. Caso soubesse, talvez programasse passeatas contra a corrupção e a armação urdida para mudança do COAF.
O momento é muito mais crítico do que parece, deles se ressentindo os brasileiros de modo geral, mais perdidos do que cegos em tiroteio. Como escapar, eis a questão. Chama a atenção a posição a que foi lançado Sérgio Moro, juiz-símbolo da Lava-Jato, num “sistema centenário lubrificado a dinheiro público e relações de compadrio”, na expressão correta de Antônio Machado.
Moro se transformou? A articulista Cora Rónai, no último dia 15, em O Globo, registrou: “Dizem que o brasileiro precisa ser estudado. Quando isso acontecer, sugiro começar por Sérgio Moro, que encarnou todas as promessas de um novo tempo mas preferiu trocar a sua independência e o seu bom nome por um carguinho em Brasília. Seria uma história como tantas outras se não tivesse elementos políticos explosivos, não se misturasse com o destino do país e não comprovasse, mais uma vez, que não existem salvadores da Pátria.
No final do ano passado, quando aceitou o Ministério da Justiça, Moro era maior do que Bolsonaro. Moro era um herói, Bolsonaro era apenas o candidato eleito na falta de um nome pior. Para parte da população que estava apreensiva com o novo governo, Moro era o avalista moral da nova administração, a garantia de continuidade da Lava Jato e de respeito à Constituição.
Agora, nem seis meses passados, ele encolheu como uma camisa que nunca deveria ter sido lavada na máquina.
“Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos muito bem”, dizia o Millôr.
Conhecíamos o Juiz Moro o que bastava: o seu trabalho, a sua coragem, as suas sentenças, as suas camisas pretas cafonas, a inicial aversão a entrevistas. Raramente tivemos, no Brasil, um juiz que, como ele, peitasse os grandes e os mandasse para a cadeia.
O Juiz Moro virou símbolo do que queríamos para o país: um homem ainda jovem, discreto, que não devia satisfações a ninguém, dedicado ao trabalho e a construir um Brasil melhor.” Concluiu Cora: “Errei na mosca”.



84002
Por Manoel Hygino - 1/6/2019 10:25:35
Os punhais nas togas

Manoel Hygino

O apreço pelo latim começava nos cursos médios. Os austeros professores de língua portuguesa, muitos dos quais tinham passado pelos seminários ou pelo Caraça, faziam questão de lembrar as raízes da língua de Camões e Alexandre Herculano. Foi assim comigo, aluno de José Mesquita de Carvalho, nascido em Mariana, o que me ajudou muito no vestibular para ingresso no curso de direito. Lá, fui encontrar o professor Antônio Augusto de Melo Cançado, que era de Pará de Minas, mestre no direito romano e apaixonado pela língua de Cícero.

No Brasil, em tempo no qual não se ensinava direito romano, constava de currículo universitário na União Soviética. Daí, a junção de interesses históricos inesgotáveis sobre Roma, sua língua, as que dela descendem e por vultos permanentes que a fizeram ferramenta para seus desígnios.

Daí se sentirem as razões que levaram Napoleão Valadares a publicar “Frases da História”. Embora o título seja de “frases”, tem-se muito mais no volume editado este ano e que revela outras faces de Napoleão, nascido em Arinos, no Noroeste mineiro. Formado em direito pela UnB, se valeu do latim em importantes cargos públicos e em outros livros.

Nos seus deveres escolares, em especial os universitários, Napoleão foi recolhendo informações e afirmações que mereciam ser preservadas, fundamentando seu mais recente trabalho, valioso em época de menosprezo pela própria língua. As frases recolhidas pelo escritor de Arinos recordará o aprendido em outros estudiosos, inclusive que “Roma deve sua origem a Eneias”, imigrante de Tróia e que Rômulo e Remo, seus netos ou descendentes remotos, foram os fundadores de Roma, como Michael Rostovtzeff consignou.

Valendo-se de frases de Oliveira Martins, Suetônio, Allan Massie, Michael Rostovtzeff, Tom Holland e Barry Strauss, Napoleão Valadares resgata os dias e horas finais da vida de César:

Cássio já tinha pensado em assassinar César nas margens do Cidno, enquanto andava pela Ásia Menor. Trebônio estivera a ponto de o assassinar também em Narbona, quando da última expedição na Espanha. Décimo Bruto o exortava a não faltar à palavra empenhada aos senadores, que se achavam reunidos e o esperavam desde muito. Os conspiradores não o haviam escolhido (Cícero) para fazer parte do complô.

Nos idos (ou 15 de março) do ano 44 a.C, César foi assassinado numa reunião do Senado por um grupo de conspiradores, dos quais Marco e Décimo Bruto e Cássio eram os líderes. Trebônio conversava dissimuladamente com Antônio, apoiava-lhe as queixas contra César, espiando com o olhar inquieto os movimentos da ação.

Eram cerca de 60 os homens que o cercaram. Todos haviam puxado punhais de dentro de suas togas. Todos eram conhecidos de César. Casca, por trás de César, ergueu o braço e vibrou-lhe um golpe à nuca – como se faz no matadouro aos bois. O punhal escorregou porque o braço tremia, e foi cair no ombro, ferindo-o levemente. Um dos Cássios feriu-o pelas costas, um pouco abaixo do pescoço. Cassius tentou aplicar um segundo golpe, mas terminou por atingir Brutus em uma das mãos; Minucius Basilus errou seu golpe tendo atingido Rubrius em uma das coxas. Vários conjurados também se feriram ao infligir tantos golpes a um só corpo.

De todo modo, César não resistiu ao atentado, como a história e a maioria que frequenta os bancos escolares sabem. O assassinato do grande líder é uma das páginas negras da história, de que se valeu Shakespeare genialmente. Mas, para Michael Parenti, os autores da morte logo se deram conta de que o populacho não os adotaria como heróis. Nenhum sobreviveu por mais de três anos depois de sua morte e nenhum de causa natural.


84000
Por Manoel Hygino - 31/5/2019 07:47:08
Os punhais nas togas

Manoel Hygino

O apreço pelo latim começava nos cursos médios. Os austeros professores de língua portuguesa, muitos dos quais tinham passado pelos seminários ou pelo Caraça, faziam questão de lembrar as raízes da língua de Camões e Alexandre Herculano. Foi assim comigo, aluno de José Mesquita de Carvalho, nascido em Mariana, o que me ajudou muito no vestibular para ingresso no curso de direito. Lá, fui encontrar o professor Antônio Augusto de Melo Cançado, que era de Pará de Minas, mestre no direito romano e apaixonado pela língua de Cícero.

No Brasil, em tempo no qual não se ensinava direito romano, constava de currículo universitário na União Soviética. Daí, a junção de interesses históricos inesgotáveis sobre Roma, sua língua, as que dela descendem e por vultos permanentes que a fizeram ferramenta para seus desígnios.

Daí se sentirem as razões que levaram Napoleão Valadares a publicar “Frases da História”. Embora o título seja de “frases”, tem-se muito mais no volume editado este ano e que revela outras faces de Napoleão, nascido em Arinos, no Noroeste mineiro. Formado em direito pela UnB, se valeu do latim em importantes cargos públicos e em outros livros.

Nos seus deveres escolares, em especial os universitários, Napoleão foi recolhendo informações e afirmações que mereciam ser preservadas, fundamentando seu mais recente trabalho, valioso em época de menosprezo pela própria língua. As frases recolhidas pelo escritor de Arinos recordará o aprendido em outros estudiosos, inclusive que “Roma deve sua origem a Eneias”, imigrante de Tróia e que Rômulo e Remo, seus netos ou descendentes remotos, foram os fundadores de Roma, como Michael Rostovtzeff consignou.

Valendo-se de frases de Oliveira Martins, Suetônio, Allan Massie, Michael Rostovtzeff, Tom Holland e Barry Strauss, Napoleão Valadares resgata os dias e horas finais da vida de César:

Cássio já tinha pensado em assassinar César nas margens do Cidno, enquanto andava pela Ásia Menor. Trebônio estivera a ponto de o assassinar também em Narbona, quando da última expedição na Espanha. Décimo Bruto o exortava a não faltar à palavra empenhada aos senadores, que se achavam reunidos e o esperavam desde muito. Os conspiradores não o haviam escolhido (Cícero) para fazer parte do complô.

Nos idos (ou 15 de março) do ano 44 a.C, César foi assassinado numa reunião do Senado por um grupo de conspiradores, dos quais Marco e Décimo Bruto e Cássio eram os líderes. Trebônio conversava dissimuladamente com Antônio, apoiava-lhe as queixas contra César, espiando com o olhar inquieto os movimentos da ação.

Eram cerca de 60 os homens que o cercaram. Todos haviam puxado punhais de dentro de suas togas. Todos eram conhecidos de César. Casca, por trás de César, ergueu o braço e vibrou-lhe um golpe à nuca – como se faz no matadouro aos bois. O punhal escorregou porque o braço tremia, e foi cair no ombro, ferindo-o levemente. Um dos Cássios feriu-o pelas costas, um pouco abaixo do pescoço. Cassius tentou aplicar um segundo golpe, mas terminou por atingir Brutus em uma das mãos; Minucius Basilus errou seu golpe tendo atingido Rubrius em uma das coxas. Vários conjurados também se feriram ao infligir tantos golpes a um só corpo.

De todo modo, César não resistiu ao atentado, como a história e a maioria que frequenta os bancos escolares sabem. O assassinato do grande líder é uma das páginas negras da história, de que se valeu Shakespeare genialmente. Mas, para Michael Parenti, os autores da morte logo se deram conta de que o populacho não os adotaria como heróis. Nenhum sobreviveu por mais de três anos depois de sua morte e nenhum de causa natural.



83993
Por Manoel Hygino - 28/5/2019 09:24:23
Trabalho e inadimplência

Manoel Hygino

As televisões e rádios no último sábado, referendadas pelos jornais do dia seguinte, davam uma boa notícia: o saldo de vagas formais no mercado de trabalho no país em abril, fora o melhor desde 2013. Haviam sido criados 129,6 mil postos, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged. Em compensação, o salário médio caiu.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 13,4 milhões de desempregados, como publicado em 25 de maio. No dia 16, o próprio Instituto mostrava que 5,2 milhões de desempregados procuravam emprego há mais de um ano, representando 38,9% do total.
Os pormenores viriam em seguida: desse número de pessoas na fila do desemprego, 3,3 milhões (24,8%) estavam desocupadas há doi anos ou mais, uma alta de 9,8% na comparação do primeiro trimestre de 2018. Ainda segundo o IBGE, 6 milhões de pessoas (45,4%) buscavam um emprego há mais de um mês e a menos de um ano, e 2,1 milhões estavam na fila do desemprego há menos de um mês.
A taxa média de desemprego no país no primeiro trimestre subiu para 12,7%, atingindo 13,4 milhões de pessoas. Trata-se do maior índice de desocupação desde o trimestre terminado em maio de 2019.
Os números e percentuais explicavam as demais notícias: a inadimplência crescera 2% em abril na comparação com o mesmo período do ano passado, como informaram a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). O número indicava que a inadimplência seguirá a desaceleração iniciada em novembro passado, quando a variação fora de 6%. Ainda assim, o Brasil encerrou abril com cerca de 62,6 milhões de inadimplentes – o que equivale a mais de 40% da população adulta.
O volume de dívidas em nome de pessoas físicas caiu 1,23% em abril, em comparação com o mesmo período do ano passado. É o quarto mês seguido de recuo no indicador de inadimplência. A maior parte das pendências (52%) está ligada aos bancos. Em seguida aparecem os segmentos do comércio (17%), de comunicações (12%) e de água e luz (10%). O maior índice de inadimplentes tem entre 30 e 39 anos.
Em princípio, o brasileiro não está tomando consciência de seus deveres, tem medo. Se não quitar seus débitos, o cidadão pode até ficar sem luz e água, porque seu crédito já arruinou. Trabalho é imprescindível e urgente. Aliás, a Fundação Perseu Abramo, há poucos dias, comentou:
“Quando da tramitação da reforma trabalhista, o governo afirmou com todas as letras que, se aprovada fosse, geraria seis milhões de empregos. A realidade é que, um ano depois, o país está precarizando cada vez mais seu mercado de trabalho, pois a reforma não foi capaz de fazer o país retomar o crescimento econômico. E, com um mercado de trabalho cada vez mais precarizado, não há quem consuma”.
Pessoalmente, não creio que as simples manifestações em favor do governo federal, como se viu no domingo, irão resolver o problema, que já é crucial. Exigem-se outras saídas. Chegou a hora de um esforço nacional, de todos os setores e cidadãos para vencer a crise (palavrinha terrível de apenas cinco letras), que não dá sossego a cada brasileiro e à população em geral. A aflição já bate às portas de inúmeros lares e nossos males não se resumem às ameaçadas barragens da Vale do Rio Doce, principalmente em Minas Gerais.


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Por Manoel Hygino - 27/5/2019 09:18:36
Sarney analisa a hora

Manoel Hygino

Dos ex-presidentes da República, um dos mais falantes e soltos é, sem dúvida, José Sarney, que – no ano vindouro – completa 90 anos, uma idade respeitável. Ainda na ativa, concedeu entrevista a um jornal de Brasília com duração de mais de quatro horas. Respondeu a todas as perguntas, mesmo as mais indiscretas, como as sobre o atual ocupante do Palácio do Planalto. Começou: “pela primeira vez, estamos num momento que é imprevisível. Fratura no Judiciário, no Legislativo e no Executivo. Todas estas estruturas estão trincadas”.

Mais adiante, respondeu a outra pergunta: “o presidente Bolsonaro está no meio de um furacão. A crise internacional de recessão catalisou a crise brasileira. Estamos em um momento da história mundial em que presenciamos não um mundo de transformação, mas um mundo transformado. Temos que lidar com o choque das civilizações, o fim da civilização industrial, o começo da civilização e das comunicações digitais.

Temos que lidar com a pós-verdade, com uma sociedade líquida, como bem fixou Zygmunt Bauman. Temos que compreender que estamos, no Brasil, muito atrasados para enfrentar essa crise que o mundo está vivendo. Então, o presidente Bolsonaro está tendo que enfrentar esses problemas, todos mundiais. Era o momento de nós termos um presidente que tivesse uma visão de todas essas modificações que vive o mundo, para poder enfrentá-las”.

O ex-presidente é cáustico com relação ao presente e ao futuro. Quando se lhe perguntou se a oposição tem agido corretamente, ele foi direto e reto: “não há oposição. Nós estamos em um momento no Brasil em que não temos nada. Até a oposição não existe”.

Sarney, de que se ouve pouco pelos meios de comunicação, pelo menos com a franqueza ou coragem com que se houve na recente entrevista, diz mais: “e as crises que o Brasil vive? O Brasil vive uma crise com partidos, porque quando temos 60 partidos, entramos na lei de Montesquieu. Este disse que, quando tem muitos partidos, não temos nenhum. Nós, também, estamos com uma classe política vivendo a crise da democracia representativa, isto é no mundo inteiro. Os políticos estão demonizados. É a busca do povo a partir para uma democracia direta, sem representantes”.

Impossível sintetizar todas as observações do antigo presidente sobre o atual. Para ele, Bolsonaro está colocando todas as cartas na ameaça do caos. E isso, na realidade, aumenta os problemas que nós vivemos, porque desapareceram nas utopias e nós não podemos matar a esperança.

O que se vê é que, todo dia, se dá uma solução, uma visão escatológica do fim do mundo, em face da reforma da Previdência, sem se oferecer outras expectativas de esperança. Quando se matam as utopias, é difícil que se sustentem as expectativas do país somente com uma reforma. Na realidade, a reforma é uma coisa que se fala permanentemente, porque vivemos em um mundo em transformação.

Em seguida acrescenta: “Todas as cartas estão sendo jogadas em um único objetivo, sem esquecer de que o presidente não tem maioria dentro do Congresso”.
Faz pensar.


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Por Manoel Hygino - 24/5/2019 10:54:27
Uma fita amarela

Manoel Hygino

Guardo comigo textos publicados por seus autores e eventualmente a mim enviados. Leio-os constantemente porque me alegram o espírito. De uma professora universitária de minha cidade natal, extraio o lindo texto de Ivana Rebello, escrito há quase dois anos, após o tristíssimo episódio em Janaúba, quando um cidadão tresloucado ateou fogo a uma escola, resultando em muitos mortos e feridos. Com o título “Quero uma fita amarela”, a autora nos transmite lancinante mensagem, que termina assim: “dedico esse texto a cada aluno que já passou ou passará por minha sala de aula”:

“Quero uma fita amarela, linda e brilhante, gravada com o nome da professora que morreu para salvar seus alunos. Quero uma fita bem amarela, tremulando ao sol do Norte de Minas, para cada criança que partiu, antes da hora. Quero uma fita amarela para toda mãe que sai para trabalhar, com o coração apertado, ao deixar seus filhos na escola. Quero uma fita amarela nos cabelos da jovem professora que planejou durante toda a semana suas aulas, mas não sabe se o salário será depositado em dia. Quero uma fita amarela nas mãos da servente que prepara a merenda de cada menino e menina, que brincam no pátio. Quero uma fita amarela para o professor que levou um murro do aluno. Quero uma fita amarela, de ouro, para os alunos de licenciatura que ainda acreditam. Quero uma fita amarela e mimosa para a adolescente que tira nota máxima na redação. Quero uma fita amarela para os meninos especiais que frequentam as escolas que não estão preparadas para recebê-los. Quero uma fita amarela para a escola sem quadro negro, sem carteira, sem apagador, mas que figura nas estatísticas do governo. Quero uma fita amarela para cada pai que ainda acredita que o melhor que poderá legar a seu filho será uma educação de qualidade. Quero uma fita amarela, porque ela é a nova cor da esperança. Deverá arder nos olhos de quem detém o poder e nada faz; deverá amargar na boca de quem sabia e nunca agiu. Deverá irradiar luz e calor para aqueles que amam e fazem de seu ofício um constante desafio. Deverá incomodar quem desconhece. Deverá fortalecer quem padece. Deverá dar forças para quem luta.

Mas é preciso que ela seja amarrada em cada janela, cada poste, cada árvore. Amarela, como um alerta à nossa pasmaceira. Amarela, como uma homenagem à razão, que parece ter se perdido por aí. Amarela como sonhou Van Gogh em seus delírios, para nos lembrar que existe um infinito. Amarela, para nos seduzir com sua luz. E muito, muito amarela, para nos fazer enxergar os incautos. Essa fita amarela que quero haverá de nos lembrar, definitivamente, de que não precisamos de comoção momentânea. Precisamos é de uma política educacional corajosa que tire o Brasil do humilhante lugar que ocupa. Precisamos de governos que distribuam menos comendas e mais oportunidades. Precisamos de políticos que troquem a propina pela equação matemática, o discurso pela ética e pela ação construtiva. Precisamos de uma família que frequente a escola. Precisamos de uma criança que brinque de novo.

Quero uma fita amarela. Grande, brilhante, vaidosa. Porque eu quero substituir o choro pelo riso, a derrota pela vitória, a morte pela vida. Está chegando o dia dos professores. A universidade em que trabalho não comemora. A sociedade não vê. A imprensa não noticia.
Não quero ouvir que ser professor é um sacerdócio, missão ou doação. Não quero ver o rosto da professora cheio de hematomas. Não quero chorar nenhuma criança morta, porque não houve o zelo necessário do Estado. Não quero ouvir que meu salário está sendo fatiado, desvalorizado, dividido, aviltado. Nem quero presentes.

Eu quero uma fita amarela bem presente, numa história diferente, de um país diferente, no qual as crianças e as escolas sejam protagonistas”.


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Por Manoel Hygino - 22/5/2019 10:06:19
Dirceu e o passado

Manoel Hygino

Não houve jeito. Em 17 de maio, por volta das 21h30, o ex-ministro do ex-presidente Lula se apresentou à Polícia Federal, em Curitiba, após o TRF da 4ª Região, o TRF4, negar por unanimidade recurso de sua defesa, de prescrição da pena a que fora condenado.

A novela não está encerrada. Poderá ainda haver recurso ao Supremo Tribunal Federal e ao Superior Tribunal de Justiça. E ainda: embargo dos embargos junto ao próprio TRF4.

Por enquanto, JD cumpriu pena de oito anos e dez meses pela segunda condenação na Lava Jato. Seu crime, desta vez: recebimento de propina em contrato da Apolo Tubulares, relativo a fornecimento de tubos para a Petrobrás, entre 2009 e 2012. Ele já estivera preso em primeira condenação pela Lava Jato. Conseguiu do STF, porém, que aguardasse o julgamento com monitoramento por tornozeleira eletrônica. Depois, em 2018, foi preso e solto, desta vez pela segunda turma do Supremo, com voto decisivo do ministro Dias Toffoli, hoje presidente da casa.

Por onde andam presentemente os sonhos e projetos de José Dirceu, depois da frustração do comunismo e de Cuba e das aventuras desastrosas e desastradas no Palácio do Planalto? Tempo não se recupera, não se resgata, por óbvias razões. Agora, cabe a pergunta que desaba sem resposta: fazer o quê?

A época em que José Dirceu e outros contemporâneos quiseram ter nascido ou vivido na ilha também já é passado. Inúmeros cubanos querem que se façam mais distantes. O embargo comercial dos EUA a Cuba, em 1960, é muito pretérito, mas a situação não se extinguiu inteiramente. Foi o desfecho de uma série de retaliações mútuas e crescentes que começou na expropriação por Havana de empresas do Tio Sam. O presidente Eisenhower, em represália, proibiu a exportação para Cuba de toda mercadoria produzida em seu território. Exceção para remédios e artigos cirúrgicos. Washington estava convencida de que enfraqueceria o regime de Fidel, o que – de certo modo – foi verdadeiro.

A União Soviética não é mais. Em sua esteira, o suposto poderio de Cuba e Fidel se foram. O próprio comandante partiu, sem viagem de volta. A petulância se desfez, na ilha e nos seguidores fidelistas. Arrumaram a trouxa e voltaram à pátria que haviam desdenhado. Novas tentativas de recomeçar impunham sepultar o passado. Os que tentaram reabilitar-se por vias políticas fracassaram, como Dirceu que se perdeu nos desvios de conduta. A corrupção selou o destino dele e de muitos, é o que se pressupõe.

Antônio Rangel Bandeira, um dos insubmissos dos anos rebeldes entre nós, cientista político, após os 35 anos de Fidel, que construiu um Estado policial e transformou a utopia da geração de 68 em pesadelo (para usar a expressão de Alina Revuelta, filha do comandante da revolução), realista, ensina: “devemos lutar, em Cuba e em nossos países, para uma alternativa nova, baseada no primado da tolerância”.

Será que a lição será aprendida? No epílogo de seu livro de Memórias, vendido pelo próprio Dirceu – Volume I, ele se expressa sobre os fatos como os vira em 2018: “o inacreditável é o consenso imposto pela mídia em seu discurso anti-PT e anti-Lula, pró-mercado e austeridade, todo ancorado na “luta contra a corrupção” e no apoio às “reformas”. O divórcio e a dissociação entre a mídia, seus editoriais, sua informação dirigida e a realidade são totais. Mais de 90% dos brasileiros não querem Temer, dois terços desaprovam as reformas e há praticamente consenso quanto ao poder usurpado e das urgências de eleições gerais e repactuação do país”.

Mas os problemas continuam na ordem do dia.


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Por Manoel Hygino - 21/5/2019 10:28:15
Porque maio chegou

Manoel Hygino

O calendário social e religioso do interior brasileiro fixou o quinto mês do ano para as coroações, que marcaram intensamente gerações. Mas ainda outros fatos relevantes distinguem maio para os aqui nascidos, sem que sequer o saibam. Nele, por exemplo, nasceu em Beja, Portugal, no dia 2, em 1458, a menina que recebeu o nome de Leonor, muito usado pela alta nobreza lusitana.

Pois esta Leonor era bisneta de dom João I, de Portugal, e de dom Felipe de Lancastre, da Inglaterra. Como era comum, então, nos palácios, casou cedo, aos 14 anos incompletos, com dom João II, tendo um único filho, Afonso, que – parece seguindo uma destinação histórica – também cedo faleceu, em um desastre, aos 16 anos.

Mesmo rodeada pelo luxo e bisbilhotices da corte, Leonor cumpriu papel de alta relevância para Portugal, iniciando em 1498 o primeiro grande Hospital de Caldas e o mais antigo hospital termal do mundo, projeto avançado de assistência, além da Misericórdia de Lisboa, ponto de partida de notável obra disseminada em todo o mundo luso. Uma delas, a Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte que, neste 21 de maio, comemora 120 anos consolidada não só como centro de tratamento, mas o maior complexo assistencial filantrópico de Minas Gerais e um dos três maiores do Brasil, admirável núcleo de ensino e pesquisa.

Neste maio, enquanto se regozija aqui pelo trabalho que se mantém vivo por tantas décadas, um diretor da instituição, convidada especialmente, a representa em Macau, na China, a que chegaram as naus lusas, instalando ali também uma Santa Casa, que ora comemora 450 anos de excelentes serviços à comunidade. Gloriosa Leonor, que não legou herdeiros, mas sim o patrimônio de solidariedade e amor que divide, todos os dias, todos os meses, todos os anos, pelos cinco continentes, nas pequenas cidades e em núcleos populacionais de expressão e grandeza.

Neste 21 de maio, na antiga Maternidade Hilda Brandão, na SCMBH, será lançado um livro sobre os 120 anos de vida e trabalho da instituição. A publicação é mais do que uma síntese do que foi e é a Santa Casa, aqui nascida em 1899, encerrando um século e milênio do calendário.

A publicação agora lançada é mais do que a simples história da Santa Casa, pois corresponde a uma síntese do processo de desenvolvimento da primeira cidade do Brasil construída para sede de governo estadual. Estas páginas retratam 120 anos de dedicação à causa de servir aos que sofrem e precisam de solidariedade e apoio. Os sacrifícios e o desvelo de quantos estiveram à frente dos destinos da instituição bem como de seus corpos assistenciais e auxiliares, sobremodo dignos e devem ser utilizados para acompanhar tão extenso tempo de atuação aos que, nos séculos passados e no atual, ainda precisam de recorrer à ajuda de suas comunidades para sobreviver e dar fim a suas doenças. Quantos se dedicaram desde o princípio a ajudar seus irmãos em dores? Quantos milhões foram atendidos nestas doze dezenas de anos em esforços em benefícios de nossos irmãos, brasileiros ou não, homens e mulheres, adultos e crianças?

Esta vale uma prestação de contas começada em 21 de maio de 1899 e que abrange um tempo sem fim, porque as necessidades e imposições humanas não têm limite.


83979
Por Manoel Hygino - 20/5/2019 09:34:25
E a crise é antiga

Manoel Hygino

Transcorreu, no último 22 de abril, a data da chegada de Pedro Álvares Cabral à Bahia. 519 anos são passados, daí talvez o episódio não ter sido lembrado e festejado com o gáudio que merece. Escrevi acima o nome completo do descobridor para que não seja confundido com outros que andam por aí, sobretudo um trancafiado em prisão ex-governador.

Ademais, causou-me surpresa o registro de que a viagem cabralina foi um dos segredos mais bem guardados de Portugal do século 16, segundo Laurentino Gomes. Ele observou que demorou um ano para o soberano lusitano comunicar a façanha aos primos espanhóis, ficando a célebre carta de Pero Vaz de Caminha escondida por três séculos.

Por que a ocultação? Por aqui, também muito se escondeu e se esconde, principalmente quando se trata de malfeitos com dinheiros públicos, casos de corrupção, que começaram a surgir estrepitosamente na mídia com a Operação Lava Jato, um capítulo muito especial na história dos negócios no país, no período bem anterior a Sérgio Moro ministro, portanto.

Quem leu jornais de anos passados e comparar o que se publicou com o que ora aí está, chegará a conclusões muito interessantes. Confiram os nomes e os fatos das manchetes dos jornais de 25 de agosto, Dia do Soldado, em 2015: “Dilma diz que governo demorou a perceber gravidade da crise econômica”, “77% das prefeituras estão inadimplentes com o INSS” e “China pode agravar crise no Brasil”. Folha de São Paulo: “Após Temer deixar articulação, Dilma diz que subestimou crise”; O Estado de São Paulo: “Dilma diz que governo demorou a perceber gravidade da crise econômica”; Hoje em Dia (Belo Horizonte); “77% das prefeituras estão inadimplentes com o INSS”; O Globo (Rio): “China pode agravar crise no Brasil”; Diário Catarinense (Florianópolis): “Crise leva governo a cortar ministérios”; Diário do Nordeste (Fortaleza): “Dilma vai cortar 10 ministérios e mil cargos de confiança”.

O que a presidente, depois impedida, não sabia, apareceria em manchete de 15 de maio de 2019. Continha as consequências do desconhecimento da duração da crise. Folha de São Paulo: “Governo quer mais FGTS no Minha Casa Minha Vida”; O Estado de São Paulo: “A realidade é que estamos no fundo do poço, diz Guedes”; O Globo (Rio): “Guedes cobra do Congresso ação para tirar país do fundo do poço”; Zero Hora (Porto Alegre): “Guedes vê economia no fundo do poço e indica mais cortes”; Folha de Pernambuco (Recife): “MEC avalia novos bloqueios, e Câmara convoca ministro”.

E mais: o Banco Central divulgou: a economia do Brasil andou, para trás, 0,68% no primeiro trimestre deste ano. O índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,28% em março, na comparação com o mês anterior. Os dados oficiais sobre o PIB serão divulgados pelo IBGE, dia 30. Aliás, eles não causam surpresa a quem quer que seja, bastando que se atualize através dos meios de comunicação. Estes não são obrigados a dar apenas boas notícias. Repete-se a velha frase: Fazer o quê?


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Por Manoel Hygino - 16/5/2019 09:41:00
Porque o câncer mata

Manoel Hygino

A indecisão reinante, as idas e vindas e as inconformidades de gabinetes, a troca de farpas nos altos escalões, e a intromissão de quem, vivendo no exterior, não deveria interferir em nossos problemas, obsta a retomada do crescimento no Brasil, favorecendo uma ansiosa expectativa e gerando desconfiança sobre o futuro. O silêncio de alguns, isto é, a omissão, aponta para a inquietação geral que a ninguém interessa.

O Brasil não ganhará a guerra, ou seja, não vencerá a pesada crise que o atormenta por iniciativa e ação de apenas alguns. Guerras não se vencem sem a colaboração de todos os patriotas e alijamento dos que apenas fazem de conta.

Nesta hora, quem está realmente com o Brasil – com seu futuro, mediante superação dos grandes desafios que o obstam de transitar pelas vias pertinentes, corretas, produtivas, fecundas?

Há bons e maus brasileiros e é preciso separar uns dos outros – o joio do trigo.

Enganou-se o poeta de Itabira: no meio do caminho, há mais do que uma pedra, existe sim – uma pedreira enorme, difícil de ser vencida.

Vamos aos fatos: em documento recém-publicado na capital advertiu-se para a realidade no Brasil, que incessantemente traz impactos na proteção de crianças e adolescentes. E isso não se dá apenas no que tange à violência sexual. Nem só esse segmento da população sofre com a avalanche que a todos atinge e fere. É o caso das vítimas do alcoolismo, das drogas, do tabaco, cujo número cresce interminavelmente, a despeito da incessante advertência da mídia.

No Brasil, o câncer foi responsável, por exemplo, por 26.498 mortes em 2015, segundo o Inca. Este ano, preveem-se 18,7 mil casos em homens e 12,5 mil em mulheres. Segundo o jornalista Leandro Mazzini, que escreve para o Hoje em Dia, este cenário não arrefece as investidas da Souza Cruz, maior fabricante de cigarros da América do Sul e subsidiária da Britsh American Tobacco. A empresa amarga derrotas recentes. Não bastasse ver praticamente metade do lucro despejado em alta carga tributária sobre o setor no país, a revista Crusoé revelou que a empresa doou R$ 2,4 milhões – valor muito acima da média da praça – em patrocínios de eventos do Instituto de Direito Público, ligado a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Em fevereiro de 2018, a fabricante da BAT perdeu e viu virar fumaça no STF a Ação de Direitos de Inconstitucionalidade 4874, impetrada pela Confederação Nacional da Indústria e de seu interesse, contra resolução da Anvisa que proibia aditivo de aroma nos cigarros.

A Souza Cruz, que – há décadas – facilita o uso do tabaco no Brasil, começando na infância e adolescência, esclarece que tem tradição de apoiar universidades, caso do IDP, “em projetos alinhados aos valores da empresa: legalidade, sustentabilidade e diversidade” e, deste modo, patrocinou o Instituto de 2007 a 2016. Mas não faz referência ao nome do ilustre ministro do Supremo. É triste, se não fosse criminoso.

O G1 mostra que o Brasil registrou queda de 24% nas mortes violentas no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2018. De acordo com o índice, o Brasil teve 3,2 mil mortes violentas a menos em janeiro, fevereiro e março deste ano em relação a 2018. O número de assassinatos, porém, continua alto. Segundo levantamento, houve 10.324 mortes violentas no primeiro trimestre deste ano. Já no mesmo período de 2018, 13.552 assassinatos. E de câncer?


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Por Manoel Hygino - 14/5/2019 09:17:30
Edmilson e Adolfo

Manoel Hygino

Fundada em 21 de abril de 1963, em Brasília, a Associação Nacional de Escritores cumpre fielmente seu papel, a partir daqueles já distantes dias da Livraria Dom Bosco, na simpática Rua da Igrejinha. Desde os trabalhosos dias de Cyro dos Anjos, primeiro presidente da ANE, até hoje, a entidade angaria prestígio e bom nome, graças a seus dirigentes e crescente número de associados.

A ANE não para, sob a presidência de Fábio de Sousa Coutinho, também à frente da Academia Brasiliense de Letras. Há pouco, lançou seu primeiro e-book, livro digital, comemorativo dos seus 55 anos. Em 2017, já promovera quase duas dezenas de Quintas Literárias, reuniões para ouvir gente da mais alta categoria no ramo das letras brasileiras, reunida a partir de agora em edições que certamente terão exemplares disputados.

Para celebrar o aniversário do nascimento de Adolfo Caminha, na segunda metade do século XIX, o convidado foi Edmilson, também Caminha, primo em terceiro grau do homenageado. Ele lembrou o pequeno tempo de vida de Adolfo, nascido em Aracati, Ceará, falecendo, menos de 30 após, no Rio de Janeiro. Disse Edmilson: “sua obra o põe entre os grandes valores de um estilo de época relevante na literatura brasileira, o naturalismo, em que brilham outros grandes ficcionistas como Júlio Ribeiro, Inglês de Sousa e Aluísio Azevedo, companhias honrosas”.

Com 16 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola da Marinha, confirmando um das duas vocações dos Caminhas – para viagens oceano afora e para a literatura. Na formatura, Adolfo evoca Victor Hugo, autor de “Os Miseráveis”, falecido há poucos meses, e defendendo vigorosamente a República que logo se proclamaria entre nós.

O imperador estava presente e o ministro da Marinha ordenou ao diretor da Escola punir severamente o rapaz, “este insolente, que acaba de ofender Dom Pedro II”. Este, como de seu feitio e visão, advertiu: “não, não o castiguem, por favor, são arroubos próprios da juventude. Eu também fui jovem, todos fomos...”.

O palestrante relatou a curta vida do militar, que se ergueria, através dos jornais, contra velhas instituições e costumes. Entre eles, o instituto da chibata, a surra de chicote com que a Marinha punia os que se insubordinassem.

Dessa linha de conduta Adolfo jamais se desviou. Visitou outros países e seguiu escrevendo. Publicou, dentre outros, um livro de poesia “Voos Incertos”, aos 19 anos; em 1887, “Os Contos de Judite” e “Lágrimas de um Crente”. No ano seguinte, o tenente se mudou para Fortaleza, já capital da província do Ceará. Iniciou a fase mais agitada de sua vida, vivendo um romance com a esposa de um oficial do Exército. Um escândalo! Oficiais do Exército percorriam as ruas para humilhá-lo com corretivos físicos.

Ainda desta vez, teve sorte. O ministro da Marinha chamou-o e o aconselhou: “olhe, meu filho, isso não é comportamento digno de um oficial da Marinha; nós pregamos nosso comportamento, nossas atitudes sociais. Você mais prejudica sua carreira, isso não vai bem. Por favor. Ponha fim a esse caso e voltaremos à nossa vida normal. Você tem um futuro brilhante na Marinha, pela inteligência, pelo talento de que já deu provas”.

Peripécia amorosa a do escritor-militar, complicações múltiplas. Adolfo retornara a Fortaleza, Izabel abandona o esposo e vai viver com ele. Advertido pela Marinha, o jovem não muda de opinião: “não vou deixá-la, o que me levará a ser expulso. Antes que isso aconteça, pedirei baixa”. E pediu. Rui Barbosa entra em cena. Consegue-lhe um lugar insignificante de barnabé. Passa dificuldades. Tem duas filhas na união. Participa da fundação da Padaria Espiritual, uma academia literária em Fortaleza. O tema, como tema, é fascinante, e a palestra de Edmilson sobre Adolfo empolga. Mas o primo viveu menos de 30 anos, como disse acima. Uma pena. Mas o que legou nas letras convém ser recordado.


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Por Manoel Hygino - 11/5/2019 08:04:40
O Jequitaí pede prioridade

Manoel Hygino

Era 1º de abril, dia da mentira, mas o fato verídico. Naquela data, aprovou-se a cobrança de pedágios, por 30 anos, para circulação de veículos na BR-135. Previstas seis praças de cobrança entre Montes Claros e Belo Horizonte, contrariando o pleito de toda a região – duplicação da importante rodovia.

Mais uma vez o Norte de Minas é prejudicado, porque se esvai a expectativa de facilitar a ida e vinda de pessoas e cargas entre as duas cidades, lembrando os remotos tempos em que se esforçava para construção de um ramal ferroviário. Eram os idos da primeira metade do século XX. Vê-se que, mais uma vez, os sertanejos são passados a plano inferior e procrastinadas legítimas reivindicações.

Vidas se perdem. Há poucos dias, duas carretas bateram de frente em acidente que envolveu também um carro de passeio. Consequência: três mortos e quatro feridos graves, com os corpos das vítimas, das quais uma criança, presos às ferragens.

Não só: ônibus com jogadores de futebol, procedentes da Bahia, se chocou com carreta, resultando em duas mortes e 22 feridos, na BR-251, no trevo de Santa Cruz de Salinas. Também no Norte de Minas, um coletivo transportando universitários, e um caminhão, nas proximidades de Várzea da Palma, (na famosa Barra do Guaicuí) se bateram, deixando uma mulher morta e outras 12 pessoas feridas.

Com a permanência de pista única para veículos e o pedágio recém-estabelecido, haverá outra nociva consequência: a sobrecarga da BR-385, trecho Montes Claros–Pirapora, com aumento do fluxo de veículos pesados e encarecimento do frete, em face do crescimento do percurso. A população já se organiza para protestar contra estas medidas que prejudicam a economia.

Não só isso, que já é muito. Agora se cogita da realocação de verba para a consecução da barragem do rio Jequitaí, reencaminhando o recurso para o projeto de irrigação do Gurutuba, que evidentemente também merece a atenção do poder público.

O caso, contudo, é antigo: o rio Jequitaí esperava, com ansiedade e paciência, a obra que lhe estavas reservada há mais de meio século. Não é, aliás, só por esperar tanto, é porque, como diz o técnico José Ponciano Neto, o empreendimento já fora programado e interrompido, mais de uma vez.

O empreendimento constituirá, ademais, uma das fontes de produção de água para a maior cidade da região, bem como para a própria Jequitaí e Francisco Dumont, podendo incrementar a vazão do Velho Chico, o rio da unidade nacional, não apenas uma frase de efeito. O São Francisco sofre recentemente e, com ele, a população ribeirinha.

Parece que há um sempre renovado ânimo para menosprezar as mais caras aspirações e reivindicações que tanto depende dos governos.



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Por Manoel Hygino - 10/5/2019 09:41:49
O risco se aproxima

Manoel Hygino

A cada dia, parece que se torna mais grave a situação da Venezuela, e não simplesmente do presidente–ditador Nicolás Maduro. É evidente que o sucessor de Hugo Chavez tem dias contados, quer sucedido por Juan Guaidó, quer por um eventual governo coletivo, ou ainda por alguém cujo nome surja no fragor das ruas ou de alguma decisão de forças políticas e militares. Tudo muito obscuro, portanto.

Mesmo o tonitruante presidente dos Estados Unidos se mantém mais cuidadoso com relação ao desenrolar dos acontecimentos, talvez considerando os imbróglios em que a Casa Branca se meteu mais recentemente. O presidente do Brasil autorizou a entrada de 25 militares venezuelanos em nossa embaixada em Caracas, embora não se saiba o que isso quer dizer no frigir dos ovos. Segundo as notícias, os militares espontaneamente mudaram de lado para apoiar Guaidó, o que não acrescenta muito diante da grande maioria das Forças Armadas ao lado de Maduro.

O vice-presidente brasileiro crê que a disposição do atual ocupante do Palácio Miraflores é irreversível, mas ninguém assegura que seja iminente. Aliás, o próprio general Hamilton Mourão admite que Maduro cairá ou haverá um conflito interno, o que provocaria uma matança, que ninguém deseja.
Os líderes principais da oposição – Juan Guiadó e Leopoldo Miguez – parecem ter perdido o ímpeto inicial, até por adivinhar que Washington não meterá mãos na cumbuca, por já estar comprometido com problemas sobretudo em países da península arábica.

A hora exige muita prudência das nações da América, não só pelo petróleo da Venezuela. Somos todos de mesma origem ibérica e falamos línguas irmãs (evidentemente não me refiro aos EUA). Por detrás de tudo, ainda existem velhos ranços coloniais, além da invenção de Chavéz, mantida por Maduro, do socialismo bolivariano, mal interpretado e utilizado pelos ditadores de determinados países do hemisfério, talvez pela obscuridade da própria ideia.

No meio de tudo, é presente e atuante o poder dos grupos narcotraficantes, como os da Colômbia, de que temos dolorosas marcas, e dos narcoterroristas, que por ali promovem guerrilhas há décadas. Há, inclusive, infiltração de um núcleo do Hezbollah, admitido pelo ditador venezuelano.

O jornalista José Casado esclarece: “o Exército de Libertação Nacional da Colômbia, a maior organização narcoterrorista em atividade na América do Sul, consolidou o domínio de cidades, áreas de mineração e de agricultura na região Sul da Venezuela, num raio de 500 quilômetros na fronteira com o Brasil, em zonas próximas dos postos do Exército em Cucui (AM) e Urimatã (RR). Forças Armadas brasileiras tentam reforçar a vigilância numa região de 2,1 mil km, floresta densa e inúmeros rios. O narcoterrorismo de origem colombiana se expande rapidamente pelo território da Venezuela em meio ao colapso institucional do país. Serviços de Informações da Colômbia, Brasil e Estados Unidos têm confirmação de acampamentos de tropas e emissoras clandestinas de rádio 9FMs 97.7; 95.5;105.5, e 97.4) em pelo menos dez dos 23 estados venezuelanos”.


83960
Por Manoel Hygino - 9/5/2019 08:21:11
Judiciário em pauta

Manoel Hygino

Não se deve duvidar da Justiça, ou melhor, do Judiciário, como ora acontece cá por estas terras. Nomes são citados, críticas e acusações formuladas nas ruas por suposta conduta inadequada de magistrados, inclusive os que se acham na mais alta corte de Justiça. Li, nas folhas, que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (nome cuja origem ainda não identifiquei) declarou não ter pressa, nem data, para agendar a votação em plenário do requerimento para instalar, ou não, a apelidada CPI das Cortes Superiores, a ainda não popular “Lava Toga”.

Há duas semanas, pelo que sei, se aprovou, na Comissão de Constituição e Justiça, o pedido para instalação, mas o presidente da Câmara Alta do Congresso pensou em arquivá-la, mesmo sem ouvir previamente o plenário. Seria evidentemente a medida mais prática e tranquila nas atuais circunstâncias, embora não a mais indicada.

Um parlamentar do Senado, ex-comentarista de futebol, admoestou (?) que a pretendida CPI, se aprovada, não seria especificamente sobre o Supremo, pois tribunais de alguns estados estão na mira. O jornalista Leandro Mazzini comentou que, aberta a Comissão, se possibilitaria uma devassa fiscal na vida de ministros e desembargadores, suspeitos de enriquecimento ilícito, o que seria altamente nocivo à imagem que precisam ter os membros do Terceiro Poder, expostos seguramente à sanha dos inimigos de tudo e de todos, dos que pretendem, por muitas razões, lançar lama sobre os membros do Judiciário.

A situação, todavia, não fica nisso. Tanto que, como publicado, o presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Dias Toffoli, um dos mais visados pelas redes sociais, resolveu entrar em campo. O que ele pretende é criar um grupo de trabalho para que juízes e desembargadores também usem das redes sociais para defender-se do “impacto à recepção da sociedade em relação à integridade” dos membros do Judiciário. Toffoli declarou: “temos que nos resguardar, senão perdemos nossa autoridade”.

Um mês atrás, Toffoli abriu um inquérito no STF para apurar ameaças e a disseminação de fake news contra a instituição e seus integrantes. Era tempo. “A nação não pode permanecer à mercê de notícias falsas ou duvidosas, envolvendo os membros de sua mais alta Corte de Justiça” comentou. Raciocínio que me parece perfeito.

Com razão, o desembargador Rogério Medeiros, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, se expressou em livro recentemente lançado pela Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes: “presidente da República, governadores e prefeitos são eleitos para governar. Senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores são eleitos para legislar. Magistrados prestam concurso ou são nomeados para julgar conflitos de interesses, à luz da Constituição Federal e demais textos legais. Simples assim, parece. Mas não é”.

A presença crescente da Justiça na vida coletiva é um dos maiores fatos políticos contemporâneos. Os juízes são chamados a se manifestar em número cada vez mais extenso de setores da vida social, como sentenciou Garapon. Mas, a recíproca é verdadeira. Cabe raciocinar, como o fez Freire Junior: “o Judiciário não é mero carimbador de decisões políticas das demais funções”.

Se os juízes se tornaram sujeitos assiduamente às críticas da sociedade, também ficam habilitados a defender-se pelos meios viáveis, como os dos demais poderes.


83957
Por Manoel Hygino - 8/5/2019 09:10:55
As críticas a Francisco

Manoel Hygino

Dezenove dignitários acusaram o papa Francisco de herege por ser extremamente bondoso com determinados grupos. Querem os insatisfeitos que os bispos se reúnam e que ele seja denunciado por suas posições. Dizem ainda: “tomamos esta medida como último recurso para responder ao prejuízo acumulado, causado pelas palavras e ações do papa Francisco ao longo de vários anos, que deram origem a uma das piores crises da história da Igreja Católica”.

É tema extremamente doloroso e difícil, quando se sabe que os problemas da Santa Sé e dos que a servem são publicamente expostos neste tempo das comunicações, sequer escapando os negócios financeiros do Vaticano. Não sem razão, Eamon Duffy, em “Santos e Pecadores”, livro considerado dos mais importantes do século, comentou que o papado tem sido não um mero espectador, mas um ator importante da história.

O fato, aliás, é explicado pelo próprio Duffy, do Colégio de Santa Marie Madalene, em Cambridge. Quando o Império romano ruiu e as nações bárbaras entraram em campo para ocupar o vazio, foram os papas – na falta de outra autoridade que se dispusesse (ou foram coagidos pelas circunstâncias?) - a moldar o destino do Ocidente. Houve o fato da Europa emergente, e de pontífices criando imperadores e depondo aqueles que se postavam contra a Igreja. Em nome da paz, dividiram o mundo conhecido e o que seria descoberto entre as potências, influenciando nações e continentes a guerras e instigando as Cruzadas; os cristãos ocidentais contra os muçulmanos do Oriente.

Com o aplaudido estudioso de Cambridge, é preciso ter em mente, até para considerar a tese da oposição a Francisco, que aproximadamente 900 milhões de pessoas formam o maior coletivo isolado que o mundo já conheceu, e que têm o papa como líder espiritual. Sua palavra pesa nas salas do poder e nas alcovas dos fiéis. O papado é a mais antiga instituição humana e provavelmente a mais influente. O Império Romano era recém-nascido quando os primeiros papas se elevaram à missão que passaram a exercer.

Os sucessores de Pedro, o pobre pescador da Galileia, sobreviveram aos impérios romano e bizantino, à Gália carolíngia, à Alemanha Medieval, à Espanha, à Inglaterra, a Bonaparte e ao Terceiro Reich de Hitler, e, já com Karol Wojtyla, à União Soviética, que já afundava.

Os dezenove que se insurgem contra Francisco, o mais destacado é Aidan Nichols, o acusam de não ser rigoroso contra os defensores do aborto, por sua tolerância com os homossexuais, assim como com os protestantes e muçulmanos.

Teria errado Francisco ou errados são seus acusadores? Geoffrey Blainey, em sua “Breve história do cristianismo”, registrou que o cristianismo, desde seu surgimento, cometeu muitos equívocos, muito mais do que os primeiros apóstolos imaginariam. Mas sua história não é predominantemente de erros.

Os adeptos do futebol, a seu tempo, poderiam afirmar que o pontífice erra por ser torcedor na Argentina do Sam Lorenzo; deveria sê-lo do River Plate ou do Boca Juniors. Seria também heresia torcer para o modesto San Lorenzo?


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Por Manoel Hygino - 6/5/2019 16:18:00
O homem e a mídia

Manoel Hygino

Quer se queira, ainda que não se queira, os jornais têm uma história e um papel importantíssimo para a humanidade. A despeito de sua idade, eles são a síntese da vida dos povos modernos, desde que surgiram os tipos. Depois, apareceu um novo tempo, o dos instrumentos eletrônicos de comunicação, a mídia – como denominados comumente. Eles representam a nova crônica, um novo tempo e ajudam a definir o futuro das pessoas, das nações e dos povos.
Mas o jornal, a despeito da concorrência, não morreu. Resiste. Em novembro de 2018, completou cem anos a “Gazeta do Norte”, fundada em minha cidade natal por José Tomás de Oliveira, advogado procedente do Nordeste, que se transferiu a Montes Claros, onde constituiu família, gerou filhos e se dedicou à imprensa. Um dos filhos, Jair, continuou , manteve a folha.
A Gazeta teve precioso papel no desenvolvimento social e político da cidade e da região. O correr dos dias se encarregou de revelar sua importância. Enquanto existiu, abrigou não poucos jovens e, em suas páginas, expôs opiniões sobre episódios e acontecimentos marcantes na vida municipal, estadual e nacional.
Quando Gandhi foi assassinado na Índia, um rapazelho se indignou e decidiu redigir um texto, que mereceu publicação. O meninote se entusiasmou e continuou e, em seguida, ousou chegar às redações de Belo Horizonte, depois do Rio de Janeiro – capital da República, dirigiu sucursal da maior revista editada no Brasil, foi diretor e presidente de organização jornalística. Mas o semanário de José Tomás e de Jair Oliveira cumpriu sua missão, e por múltiplas razões, encerrou de vez sua circulação. Sic transit gloria mundi.
Décio Gonçalves Queiroz, entrou em cena, nos anos 60, com “O Diário de Montes Claros”, em uma cidade com 100 mil habitantes, que também assistiu ao lançamento de “O Jornal de Montes Claros”, de Oswaldo Antunes, egresso de “O Diário” de Belo Horizonte. Dois periódicos, com expressiva tiragem, que caracterizavam uma época nova e progressista para sua gente, não mais a aldeia provinciana e doce, embora a fama brava, como observou o também jornalista Paulo Narciso, bem sucedido na imprensa da capital e que voltara à terra natal.
Os três jornais não mais circulam, seus fundadores e proprietários já se foram, Décio em novembro, e, com dor e respeito, faço o tríplice registro. Algumas folhas encerraram atividades, mas a obra que construíram está em nosso espírito e coração. Em outras palavras, não morrem propriamente. A história de cada um – jornal, e de seus fundadores e dirigentes – perdurará muito, porque é como diz Paulinho Narciso: as produções do espírito não se inclinam à lei da morte, e persistem e prosseguem, duram, porque destinados a uma instância superior da vida evanescente.



83947
Por Manoel Hygino - 4/5/2019 11:08:54
Dezenove contra Francisco

Manoel Hygino

A ideia que fazemos de cristianismo anda um tanto abalada por desvios de múltipla natureza e sentido. Nós que vivemos neste canto do mundo, sabemos que o cristianismo forjou a mentalidade espiritual do Ocidente, mesmo sem esquecer o mau uso que os homens dela fizeram. Assim, semearam-se discórdias, guerras, destruição e perseguição em massa aos opositores desta filosofia espiritual trazida por Jesus Cristo. Nem por isso, o cristianismo perdeu seus valores e sua maior característica, que é ensinar o homem, a perdoar e crescer em espírito.
Não surpreende, sequer causa espécie que, nos conturbados tempos que vivemos, determinados grupos de membros da Igreja se insubordinem ou se elegem contra normas da Cúria ou posições do pontífice. Foi assim que aconteceu na semana que passou. Eis a notícia de agência internacional:
Dezenove padres acadêmicos conservadores católicos pediram aos bispos que denunciem o Papa Francisco como herege. Em carta de 20 páginas, os ilustres senhores atacam Francisco por supostamente amainar a posição da Igreja numa série de assuntos.
Os autores dizem que o Papa não se tem declarado abertamente o bastante contra o aborto, tem sido muito hospitaleiro com os homossexuais, e tolerante demais com protestantes e mulçumanos. A carta foi publicada no LifeSiteNews, um site católico conservador frequentemente usado como plataforma para ataques contra o Papa Francisco.
O Vaticano não quis comentar a carta, que inclui dezenas de notas de rodapé, versículos da Bíblia, pronunciamentos de vários papas anteriores, e uma bibliografia em separado. A carta convida as pessoas a se juntarem a um abaixo-assinado on-line.
No código do Direito Canônico, esta é a definição de herege: “Diz-se heresia a negação pertinaz, depois de recebido batismo, de alguma verdade que se deve crer com fé divina e católica” (Cf. Cân. 751). O herege, como se pode ver, é somente a pessoa que, após o batismo, insiste obstinadamente em seu erro, mesmo advertido por alguma autoridade eclesiástica.
Neste período de profundas divisões entre os homens, e não somente por motivos religiosos, não se há de contribuir para agravamento do que aí já está, inclusive pela utilização dos modernos e eficientes veículos de comunicação social. Dezenove pessoas incentivadas, com microfones à mão podem fazer grande ruído entre os vulneráveis.
Apesar das más notícias que marcam o cotidiano do planeta, inclusive com atentados de natureza política e ideológica, há de se prevenir contra os caçadores e incentivadores de violência, distribuídos em todos os segmentos da sociedade, inclusive religioso, sobremodo sensíveis às pregações dos fanáticos.
O Cristianismo é um só, mesmo sob influência dos costumes e das épocas. Dezenove não conseguirão mudar 2 mil anos de história. Mas cuidado e canja de galinha não fazem mal; antes pelo contrário. Quem é herege em meio a tudo que passa? É indispensável saber julgar.


83942
Por Manoel Hygino - 3/5/2019 08:05:16
Atentados como sempre

Manoel Hygino

Não se consegue um levantamento completo de quantos atentados se perpetram indiscriminadamente em todos os países. Pode se dizer semanalmente, e não mais circunscritos aos países do Extremo Oriente, como predominaram em determinadas épocas não remotas. Há grupos e pessoas vinculadas a religiões, que pareciam se alimentar com o sangue alheio. E os atos cruéis são comemorados com gritos de euforia, como se a vida não merecesse respeito.

Huascar Terra do Valle, advogado, é autor de um interessante livro que abrange esse tempo doloroso. Ele se dedicou à memória de Giovani Bruno, e pode ser considerado um libelo contra a intolerância e o fanatismo de todas as religiões donas da verdade. Com mais de 350 páginas, o “Tratado de Teologia Profana”, lançado em São Paulo em 1998, ajuda a entender o problema, que tem atormentado os homens deste século com incrível velocidade, em virtude da própria velocidade das informações.

O poeta Ferreira Gullar, em jornal paulista, expressa opinião que condiz com a minha. Aconteceu em 2 de fevereiro de 2014. Eis as observações.

“Esse tipo de atentado difere daqueles outros, cuja motivação é político-religiosa, e difere também, por seu resultado, não de um surto psicótico e, sim, pelo contrário, fruto de uma decisão tomada objetiva e friamente por um líder.

A afinidade que há entre eles é o propósito de assassinar pessoas inocentes. E é precisamente este ponto que tenho maior dificuldade de aceitar. Por exemplo, um terrorista, com o corpo coberto de bombas, entra num ônibus escolar do país inimigo, explode as bombas e a si mesmo, matando dezenas de crianças. Não vejo nenhum sentido nisso, a não ser mostrar seu ódio ao adversário; e, nesse caso, por se tratar de crianças, mostrar que sua fúria homicida desconhece limites. É outra modalidade de loucura.

Mas há ainda os casos em que a fúria homicida mata indiscriminadamente pessoas de países que nada têm a ver com os propósitos do atentado. Exemplo disso foi o caso das Torres Gêmeas, em Nova York, onde morreram quase 3 mil pessoas. O atentado visava os norte-americanos, mas matou franceses, holandeses e até muçulmanos. Nem mesmo se pode excluir, dentre as vítimas, pessoas que possivelmente apoiavam a causa defendida pelos terroristas. É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso.

O que torna mais absurdo tudo isso é o fato de que o atentado terrorista não traz nenhum benefício a quem o projeta e o faz acontecer, a não ser satisfazer seus projetos homicidas. De fato, o terrorismo é a expressão da derrota política de quem o promove, a areação desesperada de quem sabe que não tem qualquer possibilidade de vencer o adversário e chegar ao poder.

Mas, ao fim de tudo, não consigo na verdade entender tal desvario, mesmo porque, além do assassinato em massa de crianças e cidadãos quaisquer, que o terrorista nem sequer conhece ou sabe que matou, há fatos quase inacreditáveis. Como o que ouvi da boca do chefe do supremo do Hezbollah, na televisão. Ele afirmou que o menino-bomba, que praticou o atentado no ônibus escolar, em Israel, era seu filho e tinha 16 anos. E acrescentou: ‘O mais novo, que tem 12 anos, já está sendo preparado para se sacrificar por Alá’. O curioso é que ele manda os filhos morrerem, mas ele, o pai, continua vivo”.



83940
Por Manoel Hygino - 2/5/2019 09:13:21
De volta ao passado

Manoel Hygino

Tem-se torcido muito sobre o período militar ou a ditadura implantada no Brasil a partir de 1964. Cada um dá a sua versão, conforme o interesse pessoal ou ideologia. De modo que, hoje, tomei a liberdade de transcrever afirmações de um ilustre causídico, mas sem lhe revelar o nome. Vai por trechos:

“Nasci no final do ano de 1959. Passei a minha infância e juventude sob o governo militar. A primeira memória que tenho da minha infância é do meu pai de prontidão, à espera do resultado das ações das forças armadas, num dia que hoje sei ser aquele em que os militares derrubaram João Goulart. Havia combinado com o fazendeiro vizinho que, caso fracassassem, os militares enfrentariam os elementos da liga camponesa à bala, mesmo sob o risco do sacrifício dos familiares, incluindo as crianças, em meio às escaramuças.

Vitoriosos os militares, ficamos vivos, escapando do enfrentamento armado. A minha relação com o governo militar de então, iniciada minha juventude, era de indiferença. Depois, passei a achar que a felicidade era poder cantar uma canção censurada de Geraldo Vandré, comprar um disco do burguês Chico Buarque, ou de Caetano Veloso pelado na capa, fatos que pesaram na minha contestação ao regime.

De nada valia a vida tranquila, que nos permitia atravessar a cidade a qualquer hora da noite, em bandos adolescentes, sem nenhum perigo, a não ser de algum cachorro bravo solto na rua, sem riscos de assalto ou de perda da vida por alguma bala perdida. Ninguém, do nosso grupo de adolescentes, usava drogas ou mesmo conhecia algo estupefaciente, além de Bacardi com Coca-Cola, limão e gelo, ou o famoso “rabo de galo”, mistura de cachaça, Cortezano e licor de pequi.

Falava-se de enfrentamento a guerrilhas e, como ficamos sabendo, alguns foram mortos e outros torturados. Dos que sobreviveram, muitos estão no poder atualmente. Todos os presidentes militares continuaram pobres e nem sabemos quem são seus descendentes. Em governos civis apareceram o MST, MTST, e outros congêneres, atuando em frentes ditas populares, a salvo dos rigores das leis, que em tese valem para todos. Não há mais censura, usar droga não dá mais cadeia, bolsas diversas sustentam mais de 36 milhões de famílias, e as faculdades formam milhares de doutores, especialmente advogados.

A gente pode cantar qualquer canção e ficar pelado não escandaliza mais. Gays se beijam em público e até se casam; virgindade é só na oração Mariana; existe a Lei da Palmada, as leis de cotas, e outras tantas em defesa da igualdade formal, que um desavisado acharia que esta nação caminha para ser o melhor dos mundos”.

Da casa murada, com alarmes e cercas elétricas, ouvem-se as sirenes do Corpo de Bombeiros e do SAMU, em socorro às vítimas de uma guerra civil não declarada, nas cidades e campos, que mata 60.000 brasileiros por ano, oficialmente. Antes, temíamos o guarda da esquina. Hoje o medo está em toda parte. Está nos encapuzados que depredam lojas e o patrimônio público, em índios que interrompem as estradas e cobram pedágios, nos sem-terras que não respeitam a propriedade privada, no grampeamento sem controle por agentes do Estado, na bandidagem que nada teme e se organiza em facções, formando seus exércitos. O Brasil está se deteriorando, apesar da melhora na distribuição de renda. Há um certo desalento, um desgosto com o rumo das coisas. Todos queremos democracia, que não se confunde com baderna. Queremos segurança e saúde. Melhoras na educação. Bandidos na cadeia. O império da lei e governantes honestos. Não é muito, mas o suficiente para a garantia da liberdade, banindo para sempre os fantasmas totalitários, da esquerda ou da direita.



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Por Manoel Hygino - 1/5/2019 08:36:47
Surge português na Ásia

Manoel Hygino

O Sri Lanka se encontra ainda sob efeitos traumáticos dos atentados do fim de abril. Os mortos contados e o número de feridos nos hospitais era superior a 300. A nação tem 21 milhões de habitantes, dos quais os católicos perfazem 1,2 milhão, cerca de 7% da população. Os budistas são 70%, os hinduístas 12% e muçulmanos 10%. A coexistência religiosa está em jogo. Os principais alvos dos criminosos foram quatro hotéis e três igrejas. O Estado Islâmico reivindicou o ataque.

O Sri Lanka é uma das grandes atrações para turista em toda a região, por suas praias idílicas e belezas naturais. Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prêmio Nobel, que por lá passou, pela terceira década do século passado, comentou: “em Colombo, não se notava aparentemente nenhum sintoma revolucionário. Tudo estava oculto numa tranquilidade opressiva. O país produzia para os ingleses o chá mais fino do mundo”. E Colombo era a capital do país como hoje.

Durante a guerra colonial, os holandeses da África do Sul ali foram confinados, quando ainda Ceilão. Neruda lentamente foi conhecendo a ilha. Junto a uma porta humilde, certa noite, surpreendeu-se com a emanação do aroma inconfundível do país; uma mistura de jasmins, azeite de coco, frangipana e magnólia. Confesso que “sentia-se embriagado pelo enigma de um sentimento indecifrável, de um ritmo que saía de toda a terra, uma terra sonora, envolta em sombra e aroma. Percebeu que os colonizadores ingleses desconheceram a música nativa, um distanciamento que nunca teve fim. “E significou um alheamento, um desconhecimento total dos valores e da vida daquela gente”.

No entanto, se os ingleses tinham muito a ver, não viam ou faziam pouco, como a caçada de elefantes. Os enormes animais tinham procriado demais e danificavam as plantações. Preparavam-se meios de afastá-los, cercando-os junto a um rio de um lado, e de fogo, fogueiras e tantãs de outro, impelindo-os a um recanto da selva.

Fazia-os andar até determinado ponto, em que não poderiam escapar ao cerco. Uma aventura perigosa, mas a que os animais não resistiam. Presos pela pata traseira com cordas grossas a vigorosas árvores, reagiam muito tempo e jejuavam coagidos. Alimentados apenas com brotos e grelos dos arbustos prediletos, e, depois de muito sacrifício, eles começavam a comer e já se podia dizer que estavam aptos, ao trabalho como os demais. Isto é, domesticados.

Com o ser humano, tudo é mais difícil. Daí, o que aconteceu com determinadas regiões submetidas aos europeus. Os graves e dolorosos acontecimentos de abril de 2019, no Sri Lanka, o demonstram à suficiência.

O que pouco se comenta, nos dias dolorosos de hoje, é que os portugueses passaram por aquela região. Antes dos holandeses e dos britânicos, os ibéricos lusos lá estiveram com a conquista do Reino do Jafanapatão, entre 1505 a 1658. Pelo que se depreende, e se confirma, os portugueses estavam altamente interessados àquela altura em tomar uma boa parte do mundo.

O Ceilão Português era um território no atual Sri Lanka, o que representa um período expressivo de sua história. Os portugueses encontraram primeiramente o Reino de Kotte, com quem assinaram um tratado. O Ceilão Português foi estabelecido através da ocupação de Kotte e a conquista de reinos circundantes. Em 1665, a capital do Ceilão Português foi transferida de Kotte para Colombo, onde está até hoje. A introdução do cristianismo provocou atritos com o povo cingalês, mas permaneceu até hoje custando muitas vidas. E almas.


83933
Por Manoel Hygino - 29/4/2019 13:39:18
A última carta de García

Manoel Hygino

As acusações eram de corrupção e, assim, o ex-presidente do Peru, Alan García, matou-se com um tiro na cabeça, em Lima, na quarta-feira, 17 de abril, não se conformando com a prisão a que seria submetido. A ordem judicial autorizava sua detenção sob argumento de ter recebido 100 mil dólares da Construtora Odebrecht, pagos como participação em uma conferência em São Paulo, em 2012.
Em dezembro de 2018, o Uruguai rejeitara o pedido de asilo que lhe fora formulado, buscando proteção no consulado em Lima, após retido seu passaporte na investigação sobre propinas da empreiteira brasileira. Para o chefe do governo uruguaio, Tabaré Vásquez, não havia provas que sustentassem a alegação de que García era perseguido político.
É desolador o amplo noticiário da imprensa internacional sobre o caso especificamente e tantos outros lembrados na ocasião. São tantos que a memória não consegue retê-los como conveniente. E mais alerta verificar que uma grande empresa do Brasil foi uma das patrocinadoras do descalabro. Ela própria reconheceu, em acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ter pago acima de US$ 800 milhões em países latino-americanos em propinas para se beneficiar com grandes obras de infraestrutura.
Eis um recorte de jornal:
“No Peru, a empresa disse que pagou US$ 29 milhões entre 2005 e 2014. O caso atingiu também os ex-presidentes peruanos Alejandro Toledo (2001-20016), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), todos sob investigação da promotoria.”
Quando ainda se analisava o suicídio de García, a mídia, no dia 19, informava que um tribunal peruano ordenara a prisão preventiva do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, com mais de 80 anos, já internado em uma clínica por causa de problemas cardíacos, preponderantemente resultantes das investigações a que se submetia por suposta lavagem de dinheiro da Odebrecht.
Será que essa gente se julgava dona do mundo, da consciência das pessoas e do Poder Judiciário de todas as nações do hemisfério sul-americano? São perguntas que só os envolvidos poderão responder e os povos cujos mandatários estão sendo presos gostariam de saber.
Como Vargas, que se matou no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, mas com um tiro no coração, Alan García escreveu uma última mensagem. Foi peremptório: “não houve, nem haverá contas, nem subornos, nem riqueza.” “Vi outros desfilarem algemados resguardando sua miserável existência, mas Alan García não tem por que sofrer essas injustiças e circos.”
Adiante, como se lera a carta-testamento de Getúlio, García acrescentou:
“Cumprido meu dever na política e nas obras realizadas a favor do povo, alcançadas as metas que outros povos ou governos não conseguiram, não tenho porque aceitar vexames”, escreveu numa parte da carta. “deixo para meus filhos a dignidade das minhas decisões, a meus companheiros um sinal de orgulho e meu cadáver como uma mostra do meu desprezo por meus adversários, porque já cumpri a missão a que me impus”.
O presidente suicida estivera à frente dos destinos de sua pátria em dois períodos, 1985-1990 e 2006-2011.


83932
Por Manoel Hygino - 27/4/2019 08:38:14
O que há por aí

Manoel Hygino

A Semana Santa deu-me ensejo de percorrer páginas de nossos jornais, permitindo selecionar e agora divulgar fatos diversos, alguns curiosos, que especialmente nos chamam a atenção, neste período vacilante da vida brasileira. É o que vai à frente.

1 – O presidente Bolsonaro anunciou, no Twitter, a criação do 13º salário para os beneficiários do Bolsa Família, com recursos oriundos em sua esmagadora maioria de desvios e recebimentos indevidos. É o que constou de nota oficial.

2 – O chefe da nação anunciou, há dias também, o cancelamento de 8 radares eletrônicos em rodovias federais. No dia 10, juíza federal em Brasília, contudo, aceitou ação popular e mandou que a União não retirasse os radares. Mais: determinou que sejam renovados os contratos dos radares prestes a vencer. Cabe recurso. A sentença também impôs multa de R$ 50mil em caso de descumprimento da decisão pelo governo federal.

3 – Motorista de Uber, de 65 anos, foi assaltado na periferia de Montes Claros e obrigado a tomar meio litro de cachaça. Depois, foi abandonado no mato. A corrida era para o bairro Santo Antônio. Mas o motorista acabou rendido pelos ladrões em matagal do bairro Jardim Olímpico. Após beber a água aguardente, teve pernas e braços amarrados. Os assaltantes levaram R$ 300. Ninguém apelou ao popular refrão “beba com moderação”.

4 – A qualidade de vida nos municípios brasileiros se manteve estável em 2016 e 2017. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, medido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, passou de 0,776 para 0,778, em uma escala de 0 a 1.

5 – A bilionária brasileira Lily Safra fez, sozinha, doação de 10 milhões de euros (cerca de R$ 44 milhões) para reconstrução da Catedral de Notre-Dame. A informação foi confirmada pela Fundação Filantrópica Edmond J. Safra, presidida por Lily. Disse ela: “nossos corações estão partidos pelo dano causado à Catedral de Notre-Dame, símbolo universal da herança de fé e de grandeza da França”.

6 – Desembargador Rogério Medeiros, presidente do TRE em Minas, revelou: “jantinha, leve em São Gotardo, onde fiz correição de manhã. Tropeirinho vegano. É a cidade onde morou tio Geraldo, irmão de meu avô paterno Euclydes, considerada, hoje, a capital nacional do cultivo de cenouras. Eles eram ali de perto, Córrego Dantas, região do Alto Paranaíba, próxima ao ‘nariz’ do Triângulo Mineiro. Dormi o sono dos justos e instalamos a correição e a biometria obrigatória de eleitores”.

7 – Gastos com servidores ativos e inativos no país tiveram aumento médio de 2,9% em 2018, na comparação com 2017. O cálculo é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, com base em números de 23 Estados. O instituto aponta que o resultado é quase três vezes superior ao crescimento de 1,1% registrado pelo PIB ano passado. Os gastos com pessoal ultrapassaram R$ 373 bilhões em 2018. Minas Gerais tem o segundo muito maior número de servidores inativos do que ativos, atrás do Rio Grande do Sul. Minas encerrou o exercício passado com 283.614 inativos e 245.319 ativos.

8 – Jornais do país publicaram declaração do ex-candidato a presidência Álvaro Dias (Podemos-PR): “(o Brasil) elegeu um presidente sincero porque na campanha ele dizia isso: ‘não entendo de economia, não entendo de agricultura, não entendo de saúde’. E o eleitor, majoritariamente, fez a opção”.


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Por Manoel Hygino - 26/4/2019 09:29:11
Eleição na Academia

Manoel Hygino

Quem se der ao cuidado de ler as orelhas da Revista da Academia Mineira de Letras verá que a entidade foi fundada em Juiz de Fora, em 25 de dezembro de 1909, Natal. A iniciativa partiu de um grupo de intelectuais, no qual pontificavam escritores, jornalistas, profissionais liberais, homens públicos e conceituados militantes da cátedra e dos tribunais. Consolidada a nova sede do governo de Minas em Belo Horizonte, acertou-se sua transferência para cá, o que se deu em 1915.
Lá e aqui, sua existência tem sido de lutas para manter-se e a seus ideais, nem se precisa perguntar porquê. De suas dificuldades e dos demais sodalícios estaduais e municipais, podem dizer os que estão em seus quadros.
Graças a uma ingente luta, de que somos testemunhas, sobretudo pelo esforço heroico durante longo tempo, do advogado, jornalista e escritor Vivaldi Moreira, procedente da Zona da Mata, no século XX, a AML venceu a façanha. Embora tantos tenham contribuído, coube-lhe o grande feito de conseguir a primeira sede própria na capital, e hoje se acha magnificamente instalada na rua da Bahia, na casa que serviu de residência ao médico Borges da Costa, o pioneiro na prevenção e combate ao câncer nas Américas, a quem se cabem méritos altíssimos, até agora, não suficientemente reconhecidos.
Só na primeira semana de abril deste ano, a Academia serviu de palco a dois acontecimentos que muito nos honram: no dia 2, a palestra “A minha relação pessoal e poética com Carlos Drummond de Andrade”, com o escritor português Arnaldo Saraiva, professor emérito da Universidade do Porto, em Portugal. Dois dias após, houve o lançamento do livro “Por que Estudar História”, do professor e acadêmico Caio César Boschi, que fez palestra sobre o tema.
A pergunta receberia resposta óbvia, mas os novos tempos que vivemos, com outras preferências e tendências no campo do ensino e do saber, justificam plenamente o título do livro, editado pela PUC e focalizado aqui pelo jornalista Paulo Henrique Silva, no último dia 3. Então, o acadêmico Boschi registrou as vias percorridas pela História nas últimas décadas, no Brasil e no exterior, com a chamada “história do gênero”, que ganha adeptos crescentemente.
Observou o escritor: “Temos uma ampliação deste leque, com o Brasil produzindo muito e com qualidade, segundo a avaliação internacional”, destaca Boschi. Entre os títulos lançados estão “Rosa Egipcíaca, uma Santa Africana no Brasil” (Bertrand), de Luiz Mott, e “A Mulher na História do Brasil” (Contexto), de Mary Del Priore. Boschi sublinha que a História não é uma verdade única ou definitiva. “Não há uma versão certa e outra errada. Existem versões, interpretações, tudo no plural. A História está sempre reconsiderando de acordo com o contexto, com a carência de cada um de nós”.
Pois no próximo mês, a Academia – na comemoração dos seus 110 anos – realiza eleição para uma nova gestão, sendo candidato único o confrade Rogério Faria Tavares, que já teve sob seus cuidados e gestão outros importantes grêmios, como o BDMG Cultural.
Rogério sucede a professora Elizabeth Rennó, que venceu um período de dificuldades inclusive financeiras, mas ainda de divergências internas, que se espera agora se resolvam. Enfim, a Academia veio para ficar e não pode deixar-se vencer.
A confreira cumpriu o seu papel, se houve com dedicação e competência, apoiou o aprimoramento dos processos administrativos, e da gestão do acervo bibliográfico e documental.
Daqui a pouco, no quinto mês do ano, começa outro tempo.


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Por Manoel Hygino - 18/4/2019 09:50:54
Notre-Dame para sempre

Manoel Hygino

Não soube exatamente como se comportou o mundo islâmico diante do incêndio na Catedral de Notre-Dame. Conhecido e admirado o grande templo, um dos mais notáveis cartões de visitas de Paris, que embevece e fascina, é venerado em praticamente todos os países, ou pela fé religiosa ou por sua grandeza arquitetônica e artística.
Notre-Dame levou a todas as nações e povos o nome de Nossa Senhora, a Nossa Senhora de Paris. A mídia divulgou, imediatamente, a tristíssima notícia do infausto evento, no dia 15 de abril, em plena Semana Santa. Não só os cristãos foram abalados pela mais contundente aflição. Imagens das televisões percorreram telas e, mesmo os fiéis a outros credos, prantearam com magna angústia o mal irremediável.
O fogo nas torres do templo, símbolo da França e o mais famoso do mundo, ainda ardiam, enquanto grupos de pessoas de muitas nacionalidades perambulavam pelas proximidades, transidos em sofrimento, para assistir ao indesejado espetáculo.
A imprensa internacional relatava os esforços dos bombeiros para debelar as chamas, que feriam dramaticamente a noite parisiense. Com rapidez, outras partes da catedral, localizada numa pequena ilha no centro da cidade, rodeada pelo rio Sena, foram atingidas. Como por divina profecia, na anterior sexta-feira, dezesseis estátuas no alto da catedral foram retiradas para restauração.
A magnífica construção, do século 12, recebe milhões de turistas todo ano e foi poupada por conflitos na Europa, até pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Soube-se que o presidente Emmanuel Macron, da França, adiou um discurso que faria ao tomar conhecimento do incêndio.
De Paris, dos velhos tempos, o cinema guarda inesquecíveis filmes, entre os quais evidentemente “O corcunda de Notre-Dame”, que oferece uma sucessão de cenas que não se esquecem. Charles Laughton se consagrou na figura do furtivo morador da igreja, estigmatizado pela anomalia anatômica.
“Pela primeira vez em minha vida, eu tive verdadeiramente a impressão de me encontrar em uma igreja”. Estes os termos com que se expressou Sigmund Freud, após “descobrir” a catedral. A ilha, a maior do Sena, representa sob todos os aspectos o coração histórico e místico de Paris, desde a Idade Média. A Igreja, com cerca de 850 anos é um símbolo, e ninguém que for à capital francesa deixará de visitá-la.
É bem difícil descrever, sem se trair, as mais extraordinárias obras que legou a História, entre as quais Notre-Dame. Elas constituem uma obra-prima que emociona e causa orgulho a um povo, o povo de Paris.
Preciosidades, ali acolhidas se salvaram, na última semana, entre as quais a coroa de espinhos que Jesus foi obrigado a carregar antes da crucificação, assim como a túnica de São Luís, de especial devoção dos franceses. Também foram preservados um pedaço de prego e da madeira utilizada no sacrifício do Gólgota, em Jerusalém, há mais de dois mil anos.
Não houve vítimas no acidente do dia 11 e a restauração do edifício demandará cinco anos, segundo o presidente Macron. Empresas de várias nações se dispuseram a contribuir, enquanto os contingentes mais pobres da população fazem arrecadação para levantamento de fundos.


83913
Por Manoel Hygino - 18/4/2019 09:44:41
Jesus, é bom saber

Manoel Hygino

Em plena Semana Santa, cristãos de todo o mundo evocam Jesus e o reverenciam, em meio à multiplicidade de versões, desde seu nascimento e até a morte. Geoffrey Blaine, em “Uma breve história do cristianismo”, é claro: “A cidade de Nazaré, na Galileia, onde Jesus passou a maior parte da vida, é considerada por alguns como outro possível local de seu nascimento. Na verdade, os seguidores de Jesus eram chamados de nazarenos, e o próprio Jesus é descrito no Novo Testamento como “o Nazareno”. Mesmo depois de muitas pesquisas, vários modernos estudiosos da Bíblia afirmam apenas que ele era galileu: “Conclui-se que não se sabe onde ele nasceu”.
Para melhor conhecer Jesus, tem-se de estudar muito, pesquisar. Pedro Rogério, da Academia Mineira de Letras, estudioso, elaborou “O livro de curiosidades da Bíblia”, muito útil, em que dedica um tópico aos domicílios do Mestre. Explicou:
“Ele teve pelo menos dois domicílios. Jesus viveu (até a idade adulta, presume-se) em Nazaré (Lucas 4.16); depois da morte de João Batista, ele mudouse para Cafarnaum, à beira do lago de Genesaré, onde, de fato, iniciou sua vida pública de pregador. Foi à beira-mar (porque o lago se chamava também Mar da Galileia) que ele arregimentou os pescadores Pedro e André, irmãos, e Tiago, filho de Zebedeu. Disse-lhes: Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens (Mateus 12)”
Pedro Rogério anota, aliás, que Jesus ficou conhecido não pela cidade onde nasceu, Belém, e sim por Nazaré, onde seus pais viveram. O tema é fascinante e há, além disso, bons autores a indicar e abrir caminhos. Numerosos são consultados sobre determinadas passagens. Assim é o episódio da cruz. Jesus não a teria carregado por inteiro, mas apenas o pedaço transversal, chamado patibularium, em latim, ou patíbulo.
A prática dos romanos era deixar o madeiro vertical no local onde se daria a execução. Os evangelistas que registraram aqueles momentos cruéis sofridos por Jesus, ao escreverem que ele transportara a cruz às costas, fizeram apenas uma interpretação do fato. Tomaram a porção pelo todo, como está na “Vida de Cristo”, de Ricciotti, seguido por bons historiadores. O que o mestre levou consigo foi a estaca de pau, o que já era extremamente penoso para um indivíduo com a compleição do filho de José e Maria.
Aliás, os próprios soldados romanos, condoídos, tiveram a iniciativa de procurar alguém que pudesse ajudar, convocando uma pessoa que andava por ali, no caminho do Gólgota, um tal de Simão Cirineu. Ele se submeteu à missão, como está descrito por Mateus e Lucas, embora o evangelista João não faça referência ao detalhe, afirmando que Jesus a carregou sozinho ao longo do percurso.
Providências seguintes: Jesus teve os braços pregados ao patíbulo e o corpo suspenso por cordas ao pau vertical. Os pés foram cruzados numa saliência daquele madeiro. Sem esse apoio, o corpo não teria como ficar na posição que as imagens sacras reproduzem.
Ao deixar esta vida, Jesus, segundo os mais confiáveis estudos, teria 34 anos e meio a 35 anos e meio, e não 33 como popularmente aceito. Explicações ficam para futura publicação.


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Por Manoel Hygino - 12/4/2019 13:57:14
As Letras por aí

Manoel Hygino

O mundo em papel não para de rodar. É assim mesmo. Faz parte do todo. Enquanto escrevemos, o planeta gira e os acontecimentos mais graves se registram. Estrangeiros fugindo de perseguições desembarcam nesta terra que tem novo governo, mas milhares dos nossos escapam, buscando melhor sorte lá longe.
Mia Couto, o conceituado autor da costa Leste da África, viajou para Belo Horizonte para encontro com seus leitores e com os de Guimarães Rosa, em programada noite dedicada a “Grande Sertão: Veredas”, não o seu livro favorito, ora recebendo edição nova. Rosa ganharia nova idade, tornando-se centenário em 2008, mas ganhou bilhete para a viagem sem volta.
O autor de Cordisburgo, de passagem terrena cheia de malabarismos, retratados em sua apropria produção literária, serviu à diplomacia brasileira, depois de servir à polícia mineira. Andando aí pela terra sertaneja, assimilou costumes e personagens e saiu contando suas coisas e causos, enquanto as filhas cuidavam do patrimônio. Deu até briga na Justiça, enfrentando o escritor goiano Alaor Barbosa, que militou com sucesso na imprensa escrita; não tinha medo. Enfim, é nascido em Morrinhos, tem certas características de Cordisburgo, com sua imensa e belíssima gruta que Deus largou em Maquiné para alegria dos homens.
Por antecipação divina, talvez, Mia Couto também deixou Moçambique quando um terrível ciclone fazia seu ensaio sinistro, largando milhares de casebres destruídos, centenas de vítimas fatais, muitos estropiados, falta de medicamentos e alimentos, de médicos. Daí, os bombeiros que atuavam na localização de corpos e restos sobrados do caos em Brumadinho voarem para o Leste da África para ajudar no possível. Nessa hora, não consta surgimento de interessados em negócios de petróleo, inclusive o Brasil, para a mãozinha salvadora. Negócio é negócio, amores à parte. Mia veio para cá, porque não é técnico em salvamentos humanos ou em recuperação de habitações. Mas não é só. Simultaneamente quase, o autor mineiro Ronaldo Cagiano, nascido na gloriosa Cataguases, sentiu o ânimo e a paciência esgotados, depois de aposentar-se.
Habitando a maior cidade do hemisfério Sul, foi sequestrado com a esposa, ameaçados de morte. Percebendo chegada a hora, juntou as roupas, tomou o avião de carreira e desembarcou em Lisboa. Estaria bem perto dos fundadores da terra brasílica, longe dos eficientes bandos de ladroagem. No mês de fevereiro, juntou-se às equipes que montavam as “Fronteiras Literárias”, na capital lusa. E tinha razão. Ligou-se a escritores brasileiros residentes no exterior que organizavam o projeto. Sobressaíram as escritoras Andrea Zamorano e a idealizadora da proposta, Else Vieira, professora de literatura brasileira no Queen Mary, de Londres.
A temática predominante era a extraterritoriedade e a literatura diaspórica, que ganha espaço mundo afora. Porque aqui estava difícil. Enfim, algo notável: um Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior, com organização da Fundação José Saramago. Bem longe do país que ostenta a segunda maior carga tributária da América Latina, se puseram em ação e lograram sucesso. Uma pena que não fosse, aqui e agora!


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Por Manoel Hygino - 9/4/2019 07:42:13
Cem dias de governo

Manoel Hygino

Ao abrir os jornais de domingo, assustei-me. De súbito, pensei que estava em outro mundo e tempo. “Os cem dias de Bolsonaro” crepitavam mais do que “Dez dias que abalaram o mundo”, título do famosíssimo livro do americano John Reed, reportando os acontecimentos que eclodiram na Rússia em novembro de 1917. Contudo, estava eu em abril de 2019, cento e dois anos após os dramáticos eventos (aqui o substantivo está corretamente empregado) que assinalaram o fim do tzarismo. Era a subversão dos marinheiros do Kronstadt, a convocação do Congresso Pan-Russo dos Soviets, o bombardeio do Palácio de Inverno, a fuga de Kerenski, o assalto ao Palácio Imperial e, enfim, a tomada do Kremlin.
Sem embargo, felizmente os acontecimentos não são tão catastróficos e temíveis na terra descoberta pelo português Cabral (não o brasileiro governante do Rio, condenado até agora a cerca de 200 anos de prisão por malfeitos com o dinheiro público. Nada nos une tudo nos separa, para adaptar o refrão).
Tudo mudou. Tudo? As cinzas do celebrado repórter repousam na base das muralhas do Kremlin, ao lado da Praça Vermelha, logo atrás do túmulo de Lênin, em Moscou. Por aqui, as cousas são menos violentas, a não ser o rompimento de barragens para rejeitos de minérios de ferro e o volume de dinheiros públicos transferidos a menos nobres fins e em parcial benefício de uma corja eleita para dirigir os destinos nacionais. Ainda bem que nenhuma regra é igual, ampla e sem exceções.
Em os Dez Dias, o mundo conseguiu sentir o que significava o triste período de transferência de um regime para outro. Os 100 dias é assunto para exame proximamente, pois se espera definir, em primeiro lugar, sobre a votação do projeto da Previdência, ainda predominante nas conversas nos corredores do Parlamento e nos gabinetes do Planalto. Mas também nos salões de barbeiros, restaurantes e botequins.
Não é tempo tranquilo, antes pelo contrário. Haja vista o tempestuoso debate (?) na Câmara dos Deputados, em que o ministro Paulo Guedes revelou que está habilitado e disposto a brigas, embora às vezes elas emporcalhem as cadeiras do Parlamento.
O professor de Direito e jurista Sacha Calmon faz considerações adequadas destes dias. Lembrou, assim, o presidente, “em viagem ao Oriente Médio, que - em vez de louvar Jesus, em Belém, na Palestina, na igreja da Anunciação-, enfiou bilhetinhos na muralha restante do segundo templo de Javé, em Jerusalém, como se fora um deles. Foi pedir perdão”.
Qualquer que seja o resultado das pesquisas sobre os dias do governo instalado no primeiro dia deste ano, a verdade é que paira um clima de dúvida, tanto que cerca de 100 mil brasileiros em quatro anos, até 2018, procuraram novos rumos no planeta e o fluxo é crescente.
Antônio Machado, que entende do assunto, escreveu: “Tem algo bastante errado. As discussões estão acirradas na imprensa e nas redes sociais, mas há muito mais espuma que substância. Nos salões do poder, falam de reforma da Previdência e de medidas para elevar a produtividade da economia, e também se discute se em 1964 houve golpe, se o nazismo é de esquerda ou direita.
Já nas ruas da economia estagnada, com desemprego em massa, jovens sem expectativas, educação que deseduca e saúde enferma, burocracia voltada ao próprio interesse pecuniário sob o disfarce de políticas sociais e do combate à corrupção, vê-se um país em decadência”. É, pois, preciso mudar logo, e há tempo suficiente.


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Por Manoel Hygino - 2/4/2019 08:05:43
1964, 31 de março

Manoel Hygino

Movimento ou Golpe, pouco importa. O que aconteceu em 31 de março de 1964 continuará na memória dos brasileiros que viveram aquele tempo ou dos que interesse têm pela história. Os fatos estão aí, embora envolvidos, bem ou mal, por quantos dão a sua interpretação e versão. Naquela data, porém, a imprensa de todo o país, inclusive das duas maiores capitais, faziam a cobertura de um episódio que passou a ser “o crime das Irmãs Poni”, atraindo a Ouro Preto multidão de repórteres e curiosos do “grand monde”. Flávio Andrade, residente na antiga capital do estado, a tudo acompanhou porque pretendia escrever um relato minucioso e amplo.
Eu, que redigia a reportagem para “Manchete”, já a maior revista do Brasil e cuja sucursal chefiava em Belo Horizonte, estava lá para assistir ao segundo julgamento de um caso de amor e morte. Flávio Andrade começou seu trabalho: “tinha tudo para ser uma novela das nove. Uma dama da alta sociedade, acompanhada da irmã, dá dois tiros na amante do ex-marido à luz do dia. Dois tiros na nuca. E, de quebra, ainda fere a madrasta do ex-companheiro.
Tudo isto na elegante pousada de uma das mais importantes cidades turísticas do Brasil. Depois do crime, fogem para a capital e são presas numa barreira policial. A assassina descendia de italianos, foi miss na sua cidade e era campeã de tiro. O morto, filho de um ex-vice presidente da República e ex-governador do estado”, presidente de uma poderosa empresa de extração de ouro.
O crime fora em 1962 e a vítima, que frequentava as colunas sociais, era filha de um coronel do Nordeste, neta de um juiz de Direito pernambucano, morava no Rio de Janeiro, mulher simpática e moderna, fluente em francês e inglês, 30 anos.
O primeiro julgamento ocorreu em abril de 1963. As irmãs foram absolvidas. A apelação conseguiu anulação do júri e da respectiva sentença. O segundo julgamento, marcado para 31 de março de 1964, atraiu a elite do país, a imprensa toda, hotéis e hospedarias lotados. Reforçou-se a segurança, boa parcela da população pôs-se ao lado das autoras, de esposa traída pelo marido. A amante recebera o merecido.
Flávio Andrade em sua exposição conta a experiência de Manoel Hygino dos Santos: “Ao mesmo tempo em que cobria o julgamento, recebia informações desencontradas sobre a movimentação das tropas do general Olympio Mourão Filho. As comunicações eram precárias. Tinha-se de fazer fila na telefônica local, distante do Fórum, para mandar notícias para redações em Belo Horizonte, Rio ou São Paulo. “Não esperamos a noite toda. Pegamos os carros e voltamos para capital para esperarmos os fatos de 31 de março, quando o 1º de abril se anunciava. A serra estava invadida por névoa densa e perigosa. Os faróis na rodovia demonstravam que havia mais do que um júri na velha Vila Rica”.
O julgamento exigiu pesos pesados do mundo jurídico. Entre eles, Jair Leonardo Lopes, criminalista contratado pela família de Maria de Lourdes, a vítima, assistente de acusação, atuando ao lado do promotor Hélio Ramos. Tudo levava a crer que as irmãs seriam condenadas.
Do outro lado, o então deputado Pedro Aleixo, que realizou uma defesa emocional, ressaltando as condições de uma mulher abandonada pelo marido. Ao seu lado, o advogado Edmundo José Vieira, que se dedicava também a atividades educativas. Aleixo conseguiu o supostamente impossível, com as teses de que as manas tinham agido “coagidas pelos valores morais da sociedade da época”.
Deixaram a cadeia, julgadas inocentes, em 5 de novembro, indo dividir seu tempo entre sua fazenda em Pompéu e apartamento em Belo Horizonte, falecendo a autora em 1977, aos 68 anos. Pedro Aleixo se reelegeu deputado federal, teve participação no regime militar, o único que votou contra o AI-5. Depois, a vice-presidência e interino na presidência da República.


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Por Manoel Hygino - 1/4/2019 08:28:01
Crise de representatividade

Manoel Hygino

Está em circulação um livro sobre os 30 anos da Constituição de 1988, lançado pela Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes. Foi um dos organizadores o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, doutor em direito administrativo da UFMG, professor da Faculdade de Direito Newton de Paiva e da Escola Judicial. Na edição, o magistrado mineiro ressalta que a Carta de 1988, “foi escrita sob o impacto das liberdades conquistadas, após 21 anos de autoritarismo, adotando os preceitos de uma democracia livre”.
No documento, o autor faz um balanço dos três decênios de vigência do texto constitucional, focalizando os aspectos positivos, tanto quanto o permitia o espaço da publicação. Positivos: consolidação da democracia; ampliação dos direitos e garantias fundamentais; proclamação dos princípios regentes da administração pública; sanção dos atos de improbidade administrativa; efetiva independência dos poderes e autonomia do Poder Judiciário; fortalecimento das funções essenciais à Justiça: Ministério Público, advocacia e Defensoria Pública; proteção do meio ambiente; e constitucionalização do direito privado. Negativos: atribuição excessiva de direitos e garantias individuais, coletivas e difusos, sem a indispensável contrapartida dos deveres; proliferação descontrolada de partidos políticos; sistema de governo denominado “presidencialismo de coalizão”; edição abusiva de medidas provisórias; e judicialização da política e da vida social, com o avanço do ativismo judicial.
Embora longo, como o assunto impunha, vale o tempo que se dedicar a ele. O magistrado traz a exame a contribuição de conceituadas autoridades, destacando o que a Constituição Coragem conseguiu resistir e se consolidar, o que não lograram as anteriores, de 1891, 1934, 1946 e 1967, só abatidas depois de acidentada existência. O trecho que se refere à ampliação dos direitos e garantias fundamentais é primoroso. No que tange à independência dos poderes e autonomia do Judiciário, cita-se o professor Ives Gandra Martins, enfatizando-se que no equilíbrio entre os poderes reside a maior virtude do texto constitucional.
“Apesar de prenhe de direitos, seu mérito maior, todavia, diante da absoluta liberdade que os constituintes tiveram para discussão de um modelo de lei fundamental, foi ter criado um sistema em que o equilíbrio de poderes é inequívoco. Sem equilíbrio de poderes não há segurança jurídica. Em nenhum texto anterior (1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967, com suas emendas), essa realidade revelou-se de maneira tão nítida como no de 1988. Nem mesmo os Estados Unidos, pátria do presidencialismo, segue a teoria da tripartição dos poderes de Montesquieu – que a própria França não hospeda –, com separação tão nítida como no Brasil, nada obstante o instituto das medidas provisórias ofertar impressão diversa”.
Sobre o Ministério Público, colhe-se a assertiva de Cunha Rodrigues, ex-procurador da República no Tribunal da Relação do Porto: “são os direitos do homem que legitimam o Ministério Público, o movem e o limitam. Os direitos de todos: dos poderosos e dos desprotegidos, dos ricos e dos pobres, dos sábios e dos ignorantes, dos que falam alto e do s que não têm voz. Representando a sociedade, o Ministério Público representa-os a todos”.
Após manifestar-se sobre o fortalecimento das funções essenciais à Justiça, à proteção do meio ambiente, a constitucionalização do direito privado, ao excesso de direitos e garantias sem a contrapartida dos deveres, o desembargador articulista desembarca na proliferação dos partidos políticos, para os quais a Carta Magna estabeleceu ampla liberdade de criação, “sem a camisa de força do regime político anterior”.
O sociólogo Manuel Castells, espanhol, aponta a crise de representatividade em nosso tempo. Os cidadãos não se sentem mais representados pelos partidos políticos e sindicatos. O Brasil não constitui exceção ao quadro geral.


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Por Manoel Hygino - 27/3/2019 09:04:40
Quem paga pela vida

Manoel Hygino

Eduardo Frieiro é um dos notáveis das letras em Minas, um dos seus grandes pesquisadores e historiador por nascimento e vocação. Membro da Academia Mineira de Letras, deixou sua magnífica biblioteca ao sodalício, ora instalado na rua da Bahia. Quem quiser melhor conhecer o atual Estado e a velha província, não poderá deixar de recorrer a sua preciosa produção.
Foi um autor severo na crítica, mas cônscio de sua responsabilidade perante a própria história. Ele não teve medo de expor suas ideias. No que se refere à nossa riqueza, ele a contesta com veemência: “Uma das patranhas da nossa história, tal como usualmente se conta nas escolas, é a da pretendida opulência das Minas Gerais na época da abundância do ouro. Em boa e pura verdade, nunca houve a tão propalada riqueza, a não ser na fantasia amplificadora de escritores inclinados às hipérboles românticas”.
A propósito, aconselha-se também a leitura de outros autores, menos afeitos à fulguração da lenda sobre a velha capital e o território, que Frieiro julga “muito lindo para os que se nutrem de belas fábulas”. Rude sua opinião: “A realidade foi bem diversa. Nem riquezas, nem grandezas. Apenas o atraso econômico e a pobreza, como herança num desvairamento fugaz, próprio de todas as Califórnias.
O ouro, farto, que borbotava em fabulosa abundância, se foi esgotando e havia razão para isso. Eram milhares os aventureiros que chegavam de todas as regiões da colônia, mesmo da Europa, além dos escravos que para aqui eram trazidos para exploração do prodigioso mineral”.
“Do Brasil e do Reino, vinham ininterruptamente muitos milhares, todos movidos por um só pensamento: enriquecer depressa e regressar às suas terras de origem”.
Mas havia o outro lado da situação: ninguém plantava, nem criava, nem produzia. Para que o sacrifício? Os ganhos sopitavam da terra e sobre ela se encontrava o suficiente para o luxo, mantendo a corte ou capaz de saciar as exigências dos que entre nós já se tinham estabelecido.
Como não poderia deixar de ser, provocou-se a elevação de todos os preços. A carestia de vida, que caracterizou determinados momentos das cidades hoje históricas. Frieiro indaga: “Que se apurou, afinal, de tanta fartura, capaz de aplacar a mais veemente auricárdia? Nada mais que uma crise de calamidades- anarquia, desordens, violências miséria e fome”. Aliás, esse quadro é focalizado ainda pelo sábio Antonil, que minuciosamente o descreve em livro.
Repito, contudo, Eduardo Frieiro: “Desfeita a miragem do ouro, a região das Minas Gerais abismou-se num estado de miséria de que ainda agora não acabou totalmente de sair”. O ouro fácil, superabundante, se findou. Ficaram algumas grutas com restos ou minas a serem aproveitadas por empresas estrangeiras bem à frente do tempo. Fazer o quê? O mundo mudara. Os anseios e necessidades já eram outros. Assim, surgiu a oportunidade para o minério de ferro, que suscitou a cobiça das grandes companhias e conglomerados. O sentimento de hoje, depois dos dramáticos acontecimentos de Mariana, onde estava o Fundão, e de Brumadinho, é de consternação, indignação e dor.
Minas tem medo; a população mal dorme - se dorme. As sirenes podem soar a qualquer hora, milhares se preparam para fugir do caos. Quem pagará pelo prejuízo de milhares de pessoas e pela própria vida? O poder público ou as empresas?


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Por Manoel Hygino - 25/3/2019 13:27:59
Um país de prisões

Manoel Hygino

A prisão de um cidadão na via pública quando, envergando terno completo, se dirigia ao local de trabalho, em plena tarde quente da maior cidade do país, poderia ser classificada como algo extraordinário, inusitado. Mais chamaria mais a atenção, se o brasileiro detido ou preso fosse um ex-presidente da República, saído do exercício do cargo há menos de três meses. Sem entrar em detalhes, que ficam para outra oportunidade e para profissionais da área do Direito e da Política (já em exame da matéria), entro no assunto, que tem interesse nacional. O Brasil vive um momento difícil do ponto de vista político, da ordem institucional, desentendendo-se a cada dia e hora os membros do Ministério Público sobre posições e declarações de ministros do Supremo Tribuna; o chefe do Executivo com o presidente da Câmara dos Deputados; quando integrantes do núcleo familiar se imiscuem em questões que não lhes dizem respeito diretamente; uma espécie de casa de mãe Joana, que não autoriza uma perspectiva saudável. É uma pena! Já tivemos no passado períodos críticos e momentos perigosos que poderiam servir de alerta!
Sobre fatos e personagens, de hoje e de antanho, o mineiro Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, mineiro da Zona da Mata, jornalista que atua em Brasília, após passar por alguns dos maiores veículos de comunicação do país, Doutor em História Cultural e autor de dez livros que ajudam a compreender este momento, lançou no final do ano findo, “Pinguela, a maldição do vice”, que focaliza o significado e o papel desse personagem na existência deste país.
Salassié observa na apresentação: “Nas sombras desse cenário, deparei-me com a figura aparentemente solitária de Michel Temer, vice-presidente da República, um senhor indeciso, porém teimoso, e que se propõe a apenas concluir a transição presidencial de 2014 para 2018, devido ao impedimento da presidente”.
O jornalista lembra Fernando Henrique Cardoso, que classificou o governo do vice de “uma pinguela”. Foi quase uma maldição!
“Nos 129 anos de República, o vice sempre foi um sujeito emblemático, considerado uma pedra no sapato do Presidente e um entrave ao processo de desenvolvimento e de modernização do país”. Em outro parágrafo, o escritor observa que, “como sempre a História, o vice herdou a administração da máquina do Estado desarrumada, a economia em recessão, o desemprego generalizado, o país em estado conflituoso e a população sem ter em quem acreditar”. É assim?
No que tange ao cidadão preso, professor de Direito Constitucional, restaria dizer: “para agravar, Temer encontrou um operação jurídico-policial inquisitória anticorrupção, que assustava e prendia autoridades de Estado em todas as esferas do Poder. Chamava-se, ironicamente, Lava-Jato. Expunha os ranços oligárquicos na política e os protagonistas transgressores emergentes. De tal forma que, fora da operação, cabia apenas indagar se o vice Michel Temer era um ator no ambiente ou uma vítima da História. Tudo coincidia com a chegada das gerações “millennials”, autossuficientes e conectadas digitalmente em uma espécie de parlamento viralizando as angústias pessoais dos cidadãos”.
Começa-se, agora, uma nova fase da vida republicana, já estigmatizada por desvios, erros e vícios de múltipla natureza. Este momento grave, tanto quanto a admoestação do livro em questão, suscita a oportunidade de transcrever o final da última capa: “Coloca o dilema de ver Temer como uma vítima da História ou como mais um dos protagonistas do caos. O Brasil teve 35 presidentes, mas só 19 cumpriram integralmente o mandato. Não há país que suporte cenários de tamanha instabilidade”.


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Por Manoel Hygino - 21/3/2019 16:44:04
A viagem de Bolsonaro

Manoel Hygino

A visita do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos, hospedado na Blair House, no complexo da Casa Branca, com a sucessão de reuniões entre altas autoridades de nosso país, constitui motivo de natural regozijo em Washington e Brasília. Enfim, consumou-se o encontro dos mais elevados escalões da administração das duas maiores nações das Américas, neste primeiro trimestre.
Não se esquecerá de que, em tempos idos e vividos, quando éramos ainda colônia de Portugal, alguns inconfidentes se aproximaram de pioneiros da independência dos Estados Unidos, em encontros na Europa, a fim de que a experiência do Norte pudesse servir de exemplo e parâmetros para projetos que se pretendia para o país independente que se forjava no hemisfério Sul.
Em sua visita aos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro está hospedado desde domingo no Blair House, casa de recepção a ilustres hóspedes do governo americano, nas proximidades da Casa Branca, em Washington. É um tempo próprio para discutir questões que interessam às duas nações: a maior do hemisfério Norte das Américas e a maior do hemisfério Sul, para desfazer opiniões diversas, controversas e adversas a uma aproximação que ultrapassa à simples questão geográfica.
Motivos ocasionais, políticos e ideológicos interferiram nas relações entre as duas grandes nações do continente. Havia os que julgavam que o Brasil sempre embarcava na canoa de Tio Sam. A política externa, por exemplo, como proposta por Jânio e o chanceler Afonso Arinos, pela primeira vez se tornou assunto de discussão nacional. Naquela hora, pareceu que os milhões de brasileiros que votaram em Jânio tinham despertado de um pesadelo. As relações com Cuba, com os países comunistas, e com os africanos, dividiram a opinião pública brasileira. Falava-se muito, discutia-se sobre “política externa independente”.
O embaixador Vasco Leitão de Abreu, uma das maiores expressões de nossa diplomacia, se manifestou: “O pessoal do centro-esquerda achava que eu estava me entregando aos reacionários da direita e que a minha motivação era política, que eu era contra a política do Afonso, apoiada pelo presidente.
Mas eu estava de acordo. Nem achava que tivesse tanta importância assim, achava que a nossa política era mais independente do que parecia”.
Vasco foi claro: “Até então não tínhamos por hábito seguir os Estados Unidos, e dessa vez íamos ser independentes da política americana, íamos criar uma política com a África.”
Vasco enfatizava que o Brasil não votava automaticamente com os EUA. Nunca houve subserviência. “Nas coisas mais importantes sempre tomávamos as deliberações mais acertadas para o Brasil. Como os Estados Unidos, mas não a reboque, era a tese de Lauro Muller. “Não era ser importante subserviente para ser atacado”.
Os acordos assinados por Trump e Bolsonaro são de grande importância para as nações de que são presidentes em várias áreas da vida nacional. Enfim, ainda, libera-se a base de Alcântara para lançamento de foguetes e satélites, embora sob jurisdição do Brasil. Esta todavia, todavia, depende da aprovação do Congresso.


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Por Manoel Hygino - 16/3/2019 08:34:39
A hora presente

Manoel Hygino

Por mais que se queira minimizar o mau estado de espírito da população deste país, não há dúvida de que perdura um aspecto sombrio e preocupante. As notícias que frequentam os veículos da mídia deixam uma ansiosa e inquieta preocupação, a cada dia que se inicia ou perspectivas que se vislumbram para os seguintes. Tem-se atribuído à imprensa comumente só divulgar as más notícias, mas o fato bom e novo só surge para divulgação rarefeitamente.
A verdade é que desabamos num poço profundo em que se acumulam adversidades e episódios hostis, que atiram o brasileiro a dúvidas cruéis. Não há suficiente pausa para as informações confortantes, capazes de amainar dores e meditações plúmbeas.
Já teve o leitor o cuidado de relacionar as notícias que lhe chegam incessantemente para dividi-las em boas e más, fazendo uma lista do que pode ser considerado útil e positivo, inserindo em outra coluna o que seguramente é doloroso e negativo?
O mau humor percorre as ruas, alcança os mais recônditos rincões do território, com a velocidade que as novas tecnologias possibilitam. Não há arautos do pessimismo, de túrbias profecias, de horizontes adversos. No entanto, entre nós grassa presentemente, em todos os recantos e horas, vislumbres de tristeza, dor e corroídas esperanças.
Não é sadia, saudável, a situação em que nos encontramos, apesar dos esforços dos bons e dos justos, dos que acreditam em mudanças substanciais, que favoreçam um ambiente de efetiva paz e de amor verdadeiro.
Todos sabemos que não estamos no melhor dos mundos e que há erros a corrigir – que cumpre encontrar adequados caminhos para percorrer. Vivemos um período extremamente difícil e rudes serão as jornadas que nos esperam. No entanto, o seguro conhecimento dos fatos e circunstâncias indicará conveniente melhor itinerário. Os bons entendedores sentem o que pensamos e almejamos. Saibamos armarmo-nos contra os malfeitores e suas ciladas.
O trimestre, cujo fim se aproxima, deixa um rastro dorido para muitos milhares de brasileiros, em que se destacam as vítimas do rompimento de uma barragem para rejeitos de minérios em uma cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas também mais de uma dezena de jovens estudantes e vítimas em cidade do Estado de São Paulo.
Há o vazio que todos os mortos deixam e que jamais será esquecido. Pelo menos cabe nos solidarizar com as famílias, esperando que o poder público se incumba de apenar culpados, sejam quem forem. Não há mais espaço para impunidade em nosso meio.
O brasileiro consciente já se definiu e não admite tergiversação. Aqui não haverá, nem será uma nova Venezuela. Há sacrifícios à frente, mas o mérito reside exatamente em vencê-los. Somente assim se assegurará o futuro da nação e do povo.


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Por Manoel Hygino - 15/3/2019 08:17:24
Volúpia de matar

Manoel Hygino

João Dória, governador de São Paulo, após a terrível chacina na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, comentou simplesmente: “é a mais triste cena a que já assisti em toda minha vida. Estou chocado com o que ocorreu”. Dez mortos resultaram do episódio, que comoveu e simultaneamente indignou o país inteiro, já chocado com graves acontecimentos este ano.
Bastaria lembrar o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro, que deixou 203 mortos (até ontem), além de 105 desaparecidos, enquanto os bombeiros, de Minas e outros estados, vasculham penosamente a região atingida.
Em São Paulo, a tragédia somou uma dezena de pessoas vitimadas, entre as quais os próprios executores do crime, um dos quais menor de idade. Entre as vítimas, como sói acontecer muito comumente, a mineira de Ubá, professora Marilena Ferreira Umezu, que costumava saudar seus alunos na sala de aula com a frase: “Bom dia, grande família”.
Na manhã trágica de 13 de março - uma data possivelmente aziaga, os dois jovens, o mais velho com 25 anos, ingressaram no educandário para cometer o tenebroso crime e, em seguida, se suicidar, como deveriam ter visto em filme por televisão ou outro meio eletrônico.
A chegada da força policial foi rápida, cerca de oito minutos, mas nada mais pode fazer. A imprensa delatou: os autores entraram na escola na hora do intervalo. Um deles usava máscara de caveira e luvas. Primeiro, atiraram em uma coordenadora pedagógica e em uma supervisora. Depois se dirigiram ao pátio, onde atingiram alunos de ensino médio. Após, seguiram para um centro de línguas.
O atentado causou caos e pânico. Imagens gravadas dentro do estabelecimento logo depois do atentado mostram os estudantes correndo, deparando os corpos no chão e gritando em desespero. Eles pularam o muro da escola e procuraram abrigo no comércio da região.
Um dos sobreviventes e a que tudo assistira declarou: “Eles não queriam algo de valor ou vingança. Queriam matar todo mundo”. Um comparsa desfechou um tiro no companheiro de aventura e, finalmente, deu fim à própria vida. Pareciam dominados pela volúpia de eliminar seres humanos e também levavam consigo, em mochilas, como se apurou, revólver, coquetéis-molotov, machado e uma besta, isto é, um lança-setas.
O que se podia fazer em termos de violência e insanidade se fez. Resta, enfim, saber apenas se alguma lição útil se extrairá da maldade, que se classificaria de desumana. Mais do que nunca os desvarios e, no outro caso, a cobiça excessiva da indústria minerária exigem meditação, providências e estudos acurados e isentos. O homem e seus conglomerados não podem ficar à mercê de personagens despreparados para viver em sociedade e no comando de grandes empreendimentos.
A vida humana há de ser levada em conta, para evitar que novas tragédias desabem sobre todos e sobre tudo. A Terra é uma só e depende de cada um e de todos que nela vivem, que têm o dever sagrado de preservá-la às novas gerações.


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Por Manoel Hygino - 14/3/2019 09:06:07
O caso Marielle

Manoel Hygino

Escrevo algumas linhas sobre o anúncio dos nomes de duas pessoas, suspeitas do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, na oportunidade do primeiro aniversário da ocorrência, que corresponde também à morte de seu motorista Anderson Gomes. Tudo na fatídica noite de 14 de março de 2018, em pleno centro urbano da segunda maior cidade do país, ex-sede do governo federal.
Os detalhes servem para enfatizar a gravidade do episódio, considerados o local do acontecimento, situações dos presos envolvidos e a insuficiência de instrumentos e condições para a autoridade elucidá-lo. A família reclama que um ano é tempo demais para as investigações e apresentação de resultados à sociedade.
Transcorridos doze meses do crime, que logrou repercussão internacional pelas características especiais da principal personagem assassinada, afrodescendente, defensora de minorias estigmatizadas, contrária a interesses de grupos milicianos que agem na periferia do Rio de Janeiro. Estes praticam sistematicamente todo tipo de malfeitos e crimes, e Marielle era alvo preferencial, tornando-se vítima da cilada bem preparada.
Um ex-policial, exímio atirador, e um investigado pela PF, dela expulso há oito anos, foram apontados pela dupla execução. No entanto, o delito não está inteiramente esclarecido, pois muito mais renderão as investigações que se fazem. A tal ponto que o próprio presidente da República declarou: “espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a eles, se é que foram eles os executores”. Eis a questão.
Não se há de julgar longo o prazo para chegar ao primeiro passo do tumultuado caso. Na verdade, quantos crimes contra a vida permanecem sem conclusão? Seus autores estão soltos em todas as capitais brasileiras e nas cidades. A questão é muito mais grave do que se supõe e está longe de soluções claras e definitivas.
Além dos fatos referidos, há de evocar-se o relativo ao atentado contra o presidente Bolsonaro, em plena campanha eleitoral, em rua central de Juiz de Fora, no dia 6 de setembro de 2018. Não fora a competência dos médicos da Santa Casa e a presteza e eficiência das equipes que assistiram Bolsonaro, este teria perdido a vida e outra seria a história do Brasil, como se assistiu eloquentemente pela televisão e pela descrição de toda a mídia. Mas, o próprio chefe da nação pede esclarecimentos suficientes sobre o gravíssimo incidente. Até quando se suportará esta sequência incontida de crimes na área da segurança?
Não se poderá esquecer que, ontem mesmo, na dinâmica cidade de Suzano (SP), oito pessoas (até adolescentes) foram assassinadas por dois rapazes, um dos quais menor. A que leva essa plêiade de jovens (não me refiro ao episódio de Marielle) a pôr fim à vida e ao futuro das pessoas, como gado bovino em matadouro?


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Por Manoel Hygino - 13/3/2019 09:08:54
Arquivos de um Papa

Manoel Hygino

Francisco, primeiro e único até agora com o nome, despertou a atenção dos cristãos e não-cristãos para problemas, antigos ou mais novos, sobre os quais se mantinha reserva ou sigilo. O prelado de Buenos Aires tem sido ousado em suas manifestações. Como anunciado no último dia 5, ele autorizou a abertura dos arquivos do Vaticano durante o período em que reinou Pio XII, porém acontecerá somente em 2 de março de 2020. Segundo Francisco “a igreja não tem medo da história”.
O pontificado de Pio XII se deu de 1939 a 1958 e ele é especificamente criticado por silenciar diante do holocausto e duramente tratado, pessoalmente, com “algum preconceito e exagero”, sob acusação de não protestar contra os crimes do nazismo. Inclusive, por serem em 1943, a poucos metros do Vaticano, 1022 pessoas deportadas para o campo de concentração de Auschwitz, sem contestação pela igreja. Apenas 16 retornaram.
Nos dois decênios em que ocupou a cátedra de Pedro, sucedendo a Pio XI, de temperamento fechado, Pio XII opôs-se aos governos totalitários anticristãos da Europa e, principalmente, ao nazismo, e condenou a perseguição aos judeus, mas apoiando Franco na Espanha.
Eugênio Pacelli, isto é, Pio XII, foi escolhido para agir de modo distinto ao antecessor, notabilizando-se por sua habilidade diplomática. Pio XI percebeu nele o candidato ideal para suprir suas próprias deficiências. Nomeado secretário de Estado, viajou
sobretudo pela Europa, mas estendeu sua missão às Américas, visitando Estados Unidos, Argentina e Brasil, sempre bem sucedido.
Condenou as doutrinas totalitárias, exaltando os direitos das grandes tanto quanto das pequenas nações, assim como das minorias raciais. Pregou a cooperação econômica entre os povos e o desarmamento, afirmando que a religião era a garantia única da paz justa e permanente.
Os aliados, durante a guerra, desconfiavam de suas simpatias pró-germânicas e pró-italianas. Estava, todavia, profundamente comprometido com o seu papel de líder espiritual de todas as nações e dedicou os primeiros meses de seu pontificado a um esforço desesperado contra a guerra.
Em agosto de 1939, discursou: “Nada se perde com a paz; tudo pode perder-se com a guerra”. Para Eamon Duffy, uma vez iniciado o conflito, esforçou-se para não tomar partido, visando promover a paz em toda oportunidade, e para tentar impedir as atrocidades e a desumanidade, não aspergindo água benta nas armas de nenhum dos lados envolvidos.
Curiosidades: na Santa Sé desenvolveu o hábito de descer à cripta à noite para rezar entre as tumbas de seus predecessores. Em todas suas fotografias, aparecia em pose de oração, preocupado com o outro mundo.
Falava fluentemente o alemão, língua que usava em conversas na intimidade. Embora detestando e desprezando a teoria racial nazista, adorava a música e a cultura alemãs. Convencera-se de que, enquanto Hitler estivesse vivo, a paz negociada seria impossível. Em 1940, assumiu pessoalmente o papel de intermediário entre os aliados e um grupo de militares alemães que conspiravam para assassinar o líder. Dilacerado quanto à moralidade da atitude, ocultou-a mesmo entre os colaboradores mais próximos. Tudo isso pode aparecer na pesquisa dos arquivos, já que nada há a se ocultar ou silenciar.


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Por Manoel Hygino - 11/3/2019 09:10:31
Os desvios de recursos

Manoel Hygino

Parecia combinado: o excelente artigo ou ensaio de Letícia Malard no volume “Estudos sobre Belo Horizonte e Minas Gerais”, nos 30 anos do BDMG Cultural, organizado por Eliana de Freitas Dutra e Caio César Boschi, ambos com nomes e títulos que dispensam apresentação. Quanto a Letícia, é professora emérita da Faculdade de Letras da UFMG, além de doutora em literatura brasileira pela mesma universidade, atuando nas áreas de teoria da literatura e literatura comparada.
Aliaram-se os esforços para publicar algo que diz muito de perto ao interesse e ao momento vivido por Minas, após as tragédias em dois municípios da região da velha província. A autora começa por lembrar que, exatamente em 1718, construiu-se a capela de São Bento, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, cuja destruição deixou um rastro de saudade e indignação em todo o país, desde o fatídico novembro que causou 19 mortes e a ruína total da área habitada. É fato recente.
Letícia, ainda no primeiro parágrafo, registra que arqueólogos holandeses conseguiram retirar o barro do monumento histórico, após o caos. “Começou-se pelo ouro e acabou-se com o minério”. Depois, seria a vez de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, com apenas rejeitos de minério de ferro.
O atual Estado de Minas Gerais foi criado em 1720, quando a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro se desmembrou. Nasceu assim a nossa Capitania, em ano que permitiu o transporte, da Colônia a Lisboa, de 25 mil quilos de ouro. A chegada da riqueza a Portugal serviu para entusiasmar os lusos e para incentivar novos projetos no lado de cá do Atlântico.
Uma vasta correspondência foi trocada, inclusive entre o soberano e o conterrâneo, D. Lourenço de Almeida, escolhido governador por dom João V. Ele se transferiu de Pernambuco mas tinha parentes importantes na corte. São documentos preciosos existentes no Arquivo Público Mineiro e reveladores do que acontecia nos bastidores, não apenas ligados a negócios. A professora recorda, a propósito que, por volta de 1728, o soberano queria que o papa nomeasse para núncio apostólico em Lisboa determinado religioso, fazendo-o antes cardeal, mas o pontífice decepcionou e nomeou outro.
Resultado: “o rei, freirático, mas também beato, que alocava recursos fabulosos na igreja como um todo, e buscava naus de transporte do Vaticano para a China, fechou a nunciatura em Lisboa, ordenou a volta dos portugueses residentes em Roma e proibiu todos os seus vassalos de se relacionarem diretamente com a Santa Sé. Quando veio novo papa, o rei João V teve realizado seu desejo, pois seu protegido foi nomeado núncio em Lisboa”.
Enorme a variedade no teor das cartas. Mas, pode-se afirmar que a temática subjacente tem caráter garantista: controlar e policiar ao máximo a exploração do ouro e das pedras preciosas, para impedir motins, desvios, sabotagens, mistura com areia e esmeril, furto na pesagem, contrabando, negociatas dos dízimos, além de tudo mais que na capitania se fazia, mas continuava apesar de tudo.
A professora quase no final de seu texto observa: “à exploração de ouro e pedras, com um intervalo e de suspeitos, seguiu-se a exploração do minério de ferro, que permanece até os nossos dias. O resultado está aí, aos olhos de todos: tragédias anunciando novas tragédias”.


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Por Manoel Hygino - 9/3/2019 09:54:45
Os voos de Da Vinci

Manoel Hygino

O problema sexual está na ordem do dia e pode ser conferido pelas notícias e reportagens de jornais, revistas e televisão. É tema frequente de debates nas casas do Congresso Nacional ou em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal. Logo, existe de fato.
No triênio final do ano passado, pude ler que uma nova produção focalizando a homossexualidade será apresentada pelo canal RAI, na série “Leonardo”. O canal italiano banca a iniciativa, que não tem ainda data para distribuição no mundo.
Para Eleonora Andreatta, chefe de programação da emissora, o genial artista era mesmo “um filho excluído. Gay, vegetariano e canhoto. Tudo isso significava que sofria discriminação”. A jornalista vai além: “A série olha para a vida de Leonardo através da visão de Caterina, uma jovem que trabalhou como modelo em seu estúdio. A relação próxima que os dois cultivaram vai permitir que entremos na alma e conheçamos os segredos desse personagem”.
Cada episódio da primeira temporada da série focará o nascimento de uma das obras-primas de Da Vinci, mas a série “dará tanta importância para os aspectos pessoais de sua vida quanto para os artísticos”. A série “Leonardo” deve estrear em 2019, quando a morte de Da Vinci completa 500 anos. O italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci nasceu em 1452 e morreu em 1519. Entre suas principais obras estão “A Última Ceia” e “Mona Lisa”.
Neste ano em que o gênio completa meio milênio de morte, o mundo em que viveu e que ainda o explora aproveita para faturar seu inesgotável talento, o que não constitui surpresa porque fez mais do que pintar a Mona Lisa, que em qualquer país civilizado é admirado, ou no Louvre, onde se acha bem protegido e disponível aos apreciadores de arte.
Na França, sobretudo no Vale do Loire, o Vale dos Reis, uma ampla programação dá ênfase à sua vida porque por lá se encontram belíssimas peças de sua criação.
O artista pode ter-se influenciado pela mãe, pois sendo Leonardo ainda muito jovem, ela se casou com outro homem, mas sem abandoná-lo. Aliás, quando redijo este texto, vejo o sobrevoo de um helicóptero e me acode à memória que Leonardo Da Vinci, de fertilíssima criatividade, deixou em caderno de esboços um famoso desenho que se supõe ser de um desses eficientes e versáteis aparelhos. Aos quais, por sinal, se deve o resgate de vítimas e seus restos mortais removidos do desastre da mina de rejeitos da Vale, em Brumadinho.
No fim do século XVI, o artista, inventor e cientista viveu na pujante Florença e, embora, cercado por lisonjas e bajulação, parecia mais interessado em estudos matemáticos. Para Stephen Farthing, ele foi imbatível por suas ideias e projetos, inclusive como engenheiro, agrimensor e cartógrafo da família Borgia. Estudou os padrões de voos dos pássaros, projetou máquinas hidráulicas, analisou a ciência da pintura e dissecou corpos humanos para adquirir conhecimento profundo de anatomia.
Viveu um período feliz em Milão, como consultor-arquiteto do governador francês da cidade e servindo ao rei Luís XII. Reviravoltas políticas o fizeram transferir-se para Roma, onde lhe faltaram trabalhos. Regressou à França, em 1516, onde se dedicou a novos projetos e teses científicas. Em Amboise, foi sepultado perto do castelo Clos Lucé, em que passara os três últimos anos de vida, convidado do rei Francisco I, da França, que lá só permaneceu 72 dias de seus 32 anos de reinado.




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Por Manoel Hygino - 8/3/2019 09:45:29
Meditações no Carnaval

Manoel Hygino

Jornais de Belo Horizonte, em seu espaço destinado à programação de televisão, advertiam, no dia 2, que o canal History exibiria o filme “O Último Papa”. Ele se refere a uma investigação sobre profecia de 900 anos atrás, feita por São Malaquias e formada por 112 pequenas frases em latim, segundo as quais o número de pontífices seria exatamente 112 antes da destruição de Roma, do fim da Igreja Católica e do mundo. Segundo o cálculo, o papa Francisco corresponde a 112, o último portanto.
É tema, pois, que mexe com todo o mundo, nem se precisa dizer por quê. Como não vi o filme, restringi-me a examinar o assunto, enquanto o Brasil derramava alegria, e excessos certamente, com o Carnaval, que só não viu quem não quis.
O primeiro Malaquias foi um dos profetas menores e viveu no templo de Nehemias, após o exílio da Babilônia. O seu livro, cuja autenticidade não é contestada, divide-se em duas partes: a primeira contém censuras ao povo, especificamente aos sacerdotes; a segunda anuncia a renovação que virá na era messiânica, com o castigo dos maus e o prêmio aos fiéis à Lei. Esclareça-se: Malaquias significa “o mau mensageiro”.
O segundo Malaquias, que foi canonizado, nasceu em Armagh, na Irlanda, em 1095, e se tornou sucessivamente abade de Benchor, bispo de Canor e arcebispo da Armash. Morreu em 1148, em Claraval, onde se deteve para encontrar-se com São Bernardo, que vinha de Roma.
É uma história complicada, principalmente porque lhe atribuem a “Profecia dos Papas”, que deve ser datada de 1585/1590. O autor, seja quem for, relacionou os pontífices que governaram a Igreja desde Celestino II, com um breve comentário sobre suas divisas, que visaria a candidatura de determinado cardeal ao trono pontífice. De todo modo, afirma-se não ser obra de São Malaquias, mas de um falsário do século XVI.
Sempre que um novo papa era escolhido, reapareciam estas profecias. Segundo elas, “o sucessor de João Paulo II seria o penúltimo pontífice antes da chegada de Pedro, o Romano, e o fim do mundo. O lema do próximo papa seria “Gloria Olivae” (A Glória da Oliveira), e apontaria na direção de que o novo chefe da Igreja “governará em tempo de paz ou será de estirpe mediterrânea”.
O lema atribuído ao falecido João Paulo II era “Da Laboris Solis” (Do trabalho ao sol) e foi interpretado como o papa vem do Leste (onde nasce o sol), capaz de um grande e prolongado trabalho.
Depois, seria eleito o último pontífice: Petrus Romanus, “que alimentará seu rebanho em meio a muitas tribulações. Depois disto, a cidade das Sete Colinas será destruída e o temido juiz julgará seu povo”.
O sucessor de João Paulo II seria assassinado e sua morte aconteceria em uma invasão muçulmana do Ocidente, rachando a Igreja Católica. No entanto, esta é uma previsão de Nostradamus, segundo Gonzalo Echeverria, estudioso dos escritos do profeta francês do século XVI. É outra coisa, pois que fica para meditação pós-Carnaval.


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Por Manoel Hygino - 7/3/2019 09:54:02
Lições do tempo

Manoel Hygino

Que país é este? A pergunta - segundo o embaixador Alves de Souza - não foi formulada por De Gaulle. Mas o quesito fica para resposta futura. No último 22 de fevereiro, os jornais de Belo Horizonte registravam que, no dia anterior, cerca de dois mil policiais militares, civis e agentes penitenciários, no início da noite, fecharam a rodovia MG 10 em protesto contra o pagamento do 13º salário em 11 parcelas e, simultaneamente, pela retomada pelo governo de Minas dos repasses ao Instituto de Previdência dos Servidores Militares. O chefe do Executivo apresentou nova proposta, rejeitada pelos policiais e agentes, que liberaram a rodovia, mas com promessa de novas manifestações.
A expectativa era grande e aconteceu o que se aguardava, pois - há muito - o funcionalismo mineiro anda de pires na mão para receber o que lhe é devido. Novidade? A situação financeira do Brasil, em 1919, por exemplo, era igualmente dolorosa, e a nação toda reclamava. O presidente Epitácio Pessoa fez um depoimento grave: “Quando assumi o governo, em 1919 (e está fazendo exatamente agora cem anos) era tal o estado do Tesouro que, ao aproximar-se o fim do primeiro mês, verifiquei com terror que não tinha como pagar a tropa e o funcionalismo público”.
Nelson Werneck Sodré comenta, aliás, que a terceira década do século XX foi a do tenentismo e assinala o início da derrocada da velha estrutura econômica, aquela que, apesar da Abolição e da República, era simples continuação da que ocorrera na fase colonial.
Só isso? E depois? E agora?
Observa-se que, a despeito de tudo, não se resolveram ainda problemas essenciais, e não vai nisso pessimismo. Basta fixar-se um pouco nas questões que nos afligem, transformadas em desafios, apesar da evolução em muitos setores da vida brasileira.
Para se entender, hoje, o caso da Vale e de seu imenso poder em um estado vocacionado à produção e exportação de minério, ter-se-ia obrigatoriamente de voltar às primeiras décadas do século XX, quando se celebrou o contrato entre a União e a Itabira Iron Ore Co. Muito em divisas vieram e vêm para Minas Gerais, mas faltou - no decorrer do tempo - o cuidado em preservar o território, físico, e vidas humanas. Deu no que está aí, e que ora deploramos.
Aliás, poder-se-ia lembrar e refletir sobre Minas Gerais com tanta riqueza e sem recursos para pagar funcionários. O excelente Eduardo Frieiro comentou, com muita propriedade, voltando mais ao passado: “Nos primeiros tempos das descobertas, o ouro brotava em fabulosa abundância, primeiro à flor dos córregos, em lavras de aluvião, fáceis de explorar, e depois em filões e assentadas minerais, que pediam trabalhos mais penosos. O morro do Ouro Preto e o Ribeirão do Carmo, onde se encontravam as mais dadivosas lavras, povoaram-se rapidamente com os milhares de aventureiros que acorriam de todas as partes do Brasil e do Reino. Todos eram movidos por um só pensamento: enriquecer depressa e regressar às suas terras de origem.
E depois, como era fácil ganhar e mais fácil ainda gastar, despendia-se tudo por aqui mesmo. Que se apurou, afinal, de tanta fartura, capaz de aplacar a mais veemente auricídia? Nada mais que uma crise de calamidades: anarquia, desordens, violências, miséria e fome.
Refletir não custa.


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Por Manoel Hygino - 28/2/2019 09:27:09
A paz em risco?

Manoel Hygino

As escaramuças nas fronteiras do Brasil e Colômbia com a Venezuela evidentemente continuarão por tempo indefinido. Para o ditador Nicolás Maduro não interessa a paz, porque mantem seu domínio sobre o bom povo do país à base da fanfarronice e demagogia, além de altos salários para os comandos militares. Somente apelando para o ludíbrio se conseguiria manter acomodada uma população que ganha 6 dólares de salário mínimo ao mês.
Não sem razão, quase 2,7 milhões de venezuelanos deixaram a pátria desde 2015, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas). A política de pretensa socialização, sob a qual se esconde a performance governamental (?) de Nicolás resultou em fracasso, que não se sabe quando termina. E se ainda não terminou por inciativa dos próprios venezuelanos, é porque lhes faltam recursos mínimos para se contrapor.
Desde 22 de janeiro, dá-se esse espicha e encolhe na fronteira, não se podendo esquecer que a Guiana entrou forçosamente no imbróglio, sem falar nos Estados Unidos que desejam ver o sucessor de Hugo Chavez pelas costas há muito tempo.
Caminhões brasileiros levaram cargas humanitárias para atendimento às necessidades fundamentais do povo, mas o próprio Nicolás elevou a voz e declarou que não precisa de esmolas do Brasil, como leite em pó, feijão e arroz, pois pode comprar e pagar. Seria o momento propício para um acerto de contas, porque não me consta que Caracas tenha pago seus débitos ao Brasil, inclusive para implantação do metrô da capital.
Fontes oficiais de cá, inclusive pelo vice Hamilton Mourão, dão conta de que o Brasil não quer conflito com o vizinho do norte. Além das contas a receber, depende de Caracas para abastecer Roraima de energia.
Para Juan Guaidó, uma intervenção militar estrangeira na região não pode ser descartada. O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, disse em Bogotá, dirigindo-se aos militares que sustentam Nicolás Maduro na Venezuela. “Todas as opções estão na mesa. Para quem apoia Maduro, tenho um recado do presidente Trump: vocês podem apoiar a oferta generosa de anistia do presidente interino, Juan Guaidó, e viverem no seu país em paz. Mas, se manifestarem o apoio a Maduro, não encontrarão saída fácil. Vocês perderão tudo e serão responsabilizados. Façam a escolha certa por suas famílias e fiquem ao lado de Guaidó”, destacou Pence.
Países da América Latina integrantes do Grupo de Lima descartaram uma ação militar contra a Venezuela, mas querem que Nicolás Maduro seja julgado por tribunal internacional, por crimes contra a humanidade.
O Grupo recusou intervenção militar em comunicado divulgado após reunião em Bogotá, na Colômbia. No texto, o grupo de 14 países, entre eles o Brasil, afirma que a transição democrática na Venezuela deve ser conduzida “pacificamente pelos próprios venezuelanos”, com apoio de meios políticos e diplomáticos e “sem uso da força”.
O vice-presidente norte-americano, Mike Pence, presente em Bogotá, reiterou que “todas as opções estão sobre a mesa” para afastar Nicolás Maduro e empossar ao autoproclamado presidente interino. Compreendo que a situação de Maduro está cada vez pior, como evidencia a elevação do tom nos pronunciamentos públicos e pelo baixo nível do vocabulário. O fato de, há poucos dias, chamar o presidente Conde, da Colômbia, de maricón é prova cabal. Depois de tantas escaramuças e movimentação na fronteira, começou a guerra de palavras. Depois...


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Por Manoel Hygino - 27/2/2019 09:30:28
A mão forte de Francisco

Manoel Hygino

No Vaticano, convocada pelo papa Francisco, realizou-se, no passado fim de semana, a reunião de 190 representantes do alto clero de todo o mundo para discutir o tema (e o problema) “A proteção de menores na Igreja”. Por aquela época, bem próxima, o papa tomou outra atitude enérgica. Ele, que não titubeia diante de cardeais, expulsou um sacerdote goiano, de 45 anos, suspeito de abuso sexual contra ex-freiras e ex-noviças, perdendo o padre o status clerical. Significa que o padre, ou ex, ordenado há 19 anos, deixou de ser sacerdote, na punição mais grave que a Igreja Católica pode impor a um clérigo.
A expulsão é o desfecho de investigação canônica contra o religioso, que, após passar por muitas dioceses no Brasil, atualmente responde ao bispo de Ciudad del Este, no Paraguai. Citado como molestador de pelo menos 11 mulheres, ele fora afastado temporariamente. Agora, a decisão é definitiva.
Francisco, aliás, afirmou na histórica e recente abertura da cúpula do Vaticano: o “povo de Deus” espera “medidas concretas” contra a pedofilia. Para o pontífice, pedofilia não pode existir.
Há uma aproximação de datas. Veja:
Em um fevereiro não muito remoto, registrou-se o anúncio da renúncia de Bento XVI ao comando da Igreja Católica. Seu ato se tornou conhecido do mundo em pleno dia 28, em 2013, quando ele surpreendeu a cristandade. Uma sombra pairou sobre o trono de Pedro. Bento XVI foi o quarto pontífice a renunciar, antecedido por Gregório XII, em 1415. A renúncia não invalida os fundamentos e muito menos o que pregou Jesus de Nazaré, provocando, porém, um estremecimento talvez como da barragem da Vale, de 25 de janeiro em Brumadinho. Mas as posições de Francisco são inabaláveis, a despeito de tudo.
Convém trazer do passado o que aconteceu com Bento XVI. Ele teria alegado problemas de saúde e desacordo com condutas sociais, como casamento entre pessoas do mesmo sexo e a necessidade de esses casais adotarem filhos, mas a realidade é outra, como se depreende dos murmúrios nos corredores da Santa Sé. Aliás, isso acontece há décadas, centênios, não há novidade.
Vale a pena repetir: uma coisa é a religião católica, outra o Vaticano, que é um Estado e, como tal, tem suas mazelas, seus subterrâneos, suas podridões, como sublinhou o jornalista Oscar Andrades, em seu blog.
No caso imediatamente precedente, seria o envolvimento do Vaticano no submundo do crime em operações financeiras. No caso mais recente, em que Francisco aparece aparentemente lançando chamas contra os abusadores sexuais é outro episódio. De todo modo há crime, com o que a Igreja não concorda e contra ambos Francisco se levanta com todo vigor e rigor, ainda, com autoridade da Igreja. Confessou a plenos pulmões: “Me traz à mente a cruel prática religiosa, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos – frequentemente crianças – como sacrifício nos rituais pagãos. Gostaria de reafirmar com clareza: se na Igreja for descoberto um só caso de abuso – que em si mesmo já representa uma monstruosidade, o abusador é um instrumento de Satanás, e a Igreja está diante de uma manifestação do mal”.


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Por Manoel Hygino - 26/2/2019 10:18:43
O papa e Maduro

Manoel Hygino

Enquanto na Venezuela se desenrola a novela inquietante da disputa pelo comando da nação entre o ditador Nicolás Maduro e o autoproclamado presidente e líder da oposição, Juan Guandó, reservas de suprimentos e medicamentos esperam na fronteira do Brasil, em Roraima. A ajuda humanitária está proibida pelo sucessor de Hugo Chávez de ingressar no território ao Norte para atender à demanda de milhões de pessoas. Algo criminoso, como se vê.
No Vaticano, convocada pelo papa Francisco, realiza-se a reunião de 190 representantes do alto clero de todo o mundo para discutir o tema (e o problema): “A proteção de menores na Igreja”. Pois exatamente nesse ínterim, o papa tomou outra atitude enérgica. Ele, que não titubeia diante de cardeais, expulsou um sacerdote goiano, de 45 anos, suspeito de abuso sexual contra ex-freiras e ex-noviças, perdendo o padre o status clerical. Significa que o padre, ou ex, ordenado há 19 anos, deixou de ser sacerdote, a punição mais grave que a Igreja Católica pode impor a um clérigo.
A expulsão é o desfecho de investigação canônica contra o religioso, que, após passar por muitas dioceses no Brasil, atualmente responde ao bispo de Ciudad del Este, no Paraguai. Citado como molestador de pelo menos 11 mulheres, o padre fora afastado temporariamente. Agora, a decisão é definitiva.
Francisco afirmou também: o “povo de Deus” espera “medidas concretas” contra a pedofilia, falando na abertura de cúpula histórica no Vaticano sobre o tema. Aconteceu, na última quinta-feira, na reunião em Roma da qual muito mais poderá advir, e que se aguardará pelos meios de comunicação.
Situação delicadíssima na sede da Igreja, mas também na terra descoberta por Colombo. As fronteiras da Venezuela com o Brasil e Colômbia encontram-se fechadas desde a noite de quinta-feira, por decisão de Maduro, tropas armadas para garantir posições.
No que tange a Francisco, não há perspectiva de retrocesso. Cabeça dura, Trump insiste também em erguer um muro intransponível no limite com os mexicanos. A região está, pois, sitiada.
O que haverá de restar do terrível embrulho em que fomos metidos? No Brasil, atravessamos um período de angústia diante da sucessão de notícias sobre a possibilidade de rompimento de barragens que serviam à produção minerária, fonte expressiva de divisas na balança comercial.
Não se esquecerá que, exatamente em fevereiro, registrou-se a renúncia de Bento XVI ao comando da Igreja Católica. Seu ato se tornou conhecido do mundo em pleno dia 28, surpreendendo a cristandade. Uma sobra pairou sobre o trono de Pedro. Bento XVI foi o quarto pontífice a renunciar, o antecedido por Gregório XII, em 1415. A renúncia não invalida os fundamentos e muito menos o que pregou Jesus de Nazaré, e provoca um estremecimento talvez maior que o de 25 de janeiro em Brumadinho. Mas as posições de Francisco têm sido inabaláveis.


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Por Manoel Hygino - 23/2/2019 09:20:46
As aventuras de Farquhar

Manoel Hygino

Alguns livros, pouco lidos entre nós por sinal, talvez devessem ser indicados aos brasileiros das novas gerações para que elas se inteirem e melhor entendam fatos e acontecimentos que se desdobram até nossos dias. Um deles, por exemplo, seria “Farquhar, o último titã”, de Charles A. Gauld, de 520 páginas e já traduzido ao português por Eliana Nogueira do Vale, editado pela Cultura de São Paulo, em 2006.
O autor (1911–1977), diplomado em história, jornalista e professor, tornou-se mais tarde brasilianista, com toda razão e por todos os títulos. Por sinal, um pesquisador dos temas focalizados por Gauld é Enéas Athanázio, de Santa Catarina, a quem se deve “Farquhar e Lobato”. Ele reside no Balnário Camboriú e considera a obra simplesmente “impressionante”.
Nesta hora em que a produção escrita completa de Lobato é liberada no país, nada melhor que focalizar o tema e seus personagens, porque a tragédia de Brumadinho é apenas uma parte desta dolorosa história quase fantástica, que precisa ser comentada à nação e aos brasileiros, para que se faça uma avaliação segura.
Farquhar já foi objeto de observações minhas anteriormente. Sirvo-me do escritor de Camboriú para resumir-lhe a biografia. “Foi homem de mil negócios, fundou um império econômico – o chamado Sindicato Farquhar, estendendo tentáculos por boa parte do mundo”, logo não deixaria o maior país do hemisfério latino-americano fora de seu alcance, de suas riquezas e perspectivas.
Nascido em York, na Pensilvânia, estabeleceu a sede do seu grupo em Nova York. Formou-se em engenharia e direito. Teve negócios em Havana e construiu ferrovias em Cuba e Guatemala. Era o cidadão dos mil instrumentos e todos o sabiam: “lidou com energia elétrica, bondes, terras, gado, frigoríficos, navegação, celulose e papel, madeiras e minérios”.
No campo dos transportes, foi “concessionário dos portos do Pará e do Rio Grande, construiu a célebre Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, “a ferrovia do diabo”, em Rondônia, e a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, interligando o Sul do país. Sonhava implantar uma rede ferroviária transcontinental, unindo todo o continente, e realizou em parte o seu propósito. Seu famoso trem intercontinental, blindado e luxuoso, trafegou desde a Argentina até São Paulo”.
Só por evocar esses projetos, pode-se perceber que Percival Farquhar era uma fera. Pouquíssimos sonharam tanto e tão alto e, arregaçando as mangas, pôs-se a campo. Não ficou na conversa, mantendo entendimentos de altíssimo nível com chefes de governo e Estado.
Naqueles dias que já parecem tão remotos, Lobato e Farquhar lutavam para criar no Brasil a mentalidade necessária para estabelecimento da indústria do aço, usando as fabulosas reservas minerais Minas à frente. Àquela época, apregoava-se que o país era eminentemente de produção agropecuária.
Percival procurava pressionar Vargas e, depois de tudo, dizia que como empreendedor mundial jamais gastara tanto em propinas para conseguir que certos brasileiros o deixassem trabalhar.


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Por Manoel Hygino - 21/2/2019 09:00:08
Identificação do mordomo

Manoel Hygino

Prisioneiros do medo? Passageiros da agonia? Dominados pelo pânico? Todos poderiam servir como títulos de filmes de terror, condizentes com a hora de inquietação que os mineiros principalmente passam depois do desastre de Brumadinho. Este entrou definitivamente para a história do Brasil pelas suas dimensões e pelo saldo de dor e perversas lembranças legadas às gerações seguintes.
Em cada margem de rio ou proximidade de chuva, a qualquer hora do dia ou da noite, o pesadelo incessante das sirenes que podem disparar, alertando para males de consequências imprevisíveis. Resta correr com os filhos, os animais domésticos e utilidades inseparáveis, na fuga de avalanches ameaçadoras.
Imprevisão? Displicência? Criminosa omissão?
O escritor gaúcho Nelson Hoffmann, também advogado, em sua Roque Gonzales, fronteiriça com a Argentina, em terra missioneira, preocupado com o que acontece do lado ao Norte do rio Uruguai, pergunta: “quer saber? Eu ando desanimado com o ser humano. Desde sempre, é sempre a mesma coisa: toda tragédia previsível é postergada... Até que aconteça. Acontecido, procura-se, pesquisa-se, o tempo passa, nada muda... Até que nova tragédia aconteça. E esta nova, então, explode nos holofotes da imprensa. E os mortos da tragédia anterior, da anterior à anterior?”.
A verdade insofismável é que agora o mundo tomou conhecimento de uma barragem que se rompeu em Brumadinho, cidade da Região Metropolitana da capital de um estado quase do tamanho da França. O relatório da consultoria alemã Tuv Sud atestou, contudo, a estabilidade do empreendimento, mas revelou que a base da estrutura estava no limite de segurança previsto pelas normas brasileiras. Visita técnica em campo, entretanto, revelou 15 pontos que exigiriam atenção, com necessidade de novo radar e medidores de pressão na estrutura. O documento fora concluído em agosto do ano passado, menos de meio ano, portanto.
A comunidade entrou em cena para identificar as causas do desastre que abalou Minas Gerais e desafia a ciência. Quem é o culpado? Poderia ter sido evitado? Como em romances policiais ingleses, o primeiro suspeito é o mordomo. Mas, afinal, quem é ele? Onde pode ser encontrado? Centenas e centenas de estruturas iguais à de Brumadinho se encontram em situação semelhante. As populações temem, tremeriam possivelmente as barragens. O projeto de lei “Mar de Lama, Nunca Mais” permanece em debate acalorado (é o que se espera) na Assembleia Legislativa de Minas.
A Terra, planeta, fica parada no espaço, no universo, imóvel. As causas são múltiplas. Tremores em Montes Claros, por exemplo, têm como causa uma falha geológica de um a dois quilômetros de profundidade, próxima ao perímetro urbano, na região Norte da cidade. Os cães, com audição mais apurada que os humanos, são os mais alertas com o problema.
Uma das mais recentes hipóteses do rompimento da barragem de Córrego do Feijão é que ele poderia resultar de liquefação, como ocorre em sistemas construídos por alteamento a montante. Esta a versão do subsecretário de Regularização Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente do Estado. Aliás, como divulgado, mais da metade das barragens com ordem expressa de fiscalização se localizam em Minas, isto é, são 1862, das quais cinco na categoria de alto risco, que incluem a probabilidade de ruptura.


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Por Manoel Hygino - 20/2/2019 09:35:11
Quando Roma fala

Manoel Hygino

É um fato inédito: pela primeira vez na história da igreja católica um cardeal é expulso da vida religiosa por motivos sexuais. Aconteceu, no segundo mês de 2019, quando o papa Francisco despachou o norte-americano Theodore McGarrick, de 88 anos. É uma decisão irreversível, por emanar a sentença da Congregação para a Doutrina da Fé, que zela e vela pelo respeito ao dogma católico.
McGarrick é alvo de acusações, inclusive por abusar de três menores e ter assediado padres e seminaristas adultos, e objeto de investigações desde setembro de 2017. Já proibido de exercer o ministério, encontrava-se privado de todos os direitos e prerrogativas de sacerdote, inclusive celebrar missa.
Para o pontífice, que enfrenta esse e outros tipos de problemas semelhantes, a tolerância é zero para esses casos. Seguramente, o tema será debatido, de 21 a 24 de fevereiro, no Vaticano, quando também se examinará a responsabilidade de prelados que silenciaram sobre agressões sexuais a menores.
Os problemas que afetam os membros da igreja, qualquer que seja o escalão ou área, têm exigido especial atenção e cuidado singular do atual ocupante da cátedra de Pedro. Mesmo diante da suma gravidade das questões, ele não se omite.
Em janeiro, voltou a tratar do celibato de padres. Questionado por determinadas alas da igreja, afirmou que a ordem não pode ser uma opção. Foi taxativo: “pessoalmente, acho que o celibato é um
presente para a igreja. Em segundo lugar, eu não concordo em permitir que ele seja opcional, isto é, se será possível casamento de padres ou ordenação de homens casados dentro do rito romano”. Sem embargo, sua santidade considerou a possibilidade desse tipo de relação em lugares muito remotos, como as ilhas do Pacífico ou a Amazônia, onde “existe uma necessidade pastoral. É algo em discussão com os teólogos, não uma decisão minha”, acautelou-se.
Não poderia dizer se o pontífice, que é argentino de Buenos Aires e torcedor do San Lorenzo, sofre de insônia e de pesadelos como eu, porque o peso do seu dever como chefe de igreja é imenso. Evidentemente não é fácil conduzir os problemas da Santa Sé e da desobediência de seus seguidores, não tão fiéis às lições de Jesus, como se desejara.
Tanto é verdade que Francisco, de volta dos Emirados Árabes para Roma, em janeiro passado, admitiu também, pela primeira vez, que padres e bispos abusaram sexualmente de freiras. Mas se comprometeu a fazer mais na luta contra essa situação. Em sua opinião, não se deve, nem se pode, deixar de fazer algo, a partir da constatação de fatos tão graves.
Não se restringiu, contudo, às religiosas desrespeitadas. O pontífice lamentou ainda os ataques a mulheres, de um modo geral, e afirmou que a humanidade não pode manter-se impassível, porque elas não são seres de segunda classe. E um dos modos de agir a respeito reside exatamente nas suspensões e expulsões de religiosos, sejam padres ou personalidades dos altos escalões eclesiásticos, mesmo em Roma.
É o caso de lembrar-se: Roma locuta, isto é, se a Santa Sé falou, está falado. Mas convém lembrar o que registrou Fernando Guedes de Mello, um profundo estudioso: “o entrelaçamento de fatores políticos, econômicos e religiosos na vida da igreja parece ter começado com o Concílio de Niceia, em 325, convocado pelo próprio imperador Constantino. O casamento do trono com o altar daí resultante foi um claro descumprimento das recomendações de Jesus de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.


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Por Manoel Hygino - 19/2/2019 09:29:38
O quadro na parede

Manoel Hygino

A gente olha mas não vê, porque não presta a devida atenção ou não dá o necessário valor à imagem. Assim é. Na sala do provedor da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, Saulo Coelho, há um quadro a óleo da sede da Fazenda das Palmeiras, em Ubá, imóvel que lhe pertence, depois do inventário e acordo com os demais herdeiros. Ali, aliás, nasceu Raul Soares, presidente de Minas na segunda década do século XIX.
O povo da Zona da Mata Mineira é muito especial nos negócios de Estado, e Raul Soares foi um deles. Segundo o historiador João Camillo, nascido em Itabira, foi Raul uma das grandes figuras de seu tempo e sua morte prematura deixou um vácuo na política brasileira.
Raul Soares foi estudar, ainda jovem, no Ginásio de Campinas, uma espécie de Colégio Pedro II, no Rio, defendendo ali tese sobre cancioneiros medievais, mas não se cingiu a “trovas e cantigas de amigo”. Terminou a vida no Palácio da Liberdade como chefe do Executivo.
Daniel de Carvalho, ex-deputado federal, que bem o conheceu, descreveu seu perfil: “Raul Soares passou pela esfera política como um meteoro, um grande bólide que, em vertiginosa ascensão, iluminou o cenário como o clarão de sua fulgurante passagem. Em pleno zênite, apagou-se de repente, fulminado pelo rio traiçoeiro da morte”.
Mais adiante, observa: “Raul Soares, elegante, alerta, de maneiras aristocráticas, cheio de confiança em si mesmo, ia direto ao alvo, com aquele vozeirão tão seu e gestos comedidos, mas cortantes. Suas atitudes eram claras e definidas. Amava o jogo, os bons vinhos, a boa mesa, a dança, as artes, a literatura, a poesia, todas as coisas belas da vida. Casou por amor e foi inteiramente feliz no matrimônio. A morte prematura da primeira esposa o abateu profundamente. Casou novamente por amor e encontrou no novo lar o que dele esperava em dedicação e ternura”.
E politicamente? Também Daniel de Carvalho diz o suficiente: “na vida pública ou privada, gostava de pôr as cartas na mesa. Era franco e positivo. Dava a sua opinião sem rodeios e sem esperar pela do interlocutor. Era cruel na ironia e no sarcasmo, quando necessários; zurzia impiedosamente os falsos, os hipócritas, os aduladores, os mentirosos, os covardes”.
Tinha fama de valente, detestando os bajuladores e os atos de servilismo. Acreditava em Deus, mas não foi um modelo de católico, lamentando não possuir a graça e fé em todos os mandamentos da Igreja. Era, também, fundamentalmente um homem de Minas, da montanhosa divisa com o Espírito Santo, como disse, ao tomar posse no Senado da República, José de Alencar, em 1999. Na ocasião, Alencar evocou a personalidade do senador Levindo Ozanam Coelho, pai de governador – Ozanam Coelho; aquele uma “figura nazarena, impoluta”, autêntico sábio, como um membro da Câmara de Lordes, “pela compostura e pela serenidade”, como o classificou Nertan Macedo. Em resumo: “homem no velho estilo de Minas, modelo antigo da Província que tanto deu para a glória do Brasil, em ouro das suas entranhas e em virtude de seus filhos”.
Levindo Coelho foi um autêntico pater famílias, “genuíno humanista e extraordinário líder. Sabia dosar com perfeição o conhecimento, fruto do esforço intelectual, com a experiência humana da vida cotidiana, empregando o equilíbrio e o bom senso nas decisões e nas ações”. É como vejo o quadro na parede.


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Por Manoel Hygino - 14/2/2019 12:04:19
Os cangaços

Manoel Hygino

Não há o quê e como escolher. Nas cidades e no campo, nas ruas ou nas estradas, perigo à vista. A morte ainda solta, especialmente a tiros. Leio a notícia de minha cidade natal. Um corpo caído na periferia de Montes Claros, relata o telefonema anônimo. Tinha 15 anos, masculino, levou seis tiros, por conta do tráfico. Seu corpo estava abandonado numa rua de bairro. Não é só: ambulância do Samu é levada por ladrão – ou ladrões, quando em atendimento no bairro Monte Carmelo. Os socorristas haviam entrado numa casa para assistir pessoa de 72 anos.
Não é brincadeira de mau gosto. Bandidos estão soltos pelo pobre interior de Minas, também no Vale do Jequitinhonha, considerado uma das regiões mais pobres do Brasil. Identifica-se o fenômeno como Novo Cangaço, mas o título não faz jus à própria palavra. Seus atores são imensamente piores do que os de antanho. Não usam garruchas calibres 320 ou 380, ou espingardas polveiras, de encher pela boca, como as da loja de meu avô, para o que tinha autorização especial do Ministério da Guerra.
Não se pode enfiar os casos pelo mesmo saco, como li em texto de um certo Manuel que – por sinal – redige muito bem. Não confundir o Novo Cangaço com o lirismo dos personagens de “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa.
Em termos, seria a mesma coisa de misturar ao épico mineiro, aclamado mundo afora, os desatinos de Lampião e seu bando, que aterrorizou o Nordeste brasileiro nos anos 30.
Há, entre as duas correntes, um fosso imenso, intransponível, imisturáveis que são os valores e motivações que impulsionam as campanhas de cada um, e isto não pode ser ignorado.
O lirismo de Guimarães, as justificativas e conclusões dos personagens tão de nós conhecidos, nem de longe podem ser cotejados com a delinquência do crime pelo crime. Há valores e místicas e mistérios e profundidades e sortilégios a dividi-los e separá-los.
Guimarães pôs na boca dos seus personagens os preceitos do sertão profundo, que vaga - segue cavalgando - pelos campos sem fim. Poesia e crimes não andam juntos, pertencem a distintas naturezas, mas às vezes grosseiramente podem ser confundidos.
Há de tudo, na vida.
Por fim, e portanto: os criminosos, entre eles os recentemente mortos pela polícia nada têm em comum com a estirpe de Riobaldos e Diadorins e Joca Ramiros, do Grande Sertão - ou não entenderam nada. Dos Hermógenes, talvez - e não sou especialista.
Estes bandoleiros modernos quase sempre vêm de outras regiões que não pertencem ao épico Grande Sertão, notadamente de S. Paulo - como se viu em refregas recentes com a polícia mineira.
Os personagens de Guimarães Rosa, muito ao contrário, têm princípios, regras e valores, longamente ajuntados no meio hostil da vida. A Vida.
Nada têm do banditismo descrito, e não podem ser comparados.
Não fogem por medida de covardia. Cumprem destino. Defendem-se, como regra. Dão combate, na lisura de suas vidas. Resistem. Resistirão sempre num dos livros mais belos do Brasil, à espera de releituras mais altas. O Grande Sertão, enfim compreendido, agradece, e humilde, parte. Não, não é banditismo.
É a vida, por ela mesma, como foi servida. E cresceu tanto que virou poesia em prosa. Destino.
Poesia, é o que temos. E não sangue da cobiça abjeta.
Mundo imisturável, concedam-nos a interpretação, como a mais válida para as ocasiões e circunstâncias.


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Por Manoel Hygino - 14/2/2019 08:31:56
A crise não termina

Manoel Hygino

A vida e maneira de ser dos homens que fazem política ou exercem a administração pública se tornaram muito mais abertas. Dentre outros fatores, surgiram os meios de comunicação eletrônicos, que põem a notícia à disposição do cidadão com velocidade, incrível em tempos pretéritos. E o pior: quando não se sabe, ou não se consegue saber, inventa-se.
Quando se observam, hoje, os apertos pelos quais passam os governadores que assumiram em janeiro, lembramos o alvorecer da República, principalmente depois que Deodoro deu o golpe e Floriano Peixoto assumiu. Dias amargos. Situação financeira dificílima, a que se enfrentava em Minas Gerais.
Foi um quadro tenebroso quando Silviano Brandão subiu as escadas do Palácio da Liberdade. Todos os recursos possíveis foram utilizados para amenizar o quadro quase caótico. Corte generalizado de despesas, fechamento de escolas e outros estabelecimentos e demissão de funcionários. Conta-se que o presidente de Minas, consternado, assinava os atos chorando, mas o fazia consciente de que era imprescindível.
As dores e dramas de hoje vêm de longe, portanto. Silviano tentou empréstimos, mas a crise não conduzia a êxito seus pleitos. Apelou até à Morro Velho e os ingleses foram sensíveis, estenderam as mãos, embora a ajuda fosse insuficiente. O imposto territorial foi reformado e deu uma mãozinha. A força mais expressiva estava no campo, mas os fazendeiros reclamavam e queriam até fundar um partido “para defesa de seus interesses”. Conta-se que Silviano cogitou até de juntar seus pertences e abandonar o Palácio.
Silviano Brandão era médico e, quando chamado, não se negava a atender o cliente. Apanhava os apetrechos da profissão, e, a cavalo, ia até o paciente. Indicado candidato a vice-presidente da República, na chapa de Rodrigues Alves, quase não pôde ir ao banquete no Rio de Janeiro para ouvir o plano de governo – a célebre plataforma. Não possuía casaca, como destaca João Camilo, nem dinheiro para a viagem à então capital brasileira.

A imprensa de oposição, mais tarde, nada lhe perdoava. Quem ler hoje, por exemplo, a lei nº 318, de 16 de setembro de1901, ficará espantado.
Vejam: suprimia-se a Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, suspendiam-se todas as escolas normais com os professores recebendo metade dos salários, extinguia-se o externato do ginásio de Barbacena, reorganizando-se a escola de farmácia, “ficando os lentes, cujas cadeiras foram suprimidas, com direito à metade dos vencimentos”, como se designava a remuneração. Pelo artigo 12: eliminavam-se os cargos de “delegado auxiliar do chefe de Polícia e de inspetores extraordinários de instrução pública”.
E havia muito mais: Acabava-se uma das varas de direito da comarca de Juiz de Fora, assim como se terminava com a colônia correcional de Bom Despacho. As disposições sobre os funcionários, inclusive dispensa, redução dos salários e muito mais viriam à frente.
Daniel de Carvalho, que também fez política, recorda que Silviano enfrentou a situação calamitosa das finanças estaduais com mão dura e firme. Mutatis mutandis, transformou-se em situação que se repetiu nas gestões posteriores e que o atual governador enfrenta, em meio à reclamação generalizada, a começar pelo funcionalismo público, inclusive dos componentes da Polícia Militar, pelo atraso de pagamento de salários e do 13º.


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Por Manoel Hygino - 13/2/2019 07:49:04
E antes da Vale...

Manoel Hygino

O começo mais distante faz agora 100 anos. No momento em que a Vale se encontra sob foco de holofotes e da opinião pública, registra-se que, a partir principalmente de 1919, se discutiu a questão da concessão das minas de minério de ferro de Itabira ao grupo chefiado por Percival Farquhar, astuto e poderoso. Ao que tudo leva a crer, foi o primeiro episódio da luta nacionalista no Brasil.
Não havia técnicos e capitais para a exploração; Tão pouco os brasileiros apoiavam a transferência das jazidas a um grupo estrangeiro. Importantes vultos da política e do empresariado achavam que não se poderia abrir mão de recursos tão altos resultantes da atividade minerária. O governo mineiro, sob Bernardes, não concordava com o contrato a ser firmado com a Itabira Iron, de Percival, principal interessado na exploração minerária.
Minas Gerais temia que a empresa ampliasse exageradamente o volume de exportações e monopolizasse o mercado interno, impondo preços muito elevados, que redundariam na monopolização. A Itabira se comprometeu a proceder de modo contrário ao que se propalava.
Bernardes era duro e o demonstrou naquele período, à suficiência. Assinado o contrato da Itabira Iron com o governo federal, o presidente brasileiro fez questão de incluir em projeto de lei, transformado em lei de 21 de setembro de 1820, um artigo, que obrigava a Itabira, ou outra empresa, à construção de uma ou mais usinas siderúrgicas no território do Estado, com capacidade mínima de 150 mil toneladas de produção anual de ferro e aço. Mais: as indústrias ficavam isentas de impostos estaduais.
Bernardes insistiu na siderurgia. Advertiu: “Cumpre, por isso, não nos seduza, em matéria de tamanha gravidade, a glória efêmera de realizar apressadamente uma obra grandiosa na opinião comum. Devemos examinar o problema com calma e resolvê-lo de modo a atender aos interesses permanentes da Pátria”.
Epitácio Pessoa esclareceu: “Em verdade, o presidente Bernardes era sinceramente contrário à saída dos minérios para as usinas estrangeiras”, se pretendendo exportar apenas parte da produção. Um item: Raul Soares, governante mineiro por exemplo, não admitia a Vitória a Minas, ferrovia, para uso somente de minérios; queria-a para tráfego público. A Vale do Rio Doce, controlada pelo governo, se limitaria a extrair minérios e exportá-los, sem cuidar de siderurgia.
O tempo não para. Em 1942, com empréstimos do EximBank, durante o Estado Novo de Vargas, a União criou a Vale do Rio Doce, para exploração de minério, comprando os direitos de propriedade da Itabira e objetivando construir a usina de Volta Redonda, para siderurgia, como Bernardes desejara. A última iniciativa de Farquhar foi a criação, entre 1946 e 1950, da Acesita, cujo controle passou ao Banco do Brasil em 1952. No ano seguinte, morreu.
Na gestão Fernando Henrique, no século seguinte, a Vale foi vendida a grupo particular. O mais a gente está vendo aí, até chegar a Brumadinho, cujos prejuízos à nação e a Minas Gerais não podem sequer ser avaliados com segurança. O Brasil, o estado, os brasileiros, saímos perdendo.
É bom ficar-se atento aos estudos de nossas entidades públicas, sem esquecer as preocupações das empresariais. O quadro é deveras delicado. O Estado terá que lidar com as consequências econômicas da queda de produção de minério de ferro da Vale. Segundo um estudo realizado pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), a redução da produção da Vale no Estado pode retirar R$ 23,3 bilhões da economia de Minas só em receita industrial. Isso equivale a 4,2% do PIB do Estado em 2018 (R$ 560 bilhões).


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Por Manoel Hygino - 12/2/2019 11:24:00
As tragédias humanas

Manoel Hygino

A cada dia, chegam – do Brasil e do exterior – mensagens de dor e de indignação pela tragédia de Brumadinho, que evolui para um mês. O escritor mineiro Ronaldo Cagiano, residente em Lisboa, encaminha-me sua palavra: “aqui temos acompanhado mais esse passivo ambiental, fruto da criminosa exploração capitalista das nossas reservas pelos barões da mineração, que negligenciam vidas e sacrificam trabalhadores em nome de cifras”.
O fato me impele ao livro que procurava, em minhas estantes atulhadas: “Miscelânea”, de Pedro Sérgio Lozar, um autor que não aparece muito nas reuniões sociais e literárias. Desejava eu simplesmente reler o capítulo em que se descreve a fuga de Paris da família real francesa, depois da revolução, deflagrada em 1789 mas em marcha. Assim, se podavam “gradualmente os privilégios da aristocracia e do clero”, limitando a autoridade do rei; este, confinado com a família no palácio das Tulherias, depois de obrigados pelos revolucionários a deixar Versalhes, morada da realeza havia mais de um século.
Um soberano sumir não era algo tão fácil, embora não existisse televisão. A população queria, a todo meio, fazer justiça por suas próprias mãos. Luís XVI queria porque queria fugir e fazia planos, a despeito da dura vigilância, extensiva a Maria Antonieta e todos os seus.
Lozar conta que, “no dia aprazado, os personagens deviam proceder como se nada de extraordinário estivesse por acontecer; Luís se ocupou com seus afazeres habituais, almoçou copiosamente, jogou bilhar com a rainha; Maria Antonieta passeou à vista do público no jardim com os filhos, o herdeiro do trono o delfim Luís Carlos, de 6 anos, e Maria Teresa, chamada de Madame Royale, de 12”. A fuga fora organizada pelo conde Hans Axel Von Persen, militar sueco a serviço da França, amigo dedicado dos soberanos. Tudo urdido nos mínimos detalhes, para que a longa viagem através do território fosse bem sucedida.
Este o capítulo mais estudado e relatado da Revolução Francesa, a respeito do qual muito se escreveu. É “A fuga de Varennes”, de que há numerosos depoimentos, os mais desencontrados, contraditórios, discordantes. De todo modo, aí reside exatamente o que mais desperta interesse do leitor, do curioso, do pesquisador, se bem que presentemente não há tanta gente desejando saber mais sobre o episódio.
Lozar não teve “intenção de esgotar o assunto”, mas eu me interessei por ele em seu livro, editado em 2017. Aprende-se bastante, embora não tenha encontrado referência ao local e dia em que Maria Antonieta se desvencilhou de suas joias para evitar caíssem em mãos dos revolucionários ou espertalhões.
A empreitada não deu certo e o rei não conseguiu ultrapassar a fronteira, que ficava bem perto. O soberano foi preso com toda a comitiva e levado à torre do Templo. Todos foram submetidos a humilhações e maus-tratos. O herdeiro do trono, já com 10 anos, morreu pela violência com que foi tratado. A princesa Maria Teresa se salvou, trocada por franceses detidos na Áustria. E as joias? Delas fiquei sabendo por pequena nota em jornal, em 15 de novembro passado: Antes de tentar fugir, Maria Antonieta enviou suas joias para Bruxelas, onde reinava sua irmã, Maria Cristina. Depois, foram confiadas ao imperador da Áustria, sobrinho de Maria Antonieta, de origem austríaca. Detidos em Varennes, Luís XVI e Maria Antonieta foram guilhotinados em outubro de 1793.
Algumas das fabulosas joias de Maria Antonieta, entre elas um anel de diamantes com uma mecha de seu cabelo, foram leiloados, 14 de novembro do ano passado, em Genebra, depois de passar séculos longe do olhar do público. As dez preciosas peças faziam parte de uma coleção da família Bourbon Parma e foram colocadas à venda no Sotheby’s. Também foram leiloados objetos que pertenciam ao rei Carlos X, aos Arquiduques da Áustria e aos duques de Parma. O item mais caro era um pingente de diamante com uma pérola natural.


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Por Manoel Hygino - 8/2/2019 10:26:42
Resgatando Victor Nunes Leal

Manoel Hygino

Abrimos um hiato nos comentários sobre Brumadinho. Apenas um hiato. É o seguinte: Fundada em Juiz de Fora, a Academia Mineira de Letras somará anos de vida, em 25 de dezembro de 2019, quando chegará, no dia de Natal, aos 110. Seus idealizadores eram uma dúzia, bem representativos dos intelectuais que pontificavam àquela época no Estado. Os doze quiseram que mais dezoito a eles se agregassem e, em 1915, a entidade transferiu sua sede para a capital. Aqui, se elevou o número de cadeiras para 40, adquiriu-se a primeira e modesta sede própria e, finalmente, abriu-se caminho para a atual sede na rua da Bahia, no palacete Borges da Costa, no mandato de Vivaldi Moreira, depois consagrado presidente perpétuo do sodalício.
Pois Pedro Rogério Moreira, filho de Vivaldi, encaminha ao também confrade na AML Rogério Faria Tavares um lembrete com publicação sobre Victor Nunes Leal (1914-1985), nascido na Mata Mineira, agora lembrado pelo cientista político Jairo Nicolau. Com muita razão. Em 2018, completou-se 70 anos do lançamento de um dos mais importantes livros de análise política brasileira – “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor, ocupante da cadeira nº 23 da Academia. O volume foi editado pela Forense, com cumprimento da exigência do autor de que o prefácio fosse de Barbosa Lima Sobrinho.
Mas a relembrança não se resume ao que ficou dito sobre Victor Nunes Leal, nascido em Alvorada, distrito de Carangola, cidade natal do admirado poeta Anderson Braga Horta. Não esqueço que, exatamente em 16 de janeiro de 2019, se registraram os 50 anos da cassação do mandato do ilustre mineiro, nos termos da AI-5, como ministro do STF. Também perderam os cargos na corte os colegas Evandro Lins e Silva e Hermes Lima. Com a decisão, o conterrâneo da Academia Mineira de Letras também perdeu o cargo de professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais perdeu, porém, o Brasil e o Supremo Tribunal Federal, pois se retirou do mais alto colegiado o poder de conceder habeas corpus em casos de crimes políticos.
O livro de Victor Nunes Leal é do final dos anos 40, século passado, mas não é velharia, ultrapassado. Assim, sobre o pleito de 1947, ele diz: “quem observa a multiplicidade de alianças que se fizeram nas últimas eleições estaduais e municipais não pode deixar de verificar que os nossos partidos são pouco mais do que legendas ou rótulos destinados a atender às exigências técnico-jurídicas do processo eleitoral”.
Pouco lembrado, hoje, por múltiplas razões, Victor Nunes Leal prestou relevantes serviços ao país em todos os cargos que ocupou e funções que exerceu. Além dos mencionados, foi consultor-geral da República, chefe da Casa Civil da Presidência, procurador-geral da Justiça do Distrito Federal (quando Rio de Janeiro), membro do TSE e seu vice-presidente.
Ao construir Brasília, Juscelino batizou de Alvorada o palácio residencial da Presidência da República, como prova de apreço ao amigo e seu lugar de nascimento.
Nesta hora de dor para o Brasil, pelo terrível desastre em Brumadinho, faço uma pausa, com a devida vênia da gente daquele município e cidade.
Como atual ocupante da cadeira nº 23 da AML, de que foi patrono Joaquim Felício, fico muito honrado em ali estar e em ser tão gloriosamente precedido por Martins de Oliveira, Victor Nunes Leal e Raul Machado Horta, aos quais rendo homenagem de respeito e admiração.




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Por Manoel Hygino - 28/1/2019 17:06:20
A tragédia que não passou -

Manoel Hygino

O Brasil passou o último fim de semana, também o último do primeiro mês de 2019, estarrecido – com olhos na televisão e ouvidos atentos aos rádios - assistindo às cenas dramáticas de resgate de corpos, com ou sem vida, vítimas do rompimento da Barragem 1 da Mina do Feijão, em Brumadinho. O mundo, pelos modernos e eficientes meios de comunicação, viu as reportagens e trechos da missão de que se incumbiam dezenas de bravos bombeiros de Minas, e de outros estados, bem como de organismos públicos, militares e civis, na luta contra o tempo e as condições adversas de vária natureza.
O rompimento se dera em torno de meio-dia e meia, na sexta-feira, dia 25, exatamente quando centenas de empregados da Companhia Vale do Rio Doce, responsável pela mina e sua operação, almoçavam no refeitório, a jusante da barragem. Aquela unidade da mineradora logo deixou de existir, destruída pela lama, que fez desaparecer os trabalhadores sob a avalanche de rejeitos. Desde então, sucediam informações, naturalmente desencontradas, e as providências cabíveis em momentos de desespero.
A sucessão de imagens captadas, das fotos da imprensa escrita, ou de sua descrição, é de estarrecimento, porque talvez, em lugar algum no hemisfério Sul da América, se terá assistido a espetáculo tão dantesco. E o adjetivo é frágil para relatar a tragédia e a dor que a catástrofe despertou e despertará até gerações futuras.
Não se negará que todas as medidas imediatas e cabíveis para enfrentar aquele caos foram tomadas. Bombeiros procuravam encontrar no rejeito pessoas que, mesmo mutiladas, fossem resgatáveis e pudessem ser levadas aos helicópteros, que por ali cruzavam os céus nas horas de angústia.
As declarações do presidente da Vale foram de impressionante serenidade, porque não se admitiria frieza em face de evento tão trágico. A nota oficial da mineradora, na segunda-feira seguinte, dava conta de que agia com prioridade máxima e manter o apoio para ajudar a preservar e proteger a vida dos empregados, próprios e terceirizados, e moradores das comunidades locais: “Estamos empenhando todos os nossos esforços para prestar assistência às famílias”, inclusive se criando um comitê humanitário.
Em meio a tudo, chamou a atenção a informação de que, em dezembro, em reunião da Câmara de Atividades Minerárias, se aprovara por 8 votos a 1, a reativação da mina, paralisada desde 2015, e que causou a super-tragédia. Houve um voto de alerta sobre os riscos que a retomada das atividades poderia causar. A resposta está aí, mas ainda seguirá por muitos e muitos anos, porque esta é uma tragédia que superará décadas, até centênios.
O temor era de que a onda de rejeito chegasse à hidrelétrica de Três Marias, no São Francisco, provocando mais danos a toda a região de dezessete municípios e impactar 820 mil pessoas. Cidades ao longo do percurso da lama emitiram alertas sobre os riscos de serem atingidas. Entre Três Marias e o local da tragédia, há uma segunda usina – de Retiro Baixo – está nos municípios de Pompéu e Curvelo, cujas duas turbinas foram paralisadas. Mas tudo isto são apenas pormenores de uma tragédia terrível, num ano que apenas começa.


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Por Manoel Hygino - 25/1/2019 09:05:57
Além de queda, coice

Manoel Hygino

Dois fenômenos permanecem na ordem do dia, ou da hora, em grande parte do território nacional: a violência e as altas temperaturas, que se estendem desde a fronteira Sul até o Nordeste e o Norte. O balanço diário pode ser acompanhado pelos meios de comunicação ou pelo permanente convívio com os demais brasileiros que se preocupam com a situação, com a não solução dos problemas e suas consequências perversas.
Os ataques criminosos no Ceará são praticamente permanentes, lá vai cerca de um mês. As ocorrências se repetem na capital e no interior, sem que as providências até agora tomadas tenham resultado prático. Sequer o envio de centenas de soldados das tropas da Força Nacional intimidam os fora da lei ou aqueles que agora ingressam no seu rol.
Escolas e coletivos são incendiados, caminhões de serviços públicos, inclusive os de lixo; carros oficiais e particulares são destruídos, enquanto prédios de repartições federais e estaduais são atacados, assim como os de prefeituras e casas de comércios. Viadutos e pontes também são alvo da ação devastadora, sem que as autoridades, mesmo em tentativas sucessivas, consigam êxito.

O crime é mais poderoso do que a lei?

A fúria do Estado Islâmico parece ter-se transferido para o Brasil, com nuances próprias talvez, bem ao estilo latino-americano. E os brasileiros, armados de esperança, confiavam que o mal se restringia à Ásia ou Norte da África... Engano d’alma ledo e cego, como diria o poeta. Mas o que não existe presentemente por estas bandas do hemisfério Sul é poesia, o embalo do amor.
Da terra de José de Alencar, o romancista, e de Castelo Branco, o presidente do Brasil, chegam notícias tenebrosas. Num domingo, à noite, dando sequência à onda de violência iniciada em 2 de janeiro, bandidos explodiram uma bomba em ponte na capital, metralharam sede da Guarda Municipal e incendiaram ônibus escolar. Prenderam-se até então 347 pessoas por envolvimento nos crimes, mas os ataques não cessaram, nem as prisões.
Áudios de celulares compartilhados entre membros de facções armadas no Estado revelavam, mais uma vez, que as ordens de atentados partiam de presidiários. Governo autoriza aquisição e posse de armas para cidadãos dentro de prévias condições. O magistrado Sérgio Moro, do alto de seu prestígio, proclama: “o Brasil não será um porto seguro para criminosos”.
Mas a situação não se modifica. A Federação do Comércio de São Paulo estima que o varejo nacional deverá sofrer prejuízos de R$ 7,6 bilhões no presente exercício, por conta de feriadões e pontos de feriado. Mas os bandidos manterão excelente faturamento, porque não paralisam atividades e costumam nestes períodos até alcançar mais êxitos com a droga, com notáveis performances no mercado mundial. E inclemente segue o sol. Temperatura sobe a mais de 30 graus e não são animadoras as perspectivas para este final de janeiro. Pancadas podem acontecer pelo Sudeste, mas a coluna de mercúrio sofrerá alta e aproximando-se dos quarenta, que não é privilégio da Cidade Maravilhosa.
Não se trata apenas do desconforto pessoal. A falta de chuva e o aumento da temperatura acima da média já ameaçam reservatórios do Sudeste. O calor não dará trégua nas próximas semanas e os técnicos têm medo de a situação hídrica se agravar, enquanto cresce o consumo de água e energia elétrica.


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Por Manoel Hygino - 24/1/2019 09:25:25
Se armas resolvem

Manoel Hygino

A despeito das sucessivas notícias, oficiais ou não, com relação à adoção de medidas que visem a pelo menos amainar o clima de violência no país, ela resiste. Nem vou referir-me ao caso do Ceará que demonstra inequivocadamente a disposição de enfrentamento e obsessão de poderosos grupos criminosos, formados em organizações dentro dos presídios e comandam operações em todo o território.
Se a temperatura dos oceanos em 2018 foi a mais alta já registrada nos últimos 60 anos, consoante a tendência de aquecimento registrada no último quinquênio, o mesmo praticamente se pode dizer em relação aos ânimos no país, pois os índices de criminalidade se mantêm em patamares altíssimos. Reclama-se dos altos preços de medicamentos, da falta de alguns deles nos hospitais ou farmácias públicas, mas não se ouvem críticas sobre o custo de armas de fogo nas lojas do ramo.
O governo flexibilizou a posse de armas como uma das principais promessas da campanha política. Retirou-se a prerrogativa de a Polícia Federal analisar se o cidadão tem necessidade efetiva de uma garrucha, uma pistola, de um revólver. Há ainda outras mais sofisticadas armas, que se pode comprar com a ajuda fundamental do contrabando. Existe um comércio pujante dessas mercadorias.
Assim como as temperaturas mais elevadas causam a expansão térmica da água salgada e aumento do nível do mar, parece que as medidas adotadas até aqui, embora bem intencionadas, não produzirão os resultados esperados. Rogo que me engane.
Tenho lido a respeito a fim de melhor me orientar. Jornal de Belo Horizonte, por exemplo, no último domingo, informava que, em busca de proteção, profissionais liberais entre 25 e 40 anos vêm procurando lojas e autoridades visando aquisição de armas de fogo. São pessoas que procuram meios de defender-se, diante da falência ou ineficiência do poder público em defendê-las da avalanche do crime. Estamos, assim, preparando novos integrantes para os clubes de morte.
Em seu 29º Relatório Mundial, a Human Rigths Watch, ONG de defesa dos direitos humanos, afirma que o Brasil precisa combater a violência dentro de marcos legais, criticando propostas de estimular a facilitação de posse de armas, como exposto em decreto. A organização, em 674 páginas, condena a violência contra a mulher, que se transformou numa espécie de epidemia, e ainda: que não são investigadas devidamente milhões de agressões, de maneira que os responsáveis não são identificados e processados. No fim de 2017, havia mais de 1,2 milhão de casos dependendo dos tribunais.
Finalmente, José Miguel Vivanco, diretor da entidade para as Américas, resume: o discurso “populista e autocrático, identificado no Brasil, Estados Unidos e Rússia é sustentado pela indignação da sociedade com a classe política”.
No Brasil, outros fatores se somam à onda autocrática: “escândalos de corrupção, investigados pela Lava Jato, o aumento do crime organizado e a recessão, que conduz ao desemprego”.
O senador Cristovam Buarque, contudo, diz mais: “nada indica que o armamentismo vai reduzir a violência, e tudo indica que vai trazer mais consequências negativas. Precisamos de polícia armada para nos defender, não de nos armarmos para reagir”.


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Por Manoel Hygino - 23/1/2019 10:15:07
Haja coração!

Manoel Hygino

Quem se der ao trabalho de ler sobre D. Leonor, rainha de Portugal, mulher de D. João II, constatará que ela descendia da melhor nobreza ibérica e da Inglaterra, daí o nome acompanhar-se pelo título “de Lencastre”. Perpetuou-se como modelo por sua inteligência, cultura, bondade e ação. Formada cuidadosamente, tornou-se um símbolo da fé e da esperança. Conseguiu vencer intrigas da corte, ostentou a coroa por 14 anos, até falecer aos 67.
Distinguiu-se pela conduta e iniciativas num dos períodos mais intensos da vida nacional, como das lutas na África, a guerra com Castela, a preparação das Descobertas, inclusive do Brasil e da Índia, a consolidação do império.
Preocupada com o ser humano, desditas e dores, fundou o Hospital de Caldas, o primeiro grande estabelecimento de Portugal no gênero e o mais antigo termal do mundo. Finalmente, criou a Misericórdia de Lisboa, em 1485, inspirando a adoção das “Quatorze Obras de Misericórdia”, a serem seguidas em todo o já extenso mundo português. Leonor viveu em pobreza seus últimos anos, abdicando de seus direitos e grandezas, após se fazer irmã de caridade, sem professar, da ordem Terceira de São Francisco.
Um dos frutos da obra benemérita de D. Leonor está instalado em Belo Horizonte, há 120 anos, e é a Santa Casa de Misericórdia, em que se fez, há poucos dias, o primeiro transplante de coração, uma façanha de seu corpo clínico. Não só para orgulho do estabelecimento e de seus competentes médicos, pois um grande feito não deve ser individualizado.
Esperou-se uma semana para considerar exitosa a cirurgia de Marcelo Frederigue de Castro e Carla de Oliveira, em uma equipe que goza de elevado conceito, reconhecida pelo Ministério da Saúde e entidades do mais alto conceito até fora do Brasil, que conta com acompanhamento do cardiologista Sílvio Amadeu Andrade.
Quando Cristian Bernard, na África do Sul, conseguiu o transplante pioneiro foi um acontecimento internacional, e não era para menos. Agora, o feito em Belo Horizonte, numa casa de misericórdia, como aquela fundada por D. Leonor, deve glorificá-la, mesmo não mais estando em nosso reino.
O acontecimento – como há de ser considerado – é festejado por quantos passaram ou estejam à frente dos destinos da instituição filantrópica que mais atende em Minas, também primeira casa de saúde da capital mineira.
Um procedimento de tamanha complexidade, realizado por um estabelecimento como a Santa Casa de Belo Horizonte, por cuja sobrevivência cidadãos os mais ilustres deram o máximo de si mesmos e de seus esforços, é algo memorável. José Maria Alkmin, por mais de 36 anos seu provedor, deve estar felicíssimo, onde estiver; e o atual provedor, Saulo Levindo Coelho, com quase 20 anos na direção, evidentemente se orgulha também e o confessa publicamente. Sem falar em Guilherme Riccio, diretor de Assistência à Saúde, é claro.



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Por Manoel Hygino - 22/1/2019 10:57:30
Battisti, enfim, longe

Manoel Hygino

Viu-se pela televisão e pelas fotos nos jornais que Cesare Battisti saiu arrogante do avião que o levara da Bolívia para a Itália. O ministro do Interior, em Roma, fez agradecimento ao governo brasileiro por permitir a devolução do criminoso diretamente para o país europeu. Afinal, a sua pátria e que o condenara à prisão perpétua.
Matteo Salvini foi cortês e claro: “reitero a enorme gratidão em nome dos 60 milhões de italianos por ter possibilitado concluir o caso Battisti, integrante do antigo grupo terrorista Proletários Armados pelo Comunismo, após condenado por quatro assassinatos cometidos entre 1977 e 1979”.
Ninguém praticamente queria saber mais de Battisti na Itália. Nicola Zingaretti, candidata à presidência, do Partido Democrata, de centro-esquerda, pediu que ele fosse tratado com a mesma dureza que os militantes fascistas, que têm agido naquele país nos últimos tempos.
Pelo rosto do criminoso, não se pôde adivinhar se ele sorria ou debochava dos dez policiais, que o acompanhavam ao descer da aeronave. Curioso é que saiu em defesa dele a ex-companheira brasileira, Priscila, que disse esperar a revisão da pena. Ela mora em São José do Rio Preto, com um filho do casal, de 5 anos. Confessa ter medo do que sofreria ou sofrerá Battisti na cadeia, por ter alguma idade e, problemas de saúde, como hepatite, e precisa medicar-se.
Supõe-se que não passará necessidades. Ele tem um irmão na Itália, além de duas filhas e um neto na França. Além de uma rede de advogados e colaboradores espalhados pela Europa. Quem os paga? Efetivamente quem deve agradecer é o Brasil, que deixará de abrigar um criminoso e de pagar altas despesas com sua proteção. Sua história por cá não está definitivamente contada. Lembro, aliás, o acontecido cinco/seis anos atrás, aqui mesmo descrito: condenado à prisão perpétua na Itália por matar a sangue-frio quatro inocentes na década de 1970 e mantido como refugiado no Brasil pelo então presidente da República.
O terrorista Cesare Battisti fez uma palestra, cujo título até parecia piada pronta: o tema “Quem tem direito de viver”, em um fórum na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. O evento fora organizado com recursos