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montesclaros.com - Ano 21 - sábado, 24 de outubro de 2020
Cidade da Arte e da Cultura
  "Montes Claros tem umas coisas
que as outras terras não têm".
(Canto da marujada)

Por exemplo, é a única cidade do interior de Minas Gerais que tem
consulado. Esse Coração Robusto do Sertão tem história. Dizem que, na
alvorada do século 18, o bandeirante baiano António Gonçalves Figueira
recebeu do donatário da capitania hereditária de Porto Seguro a carta de
sesmaria da Fazenda Montes Claros, para nela semear e pastorear. A vasta
possessão abrangia tudo que a vista alcança, entre as serranias claras que
compõem nosso horizonte. Encravado dentro do latifúndio, fundaram,
primeiro,o povoado de Cruzeiro, que se localizava nas proximidades do local onde
hoje está o clube campestre Lagoa da Barra. Desgraçadamente, uma epidemia de
varíola forçou o êxodo dos cruzeirenses para um outro ponto da sesmaria, a
margem de um córrego piscoso. de água potável, com um céu azul claro
demasiadamente bonito, que ainda chama a atenção dos recém-chegados à
cidade. (Não se sabe por que, o montes-clarense parece ainda não ter
percebido a beleza do céu de sua cidade. Os passageiros de aviões que
fazem escala, no aeroporto local, ficam encantados com o colorido de pintura
renascentista do nosso céu particular).

Pois muito bem, o novo povoado foi batizado com o piedoso topônimo de
Arraial das Formigas de Nossa Senhora da Conceição e São José. Consta que
descobriram ouro, na vizinhança, e houve até uma corrida desabalada aos
veios do precioso metal. Por ocasião da emancipação
político-administrativa, em 13 de outubro de 1831, data da criação do município, o topônimo foi
alterado para Vila de Montes Claros. Em 3 de julho de 1857, a sede
municipal foi elevada de vila aos foros de cidade. Houve manifestações de júbilo
popular, seguidas de latinório em sessão solene da vereação, missa
gratulatóría, baile a rigor, noite de luminárias e o indispensável
foguetório.

ONTEM

Vida que segue, a cidadezinha foi prosperando, mandou voluntários para a
Guerra do Paraguai, elegeu deputados, apareceram os primeiros letrados,
instalou a escola normal sem buscar professores fora e ganhou o primeiro
jornal, "Correio do Norte", em 1884. De repente, deu-se um acontecimento
muito importante: no início do século 20. chegaram, da Bélgica, os cônegos
premonstratenses, de batina branca, com a missão de propagar a fé católica
e instruir a juventude. Fundaram mais um colégio, mais um jornal, um grêmio
dramático e até um modesto observatório astronômico. Inaugurou-se, na
pacata cidade sertaneja, uma nova era espiritual.
Foi ai que Montes Claros resplandeceu em noites e dias luminosos. A
urbes interiorana foi convertida em cidade grega do Século de Péricles,
superlotada de atores, cantores, instrumentistas, menestréis, jornalistas.
Um dos discípulos dos padres brancos, João Chaves, o bardo que cantava
pras estrelas, compôs a modinha "Amo-te muito", que ostenta a glória de ser
considerada o hino nacional da seresta brasileira. Nem só de saraus,
flauta e violão vivia o montes-clarense romântico e boêmio do passado. Nesse
ínterim, o jurista Gonçalves Chaves governou a província e redigiu o livro
de Direito de Família, do Código Civil Brasileiro. Ruy Barbosa, que foi o
rio cheio de nossas letras jurídicas, colocava-se entre seus maiores
admiradores e o chamava, afetuosamente, de "meu mestre de Direito
Constitucional". Sua terra mãe deu seu nome à praça da Matriz, ao Fórum e
à escola primária mais antiga da cidade, em homenagem tríplice e merecida.

Em 1926, o apito do trem de ferro, trazido pelo norte-mineiro Francisco
Sá, ministro da Viação, registrou nosso ingresso na era da tecnologia.
Vinte anos depois, o prolongamento dos trilhos rumo à Bahia e ao Nordeste
colocou a Princesa do Sertão na corrida para o desenvolvimento econômico e social.
Em 6 de fevereiro de 1930, em meio a tiros e correria, a cidade ganhou as
manchetes da imprensa mundial. Sucedeu um sangrento conflito entre facções
políticas rivais, e Dona Tiburtina, esposa do deputado João Alves, que se
opunha ao deputado Camilo Prates, foi mitificada como mulher corajosa e
personagem da História do Brasil. Na década de 1960, chegou a fase dourada
da expansão econômica planejada e financiada pela Sudene, originada de
emenda do deputado José Esteves Rodrigues, que criou parques industriais e
modernizou a exploração da economia rural. Iniciou-se, então, a atual fase
de modernização da cidade, marcada pela gestão histórica do prefeito
António Lafetá Rebello, que sacudiu o marasmo administrativo e introduziu a
cidade, definitivamente, na era do planejamento urbano e do asfalto para toda a
comunidade.

HOJE
Montes Claros 2000 é isto: a quinta cidade de Minas Gerais, em população
urbana, com cerca de 300.000 habitantes; a sexta, em colégio eleitoral,
com mais de 180.000 eleitores; e a oitava em arrecadação de impostos.
Localiza-se, aqui, o segundo entroncamento do plano rodoviário nacional.
(O primeiro fica em Picos, no Piauí). Produz tecidos, cimento, medicamentos,
laticínios, cerâmica bovinos, sumos, aves e gêneros do País. Implanta
pontes de safena, transplanta rins e reconstrói maxilares. O mercado secundário
de comercio e serviços apresenta um quadro de vitalidade crescente. Circulam,
diariamente, três jornais. Operam dois canais de televisão e inúmeras
emissoras de rádio. A cidade é muito bem servida de associações esportivas
e recreativas. Constrói-se como nunca antes se construiu, por estas bandas.
Mui felizmente, por estas plagas nortistas, o progresso intelectual anda
de mãos dadas com o progresso material. A Universidade Estadual de Montes
Claros - Unimontes - é uma universidade de integração regional e vem
cumpnndo seu papel com brilhante desempenho, no ensino acadêmico e na
pesquisa. E o Conservatório Lorenzo Fernandez, que foi fundado pela
benemérita Marina Lorenzo Fernandez Silva, filha do ilustre patrono, já é
uma referência nacional como estabelecimento especializado em educação
musical. Nossa cidade agro-industrial também exporta cultura. Quando a
companhia do Banzé exibe o canto e a dança de nosso povo para as platéias
de além-mar. e a nossa produção cultural que está sendo vendida, no comércio
exterior, como artigo de luxo. Essa exportação cultural também ocorre na
tradução para outros idiomas das obras literárias de Darcy Ribeiro. Manoel
Hygino dos Santos e C\TO dos Anjos, ou na gravação, em estúdios europeus,
dos valseados que saíam da rabeca de Zé Coco do Riachão. Nossa pintora
Yara Tupinambá ornamenta, com seus murais inspirados na paz mundial, o
edifïcio-sede das Nações Unidas, em Nova York. Beto Guedes, expoente da
MPB, tem sua canção divulgada muito além de nossas fronteiras. Nesse mesmo
quilate, há, ainda, artistas de escol que ficaram por aqui mesmo,
agarrados a gleba, como é o caso de Konstantin Christoff e Samuel Figueira, que
seguiram o exemplo de sedentarismo do mestre Godofredo Guedes, da
musicista Dulce Sarmento, e permaneceram com a gente, entre amigos e a paixão pela
Arte. A súbita interrupção da vida e da carreira do jovem pintor Raymundo
Colares, premiado na Bienal de Veneza, foi uma perda irreparável para o
nosso patrimônio artístico e cultural. Este rol sena ainda mais incompleto
se deixasse de citar a obra do folclorista Téo Azevedo e recordar o
virtuosismo do cantador Zezinho da Viola, que maravilhava o povo, nas
feiras de sábado, ponteando a viola de Queluz de cinco bocas.
Esse Norte imenso...
"O Norte quente, pastoril e áspero na intratabilidade da
caatinga".(Guimarães Rosa - Ave, Palavra) - Outras importantes cidades da
região também exportam produção e talento. Ora, a carnavalesca Pirapora,
que é pólo têxtil e siderúrgico, é o berço de Francisco Iglésias, um dos
maiores historiadores brasileiros deste século, e do coreógrafo Marku Ribas.
Januária, a flor agreste da chapada, de forte vocação turística, e a terra
amada dos romancistas Manoel Ambrósio e José António de Souza, do
dramaturgo Alcione Araújo e do maestro Benito Juarez. Cada cidade de nossa região tem
o seu orgulho municipal. A Imperial Cidade de Grão-Mogol exalta seus ares
balsâmicos e a aquarela do casario colonial. Os barranqueiros de São
Francisco, a Cidade-Crepúsculo. falam maravilhas de suas praias de areia
fofa. O brasilminense. tradicionalista, se ufana do passado da antiga Vila
de Contendas, de conterrâneos como Doutor Santos. Zino Oliva, e da modelar
organização administrativa e comunitária de sua cidade. O Norte tem sua
estância de águas termais, em Montezuma, muito procurada para tratamento
de moléstias da pele. Porteirinha. terra do saudoso Doutor Binha, que já foi
Capital Mineira do Algodão e vem demonstrando vitalidade econômica,
oferece aos amantes da Natureza o cenário paradisíaco da cachoeira do Cerrado, que
é o cartào-postal da microrregião Serra Geral de Minas. Janaúba, cidade
adolescente e em processo acelerado de desenvolvimento, possui um pequeno
mar mediterrâneo, a represa do Bico da Pedra, muito adequada para
recreação, esportes náuticos e pesca. Salinas, de terras férteis para o plantio da
cana-de-açúcar, coroou-se Capital Mundial da Cachaça, mercê da excelência
da pinga destilada em seus alambiques e envelhecida em domas de umburana.
Espinosa deu ao Brasil um grande jornalista e historiador, Antonino da
Silva Neves, e o bispo Dom Lúcio Antunes. Brejo das Almas ou Francisco Sá é um
lugar de paz e carrega o epíteto de Capital Nacional do Alho. "Brejeiro
gosta muito de festa", vangloria-se o ex-prefeito e anfitrião Zeca de Deus
Prado, que faz as honras da casa. Bocaiúva, que cresce na pujança de seu
distrito industrial, adora o Senhor do Bonfim e cultua a memória de seus
mais ilustres rebentos: Herbert de Souza (Betinho). O irmão de Henfil, da
luta contra a fome; e José Maria de Alkmim, que chegou a Vice-Presidente
da República. Em Manga, cujo nome evoca o aroma e o sabor da manga-rosa
madura, ainda se aspira, na lembrança, o perfume do último soneto do pernambucano
Anfrisio Gonzaga Lima, que amou aquelas barrancas. Coração de Jesus é um
nome santíssimo, sacratíssimo, que dispensa outras palavras, a não serem
de louvores e graças pela cidade corjesuense e sua gente devota. A cidade
histórica de Rio Pardo de Minas foi a musa inspiradora do erudito cônego
Newton d'Angelis, que deixou uma ela monografia de quatro volumes, seu
canto de amor pela terra natal. Lá, num capão de mato, nasce um no de verdade, o
Pardo, baianeiro, que viaja mansamente pelos gerais de Minas, com a
simplicidade de um bom mineiro; atravessa a Bahia, encorpa e, ao final da
jornada deságua, baianamente, na vastidão do Oceano Atlântico.
Há uma expectativa de sucesso com relação ao pólo de fruticultura
irrigada, nos projetos Pirapora, Gorutuba e Jaíba. Aguardam-se dias de
fartura e riqueza, com a perspectiva de mais de 100.000 hectares irrigados
produzindo alimentos para todo o Brasil e para o exterior. Se tudo der
certo, e o governo apoiar, o Norte de Minas se transformara numa nova
Canaã, a terra bíblica da promissão. A indústria do turismo. futuramente, também
devera figurar nos planos de nosso empresariado de visão.
A poesia é necessária
Montes Claros é o resumo do Norte, funcionando como cidade-dique da
região e sua capital de fato, que canaliza tanto benefícios como problemas
sociais.
Esta é também a cidade amena e saudosista do folclore, da carne de sol, da
Festa Nacional do Pequi, do Psiu Poético, dos madrigais de Yvonne
Silveira, do eixo etílico-filosófico do Café Galo, Cristal e redondezas, dos tipos
populares, de Alá-lá-ô, do galante Mane Quatrocentos, da boneca de Leonel
e do seu dono, de quem se contam passagens deliciosas. Esta é a cidade
inocente e angélica das coroações de Nossa Senhora, das folias de Reis,
dos folguedos juninos; e é a mesma cidade afro-luso-brasileira da festa de
agosto, dos catopês de mestre Zanza, dos caboclinhos e da marujada de
Miguel Sapateiro, que canta a epopéia da barca nova que do céu caiu no mar.
Anote: o "defeito" grave do montes-clarense é o bairrismo, chamado de jucapraüsmo
pelo escritor Marques Rebello, da Academia Brasileira de Letras, que, em
1940, se impressionou com o amor exacerbado do Sr. Jucá Prates por seu
torrão natal. Essa paixão desmedida teve muitos adeptos. Por exemplo, o
acadêmico João Valle Maurício, os historiadores Hermes de Paula e Simeão
Ribeiro Pires, os jornalistas Lazinho Pimenta e Jair Oliveira o rotariano
João Souto, o poeta Cândido Canela e os espirituosos Zé Amorim e seu pai.
Pedro Montes Claros, foram jucapratistas empedernidos. O inesquecível
prefeito Mário Ribeiro - esse era radical - costumava dizer que, para ele,
só duas cidades serviam para morar: Montes Claros e Paris. Realmente, o
jucapratismo era uma seita de fanáticos. Um dos sectários, o ex-atleta
João (Zinho Bolão) da Silva Prates não admite viver em outra cidade nem em
sonho.
Viajar, só em caso de extrema necessidade. Não suporta a saudade da
terrinha. Férias, nada melhor que o lar para goza-las. Dizem que, quando
sai com a família, para algum sitio ou clube campestre, fica mais alegre na
volta do que na ida. É incrível, mas é fato verídico e sabido. Conta-se
que o cronista Newton Prates, do "Diário Carioca", no Rio de Janeiro, sempre
que inquirido sobre sua naturalidade, respondia, de peito estufado: "Sou de
Montes Claros, modéstia a parte"

HAROLDO LIVIO
* (O autor figura na Enciclopédia de Literatura Brasileira da Academia
Brasileira de Letras, edição de 2001)